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E tínhamos estado todos na Guiné sob o comando do Spínola. Eu tenho todas as críticas em termos políticos ao Spínola, mas eu nunca deixei de reconhecer que o Spínola foi um homem que, como meu comandante-chefe na Guiné, eu estive num batalhão na Guiné com ele, na Fronteira Sul, numa zona difícil, e o Spínola foi um comandante. Eu senti que eu tinha ali um comandante. Depois, em minha opinião, como presidente da República, foi de facto muito mau, foi um desastre.
Olá, bem-vindos ao "A Vida em Revolução". Eu sou Rui Ramos, historiador, e comigo está o Pedro Jorge Castro, jornalista. "A Vida em Revolução" é um programa em que vamos falar com pessoas que viveram a revolução em Portugal em 1974 e em 1975, para tentar perceber como foi o seu cotidiano nesses tempos de mudança e de confronto político, e o que pensam hoje, 50 anos passados, sobre essa experiência.
O convidado desta semana é o general Pedro Pesará Correia, que foi membro do Conselho da Revolução, comandante da Região Militar Sul, mas apanhou o 25 de Abril em Angola. Rui, o que é que destacamos dessa conversa?
Além daquilo que ele tem para nos dizer sobre Angola, nos meses imediatamente a seguir ao 25 de Abril, ele faz parte da comissão coordenadora do MFA em Angola, é um participante nesse processo. Depois tem toda a sua experiência da revolução em Portugal e creio que tem coisas muito interessantes para nos dizer sobre as personalidades dos militares, pessoas que ele conheceu, o Vasco Gonçalves, Mello Antunes, Otelo Saraiva de Carvalho, alguns amigos dele, de quem ele teve de se separar, nalguns casos, de se afastar. E depois da sua experiência na Região Militar Sul, no Alentejo, uma das zonas mais agitadas pela revolução em Portugal em 1975, e em que ele, como comandante da região militar, se confronta com todos os problemas que existem naquela região, entre os quais um comício que uma força política ou uma organização social quer realizar, a CAP, em Marvão, e que é impedido pelas forças contrárias, e são os militares que têm de resolver isso. É um problema que eu acho que ele nos dá muito bem a ideia do que é o estar confrontado com tentar resolver questões que podiam ter terminado de uma maneira muito mais trágica e que com um pouco de habilidade, também de sorte, acabaram por ser resolvidas de uma maneira mais pacífica.
Vamos então ouvir este depoimento fascinante de Pedro Pesará Correia.
Ora, boa tarde. Muito obrigado por estar aqui, o senhor general Pedro Pesará Correia. Nós podemos começar por 1974, o 25 de Abril. Está em Angola, está no Luso, não é?
Na altura, cidade do Luso, exatamente.
Na cidade do Luso. Como é que soube que tinha acontecido a revolução em Lisboa e já tinha informações que iria acontecer qualquer coisa, não era?
