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De vez em quando havia uma gritaria. Estava sempre cheio de gente. As pessoas começavam a andar a gritar mais, os deputados respondiam lá para cima, era violento e o presidente pedia silêncio. À terceira ou quarta vez pedia silêncio, pedia à polícia para encerrar a sessão, para ver se acalmava os ânimos. E quando isto acontecia, o presidente dizia: "Vou suspender a sessão, os trabalhos estão suspensos" e o redator escreve entre parêntesis: "Gerou-se o pandemónio". A quantidade de vezes que lá está a expressão "gerou-se o pandemónio" ou "pandemónio" na Assembleia Constituinte mostra a tensão que aquilo estava.

Olá, bem-vindos ao programa "A Vida em Revolução". Eu sou Rui Ramos, historiador, e comigo está o Pedro Jorge Castro, jornalista. "A Vida em Revolução" é um programa em que vamos falar com pessoas que viveram a revolução em Portugal em 1974 e em 1975, para tentar perceber como foi o seu quotidiano nesses tempos de mudança e de confronto político, e o que pensam hoje, 50 anos passados, sobre essa experiência. A convidada deste episódio é a arquiteta Helena Roseta, que foi dirigente do PPD na altura e deputada à Assembleia Constituinte. Pontos altos desta conversa, Rui? Eu acho que é fascinante ter uma ideia do que foi o envolvimento na política em 1974 e 75 por alguém como Helena Roseta, que era mãe de três filhas e que tinha uma atividade profissional já iniciada como arquiteta, mas mesmo assim dedicou-se completamente à política, quer nas atividades do Partido Popular Democrático, depois PSD, quer depois na Assembleia Constituinte, onde também tem muitas histórias para contar. E sem receber nos primeiros tempos, não é? Sem salário. É, entre junho e setembro de 1975, os deputados funcionaram sem qualquer remuneração, aparentemente. Vamos ouvir Helena Roseta contar essas histórias na primeira pessoa. Bem-vinda, Helena Roseta, ao programa "A Vida em Revolução". O 25 de Abril apanha já casada, com três filhos, já arquiteta num ateliê. O que recorda exatamente do dia?

Mais precisamente, não estava num ateliê, tinha três empregos, porque naquela altura, como os homens estavam na guerra, as mulheres tinham de trabalhar.

Quais eram os outros dois?

Era secretária-geral do Sindicato dos Arquitetos e trabalhava no laboratório de engenharia civil e no ateliê do arquiteto Bruno Soares. Mas dava, porque o tempo dos transportes não era o que é hoje. Eu conseguia atravessar a cidade, ainda por cima morava na linha de Estoril, conseguia atravessar a cidade de autocarro com uma criança ao colo que ia deixar não sei onde, e cabia tudo dentro do dia.

Então, três empregos, três filhos e de repente uma revolução. Como é que se apercebeu do que estava a acontecer?

Os estudantes da minha idade, da minha geração, éramos todos do chamado Reviralho, ou seja, estávamos contra. Se me perguntasse quando é que a gente estava contra a guerra colonial, porque ficávamos sem namorados e ficávamos com as vidas partidas e os rapazes ficavam sem os cursos, e era um muro na vida dos jovens, homens e mulheres. E estávamos contra a ditadura, porque a censura era quotidiana, era censura nas faculdades, era censura no emprego, era censura em todo lado. Nós tínhamos cuidado, não nos encontrávamos muitos juntos na rua, havia conversas que não fazíamos ao telefone, havia uma censura sistemática e sabíamos que estávamos debaixo de olho. E tanto estávamos debaixo de olho, que eu às tantas fui mesmo apanhada. Em 1973, sou presa pela PIDE. Curiosamente, o meu mandado de captura vinha passado não no meu nome, Helena Roseta, mas no diminutivo que era usado na minha família, nos meus amigos, que era Lenixa Roseta. Eu tenho um mandado de captura em Lenixa Roseta, o que é extraordinário, o que me levou sempre a pensar que a denúncia teria sido por agenda de alguém. Apanharam alguém com uma agenda ou qualquer coisa, porque não é normal isto. Quer dizer, tinham acesso a todos os ficheiros. Mas só estive lá um dia, também por um episódio muito extraordinário, que estas coisas só se passam em Portugal, é um país muito especial. Isto é um país muito pequeno e toda a gente conhece toda a gente. Eu estava a trabalhar nessa altura no ateliê do arquiteto Sebastião Formosinho Sanchez, meu mestre e professor, e que eu adorava, e estávamos a finalizar uma proposta para apresentar ao concurso. Vejam bem, nessa altura havia dois concursos previstos, um para o Hospital Ocidental de Lisboa, que já existe, que é o São Francisco Xavier, e outro para o Hospital Oriental de Lisboa, que assim das trem em Velo Emes, é o Todos Santos, há de acontecer. Estamos a falar há mais de 50 anos. Bom, a verdade é que eu sou presa, vou dentro, estou em Caxias, a minha aflição era: "E agora, como é que fechamos o projeto?" O concurso, o prazo acabava dali a dois ou três dias e eu é que coordenava as peças do concurso. Como é que isto vai ser? Era a primeira coisa. Eu não estava muito preocupada com a família, porque sabia que meu marido tomava conta das filhas, tínhamos uma senhora que tomava conta das filhas, aí não havia problema. Agora, o projeto, como é que eu passo? Como é que isto vai ser? Estava muito angustiada com essa ideia. Entretanto, o meu patrão soube que eu estava lá, dirigiu-se logo a Caxias. O que é que acontece? O oficial de dia tinha sido colega de liceu dele. Isto é Portugal no seu melhor. Começaram a parlamentar, ele lá explicou, não sei o quê, não sei que mais, o outro lá foi falar aos seus superiores. Resumindo, também não deviam ter grande coisa contra mim, porque me deixaram sair com uma caução, que o patrão pagou. Estive um dia em Caxias. Isto deu para ter ficheiro lá, fotografias, aquela coisa toda, mas não sofri mais nada, a não ser esta aflição que tive.

A sua atividade política antes de 74 consistia em quê? O que estaria fazendo?

Era, sobretudo, reunião com amigos. Eu não tinha uma atividade propriamente em nenhum partido, nunca pertenci ao Partido Comunista. A acusação era sempre a mesma, participação a organizações subversivas, que era por causa da segurança do Estado, mas nunca pertenci. Agora, no Sindicato dos Arquitetos, era quase toda gente do Reviralho. Havia um grupo muito grande. Aliás, o Salazar nunca deixou que o sindicato passasse à Ordem, precisamente porque aquilo era dominado por gente da esquerda. Quem é que era? Era o Teotónio Pereira, era o Caeiro do Amaral, e eram pessoas com imenso prestígio, com imensa capacidade, mas que eram francamente do Reviralho. Eu também trabalhei no ateliê do Teotónio Pereira. O meu grupo de amigos, as pessoas com quem eu me dava, os jovens que eu conhecia na universidade, que eu conheci na universidade e conheci nos primeiros anos na profissão, era tudo gente que estava contra. A gente não entrávamos na política como uma carreira, a gente tomava posições, fazíamos abaixo-assinados, ficávamos logo registados. Íamos à Capela do Rato ou outro sítio qualquer, ficávamos registados. Aliás, o PIDE lá na cadeia perguntou-me se eu também ia à Capela do Rato. Pois ia à Capela do Rato, claro que ia. Portanto, havia muita oposição também dentro da Igreja Católica. Eu tinha vários cargos na Ação Católica, na altura na Juventude Escolar Católica, depois na Juventude Universitária Católica, onde o meu marido era presidente. Desempenhei lá vários cargos e havia muita gente ligada à oposição. Aliás, o Vaticano II tinha mudado muito a camada jovem da Igreja portuguesa. Nós fomos muito apanhados por essa camada jovem. Eu tinha passado pelas cheias de 67, como o António Guterres, Marcelo Rebelo de Sousa, toda essa gente da minha geração tinha passado pelas cheias de 67, e as cheias de 67 radicalizaram-me completamente em termos políticos, porque eu percebi, como estudante de arquitetura, até que ponto a falta de habitação ou uma habitação inadequada podia ser uma diferença entre a vida e a morte. Eu vivia perto de Lisboa. Em Lisboa não morreu ninguém. Ali ao lado, em Vila Franca de Xira, ainda hoje não sabemos quantas pessoas morreram, porque a censura não permitiu que a partir de um certo número, 400 e tal, os jornais não podiam dizer quantas pessoas morreram. Todo este contexto fazia com que, naturalmente, nós fôssemos do contra e participávamos nestas iniciativas, nos âmbitos que podíamos, uns nos cineclubes, movimentos associativos não eram permitidos, mas nas livrarias, nos momentos de leitura, nesses momentos, nos intervalos que a gente conseguia ter. E depois havia, naturalmente, um grupo que entrava na clandestinidade, nomeadamente o Partido Comunista, ou que por isso simplesmente emigrava.

Fim de 73, princípio de 74, tem a sensação de que alguma coisa vai acontecer?

Não, em 73 a gente já sabia quando foi o Golpe das Caldas.

Em março de 74.

Em março de 74, a gente já percebia que isto não podia durar. Tinha saído o livro do Spínola, também é um momento importantíssimo, "História e o Futuro". Tinha havido aquela cena de demitirem o Spínola e o Costa Gomes. A gente percebia que toda a expectativa que se tinha criado de que o Marcelo ia fazer abertura, não havia abertura nenhuma. Os ultras, que era como a gente chamava a facção mais radical dentro do governo, dominavam completamente o Marcelo. Ele não tinha capacidade nem coragem, se calhar, pessoal, para ir mais longe e não foi. E estava tudo bloqueado. A primavera marxista não tinha dado nada. O Sá Carneiro, que era uma figura que nós acompanhávamos, que tinha os artigos que escrevia no Expresso, demitiu-se da Assembleia Nacional, por causa de um problema de liberdade dos presos políticos. Isto para nós era a nossa cultura.

Portanto, havia uma expectativa de que ia acontecer.

