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A nossa cultura. Eu sou o João Costa Campos. A Rádio Observador continua em Penalva do Castelo, na Casa da Ínsua, nesta viagem pelo tempo. Depois de conhecermos o terreiro da Casa da Ínsua, entramos na casa propriamente dita, com uma escadaria majestosa e com uma sala principal de entrada também muito marcada por azulejos. Continuamos com a companhia de José Luís Nogueira, historiador da Casa da Ínsua. José, fale-nos um pouco desta escadaria e desta entrada pra casa.

A entrada é entrar aqui realmente na alma da casa. Qualquer recanto onde se vá tem história, tem arte e tem o prazer de se usufruir o nosso tempo. Ao entrar na porta principal, começa logo por ter um pequeno detalhe que fica escondido de qualquer pessoa que passe por ela, que é uma porta de 1780, pesadíssima, uma dupla porta, e que tem por trás um sistema de uma marca que ainda hoje conhecemos, a Yal, e que fecha a porta. O curioso é que há dois sistemas por trás da porta, um primitivo do tempo da porta, que é um badalo, um peso pesado, com um cordão, e com uma pequena chapa em francês, que nos diz que não feche a porta, que o badalo fará por si.

Portanto, uma porta automática que data de 1780.

Exatamente. E o curioso é que, no cimo, está um sistema de mola já nosso conhecido, também da mesma marca Yal, e que não fez a sua função. Não tinha capacidade pra fechar a porta e portanto está lá quase como decorativo, e é ainda o original badalo, peso, o que quisermos, o blunt, como lá está escrito, que nos fecha a porta automaticamente.

Muito bem, entramos aqui na escadaria e há aqui vários apontamentos relativamente à vida de Luís de Albuquerque no Brasil.

Entramos logo por uma escada que nos conta coisas do Luís de Albuquerque. Começa logo pelo teto. O teto em macieira, em cada uma das faces está um dos ramos da família, Luís Melo, Pereira, Cáceres, e no centro está dos Albuquerques. Portanto, começa logo nos contar a gênese da sua família. E depois nas paredes, deixou-nos aqui dois apontamentos da sua passagem pelo Brasil. De um lado, estão artefatos de caça e pesca que ele trouxe de uma noite que dormiu com os índios no Amazonas e que nos trouxe aqui para vermos como era. E na outra parede estão armas castelhanas. E estas armas castelhanas, não houve provavelmente guerras. Vamos tentar descobrir isso mais tarde. Mas ele trouxe essas armas de um dos governadores adversários, vamos chamar assim, não inimigos, o governador de Santa Cruz de la Sierra, que dizia dele que era o mais ambicioso dos governadores portugueses.

Agora seguimos, José Luís, para a entrada da casa e eu destacaria aqui, enfim, é uma sala completamente majestosa, mas eu destacaria aqui dois pontos principais nesta sala. Em primeiro lugar, um papel de parede, não sei se lhe chama assim, um papel de parede que o José Luís já vai explicar um pouco, tem aqui uma história por detrás, e também o teto que parece de madeira, mas não é.

Comecemos pelo papel. O papel é um dos pontos altíssimos da história da casa porque é uma peça, eu diria, única a nível mundial. Este papel de parede, no fundo, o papel de parede é um papel que tem uns desenhos, que é fabricado em tiras relativamente estreitas. Portanto, isto são dezenas de tiras coladas ao lado umas das outras pra fazer todo o desenho, toda a paisagem, e que são fabricadas através de vários carimbos. Portanto, cada tonalidade do cinza que aqui está é um carimbo diferente, que é carimbado manualmente e que acerta com os diferentes restantes. Portanto, é um trabalho manual de grande dificuldade, mas aqui a grande dificuldade não está no trabalho manual, está na questão do desenho. Como é que estes papéis nascem? Estes papéis nascem quando a fábrica Zuber já era uma referência nos papéis de parede a nível mundial, e o seu pintor principal, o seu artista principal, morre. E o senhor Zuber vai à procura de um outro e convida o senhor Jean-Michel Huet para trabalhar com ele. E ele faz esta série de desenhos, que são baseados na Dama do Lago, cenas de caça. E portanto, no final do trabalho já executado, o senhor Zuber torceu o nariz. Não gostou, que achava que isto não era suficientemente delicodoce pras senhoras, pras damas da época, e portanto, a série foi cancelada e o senhor foi despedido. De tal forma não foi admirado o seu trabalho na fábrica Zuber, que ainda hoje, se formos ao museu ou se formos à história da Zuber, eles o retiraram da história. Portanto, oficialmente, o Huet não trabalhou pra Zuber, mas trabalhou, que está aqui a prova. E o papel está aqui na Ínsua, e é o único sítio no mundo em que esta série está completa, porque há outros bocadinhos pequenos, outras tiras destes desenhos noutros locais. Recordo assim de memória, por exemplo, na Casa Branca, que foi a Jacqueline Kennedy, a mulher do JFK, que adquiriu pra uma das paredes da sala Há em Espanha, há também na Alemanha, mas a série completa, como podemos ver aqui na Ínsua, só realmente aqui, e desde 1827, se mantém num estado que realmente é de admirar, porque parece que foi colocado ontem.

E tem aqui uma particularidade este papel de parede: é carimbado.

O fabrico dele é através de carimbos de madeira com os diferentes desenhos para cada uma das tiras.

Passamos agora ao teto. José Luís, não sei se prefere falar primeiro-

Prefiro falar primeiro de outros pontos. A lareira. É uma parelha que vamos encontrar ao longo de toda a casa, que tem inúmeras lareiras, e normalmente por cima da lareira está um trabalho de cerâmica. Neste caso, é uma lareira do Nicola Bigaglia, como todas as outras. Como todos os sítios nesta casa, tem uma frase em latim. Neste caso, informa-nos que a lareira é útil e doce, o que é incontornável, de facto. E depois, o painel de azulejos por cima, com a flor de lis, o símbolo dos Albuquerques, num relevo que, sendo contemporâneo do Rafael Bordalo Pinheiro, já foi identificado que poderia ser um trabalho do Bordalo Pinheiro, porque é realmente muito parecido com o que o Bordalo Pinheiro fazia nesta época, mas neste caso é do italiano Luigi Battistini. A lareira, como todas as outras peças, está assinada pelo nosso Duarte de Ferreira Machado e por Nicola Bigaglia no sopé da lareira. E vamos ao teto.

E vamos ao teto.

O teto é um teto em aceira, um belíssimo teto de madeira e que encerra um dos mistérios da casa. É realmente uma obra digna de ser vista e de ser descoberto o que é que está por trás dela. Eu convido-os a virem à Ínsua descobri-lo.

Muito bem, falamos agora, no fim, e para encerrar este episódio relativamente à entrada da casa, relativamente a estes painéis de azulejos. O que tem a dizer sobre eles, José Luís?

Os painéis de azulejos são contemporâneos também, devem ter sido fabricados em Coimbra, e no fundo é um lambril de cidades europeias e paisagens europeias que vem desde a escada, acompanha todo o percurso, e que é outra peça riquíssima desta sala, mas que no fundo, como tem o papel por cima e o teto, até passa um pouquinho despercebido. E é injusto. É injusto, porque é um belíssimo painel, um belíssimo lambril de azulejos que temos aqui à nossa volta.

Eu confirmo. E fica por aqui este episódio. A "Nossa Cultura" está em Penalta do Castelo, na Casa da Ínsua. Fica por aqui este episódio. De seguida vamos conhecer, no próximo episódio, a sala dos retratos.