Sim, senhor. Exatamente. Vamos falar de memórias há 51 anos com uma pessoa que está a atingir os 93. Cuidado com os lapsos de memória, mas eu vou procurar não haver lapsos de memória. Eu vou pra Angola em 1973, iniciar a minha sexta comissão nas então colônias, chamadas províncias ultramarinas, segunda em Angola. Vou em 73, quando o que viria a ser o Movimento dos Capitães estava nas suas origens, digamos assim. Eu já era major na altura, aliás, já era major com alguns anos de major. Já tinha feito, antes disso, uma comissão como major na Guiné, depois já tinha estado aqui no intervalo entre as duas comissões, portanto, eu já era major em processo já de promoção a tenente-coronel, ia fazer a minha sexta comissão. Ia com destino definido, porque eu sabia que ia para o leste de Angola, para o Luso, onde estava o quartel-general da Zona Militar Leste. A Zona Militar Leste praticamente era uma zona militar que era metade de Angola. Se nós quisermos passar o meridiano por metade de Angola, norte a sul, era toda a zona a leste, portanto, a zona não atlântica. Mas eu quando vou pra Angola pra esta comissão, vou em maio, junho de 73. Maio, junho de 73 estava aqui a começar o quê? A contestação ao Congresso dos Combatentes. O Congresso dos Combatentes foi quando, dentro das fileiras da ala do partido único do poder, que era a Ação Nacional Popular, ANP, começou a haver algumas dissidências. Foi à ala liberal e mesmo dentro do próprio partido começou a haver alguma contestação à guerra colonial. Começou a haver na ala liberal, do Sá Carreiro, Pinto Balsemão, Miller Guerra, etc. Um dos problemas era o problema da guerra colonial. O Pedro Pinto Leite, que morreu no desastre de helicóptero na Guiné, era o problema da guerra colonial. E então os ultras do sistema, que contestavam o Marcelo Caetano pela direita, começaram a sentir que o Marcelo Caetano começava a dar alguns sinais de hesitação perante o problema da continuação da guerra. E começava a haver alguns sinais da própria estrutura militar. O Spínola começava a entrar em dissidência. E a pouco e pouco, em 1973, o próprio Spínola chegou a falar nisso, começava-se a pensar que ia haver uma nova Índia, pelo menos começar na Guiné, e os responsáveis mais uma vez iam ser os senhores militares. Ora bem E o Congresso dos Combatentes é exatamente uma pressão dos ultras no sentido de levar o governo de Marcelo Caetano a intensificar e a empilhar-se mais decisivamente na manutenção da guerra. E esse congresso, que vai ser feito e que acabou por ser feito só em 30 de junho ou coisa assim.
Sim, no Porto, exato.
Começa a ser contestado do interior das próprias Forças Armadas. E quando eu vou pra Angola nessa comissão, estava-se nas vésperas do Congresso dos Combatentes, um mês antes, talvez. Eu estava aqui em contacto já com um grupo de camaradas que estavam a preparar a contestação ao Congresso dos Combatentes. E quando eu embarco pra Angola, quem eram os meus contactos aqui, que eram os homens da minha geração, e eram os meus contactos que aqui estavam, eram homens do meu curso, como era o Carlos Fabião, o grande Carlos Fabião, meu grande amigo, era o Firmino Miguel, também um homem conhecido, que éramos do mesmo curso, e tínhamos estado todos na Guiné sob o comando do Spínola. Evidentemente que eu tenho todas as críticas em termos políticos ao Spínola, mas eu nunca deixei de reconhecer que o Spínola foi um homem que, como meu comandante-chefe na Guiné, eu estive num batalhão na Guiné com ele, na fronteira, numa zona difícil, e o Spínola foi um comandante. Eu tinha ali um comandante. Nunca me senti tão confiante no comandante supremo que eu tinha em zonas de operações como me senti na Guiné. Cheio de defeitos, é verdade, mas comecei também a aperceber-me da dissidência que a pouco a pouco se foi criando entre o Spínola e o sistema. Eu não era propriamente da entourage do Spínola, mas era um homem que reconhecia que o Spínola podia ter um papel. E pra mim, naquela altura, o papel era derrubar o regime. Eu já vinha a fim de conspirações desde muitos anos anteriores, desde Humberto Delgado, etc. Eu era porque era de derrubar o regime. E eu estava a sentir que o Spínola naquela altura poderia ser o novo Humberto Delgado, se bem que com personalidades completamente diferentes. E nós tínhamos até aqui uma malha organizada, que o Spínola quando vinha, tinha sempre uma grande massa de oficiais que o iam esperar ao aeroporto e que depois se iam despedir dele no aeroporto. Isto pra quê? Numa altura em que já havia o Spínola em dissidência, dar uma amostra, uma imagem de que aquele homem tinha apoios, isto é, que a dissidência tinha apoios. Não era propriamente o Spínola, que era: a dissidência tinha apoios. Ora bem, e é um bocadinho neste grupo que nasce a contestação ao Congresso dos Combatentes. E assim se faz, depois aquilo alargou-se muito aqui e acabou por envolver muita gente nova daqueles que depois tiveram papel importante no Movimento dos Capitães, mas que já é a segunda fase, porque eu considero que tudo que veio a dar no 25 de Abril tem três fases. A fase primeira, que é a fase da contestação ao Congresso dos Combatentes, a fase segunda é o Movimento dos Capitães, e depois a fase terceira, que é o MFA. E o MFA só vem depois da Brigada do Reumático e da demissão do Spínola e do Costa Gomes, porque o Spínola e o Costa Gomes tinham sido escolhidos pelo Movimento dos Capitães como os seus líderes. Enquanto era o número dois da hierarquia, não havia golpe de Estado, porque um golpe de Estado contra o governo também é um golpe de Estado contra a hierarquia militar. E a hierarquia militar, o número dois era o Costa Gomes e o Spínola, que eram os escolhidos pelo Movimento dos Capitães como seus líderes. Portanto, nós esperávamos era que eles fizessem alguma coisa. E quando chego ao Luz, chego exatamente na véspera do início do Congresso dos Combatentes. E tenho então, no correio, uma carta do Fabião em que mandava a baixo-assinada para receber assinaturas da contestação ao Congresso dos Combatentes.