Nossa rede de pessoas com quem nós estávamos. Havia o movimento das sedes, onde também havia muita gente da oposição. Eram estas estruturas que não eram propriamente partidos, mas que iam sendo criadas e que permitiam que a gente se encontrasse e fizesse coisas em conjunto. Eu não acreditava muito nesse grupo das sedes, achava-os muito contemporizadores com o sistema, mas depois havia grupos mais radicais. Enfim, não era uma coisa muito organizada, mas era uma coisa muito generalizada na gente da minha geração. Estávamos à espera que acontecesse qualquer coisa. Quando se dá o Golpe das Caldas, pensei: "Isto mais tarde ou mais cedo rebenta". Eu não sabia nada do que se estava a passar com o MFA, com o Movimento dos Capitães. Tinha amigos que tinham ligação ao Movimento dos Capitães, mas não sabia nada. No dia 25 de abril, às 3:00, é um amigo desses meus, com quem eu aliás trabalhava no ateliê, que me telefona a dizer: "Está uma revolução na rua".

Um golpe de Estado.

"Então, como é que é? Vá ouvir a rádio". "Mas eu não..." "Venha cá pra casa". Fui pra casa deles, eram meus vizinhos, as miúdas ficaram com meu marido e eu fui pra casa deles ouvir aquilo. E passado um bocado, pura e simplesmente fomos todos pra rua. Eu não tenho memória do que é que se passou nas primeiras 48 horas a seguir ao 25 de abril, porque simplesmente andei na rua.

Levou as miúdas, não?

Não. Elas estavam em casa, eram muito pequeninas e a gente não sabia o que aquilo ia dar. Não dava para levar crianças, a gente não sabia o que aquilo ia dar. No primeiro mês estive no Largo do Carmo, foi aquela tensão enorme. Depois ainda devo ter ido a casa dormir, presumo eu, e depois havia a coisa dos presos políticos.

A libertação dos presos políticos.

E nós queríamos ir. Fomos lá, fui com os meus colegas lá.

Para Caxias.

Para Caxias. Estava lá um dos meus patrões, que era o Titônio Pereira, e lá ficamos à espera que eles saíssem. Uma alegria indescritível. Há uma alegria indescritível, esses momentos são momentos absolutamente únicos, irrepetíveis e que a gente mal consegue reportar o que acontecia. E aí é que essa explosão de alegria aparece à vista de toda a gente, foi 1º de Maio. O dia 25 de abril tinha sido um dia mau, choveu assim como está hoje, frio e desconfortável. E aqueles dias foram dias confusos. No primeiro dia, depois do Golpe do Carmo ter terminado e aquilo estar, em princípio, ganho para o lado do Movimento dos Capitães, chegamos a casa, vamos à espera da televisão e quando aparece a imagem da Junta de Salvação Nacional, todos os militares mais velhos, tudo muito escuro, tudo com ar estourado, porque ninguém tinha dormido há não sei quanto tempo. E foi assustador. Caiu-me assim a mão aos pés, mas que é isto? Uma coisa é os capitães que a gente viu na rua, jovens, e agora quem é esta gente? Quem são estes senhores? A gente não os conhecia. A verdade é que depois é o 1º de Maio, que de certa maneira faz uma legitimação popular, se quiser, do 25 de Abril, porque foi mais que um referendo. Quer dizer, foi toda a gente pra rua, foi uma coisa indescritível, de sensação de libertação, de alegria, aquela coisa que é muito rara na vida dos povos, da gente ir na rua e nos abraçarmos a pessoas desconhecidas. Eu depois voltei a ver esse tipo de reações, por exemplo, quando foi a queda do muro em Berlim. Eu não estava lá, mas a gente via as reportagens, as imagens Havia essa alegria esfuziante e aqui em Portugal vivemos isso em 99, quando foi o referendo de Timor. Toda a gente ia pra rua vestida de branco e andávamos em cordões humanos com pessoas que não sabíamos quem eram. São momentos muito únicos, muito especiais e de facto o 1º de Maio foi esse momento. Uma alegria, explodiu. Explodiu completamente, de todas as maneiras e feitios. Aqueles primeiros meses a seguir ao 25 de Abril foram muito difíceis. A vida não ficou, de repente, melhor pra toda a gente, bem pelo contrário. Houve várias decisões dos governos provisórios, no sentido de aumentar o salário mínimo e até congelar as rendas de casa e outras coisas mais. Estavam congeladas já pelo Lisboa e Porto há muitos anos, pelo Salazar, desde a Segunda Guerra, mas foram congeladas pra todo o país, julgando que era uma medida provisória. Ainda hoje estamos a sofrer os efeitos disso, mas aconteceu como medida revolucionária e havia, portanto, uma expectativa muito grande, embora, na prática, as coisas estavam mais caras, havia falhas, tinha havido um golpe petrolífero, estávamos com o choque do começo da descolonização, portanto a dívida pública a aumentar. Foi um momento extremamente complicado e que eu acho que só o sobrevivemos por uma espécie de, como é que eu hei de dizer? Há uma estrelinha qualquer que se pôs em cima, em certos momentos na história dos povos, de cada um dar o melhor de si próprio. Depois isso acaba. Mas há momentos extraordinários que as pessoas percebem que estamos a viver um momento de viragem e querem estar bem na fotografia da história. E isso aconteceu.

Mas nessa altura também a necessidade para muita gente, ou a possibilidade para muita gente, de escolher partidos, não é? Estão se a formar partidos. E como é que foi isso? Como é que foi no seu caso?

O meu marido foi logo para o PPD. O PPD é anunciado a 6 de maio, com os três fundadores, o Matelhas Mota, o Balsemão e o Sá Carneiro. O meu marido já acompanhava o Sá Carneiro há muito tempo, tinha muito respeito por ele. Eu tinha dúvidas, achava-os, apesar de tudo, um bocado conservadores mesmo, enfim, em certas coisas. Estava ali a assistir, a minha gente, o meu grupo de arquitetos e amigos que eu tinha, era tudo gente que acabou por ir mais pro MEES. Depois também o Jorge Sampaio e muita gente eram mais radicais. Enfim, eram ideologicamente mais marcados. Não eram propriamente sociais-democratas, nem era bem vista a social-democracia nessa altura, era considerada uma forma de conformismo. Mas o meu marido tinha feito toda a leitura do Alf Palm, dos grandes dirigentes sociais-democratas. Andei ali a ver o Partido Socialista.

E foi conversada em casa essa decisão?

Sim. Eu vou dizer o que é que aconteceu. Ainda fui a algumas iniciativas dos socialistas.

Do MEES ou do PS?

Do MEES e do PS. As do PS eu achava que era uma gente extraordinária, mas tinham todos vindo de fora. Eu não reconhecia aquilo que a gente lutava na arquitetura, na economia, na geografia, por um projeto nacional, muito influenciados por António Sérgio, uma visão nacional do desenvolvimento do país. A gente não via isso naquele discurso e portanto andava ali um bocadinho à deriva. Entretanto, no PPD cria-se o gabinete de estudos. Era presidido por Alfredo Sousa, que era uma grande figura da economia, e tinha lá o Marcelo, tinha o Jorge Correia, tinha o Pedro Roseta, tinha uma série de pessoas, o Mário Pinto, enfim, uma série de pessoas que sabiam muito de política e que estavam muito empenhados. E eu começo a ir a algumas reuniões do gabinete de estudos e depois convidam-me pra participar no gabinete de estudos, mesmo como independente, na parte da habitação, pois ia começar a trabalhar e era isso que eu gostava de fazer e que eu sabia. E depois acabei por começar a ir a umas sessões de esclarecimento do PPD e fiquei muito encantada, porque era muito genuíno. O PPD era um partido, naquela altura, de militantes, quer dizer, quadros não tinha, era um partido de militantes, não havia tradição anterior. Tinha alguns velhos resistentes que tinham vindo do antifascismo e tinha os seus fundadores, mas não tinha organização nenhuma, estava-se a montar. E portanto era feito por militância pura e dura. Tudo gente muito nova e portanto aquilo a mim atraía-me e havia uma grande liberdade de discussão. Aprofundei o conhecimento, sobretudo da corrente social-democrata e do que se fazia nos países sociais-democratas. E o que começou a me interessar. Li o Bernstein, Reforma e Revolução, entre a Rosa Luxemburgo e o Bernstein, pra perceber a diferença entre uma visão mais revolucionária e uma visão mais social-democrata. A social-democracia, no fundo, do meu ponto de vista, naquela altura, estava mais conforme à vontade popular, porque era conforme às eleições, não se podia fazer as coisas que não estivessem legitimadas pelo voto popular, e isso a mim interessava-me. Tinha estado 48 anos, não tantos, que era mais nova, mas Portugal já tinha tido ditadura há mais e portanto, pensar que isto podia ser controlado pela vontade popular era uma coisa que me interessava muitíssimo e acabei por ir pro gabinete de estudos, fui ao primeiro congresso e depois acabei por entrar no PPD. É assim que eu apareço no PPD.

Portanto, em que mês é que decide aderir?

Em dezembro. Foi o congresso em dezembro, portanto, só nessa altura, só depois disso é que eu entrei no PPD. Porque eu quis ver primeiro o congresso e o programa.

É que é interessante porque, por exemplo, Marcelo Rebelo de Sousa, tem aquele livro da Revolução e o Nascimento do PPD, descreve a Helena Roseta como muito difícil de até decidir aderir, de facto.

Não, foi lento. Eu ia às sessões de esclarecimento e interessava-me bastante. Muitas vezes estava sentada cá atrás, não estava a participar ativamente, mas ia ouvir, também aprender. Eu não tinha propriamente grande formação política, nem tínhamos tido essa oportunidade. E portanto, quem vinha do direito, como o Marcelo ou o Pedro Roseta, quem vinha do direito tinha mais formação política. A gente vinha da arquitetura, não tínhamos dado organização política do Estado no liceu, não queríamos saber disso pra nada. Nós queríamos era o território, o desenvolvimento do país, era uma visão muito mais agarrada ao concreto. Mas depois gostei do congresso. O congresso foi muito participado e muito polémico. Havia várias linhas, havia uma grande liberdade ali Luísa Lima e Duque faz uma intervenção extraordinária. Dizia que este partido é tão extraordinário que tinha o direito ao erro. E havia. As pessoas diziam coisas inacreditáveis, mas diziam. Nesse congresso, a Leonor Beleza faz uma grande intervenção a defender a liberdade do aborto. É muito interessante ver isso, que depois passou para o primeiro programa, mas depois caiu em desuso na política oficial do partido. Mas a Leonor Beleza estava a fazer um trabalho muito bom já nessa altura com a Pinta Silgo, na Comissão da Condição Feminina. E são responsáveis por avanços importantes no direito civil para as mulheres nessa primeira fase. Os partidos não estavam assim tão preocupados com as mulheres, e é a Comissão da Condição Feminina que puxa pela legislação, muito com a influência também da Pinta Silgo, que puxa pela legislação e muita abertura do Código Civil e dos direitos das mulheres. É logo essa, muito inicial, e nem havia Parlamento ainda, nem passa por Conselho de Revolução, mas vai avançando.

