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Centro Interpretativo de Termas Romanas de São Pedro do Sul. Já saímos de uma das salas principais, esta piscina de Dom Afonso Henriques, mas à saída encontramos uma porta com vários elementos decorativos que também têm muita história. É assim, Eduardo Nuno Oliveira?

Efetivamente. É um portal da tradição românico-gótica, tardio, provavelmente de construção em finais do século XV, princípios de XVI, o que vai dar com as transformações pelas quais este espaço passou durante o reinado de Dom Manuel I e a instituição do Hospital Real das Caldas de Lafões. Foi a partir da construção desta porta que ela passou a servir como entrada principal no edifício.

E que elementos é que nós podemos encontrar, neste caso, do período românico e gótico?

Exatamente. Ela é uma porta de grande elegância arquitetônica e artística, com um arco tipicamente gótico, é um arco apontado ou em ogiva ou de volta quebrada, mas depois tem à volta uma moldura com uma imaginária artística ainda de inspiração românica. E atenção, não confundir aqui o românico com o romano do edifício. O romano tem 2 mil anos, o românico aqui é uma solução arquitetônica e artística medieval e, no caso, até já muito tardo-medieval. As decorações, só por curiosidade, são constituídas por ramagens, são os fitomorfos de folha de videira. Parece que tem umas mãos que as seguram. Tem na parte de cima da porta umas feições humanas, tem também ali uma imagem que parece ser a cabeça de um gato. Portanto, é uma porta com uma imaginária artística belíssima e que dá passagem para essa sala da piscina Dom Afonso Henriques, a parte mais antiga, mais monumental deste edifício.

Voltando um pouco atrás, até porque nesta sala onde nos encontramos há alguns textos mais de caráter informativo, e uma das frases que me salta à vista é: "A arquitetura romana conseguiu transformar a forma como os homens se relacionam com as fontes termais". Pergunto-lhe como é que os homens conseguiram, através da arquitetura romana, transformar esta tradição termal.

De facto, estas duas salas que nós temos aqui contíguas servem precisamente para nos falar dessa relação e de um caráter importantíssimo destas águas, que são consideradas sagradas e águas que curam. Mas por que sagradas? Os romanos, quando chegaram aqui há 2 mil anos, não descobriram propriamente estes mananciais aquíferos, que já cá estavam e eram certamente do conhecimento das sociedades pré-romanas, que viviam aqui à volta, nos castros. Mas para facilitar a designação, para esses lusitanos, o que eles viam neste gênero d'águas era um fenômeno natural muito estranho. Uma água que ressurgia lá das profundezas da terra e jorrava quente, vaporosa, com cheiro a enxofre, de maneira que para eles essas eram fontes sagradas, místicas, religiosas, lugares de práticas cultuais. Para os romanos também. Os romanos também vão relacionar essas águas com deuses. Mas a par com isso, os romanos já são conhecedores deste gênero d'águas e do seu aproveitamento medicinal. É precisamente para o aproveitamento medicinal dessas águas que eles vão construir aqui os balneários.

Ou seja, já traziam esses ensinamentos ou pelo menos esse conhecimento deste tipo de tratamentos.

Sim, exatamente. Que já conheciam e já se faziam tratamentos com águas noutros sítios. E os romanos captaram aqui as águas. A nascente fica aqui a cerca de 200 metros, aqui numa cota superior de terreno. Captaram lá as águas e conduziram-nas através de condutas de pedra a céu aberto. Ao longo desse percurso, a água ia passando por tanques de arrefecimento, porque ela ressurge aqui a 68,7 graus, impraticável para banhos humanos, necessita de arrefecimento. O último tanque de arrefecimento ainda hoje fica aqui encostado ao edifício e desse tanque depois a água transitava quente para as piscinas interiores e havia uma conduta que levava à piscina exterior, onde a água provavelmente seria morna, mais fria, porque estamos perante uma estrutura ao ar livre, com uma grande volumetria d'água, portanto, seria mais difícil manter essa temperatura elevada.

E para terminar, até porque nesta sala onde nos encontramos há outra frase que está em destaque com uma imagem das escavações da piscina exterior, que naturalmente está lá fora, mas a frase que está mais em destaque é: "Águas que curam". No essencial, águas que curam. É quase como um lema que vem, neste caso, dos romanos, antes dos romanos, e que passou para a parte mais recente da nossa história.

É assim precisamente, é essa relação que se estabelece entre as águas que são sagradas e que têm propriedades físico-químicas minerais importantes diferenciadas para o tratamento, a cura ou alívio de certas doenças.

Fica então por aqui esta sala. Vamos agora entrar na Capela de Nossa Senhora da Saúde, mas para isso vai ter que continuar a seguir este episódio do "A Nossa Cultura".