Na véspera.
Na véspera. E eu diria: "Acabei de chegar". Eu não conhecia lá ninguém, praticamente. E então, no primeiro briefing que havia de manhã no quartel-general, eu fui tentar ver quem é que lá estava. E detetei três ou quatro camaradas daqueles que eu conhecia, que eram do meu tempo e em quem eu tinha confiança. De maneira que o meu primeiro gesto ao chegar ao meu destino, foi um gesto conspirativo, foi no primeiro intervalo, eu chamar esses camaradas, reunir com eles e dizer: "Está a se passar isto em Lisboa, vai se fazer o congresso". "Ah, sim, a gente sabe". "Nós estamos a preparar uma contestação, vocês querem?" E eles, pronto, ficaram a contestar. Resultado, eu fui dali pro correio, às Luz, foi meu primeiro trabalho, mandar um telegrama pro Fabião, dirigido ao Fabião: "Congresso dos Combatentes, contas com a solidariedade de fulano, fulano, fulano e fulano". Éramos quatro majors que ali estavam.
O envio desse telegrama ainda foi um risco, podia ser interceptado pela censura ou pelo PIDE.
Podia correr riscos, era evidente que isto era um ato de insubordinação e era um ato que-- mas a gente estava numa altura, riscos piores eu já tinha corrido muitos na mata e por causas que me eram muito menos agradáveis. Entretanto, venho pro Luz e quando chegamos aí a setembro, eu fui fazer uns dias de férias, e fui a Luanda fazer uns dias de férias. Levei a família. E é quando vou a Luanda fazer uns dias de férias que estava em marcha o Movimento dos Capitães. Mas como eu estava na MS, em contacto com imensos camaradas, apercebo-me que ia haver uma reunião de capitães num hotel, o Hotel Continental, ia haver ali uma reunião.
Em Luanda, portanto, uma reunião de capitães em Luanda.
Ali no salão do hotel, ia haver ali uma reunião de capitães Eu calculei que aquilo me vinha interessar. Não disse nada a ninguém, disse só à minha mulher: "Olha, eu depois de jantar vou sair, vou lá baixo". "Está bem". E é claro, quando chego cá baixo ao hotel, vi que lá fora havia uma data de militares. Todos se conheciam, a gente conhecia uns aos outros. Eles quando me viram aparecer, estava um grupo de capitães, aparece um major já com 40 e tal anos, já velhinho. Um major. E aquilo, como era um meio de capitães, eles ficaram assim um bocadinho: "O que é que este homem vem cá fazer?" Eu disse: "Olha, eu sei que vai haver uma reunião, penso que o assunto que vocês vão tratar, que é do meu interesse, queria saber se posso assistir". "Sim, senhor". Como era o único major, fui presidido à mesa, logo. Era uma marca de mal. A hierarquia militar tem marca. Deram logo: "Sim, senhor". Presidi à mesa, o Movimento dos Capitães estava em marcha. Era o problema dos decretos, era um problema eminentemente corporativo, mas de qualquer maneira tinha a sua contestação e tínhamos já para trás, é preciso não esquecer, a contestação ao Congresso dos Combatentes, e aí que tinha uma conotação política clara, porque não só o Congresso dos Combatentes era uma contestação, portanto, era uma quebra de disciplina, mas era um problema ligado à guerra colonial. E como sabe, a guerra colonial era tabu, não se falava na guerra colonial. No Congresso dos Combatentes, foi publicado o tal abaixo-assinado, que eram 400 e tal oficiais do quadro permanente, que contestavam e que diziam que não se consideravam representados pelas conclusões que viessem a sair daquele congresso. Isto tem um significado político claro. De maneira que isto já se tinha passado e o Movimento dos Capitães, se bem que fosse na altura por um movimento que tinha a ver com as carreiras dos militares do quadro permanente, porque havia militares que vinham de milicianos e que os iam ultrapassar, a criação de um quadro especial de oficiais. Mas de qualquer maneira, era o problema da guerra que estava ali também.