Neste período entre abril e dezembro, que é muito tempo e é um tempo muito intenso, apesar de ainda não ser oficialmente militante e ter demorado até tomar essa decisão. E acompanhando tudo quase como se fosse, por via do seu marido e dos amigos.

Já que o meu marido estava lá, os meus amigos, também alguns deles, estavam lá.

Mas havia outros que não estavam. Como é que esses outros viram a sua inclinação para o PPD?

As pessoas eram livres. O 25 de abril, basicamente, era mesmo isso, era a liberdade de escolha. Alguns ficavam um bocado chateados comigo: "Isto agora viraste para a direita". Eu dizia que concordo com isto, mas sobretudo para mim, todo esse período antes e depois do congresso do PPD, até às eleições, é um período de descoberta do país, que eu não conhecia. Nós íamos para todo lado. Não havia as estradas que há hoje, íamos nos carritos. Também não havia segurança, portanto, era o que fosse, era o que acontecesse. Muitas vezes nós íamos universitários, com a nossa linguagem de lisboetas ou de universitários, explicar as coisas e as pessoas depois falavam-nos, punham problemas completamente diferentes. Havia uma espécie de uma dignidade, sobretudo no interior, que não aceitava que fossem para lá uns tipos da cidade dizer-lhes a eles como é que era a liberdade, mas ao mesmo tempo queriam saber como é que era as eleições. Isso é que eles queriam saber. Como é que se vota. A gente explicava mais ou menos os partidos. Meu marido contava muitas parábolas, a fazer as diferenças dos vários partidos, e depois as pessoas faziam uma pergunta que nada tinha a ver com isso. Eu costumo citar o caso em Boliqueime, terra do Cavaco Silva, na primeira sessão que se lá fez do PPD. Acho que foi a primeira de sempre, nunca nenhum partido lá tinha feito nada, num pavilhão de terra batida, cheio. Toda a gente da terra, mulheres com crianças ao colo, em pé, não havia cadeiras, e o meu marido a fazer uma grande intervenção, a explicar a diferença entre uma constituição social-democrata e uma constituição socialista e uma constituição comunista. E depois, no fim, perguntas. Ninguém perguntava nada. Insisti à mesa, "não querem fazer perguntas?", até que um local se enche de coragem e faz: "Então e o que é que o PPD pensa da aguardente de medronho?" Isto é para verem o choque que havia de linguagens, mas ao mesmo tempo, esta pergunta não era só para saber o que o PPD pensa da aguardente de medronho, era para pôr à prova a mesa. E portanto, estavam constantemente a fazer-nos essas perguntas de pôr à prova, que era para depois dizer: "Os senhores não percebem nada disto, não sabem da nossa vida nada". E portanto, foi uma aprendizagem. Encontrei pessoas extraordinariamente inteligentes, mesmo analfabetas, que deduziam a lógica toda do funcionamento político e do conflito que havia com muita facilidade, mas depois no fim perguntavam: "Como é que eu vou votar? Eu não sei escrever". E nós lá explicávamos os símbolos, a importância nessa altura que tinham os símbolos. Andávamos com os autocolantes com os símbolos, e os símbolos tinham que ser muito fáceis. Era a foice e o martelo, era a mãozinha, eram as três setas. O CDS também tinha setas, mas as três setas era o PPD.

Antes propriamente até de defenderem a opção do PPD, faziam uma pedagogia quase generalizada até explicar o que é que defendia cada partido e como é que se fazia a campanha.

Fazíamos sempre isso, tínhamos que fazer sempre isso, explicar as diferenças. Os partidos não se afirmavam só por aquilo que queriam. E eram diferenças ideológicas, que não havíamos cá dizer mal deste ou mal daquele. As críticas maiores que havia nessa altura, nos comícios, nas sessões, era aos militares, porque eram quem tinha o poder. Os partidos não tinham poder nessa altura. Portanto, estavam a afirmar-se e a questão era ideológica.

Uma coisa, aí nessa descoberta do país, percebeu que o país não era todo igual?

A gente já sabia que o país não era todo igual. Tínhamos estudado isso. Havia 5% apenas dos jovens que chegavam à universidade. Quer dizer, o país era profundamente desigual, mas a gente não conhecia os territórios, as aldeias, as terras.

Mas também diferenciados. Não é um país diferenciado.

Diferenciado, e as pessoas, e a maneira de falar, e a maneira de receber, e o carinho com que nos recebiam e a expectativa com que nos recebiam, outras vezes nos sítios de alguma hostilidade, e portanto, sobretudo no Sul do país, sempre bastante hostilidade, mas hostilidade organizada, porque havia grupos que apareciam. O Algarve era muito radical nessa altura. Havia lá uns movimentos de aluá, era uma gente muito radical. Estávamos muito bem numa sessão e aparece um desses grupos, toma conta da sessão e a gente saiu da mesa, mas combinamos: "Olha, a gente vai assistir, o que é que eles vão fazer na mesa". E eles começaram na mesa a responder às perguntas das pessoas. A certa altura, as pessoas começaram a fazer perguntas que eles não sabiam responder. Então mandaram-nos ir para a mesa outra vez. E lá fomos nós para a mesa para explicar. As perguntas que as pessoas faziam: "Como é que eu voto?" E lá explicávamos o boletim. Eu lembro-me perfeitamente nessa sessão do Algarve, depois um senhor dizer assim: "Então já percebi, mas diga-me só mais uma coisa, há uma cabine para os homens e outra para as senhoras, certo?" Portanto, consciência por um lado que aquilo era pessoal, mas por outro lado que isto ao mesmo tempo Cada um votava por si. O homem não ia levar a mulher a votar e a mulher não ia levar o homem. Isto mostra bem a diferença que havia, a expectativa, a vontade de saber, alguma ingenuidade até, tanto nossa como deles. Nós também éramos um bocado ingénuos em relação ao que estávamos a fazer. Eu lembro-me do meu marido ser recebido uma vez por um grupo do Luar com G3 e ele começou a parlamentar com eles. Eu pensei: "Que loucura". "Não, eu parlamento com eles". Não é parlamentar com homens com G3, mas quer dizer, naquele momento isso era possível, porque eles se calhar até iam ouvir. Não estavam previamente determinados a matar ninguém. Queriam é mostrar força. E portanto, há esta mistura, ao mesmo tempo com episódios completamente picarescos, porque no meio disto tudo acontecem coisas extraordinárias e pícaras. Estou-me a lembrar do Augusto Cido me ter contado que no próprio dia 25 de abril, ele ouve na rádio o que estava a acontecer, pega na máquina fotográfica, vai andando por Lisboa e passa pelo quartel de Sapadores. E pergunta para o sentinela: "Então, vocês de que lado estão?" E o outro responde: "Por enquanto do lado de dentro". O que é incrível. E o Adriano Jordão contou-me que um colega dele assistiu no Largo do Carmo, ele estava na tropa nessa altura, a uma cena entre um jornalista estrangeiro. Eu já contei este episódio em vários sítios, mas ele é extraordinário. É uma cena de um jornalista estrangeiro a falar com os soldados, que estavam no chão, com as G3 apontadas à porta do Largo do Carmo. E eu acho que este soldado era alentejano, já vão ver porquê, não sei, mas já vão ver porquê. E o alemão começa a fazer-lhe perguntas em português, tinham aqueles gravadores muito grandes, de tejo, a fazer perguntas e o soldado a enxotá-lo. E até que a certa altura não se contém e diz esta coisa única que só um português alentejano pode dizer: "Porra, é que já nem me deixam fazer uma revolução em paz". Isto mostra até que ponto as pessoas estavam conscientes do momento histórico, mas ao mesmo tempo eram portugas da cabeça aos pés e, portanto, tinham a reação do português: "Deixem-me fazer isto". É incrível, mas é verdade. Aconteceu. E portanto, era esta mistura que era simultaneamente entusiasmante e ao mesmo tempo, todos os dias podiam acontecer coisas novas e portanto, isto também estimulava.

E fora desta atividade política, como é que assistia ao resto do que ia acontecendo? Continuou a trabalhar no atelier?

Continuei a trabalhar nos vários sítios.

Mudou alguma coisa na arquitetura?

Estas coisas faziam-se de noite e o resto fazia-se de dia. E portanto, era a tal revolução dos homens sem sono. E das mulheres sem sono também.

Mas, por exemplo, na arquitetura, houve alguma diretriz nova, alguma maior liberdade criativa?

Não, desculpe, estava tudo metido na revolução. Aliás, na arquitetura é um momento também de grande revolução, porque o Nuno Portas foi chamado a secretário de Estado e lança uma coisa extraordinária chamada SAL, o Serviço de Apoio Ambulatório Local, que era uma tentativa de começar a resolver problemas das pessoas que viviam em barracas, através de uma participação dos próprios. Era um triângulo. Os próprios organizavam-se em associação, o Fundo de Fomento pagava uma brigada técnica, de arquitetos, muitas vezes estudantes, e as câmaras davam terreno. E portanto, era esta coisa. E lançou-se aquilo, ouça, em julho de 74.

Acompanhou isto de perto?