Mas isso foi discutido abertamente nessa reunião? A guerra mesmo, a questão da guerra?
Não. Eu não quero muito falar aqui no meu papel pessoal nestas coisas, mas aqui é importante falar e tenho que abrir uma exceção. Eu estava a presidir à mesa e estavam ali numa troca de informações. Camaradas que tinham vindo de Lisboa, vinham contar o que se estava aqui a passar, o que se tinha passado em Alcáçovas, o que se tinha decidido, continuar o movimento, receber assinaturas, etc. Abaixo-assinados. O que se devia fazer, e estávamos numa informação. E debitava-se informação, intervenções mais ou menos atrevidas. Eu fui ouvindo. E quando cheguei ao fim, eu disse: "Eu gostava de vos dizer qualquer coisa". "Sim, senhor, o major". Era hierarquicamente ali o superior. E eu limitei-me a dizer uma coisa muito simples. Eu disse: "Vocês como sabem, o problema que vocês estão aqui a debater não me afeta diretamente. Eu já sou major, portanto, não sou afetado por esses decretos, mas estou com vocês, eu reconheço as vossas razões, portanto, têm a minha solidariedade. Mas eu queria deixar-vos aqui um aviso de um mais velho, que anda nisto há muitos anos, que está aqui na sua sexta comissão, a maioria de vocês estava na primeira, na segunda". Quer dizer, vocês falam aqui muito do problema do prestígio, que isto afeta o prestígio dos militares. Eu creio que vocês estão aqui num equívoco. O prestígio dos militares tem a ver com outra coisa. E enquanto a gente não resolver o prestígio dos militares perante a sociedade, não se resolve. É que a sociedade olha para nós como o suporte de um regimento político que a sociedade detesta. Enquanto nós não nos demarcarmos, não dermos pelo menos a entender que nós não somos suporte deste regime, não tenham nenhuma ilusão de recuperar o prestígio. Eu confesso que fiz esta intervenção um bocadinho receoso. Para minha surpresa, foi extremamente bem recebida esta intervenção.
E mais uma vez, um grande risco.
Quer dizer que as pessoas estavam recetivas. O movimento ainda não se tinha organizado em termos de fazer o golpe de Estado militar, mas já havia vozes isoladas que diziam que isto só vai à porrada. Mas de qualquer maneira, a politização do movimento estava em marcha. E isto foi extremamente bem recebido. O movimento decorre aqui em Portugal. Elege-se uma comissão coordenadora do movimento em Luanda, como havia aqui, uma comissão em Luanda. Eu queria ao que eu pertencesse. Eu disse: "A comissão coordenadora tem que ser constituída por gente que está em Luanda. Eu estou lá no Luso. Vocês contam comigo, mas eu no Luso vou procurar dinamizar isto no Luso". E assim fiz, e fui dinamizando no Luso. E aqui, dá-se depois o problema das Caldas, dá-se o Golpe das Caldas.
16 de março de 74.