Completamente, a maior parte dos meus colegas foi toda para as brigadas do SAL. Eu já não fui, já não sei por que razão, porque provavelmente entretanto meti-me noutra coisa qualquer. Mas a minha geração passou pelas brigadas do SAL. Há vários projetos do SAL aqui em Lisboa. O SAL tem muita força, sobretudo no Porto, também tem muita força no Algarve e os arquitetos estavam encantados com aquilo. O que é que acontece? De tal maneira, isto foi assim, a revolução dos Cravos foi uma coisa tão extraordinária em termos europeus, que havia muito observador europeu que vinha cá, mesmo nas várias profissões. E na arquitetura, a revista vem fazer uma reportagem a Portugal sobre a arquitetura da liberdade. E faz reportagens com o Siza Vieira, com o Gonçalo Byrne, com o Manuel Vicente, com o que eles estavam a fazer. E o trabalho destes homens é lançado, em termos internacionais, bastante por efeito deste deslumbramento que na Europa houve sobre o 25 de abril. O Siza já tinha feito alguns trabalhos interessantes na Holanda e noutros sítios, mas é o SAL que os projeta. E depois vem a ser um grande prémio Pritzker de Arquitetura, enfim, o Nobel da arquitetura, e o Souto de Moura também, dois homens da faculdade da escola do Porto, que realmente marcaram e muito marcados por essa experiência do SAL. E, portanto, na arquitetura, a grande revolução foi o SAL.

E os costumes, o que é que assistiu à sua volta de mudanças mais abarcadas?

Não, foi uma libertação, ouça, logo no dia 1 de maio, posso-lhe contar um episódio que mostra bem, que nem é bem um pormenor, é quase um pormaior, porque mostra bem essa mudança quase instantânea das atitudes. Estava um dia de calor muito bonito, como já disse, estava um dia de calor muito bonito no 1 de maio. E eu saí, e a senhora que tomava conta das minhas filhas disse-me: "Ó menina", ela chamava-me menina, que ela era mais velhota. "Ó menina, as meninas estão-se a queixar que têm muito calor", elas andavam com umas botas ortopédicas, andavam todas na escola infantil com as botas ortopédicas. "As meninas estão-se a queixar que está muito calor para as botas". E eu respondi: "Ó senhora Catarina, ponha-lhes as sandálias que estamos em liberdade". E portanto, isto, está a ver, o problema entre as botas e as sandálias, uma coisa comezinha, mas o meu argumento não foi coitadas, isso magoa, não. É liberdade, sandálias. Portanto, era uma espécie de libertação.

A liberdade era uma espécie de argumento para tudo, não é?

Não, e não era só um argumento, era mesmo a sensação. Não temos que estar agora a constranger as pessoas, deixem lá as pessoas, as crianças.

Ao mesmo tempo, havia, sobretudo a partir do verão de 74, um aumento do conflito político, uma pressão daqueles setores alinhados com o PCP e a extrema-esquerda. Como é que foi isso?

O primeiro conflito é o 28 de setembro.

Exato.

No 28 de setembro, nós percebemos que aquilo tinha sido Aquilo tinha sido desencadeado pelo Spínola, por qual nós tínhamos um certo respeito, mas depois aquilo foi barrado, com as barricadas organizadas pelo PCP, que mandavam parar os carros e ver se tinham armas. Havia aquela confusão de não percebermos bem quem é que começou e quem é que está aqui do outro lado. Mas víamos as barricadas. Eu não apanhei barricada nenhuma, até porque não conduzia, mas lembro-me do Alfredo Sousa contar. Lá está mais um episódio picaresco. Ele morava em Linda-a-Velha, vinha por Caxias, é apanhado por uma barricada, mandam-no abrir o carro e alguém diz: "Eu este eu conheço, este é da reação". Ele disse: "Não, senhor, sou de Linda-a-Velha". E portanto, isto era o tipo de diálogo que a gente podia ter o tempo todo. Um diálogo nonsense.

No dia do 28 de setembro, Marcelo Sousa conta que jantou com ele no Papo e com o vosso grupo de amigos. Lembra-se do ambiente que perpassava nesse jantar?

Não me lembro nada do Papo. Há coisas que não me lembro. Lembro-me das sessões que fiz com o Marcelo, algumas históricas e épicas. A memória engana-nos, porque ele depois conta uma história que diz ele que terá sido em que eu terei estado envolvida em Beja.

Nos telhados.

Nos telhados de Beja. Eu não estava lá nos telhados de Beja, eu estava em Lisboa na sede.

Mas é uma pena, porque é uma ótima história.

A história é ótima.

Mas não foi consigo.

Não, não foi comigo, já é só o Marcelo. Para com isso, porque eu não estive lá. Quem estava era a Virgínia Stornini, que aliás ia sendo enforcada, porque apanharam-na. O Marcelo escapou. Mas o grupinho era muito coeso e portanto, uns estavam em Lisboa à espera que eles chegassem, os outros estavam lá e na prática, o grupo estava lá na cabeça dele. A memória prega estas partidas, a mim também já me pregou várias. A gente julgou que foi com uma pessoa e afinal não foi com essa pessoa.

Mas aí já se estava a tornar um ambiente menos hostil.

Mais hostil. Portanto, o 28 de setembro é o primeiro momento da hostilidade. Depois, a partir daí é que começa uma progressão grande com a história do 28 de setembro e da admissão do Spínola, começa uma progressão grande das forças ligadas ao PCP dentro do MFA. E começa-se a sentir, os vários governos provisórios são cada vez mais radicais, depois entra o Vasco Gonçalves, e muito dominados, de facto, pelo Partido Comunista, até que se dá o 11 de março. O 11 de março também é um momento que ficamos sempre sem perceber quem é que foi, na altura. Agora os historiadores já fazem a leitura correta disso. Mas veja bem, estas coisas são de uma ingenuidade inacreditável. Eu sou mobilizada com os militantes do PPD para irmos para a sede, que nessa altura era na Duque de Loulé. Vamos para a sede, tomar conta da sede na véspera, porque o Ângelo Correia continua a ser a mesma pessoa, tinha posto a circular uma lista da morte. Parece que havia uma lista qualquer de umas pessoas que haviam de ser apanhadas. Aliás, já várias pessoas falaram dessa lista. Eu nunca vi tal lista, mas o Ângelo Correia lá convenceu que era preciso irmos para a sede porque íamos ser atacados. Vamos para a sede.

Isto ainda antes do dia 11?

Na véspera. Aquilo depois foi de manhã. Íamos ser atacados. Passar a noite lá na sede, a defender a sede. Eu não sabia nada, eu não tinha feito tropa, nem os meus colegas também não. Como é que a gente defende a sede? Não tínhamos armas ali. Havia armas no partido, mas não na sede. A coisa estúpida que a gente pôs é: "Olha, a gente tem aqui uns extintores de incêndio, atiramos aos olhos". Uma parvoíce. E começámos a pôr massas de jornal pelas escadas fora, o que era uma estupidez, porque se quiséssemos fugir, não conseguíamos fugir. Tudo desesperados. Sei que adormeci quando o golpe começa, de manhã, estava cansada. E às tantas, o Alfredo Sousa: "Carena, o que é que você está a dormir, está um golpe". "Oh, Alfredo, eu não posso fazer nada, o que a gente há de fazer? Deixa lá, eu tenho que dormir". Está a ver? Coisas assim insensatas. Lembro-me que nessa altura recebemos na sede, isto é mais uma história picaresca, uma devolução do Povo Livre. O Povo Livre era o jornal de partido, e era mandado por assinatura para muita gente. Recebemos a devolução do jornal e o carteiro escreveu lá. Era um padre que mandava aquilo de volta e o carteiro escreveu lá: "Deste já está o povo livre e ele livre do povo". O homem tinha morrido. E, portanto, constantemente estávamos com este tipo de cruzamentos entre a política e o quotidiano e a viver tudo isto. Oiça, por essa altura, março, os ficheiros do PPD andavam espalhados pelas casas dos militantes e nos carros dos militantes. Não havia ficheiros na sede.

Por uma questão de segurança.

Andavam dentro de caixas de sapatos, mas tudo muito militante.

Mas para não serem apanhados, é isso?

Exatamente. O Pedro Pais Vasco e Celso andou com os ficheiros do PPD no carro.

Mas tinha uma preocupação genuína em que, por exemplo, não houvesse eleições?

Não, claro que estávamos com medo que não houvesse eleições e até à última hora podia não ter havido. Só se consegue as eleições com a assinatura do primeiro pacto de MFA Partidos, que é já nos princípios de abril. Já estava abril a começar. Supostamente, as eleições deviam ser em abril, que era um ano depois, e não havia condições, não havia garantia do Conselho da Revolução. O Conselho da Revolução tinha sido criado a seguir ao 11 de março, não havia garantia que havia eleições. E de facto, aí o Costa Gomes tem um papel importante e consegue garantir, chama os partidos, assinam todos, até o PC, depois à esquerda do PC, o DP não assinou. Assinam todos um pacto em que se comprometem que na Constituinte nós vamos aprovar uma Constituição, portanto haverá eleições, os deputados vão fazer uma Constituição, mas essa Constituição vai garantir que o Conselho da Revolução se mantém durante um período transitório, que na altura eram 10 anos, um período transitório com poderes de fiscalização constitucional, portanto não havia Tribunal Constitucional, e que há uma assembleia militar designada pelos três ramos das Forças Armadas para garantir a fidelidade ao programa do MFA. Os partidos, vocês têm os vossos programas todos, mas aqui há um programa original que é o programa do MFA, e nós temos que garantir isto. Os partidos assinaram, o Sá Carneiro não estava cá, mas discordância total, assembleia do MFA nem pensar, o próprio Conselho da Revolução não concordava, mas a verdade é que os partidos assinaram e com essa assinatura tivemos a garantia que haveria eleições. E no dia 25 de abril houve eleições.

Antes de entrar na campanha, queria perceber um bocadinho melhor a dinâmica deste partido nos primeiros tempos. Sem o líder, com o líder ausente, como é que o partido funcionava?

O Ganha os Mota a fazer vezes de líder.

Isso que era muito diferente, se calhar.