16 de março. E nós quando foi o Golpe das Caldas em Luanda, ficamos sem informação. Eu então no Luso fiquei sem informação nenhuma. Ficamos sem informação. Eu escrevo rapidamente aqui para o Fabião, o Fabião estava aqui, a perguntar ao Fabião o que se passa, que era aqui uma das peças da minha ligação, e o Fabião responde só a dizer: "Olha, eu também já não sei porque já estou exilado em Braga". O Fabião tinha sido mandado para Braga. Eu estava, confesso, um bocado receoso depois das Caldas, mas comecei a receber uns sinais de que aqui não se tinha baixado os braços e que a coisa ia prosseguir. No dia 24 de abril, eu vou a Silva Porto. Silva Porto era outra cidade mais para o litoral, mas na linha de caminho de ferro também, hoje o Cuito, onde havia ali um comando de setor. Eu tinha lá tropas auxiliares e havia lá uma cerimónia qualquer numa das unidades e eu fui para assistir. Eu costumava ficar em casa de um camarada meu, um amigo, que era um homem até mais velho que eu, mas era um homem democrata também Enfim, da conspiração já há muitos anos. E eu ficava em casa dele e neste dia eu fui em casa dele e ele: "Tenho aqui uma coisa para te mostrar". E ele tinha acabado de receber uma carta da mulher em que lhe mandava, escrita à mão, o manifesto Movimento das Forças Armadas e a Nação, que é aquele documento anterior ao programa do MFA, que tinha sido aprovado na reunião de Cascais de 5 de março. E a verdade é que nós, pelo menos eu, e estrutura do Movimento dos Capitães em Luanda, não tinha recebido o documento. Portanto, a ligação tinha se cortado. E eu recebo aquilo por via particular. E recebo por via particular, por quê? Porque este homem era muito amigo do Melo Antunes e a mulher dele era amiga do Melo Antunes, e foi através da mulher dele aqui que o Melo Antunes entregou o documento e que mandou para o marido. E eu estive ali depois, eu e ele, durante a noite, a passar à mão o documento pra eu no dia seguinte levar para o Luz. Porque aquilo era um documento muito avançado, até era um documento mais avançado que o próprio programa do MFA, em que falava do direito dos povos das colônias à independência e autodeterminação. Então passamos aquilo para eu levar para o Luz. Só que no dia seguinte era 25 de Abril, e eu ainda estou em Silva Porto.
Como é que lhes chegou a notícia?
Já agora, é interessante saber. Eu no dia seguinte, de manhã, dia 25, a cerimônia era fora de Silva Porto, eu ainda tinha que ir num avião teco-teco. Eu, aliás, ia com outro oficial para as cerimônias, e no regresso, a pista da aviação de Silva Porto era um bocadinho afastada da cidade. Eu tinha lá um jipe à minha espera no aeroporto, e no regresso do jipe, eu passava sempre, havia ali uma unidade, que era a unidade de cavalaria, os dragões de Angola, uma unidade de cavalaria que estava no trajeto pra cidade. O comandante lá da unidade era meu amigo, e eu quando ia a Silva Porto, ia sempre lá beber um copo com ele, trocar umas palavras. E eu quando chego, vou ao gabinete dele e o tipo diz-me assim: "Olha que se está a passar qualquer coisa em Lisboa". Eu digo: "O quê?" Já não bebi nada, meti-me logo no carro e vim pra casa do meu amigo, que tinha recebido o manifesto, e eu perguntei-lhe: "O que está a passar?" E ele: "Há qualquer coisa". Vamos pra casa dele e fomos tentar sintonizar o rádio pra ver o que estava a passar. E conseguimos apanhar uma estação em francês, eu creio que era uma estação grega, já nem me lembro. E começamos a ouvir, e às tantas conseguimos ouvir e ficarmos descansados, porque a gente na altura não sabia se era uma causava, se era o nosso golpe. Mas às tantas, ouvimos o comunicado do Movimento das Forças Armadas. Quer dizer, houve uma notícia qualquer que nos tranquilizou. Resultado, venho depois para o Luz no dia seguinte, e a minha mulher à minha espera na estação com a minha filha.
Já sabia a mulher também? Ela já sabia?
Nessa altura, a gente já sabia. Então não se sabia bem o que era, mas já se sabia que o governo tinha sido derrubado, etc.