Era muito diferente. A uma certa altura, eu própria acho que também desisti de funções de direção de campanha, já não sei porquê Porque não havia quem fizesse. A gente fazia as sessões, fazíamos as coisas na televisão, mas sobretudo o que havia eram núcleos muito ativos de militantes a fazer campanha no país todo. O PS não estava tão bem situado no país todo. O PPD entrou muito pelo país, porque entrou com gente nova e com quadros que eram conhecidos em Portugal, que estavam ligados a várias estruturas até do Estado e não sei mais o quê. Portanto, havia respeito e havia um grande prestígio de Sá Carneiro. Sabia-se que ele estava doente, mas era o partido do Sá Carneiro. E, por outro lado, achavam o Partido Socialista em algumas coisas demasiado à esquerda. A verdade é que depois, na ausência do Sá Carneiro e naqueles grandes movimentos que se dão no Verão Quente, é o Mário Soares que lidera e o PPD vai atrás em todos os movimentos.

E no PPD, as figuras que mandavam nesta altura, como é que elas se relacionavam com os militantes? Como é que elas conseguiam impor-se na audiência de lider?

O Magalhães Mota tinha uma capacidade extraordinária de se dar bem com todos. Tanto que quando o PS sai do governo, o Magalhães Mota fica. Em Lisboa, o Balsemão, o próprio Marcelo, mobilizavam as pessoas e isso é que animava a campanha. Nós íamos a sessões todos os dias, comícios, muitas vezes. As grandes mobilizações contra o PCE no Verão Quente são lideradas pelo PS. O PPD apenas vai de arrasto.

Mas ainda antes das eleições, também há uma radicalização desta hostilidade, sobretudo a sul, quando iam fazer campanha, não é?

Muita vez. Muitos boicotes. Quantas vezes isso nos aconteceu. Mas a gente ia à mesma.

Iam à mesma sabendo que iam ter problemas.

Nós sabíamos que havia lá militantes locais e íamos correr os riscos.

Vamos agora para intervalo e voltamos dentro de momentos. Voltamos agora à segunda parte da conversa com a arquiteta Helena Roseta. Nós estamos a falar de umas eleições em que não há sondagens. Não se sabe bem o que vai acontecer. Qual era a vossa expectativa? Quando chega ao fim da campanha, qual é o que pensavam?

Nós não fazíamos a menor ideia do que ia acontecer. Havia uma coisa que para nós era segura: a comunicação social, que estava estatizada e estava na mão do PCP, basicamente, era excessivamente PCP e as pessoas estavam muito saturadas daquilo.

E já percebiam isso.

As pessoas estavam muito saturadas, não era aquilo que queriam. E portanto, havia um sentimento de revolta.

Queria perceber, pelo menos, a decisão da sua inclusão na lista de candidatos a deputado. Tinha a expectativa de ser eleita?

Não, não fazia a menor ideia do que aquilo era. O Magalhães Mota a uma certa altura veio me dizer: "Helena devia vir aqui na lista por Lisboa". Eu disse: "Ó Magalhães Mota, mas eu não sei nada de constituições nem de leis, não percebo nada disso." "Mas você fala bem, está aí nas sessões." As pessoas gostavam de me ouvir. Eu aparecia na televisão, as pessoas gostavam de me ouvir. "Você tem que vir." "Está bem, eu faço a campanha, depois logo se vê."

Isso foi em número oito por Lisboa, que era eu?

Já não sei que número era.

E seu marido por...

O marido ia por Castelo Branco. Ele é natural da Covilhã.

Essa decisão foi conceptualizada em casa?

Não, eles é que escolhiam. Desafiavam-nos, a gente dizia: "O que é que vocês precisam da gente e nós fazemos o que vocês precisarem". Não havia problema nenhum.

Nesse ano, há muita gente como vocês que estão disponíveis.

Completamente disponíveis.

Para a política.

A partir do momento em que somos candidatos a deputado, já não precisava de ir ao emprego, essa parte era boa. Até lá tinha que ir ao emprego. Mas no emprego eu meti-me nas lutas sindicais. Eu estava nessa altura, já tinha saído do laboratório, estava na Universidade Nova e fui delegada sindical na Universidade Nova, já não sei por alma de quem. Mas essa parte já se resolveu.

Havia luta política a todos os níveis, no trabalho...

A todos os níveis. Portanto, mobilizávamos e estávamos todos a aprender. Ao fim e ao cabo, o que estava a acontecer era uma aprendizagem coletiva nacional da política, no dia a dia. E portanto, tudo era pretexto para essa aprendizagem, mesmo as relações entre os homens e as mulheres ou entre os amigos, tudo era pretexto para essa aprendizagem. Ou os professores, ou as escolas, as crianças, tudo era pretexto.

Tudo era discutido política, tudo era questão política.

Era questão política.

Era uma sensação de que se estava no princípio...

E era a sensação, sobretudo, que nós tínhamos a responsabilidade de construir um país melhor, um país novo, como a gente dizia naquela altura, um país novo. Não era nada novo, que ele era bem antigo, mas para nós era um país novo. Era um pouco toda aquela utopia dos poemas da Sophia de Mello Breyner, de todos esses grandes poetas que nos tinham alimentado o imaginário, e os próprios cantadores, o Zeca e toda essa gente, era o país novo que a gente queria, não era o velho. Portanto, todos tinha que fazer alguma coisa por este país novo.

E na campanha propriamente dita, antes de abril de 65, como é que era a preparação das sessões?

Não havia preparação nenhuma. A gente lá da terra arranjava um sítio e a gente ia.

E levava militantes mais jovens para fazer segurança, algo deste género.

Não, lá eles arranjavam isso. A parte da segurança eu nunca participei muito, mas era uma segurança dos próprios militantes. Havia sempre uns tipos que tinham estado na tropa e que se ofereciam para fazer segurança, porque para mim isso não era propriamente uma coisa muito importante. Eu não sentia que a minha segurança estivesse em perigo. E achava sempre, como o meu marido, que se as pessoas começassem a provocar, a gente respondia.

Como é que era isso na prática? Isso chegava à intimidação física, não é? Muitas vezes.

Não muitas vezes. Muitas vezes era mais provocação e muitas vezes a gente sentia, por exemplo, nas sessões de esclarecimento, o grosso era gente que estava do nosso lado. E depois haviam os grupos que até eram mandados pelos outros partidos para provocar. E a gente percebia quando é que era, até pela reação da sala.

Portanto, chegavam e começavam a ter...

Fazíamos sempre uma intervenção inicial, as pessoas aplaudiam ou não aplaudiam, a gente percebia logo pelos aplausos de que lado é que aquilo estava, mais ou menos. E depois vinham as perguntas, que era sempre a parte melhor, e eu andava com um caderninho para tomar nota das respostas, porque então as respostas do Alfredo de Sousa eram fantásticas. Foi um curso acelerado de Economia. E o Fernando Fernandes, que respondia à parte dos trabalhadores e dos sindicatos, eu tomava nota daquilo tudo. O meu marido explicava a parte constitucional. E o Marcelo ia a todas. O Marcelo estava sempre ao par de todos os episódios e ia a todas. Tudo isto era uma aprendizagem. Para mim também foi uma aprendizagem acelerada, porque havia muitas coisas que eu no princípio nem sabia explicar, mas depois no fim já tinha aquilo na ponta da língua.

De tanto ouvir.

Claro. E sobretudo as frases, hoje chamam soundbites, mas a gente percebia muito bem quando saía uma coisa fantástica, dizia: "Bem respondido", quando a malta reagia na sala. Estou me a lembrar de uma também que era pigaresca. O Ângelo...

Ângelo Correia.

Ângelo Correia, deputado para Aveiro, prometia tudo e um par de botas a toda a gente, mas ia com cachecol, armado em sindicalista, tinha imenso carisma e realmente muita popularidade E numa sessão com o Ângelo, a uma certa altura alguém pergunta: "Por que o PPD não está na Internacional Socialista?" Porque o Sá Carneiro dizia que o PPD era social-democrata e queria pertencer à Internacional Socialista. E o Mário Soares já tinha dito: "Na Internacional Socialista não entrarão de certeza, porque eu não deixo". E tinha falado com os seus colegas: "Estes não entram, não são sociais-democratas". Mas havia essa questão e cada vez que nos acusavam de fascistas, a resposta era: "Não, é social-democracia". A frase era: "A social-democracia está para o socialismo como a cogestão está para a autogestão". E depois explicávamos o que era a cogestão, o que era a autogestão. Isto era o que a gente dizia. Uma só via social-democracia. Mas era uma via para o socialismo democrático, estávamos sempre a dizer isto. "Mas então por que não são socialistas?" Internacional Socialista. E o Ângelo dá esta resposta extraordinária: "Três ordens de razões, por isto, por isto e por aquilo". E o homem insiste: "O senhor ainda não me respondeu, por que o PPD não está na Internacional Socialista?" E o Ângelo: "Mas o senhor não sabe que as inscrições só abrem em outubro?" Grande salva de palmas. Aquilo não era resposta nenhuma, mas calou o homem, está a perceber? Porque provavelmente ele não sabia quando é que abriam as inscrições. Isso era para a casa. Havia constantemente este tipo de botadas, se quiser, ou de saídas, que a necessidade o obrigava a inventar na hora.

E havia gente que nitidamente tinha mais jeito para isso, não era?

Claro, o Ângelo e o Marcelo eram supra-sumos aí. O Pedro era muito bom na argumentação mais de fundo, quando havia uma contestação ideológica, o Pedro dividia aquilo tudo e batia bem. Eu era mais com as coisas do dia a dia, o sentido de observação, as coisas que a gente via na televisão, era com as coisas do dia a dia que as pessoas reagiam bem. Esta mistura. E havia outros que faziam sessões, não é?

Aliás, já nos disse isso, uma parte das questões que lhe eram levantadas eram também a ver com o quotidiano, quer dizer, com a vida. As pessoas estavam preocupadas com a vida delas também, não era?

Sim, claro. As coisas mais banais. Em Lisboa não havia leite. Eu conseguia leite depois das eleições porque os deputados de Aveiro traziam leite lá, porque não havia leite. Depois que essa faltava o leite. De vez em quando faltava o gás. O gás da companhia fechava. Tinha havido greves, não havia gás. Outras vezes chegávamos à casa, não havia eletricidade. Isto era frequente.

Era a revolução mesmo a afetar o quotidiano.

Daqueles primeiros dias em que fecharam os bancos, fechou tudo. Fecharam as mercearias, fechou tudo. Íamos comer à casa uns dos outros, mas isso a gente não queria nem saber. A gente nem sabia bem a quantas andávamos.

E havia algum tipo de marketing de campanha? Não. Vocês ofereciam alguma coisa às pessoas?

Não. Acho que sim, deviam oferecer canetas, imagino eu. Canetas.

Já na altura.

Canetas. Não, sacos de plástico não se usavam.

A questão dos slogans, por exemplo.

Os slogans era, os slogans quando apareciam. O Mota Pinto era muito bom nos slogans.

Participou nisso? Participou de alguma forma?

Não, mas não havia um grupo para fazer isso. Isso surgia e depois havia os gráficos. Um dos gráficos que trabalhava para nós era o Augusto Cid. Lembro aquele célebre slogan do Mota Pinto: "Hoje somos muitos, amanhã seremos milhões", que foi logo no primeiro congresso. No primeiro, não. Num dos congressos, logo no princípio. E eu lembro-me perfeitamente de ver na Infante Santo o cartaz colado: "Hoje somos muitos, amanhã seremos milhões", e embaixo escrita a seguinte frase: "Bem feito, tomassem a pílula". Há constantemente este tipo de diálogo.

Só para completar, que é uma parte muito impressionante, que é esta história da intimidação. Alguns descrevem como física, mas da provocação das pessoas que iam com uma atitude hostil às vossas sessões de enchimento. Como é que isso se manifestava? Chegavam, começavam a mandar bocas, para arranjar maneira de boicotar.

Não, não tinham palavra, que apesar de tudo, havia curiosidade nas salas. A própria sala criava um ambiente favorável a que isto não fosse uma guerra. Se apareciam coisas mais polêmicas, a própria sala também começava a chamar por nós. Às vezes saía branco a gente. Ia a um sítio que estava à espera de uma coisa, saía outra. Havia quem fosse capaz de dar a volta. Há uma cena extraordinária que se passa, não sei se o Marcelo conta isso no livro dele, em Grândola. É que é extraordinária. Ele vai com o Pedro, meu marido, vão os dois fazer uma sessão em Grândola, logo no primeiro ano. Acho que ainda antes do 28 de setembro. Vão fazer uma sessão em Grândola, o ambiente cortar a faca. Eles chegam a uma tasquinha pra beber um copo d'água, não sei o quê, papelinhos com caveira e tíbia e perónia: "Morte ao PPD". Lá vão pra sessão, pavilhão de terra batida, cheia, e o Marcelo olha pra sala e começa assim: "Nós estamos aqui, o PPD, o Partido Popular Democrático, vem aqui e quer começar nesta terra tão importante pra democracia, quer começar por lançar aqui uma grande saudação a esse maravilhoso partido que resistiu durante 48 anos à ditadura e peço uma salva de palmas para o partido, comunista, perdões". Está toda a gente a bater palmas. A partir daí, o resto da sessão já foi mais fácil. Havia pessoas com a capacidade de virar uma sala, e o Marcelo era uma delas.

Perceber o que é que funcionava.

Oiça, eu estou a dizer isso como se fosse assim uma botada, mas imagina o ambiente. Malta toda de boné, toda gente a olhar, com assim olhar um bocadinho atravessado, os papelinhos do "Morte ao PPD", hostilidade absoluta e de repente o Marcelo a primeira coisa que pede, pede uma salva de palmas ao PCP e depois começa a elogiar as coisas extraordinárias que o PCP tinha feito. Quando ele chega a falar do PPD, já a sala estava cativada, porque ele é brilhante a falar e portanto estava cativada com a conversa dele.

É descrita como tendo tido uma ascensão muito rápida dentro do partido, depois. Passa rapidamente, quase como se fosse ser uma coqueluche, uma estrela em grande ascensão dentro do partido. Teve noção disso na altura?

Não, porque não era essa a ideia. Quer dizer, a ideia não era essa, a ideia era haver ali uns militantes que tinham a função de dinamizar esta coisa. Não era o caso de sermos figuras número um nem número dois. Eu nunca perguntei que lugar é que me iam dar, é-me indiferente.

Mas e por exemplo, o seu marido teve noção da sua ascensão dentro do partido?

O meu marido é extremamente modesto nessas coisas. Aliás, ele nem gosta que isto se diga, mas é verdade, é um facto. Ele escrevia muitas vezes os discursos do Sá Carneiro Mas nunca o disse, nem o Sá Carneiro. Era assim. Eu também escrevi coisas para entrevistas do Sá Carneiro, e ele depois validava e mandava. Havia uma sensação de que estávamos ali ombro a ombro, um processo muito colaborativo e muito de rascasse. A gente sabia que tinha que fazer, que isto era uma oportunidade única e que tinha que ser feita e era agora, não podia esperar para amanhã.

E depois, finalmente, temos o dia das eleições, o resultado. Como é que foi o resultado para vocês?

O dia das eleições, para já, é um dia extraordinário.

25 de Abril de 1975.

Aquela coisa de ver tanta gente, a alegria que era as filas para os sítios de voto, para os locais de voto. As pessoas estavam em festa, uma coisa impressionante. E felicíssimos da vida por aquilo tudo estar a acontecer. Era a primeira vez que as mulheres em Portugal podiam votar. Isso para nós era também um brinde adicional. Eu já tinha votado anteriormente, porque as pessoas com curso superior, mulheres, podiam votar, mas o resto das mulheres não. Aquilo era uma festa autêntica, as mulheres pela primeira vez a votar, tanta gente a votar, homens, velhos, crianças, todas as idades. Crianças a acompanhar, não podiam votar, mas isso foi uma experiência única. E depois o resultado é impressionante, porque de facto, o que a gente via, a comunicação social, o que dava, era que iria ser uma coisa esmagadora, que naturalmente o PS podia ter uma expressão importante, dada a importância de Mário Soares, mas o PCP teria seguramente uma grande expressão. Não foi isso. Ficaram em terceiro lugar e o CDS, hoje em quarto.

Exatamente. E o PPD em segundo.

O PPD em segundo, muito satisfeitos da vida. Era uma alegria enorme. E lá fomos para a Constituinte.

E a Constituinte abre no dia 2 de junho de 1975, não é? Como é que foi entrar na Assembleia Constituinte? Porque não tinha experiência parlamentar, ou pouca gente tinha até experiência parlamentar. Mas como é que foi?

A imagem que nós tínhamos da assembleia era a Assembleia Nacional antiga, tudo aquilo muito formal, muito velho, muito escuro.

O edifício era o mesmo, claro.

Tudo aquilo muito formal, muito velho, muito escuro. E isto, estamos a entrar em abril, bom tempo, as mulheres vestidas mais ligeiramente, os homens muitos deles sem gravata, porque logo uma das primeiras coisas a seguir ao 25 de abril foi desengravatar as pessoas, as pessoas andavam desengravatadas. Entrávamos, éramos acolhidos pelos funcionários, que eram os mesmos, mas que muitos deles também aderiram com uma alegria enorme a isto e que nos ajudavam. As instalações eram muito parcas, o Hemiciclo como hoje, embora não tenha aquelas bancadas de computadores, mas o resto era como hoje. Mas, por exemplo, os espaços para os deputados era uma sala para cada partido, por junto. Não havia cá gabinetes, era uma sala para cada partido, eventualmente um gabinete para a direção, imagino eu, mas uma sala para cada partido. E era onde a gente estava sempre. E passávamos a vida a pedir interrupção dos trabalhos para ir falar com o grupo parlamentar para uma sala. Os apoios do grupo parlamentar era para aí duas pessoas, por junto.

Para tudo.

Para todos.

A maior parte do trabalho tinha que ser feito mesmo pelo próprio deputado, não é?

Vamos lá ver, havia trabalho de grupos. O grande apoio ao trabalho da Constituinte foi o gabinete de estudos do PPD. As coisas já estavam preparadas, era quem já tinha preparado os documentos para o programa de partido.

O projeto de Constituição.

O projeto de Constituição. Havia o Jorge Miranda e mais algumas pessoas que tinham o conhecimento do projeto de Constituição do PPD, era isso que iam levar, mas depois havia pessoas especializadas em cada área. Na área da educação era muito o Pedro e o Mário Pinto, na área do trabalho era também o Mário Pinto, na área da economia era o Alfredo de Sousa, na área do direito era muito o Mota Pinto e mais não sei quem. E eu fiquei com a parte da habitação, porque era eu que tinha trabalhado no tema.

Havia uma comissão?

Não havia uma comissão para a habitação. A primeira fase da Constituinte foi organizar a estrutura do texto constitucional e as comissões. Na estrutura do texto constitucional, criou-se os direitos fundamentais, entre os direitos civis e políticos, e depois os direitos sociais, todos eles, a parte da organização econômica, a organização do poder político e depois os órgãos de soberania e o poder local e os tribunais, no fim. Mais ou menos esta era a estrutura. Mas o que é que havia? O pacto MFA Partidos não era do acordo dos partidos que tinham ganho a maioria nas eleições. Nem PS, nem PSD, nem CDS estavam de acordo com aquela coisa, com o gonçalvismo, o 11 de março, as nacionalizações, a aceleração. Começa a fazer uma pressão enorme sobre a Constituinte, no Verão Quente, uma pressão enorme sobre a Constituinte. Vamos arrumando as outras áreas, os direitos fundamentais, e deixamos o poder político para mais tarde. Na organização econômica, ia ser outra vez uma batatada, porque tinha havido as nacionalizações, o PS não as punha em causa, mas também não as queria engolir. Havia ali uma dificuldade, mas a parte mais difícil era mesmo o poder político. Eu calhei logo nos direitos sociais. A habitação foi discutida em julho de 75, e a votação é para aí em outubro. Mas na habitação, uma vez que, entretanto, no Verão Quente, já depois das eleições, tinha aparecido o tal documento guia de uma fação radical do MFA que dizia que Parlamento nunca. Foi quando o Cunhal deu entrevista à Oriana Fallaci a dizer que nunca haverá eleições livres em Portugal, mas eles continuavam a dizer que Parlamento nunca iria haver, não queriam. E do outro lado, tinha surgido como resposta o documento dos nove. Melo Antunes e o grupo dos nove tinham respondido a dizer: "Não, a fidelidade ao programa do MFA é eleições livres, parlamentarismo como na Europa, não sei o quê, não sei o que mais". E havia este confronto entre estas duas coisas. Enquanto isto tudo se passava, nós estávamos avançando devagarinho nos direitos fundamentais. Aí não havia grandes discussões, porque era a Declaração Universal dos Direitos do Homem e os direitos fundamentais, o seu desenho estava plasmado nos textos constitucionais de praticamente todos os partidos e portanto, essa parte podia-se avançar. Nos direitos sociais já foi um bocadinho mais complicado. Os direitos sociais, na saúde A discussão toda da saúde e o PS aí teve um papel importante. O PSD foi de arrasto em favor disso, mas depois mais tarde teve dúvidas sobre o Serviço Nacional de Saúde quando foi a Lei de Bases, mas na altura da Constituinte, o nosso programa era muito claro e era favorável ao Serviço Nacional de Saúde. Na habitação, sabíamos o que queríamos, na educação também. A discussão grande na educação era o problema do ensino privado. Havia uma hostilidade do próprio PS contra o ensino privado, apesar do Colégio Moderno, e era preciso defender a liberdade de ensino e a formulação que lá ficou não satisfez e depois foi alterado mais tarde, e assim sucessivamente. Isto é a primeira parte. Depois, na organização do poder económico, eu já não participei nada, era o Alfredo Sousa que, de certa maneira, liderava o processo, mas o Alfredo Sousa também era um tipo muito avançado do ponto de vista, era um social-democrata avançado e progressista e era respeitado. Conseguiram-se ali umas formulações bastante duras, bastante radicais, mas que não punham em causa o núcleo essencial da social-democracia, que previa a nacionalização dos principais meios de produção, não de todos, mas de alguns. Não haveria aí conflito ideológico e aceitávamos isso. E entretanto, dá-se o cerco.

Sim, em 12 de novembro.

Antes disso, a minha participação na Constituinte é toda antes do cerco, é até esta altura, até votar o artigo da educação.

Havia também aquele período de antes da ordem do dia em que se discutiam problemas políticos gerais. Como é que é esse?

Isso é muito interessante. Os dois ritmos. Para mim, a melhor crônica, se quiserem, do PREC, é os jornais, com certeza, mas a crônica que está acessível online para toda a gente é o Diário da Assembleia Constituinte, que pode-se consultar. Todos os dias, no período chamado PAOD, que era o período antes da ordem do dia, refletia o que estava a passar na rua. Todos os dias havia esse reflexo. E quando tinha havido uma barricada qualquer ou um grande comício ou um incidente, aparecia tudo no PAOD. E gerava-se logo ali a discussão bastante dura. E há uma expressão muito engraçada, que não sei se já deram por ela, no Diário da Assembleia Constituinte, que os redatores lá punham. De vez em quando, havia uma gritaria, porque estava sempre cheio de gente, as tribunas começavam a mandar vir. As pessoas começavam a mandar vir lá para baixo, os deputados respondiam lá para cima, aquilo era violento e o presidente pedia silêncio. À terceira ou quarta vez que pedia silêncio, mandava encerrar a sessão, pedia à polícia para encerrar a sessão, para ver se acalmava os ânimos. E quando isto acontecia, o presidente dizia: "Vou suspender a sessão, os trabalhos estão suspensos" e o redator escreve entre parêntesis: " ". Eu nunca fiz esse exercício. A quantidade de vezes que lá está a expressão "gerou-se o pandemónio" ou "pandemónio" na Assembleia Constituinte mostra a tensão em que aquilo estava. Passado uma ou duas horas, quando íamos discutir a ordem do dia, os artigos mesmo ou articulada, já era tudo muito mais calmo. Havia um confronto duro entre os da fila da frente, que eram os que estavam a defender aquilo, era o Vital Moreira no PCP, era o José Luís Nunes no PS.

José Miranda do PCP.

José Miranda ou Mota Pinto, enfim, um deles, e o Amar da Costa do CDS. Havia ali entre eles, a malta de trás não percebia muito aquilo, deixava-se estar, mas mandava apartes.

E o texto era linha a linha, quase? Quando votado linha a linha?

Não. Primeiro era discutido na generalidade, depois era discutido na especialidade. Entre isso, havia um para a comissão. Na comissão, ao contrário do que se passava no plenário, os deputados até tratavam muito bem uns com os outros. As comissões eram espaço também de aprendizagem de democracia.

E aí negociavam, redigiam as formulações.

E até era capaz de pedir a um deputado que redigisse melhor aquilo, porque esse deputado não tinha a maioria, mas redigia melhor que os outros. Havia esse espírito de vamos fazer um texto escorreito, o mais escorreito que a gente for capaz. Mas depois, quando chegava à votação na especialidade, podia haver outra vez propostas de alteração em plenário. A especialidade é votada linha a linha, frase a frase em plenário, com as propostas todas. É de uma riqueza enorme. Às vezes, é só mudar uma palavra, não sei o quê, e votado em plenário.

Mas já agora, descreva-nos esse pandemónio, quando se escrevia no diário da sessão "gerou-se o pandemónio", era exatamente o quê?

Era exatamente a gritaria, fechar a sala, toda a gente sair, perder meia hora ou uma hora, o que fosse, voltar outra vez à sala e ver se os ânimos estavam mais calmos e recomeçar.

Mas ficavam em bate-boca, digamos assim, entre os vários deputados?

Não, evacuado, tínhamos que sair. O presidente mandava, tinha que sair da sala.

Não se chegava a nível de confrontação física?

Não, não tenho memória disso.

E fora do debate, os deputados dos diferentes grupos parlamentares...

Falavam entre si, falavam nas comedouros, falavam nas comissões. Cumprimentávamos todos. Isso era normal.

Por mais acesa que tivesse sido o confronto lá no plenário.

Sim, aliás, ainda havia uma herança antiga e de vez em quando, mesmo nesse confronto aceso, tratavam-se por vossa excelência. "Vossa excelência, senhor deputado", não sei o quê. Havia aquela deferência ainda antiga, alguns, sobretudo os mais velhos, que ainda usavam essa deferência antiga, que também criava uma certa distância.

Havia algum tipo de regalia, digamos assim, dos deputados da Constituinte?

Não, pelo contrário, os primeiros meses não éramos pagos, porque o Vasco Gonçalves cancelou os pagamentos aos deputados. No meu caso, era marido e mulher, portanto, ficávamos um bocado apertados.

Isso não era motivo de, eu sei que foi discutido na própria Assembleia Constituinte, mas entre vocês, não pressionavam para isso resolver o mais rápido possível?

Havia pessoas do partido que negociavam a esse nível, mas na assembleia, não. Poderia haver, de vez em quando, uma referência, não sei o quê, o que é que se passa.

E como é que se resolveu o problema dos deputados fora de Lisboa, por exemplo, que precisavam nitidamente de apoio para residirem durante a semana?

Não, isso cada um tinha que se zonhar, e havia também o problema das deputadas, que era mais difícil. Eram poucas, mas era mais difícil. Quem viesse tivesse deixado crianças em Trás-os-Montes e vinha estar aqui durante a semana, em Lisboa. Criavam-se grupos, normalmente procuravam os do mesmo distrito, procuravam dormir mais ou menos nas mesmas pensões, os mesmos hotéis, ficarem juntos, comerem juntos. Criava-se um ambiente quase de universidade, de estudante deslocado.

De república.

Eram uma espécie de estudantes deslocados e havia certas repúblicas dos deputados, que eram umas pensões onde eles se encontravam ou uns restaurantes onde se encontravam, ou umas bate onde iam à noite todos juntos.

E misturavam-se com os deputados de Lisboa, não? Ou pouco.

Nem muito. Eram muitos grupos por distrito.

Mas viviam de quê? No seu caso, ainda por cima, sendo casal.

Eram uns jogos que a gente pedia dinheiro emprestado. O que é que uma pessoa havia de fazer?

Dois deputados da Constituinte a viver ou a se pagar as coisas com ajudas de jogos.

O que é que a gente havia de fazer? Era muito mais importante o que estávamos a fazer. Não éramos propriamente ricos, portanto não tínhamos grandes reservas, com três filhas pequenas a estudar e a pagar uma escola privada. Era difícil, mas já nem tenho grande memória disso. Sei que foi um bocado apertado.

Mas conseguiram.

Fez-se. A despesa da casa era muito inferior ao que é hoje. Atenção que isso não há comparação. Nós conseguíamos pagar facilmente uma renda. Isso faz toda a diferença para hoje. E, por outro lado, no nosso caso, que éramos deputados por Lisboa e morávamos muito perto do Parlamento, também não havia despesa de transportes. Isso facilitava.

Disse que a sua participação na Assembleia Constituinte é sobretudo até ao outono de 75, não é?

Não, é participação direta na parte da Constituinte. Participação na discussão política foi permanente, porque como eu estava ligada à direção do partido e ao gabinete de estudos, de vez em quando chamavam para fazer as discussões. A discussão política.

Mas ali na Assembleia Constituinte, o que significa?

Só estou na fila da frente quando estou a discutir questões de habitação. Ou às vezes discuto isso mesmo do meu lugar, sem ir pra fila da frente. Eu não pertenci nunca à direção do grupo parlamentar. A fila da frente é das direções.

Fez uma intervenção muito vigorosa contra a censura da Dina Alhandra no RCP, lembra-se disso?

Devo ter feito.

Há até uma rubrica que foi suspensa.

Devo ter feito. Era um programa que a gente tinha chamado "A Mulher no Tempo Presente". Um programa na rádio, Rádio Comercial, acho eu.

No Rádio Clube, não era?

Rádio Clube.

O Rádio Clube que depois...

Nem se chamava Comercial, era Rádio Clube. No Rádio Clube. E uma certa altura, já não sei por quê, nós começamos a fazer umas críticas mais violentas e eles acabaram com o programa, invocando que o patrocinador, que era a Domplex, os práticos da Domplex não queriam continuar a patrocinar o programa. E fomos censurados pela Domplex. Mas depois disso devem ter aparecido para aí os Tupperwares ou qualquer coisa. E pronto, uma alternativa à Domplex. As pessoas que me estão a ouvir não sabem o que é a Domplex, mas a Domplex era umas caixinhas de plástico que permitiam organizar a vida. Há muita propaganda na televisão nessa altura da Domplex, é muito engraçado.

E nisso dá-se o cerco, então, o cerco à Constituinte, que é um momento bastante instrospecho.

O cerco à Constituinte é um momento extraordinário.

Como é que viveu o cerco?

Eu chego lá, já estava a chegar muita gente. O meu marido, bem atrasado, tinha ficado a fazer uma coisa qualquer do partido e já não o deixaram entrar. Ele disse que queria pagar, "Não entra", não sei o quê. Não conseguiu entrar, ficou um bocado chateado, porque eu estava lá dentro. Eu estou lá dentro, começamos a perceber que não há condições para manter os trabalhos. Começa a haver diligências junto, primeiro, do Pinheiro de Azevedo, mas o Pinheiro de Azevedo também estava cercado na residência do primeiro-ministro. E também não podia fazer muito, a fazer diligências com o presidente da República e o presidente da República a cortar-se. Nós todos no PPD muito críticos do então presidente da República, Costa Gomes, porque achávamos que ele não avançava. Eu hoje devo dizer que fomos injustos, porque ele não poderia mesmo avançar, porque naquela altura, quando se dá o 25 de Novembro, havia armas nos partidos. Nos partidos da extrema-esquerda, nos partidos do centro, no PS, no PSD, o PS, o Edmundo Pedro, coitado, bastante pagou por ter feito esse serviço ao partido. No PSD também havia armas, o Emídio Guerreiro durante o Verão Quente tinha arranjado muita negociação pra ter armas, ele disso sabia, e havia armas por todo lado. E nós não sabíamos se podia dar uma coisa armada. Nós que estávamos lá dentro, o que achávamos, e quando eu digo nós é PS, PSD, CDS, estávamos em constante conversação. O nosso grande receio era que houvesse uma tentativa de fazer o chamado assalto ao Palácio de Inverno, ou seja, que aqueles manifestantes entravam pelo Parlamento adentro e impediam-nos de fazer a Constituinte e portanto acabava o processo. E a combinação era: nós vamos tentar sair daqui, vamos todos pro Norte, vamos fazer a Constituição em qualquer sítio, porque a Constituição não é o local, são os deputados, somos os eleitos, e vamos prosseguir os trabalhos da Constituinte, seja onde for, mas vamos fazê-lo, porque temos esse poder, somos eleitos pra isso e temos que o fazer. E era esta a combinação. As horas passam, o Costa Gomes não avança.

E os deputados do PCP, percebeu logo que eles estavam com uma atitude mais facilitosa.

Lá vai mais um pormenor picaresco. Estas coisas são parvas, mas aconteceram. Eu devia ser um bocado inconsciente, era miúda e tinha uma certa lata. E a uma certa altura, nós tínhamos um deputado muito velhinho, que era o Olívio França, que estava se a sentir mal. E alguém nos veio dizer que no gabinete do PCP havia frango. E eu: "Vamos lá pedir frango pro Olívio França", e vem uns quantos atrás de mim, acho que vieram também guardas da Assembleia. Vamos um pequeno grupo atravessar os Passos Perdidos em direção ao gabinete do PCP, e o que eu me lembro? Veja bem se isto passa pela cabeça de alguém. No meio daquela confusão, no meio da noite, lembro-me de começar a cantar: "Eles comem tudo, eles comem tudo, eles comem tudo e não deixam nada". E a malta a cantar comigo. Isto é surreal. Mas passou-se. Lá chegamos ao gabinete.

A cantar?

Claro. Mas eles receberam-nos bem, deram o frango pro França.

Havia mesmo frango?

Havia. Tanto que depois, no dia a seguir... Isto foi assim. Entretanto, eu estava um bocado angustiada, porque ainda por cima a minha segunda filha fazia cinco anos naquele dia e portanto ficou sem festa de anos. E eu pensava: "Coitada da miúda, fica sem festa. Eu estou aqui, o meu marido está em casa, ainda bem que está lá, toma conta delas, mas como é que isto vai ser?" A nossa preocupação: como é que a gente se organiza? Estávamos já a mobilizar quem é que tem carro, quem é que não tem, quando a gente sair daqui, zarpamos. E entretanto, lá conseguem um acordo, consegue-se um acordo, uma cedência por causa de um pagamento, umas horas, não sei o quê, do pessoal da construção civil. Eu penso que aí também houve parte importante de trabalho feito pelo Melântio de Almeida e pelo próprio Cunhal Há ali uma negociação entre os dois, que é presenciada pelo Nuno Brederode Santos, que permite que se chegue a acalmar isto. Há um recuo estratégico do PCP para desmobilizar aquilo e há um compromisso do Melo Antunes a defender a permanência do PCP. É assim que aparece depois o Melo Antunes a declarar na televisão: "o PCP é indispensável à democracia portuguesa". Tem por trás esta história. Lá se consegue desbloquear a coisa. No dia seguinte, às 15h, lá saímos.

Saíram no meio daquele corredor.

Sim. Ainda dei um safanão numa máquina fotográfica de algum. Coitado do jornalista, que não tinha culpa nenhuma, mas a gente vinha de lá dentro tão irritados. E o Raúl Rêgo à minha frente, dando sapucos ao pobre do Raúl Rêgo, coitadinho, que era muito pequenino, a ser aveiado. Foi uma coisa humilhante. Mas pronto. Agora vem o episódio parvo disto tudo. Metemo-nos no carro, vamos para o norte. Carro com o Cunha Leal, vamos para o norte. Vamos para o norte, não havia autoestrada até ao Porto, vamos pela estrada do norte. Passava na Mealhada. Já agora vamos comer. Estas horas todas sem comer. A gente entra na Mealhada, estava cheia de deputados. Todos tiveram a mesma ideia. Saíram do cerco cheios de fome e foi tudo para a Mealhada. Isto é caricato, mas a revolução foi feita destas coisas, foi feita de episódios super dramáticos, como isto foi. E ao mesmo tempo de descompressões assim. O leitão da barrada era ótimo para nos ajudar a descomprimir. Ficámos no Porto, depois mobilizou-se uma grande manifestação, os outros também mobilizaram uma grande manifestação em Lisboa. Começou a guerra das manifestações, outra vez. E depois aquilo desbloqueou-se. E a primeira vez que a assembleia reuniu a seguir, foi no dia 18 de novembro, o PPD pede-me a mim para ir fazer o discurso. Eu faço o discurso mais violento que eu já tinha feito na vida. E é um dos tais que gera pandemónio. Cada frase, gritaria. Depois pandemónio, mas depois lá consegui acabar o discurso. Mas o discurso ainda mais duro que o meu, nesse dia, foi do Sottomayor Cardozo. Tal. Era absolutamente implacável.

Sim, ele era um dos grandes oradores do período de antes da ordem do dia.

Nesse dia, implacável. Eu fiz uma coisa mais emocional, mas muito aguerrida. A tal imagem que eu tinha de ser a menina que fazia esses discursos nas coisas. E fiz, está feito. O que é que eu ia fazer?

Isto ao mesmo tempo, no partido.

No verão quente, o Emídio Guerreiro foi substituir o Magalhães Mota.

Participou nessa escolha também, de alguma forma?

Não, foi ao contrário. Já não sei quem é que o escolheu. Sei é que eu e o Marcelo fomos escolhidos para sermos adjuntos dele.

Mas isto porque Mota Pinto recuou. Apoiava Mota Pinto e Mota Pinto recuou.

Já não sou capaz de lembrar.

Mas depois as coisas também não correram muito bem com o Emídio Guerreiro.

Porque o Emídio Guerreiro era um tipo muito aventureiro. Era um tipo muito corajoso, mas muito aventureiro. E a gente já estava metidos numa boa de uma aventura e não precisávamos de mais. Eu lembro-me do Marcelo e eu a convencê-lo que não fosse como ele queria. Depois do boicote que o Marcelo tinha tido, ele queria cair de paraquedas na Praça Torres de Beja. Ele diz que ia de paraquedas cair lá e que eles tinham que ouvir. Claro que não foi, mas tinha sim estas ideias.

Umas ideias fantásticas.

Mas era um personagem romântico e aventureiro.

E passava muito tempo a contar as memórias da sua vida.

Sim.

Isto também complicava um bocadinho a organização. Quando se dá a aprovação da Constituição, também há um relato que eu gostava que te escrevesses. Foram festejar, o PPD, um jantar na Chopana.

Não me lembro de nada disso.

E que terá dançado com o Sá Carneiro no baile de abertura desse jantar.

Não me lembro de nada disso. Lembro do Sá Carneiro dançar com a Natália Correia no Botequim, mais tarde, quando ela entrou, mas comigo, essa parte já se apagou. Não marcou, pelos vistos.

Mas e a aprovação da Constituição?

A aprovação da Constituição é um daqueles dias em que uma pessoa se sente reconciliada com estar viva e ter feito isto, ter podido fazer isto. Uma grande admiração pelo presidente, o Henrique de Barros. A ele se deve grande parte da capacidade daquele Parlamento chegar ao fim com uma coisa bem feita. Tão bem feita que ainda resiste. Já teve alguns arranjos, mas é a mais longa Constituição portuguesa. Portanto, é extraordinariamente importante ter-se conseguido isto num ambiente tão tenso, tão conflituoso, tão difícil e, no entanto, o resultado ser tão durável. É um paradoxo isto. É o facto de termos todos a sensação que isto era uma página nova da história e nós queríamos ficar bem na fotografia. Tínhamos uma responsabilidade direta nessa página nova e portanto tínhamos que dar o nosso melhor.

Havia aquela sensação de estar a viver também um momento histórico, não é?

Que é uma sensação única, perceba, é uma sensação única da pessoa dizer: "pronto, tantos anos que esperámos por isto, agora está na nossa mão, está mesmo, fisicamente na nossa mão, portanto temos que fazer isto bem". Foi uma festa. Foi um privilégio ter vivido esses tempos e foi um privilégio ter podido dar a minha pequeníssima quota-parte num artigo da Constituição.

Helena Roseta, muito obrigado por terem vindo ao nosso programa.

Muitíssimo obrigada.

Voltamos na próxima semana. Até para a semana.