Festejaram? Festejou?
A minha mulher sabia como é que eu pensava, e ela também pensava comigo, de maneira que foi ali uma receção extremamente solidária. Vocês se quiserem, eu vou vos contar um episódio, que é um episódio curioso, que mostra um bocadinho o que era o ambiente, o contexto daquela época. Mas primeiro, eu regresso ao Luz, estava lá ainda o comandante da zona, que era general, um general de três estrelas. Estava o comandante da zona. Só que o comandante da zona depois foi daqueles que foi saneados. Os generais foram quase todos saneados e portanto veio-se embora passado dois ou três dias. Mas foi aqui em Lisboa que o sanearam. Não fomos nós lá, foi aqui. O general era um general que eu já conhecia há bastante tempo. Não era um homem que eu tivesse especial simpatia, mas era um homem cumpridor. Mas então o que é que se passa? Ele era comandante, havia no quartel general uma repartição, que era a repartição de assuntos civis e ação psicológica, que em todos os quartéis-generais havia, e publicava um boletim informativo para ser difundido mensalmente pras suas unidades. Era, digamos, o jornal mensário do quartel general e que difundia notícias. Ora bem, dois ou três meses antes, tinha sido publicado o livro do Spinola. O livro do Spinola, o Spinola era vice-chefe de Estado-Maior das Forças Armadas, era, portanto, o número dois, publicou o livro "Portugal e o Futuro". O livro é publicado, há uma série de notícias sobre a publicação do livro, e então na altura, o chefe dessa repartição publicava o jornal, foi lá despachar ao general e disse: "General, há aqui o livro do general Spinola, este tem estas contingências, como o general sabe. Mas ele é o vice-chefe de Estado-Maior General, queremos aqui publicar uma notícia sobre o livro". "Faça lá a notícia, traga-me a notícia". O homem lá escreveu a notícia, leva ao general, o general lê a notícia, não sei se alterou. Diz: "Sim, senhor. Publique-se". E aqui ele ia publicar, e entretanto, dá-se aqui os 16 de março e a demissão do Spinola. O general manda chamar o chefe da repartição. "Albuquerque, o jornal já está publicado?" Ele diz: "Não, general, não está pronto." "Então, o artigo sobre o general Spinola não publique. Albuquerque, não publique. Não publique." Ele tinha sido metido, "Não publique". "Sim, senhor". Mas quando ele ia a sair, o general diz: "Albuquerque, não publique, mas não rasgue". Ele como que teve a premonição de que aquilo, se calhar, ia dar uma volta. Mas ele não tinha nada a ver com a conspiração. Prosseguindo, depois, passado dois ou três dias, ele é saneado, é substituído pelo Pelo brigadeiro, que era comandante de setor e era até governador do distrito, que era um homem que eu conhecia muito bem, de quem eu era amigo e que tinha uma particularidade, que ele nem sabia. Ele era pai de um dos homens principais do movimento aqui, e que estava aqui, que se conspirou na casa dele. Vocês já ouviram falar, que era o capitão Macedo. O capitão Macedo foi o adjunto do Otelo na preparação da ordem de operações. Foi o homem que estava colocado na pontinha, engenharia um, ele era capitão de engenharia, foi o homem que preparou o posto de comando, preparou tudo. E que depois esteve no gabinete de Vaz Gonçalves, era um homem que foi um colaborador muito direto de Vaz Gonçalves e era filho desse brigadeiro Macedo, de quem eu era muito amigo, porque eu tinha sido adjunto dele aqui em Santa Margarida, quando eu estive em Santa Margarida e ele era o chefe de repartição. Dei-me muito bem com ele. E acontecia que este rapaz, este capitão Macedo, na altura em que eu tinha estado em Santa Margarida com o pai, ele era aluno do Colégio Militar, onde eu também tinha sido aluno, chefe de baliação no Colégio Militar, e ele era naquela altura aluno e às vezes ia lá a Santa Margarida ao fim de semana. Eu gostava de ver o miúdo. Era um miúdo bem disposto, desembaraçado. Veio depois até a ser comandante de batalhão no Colégio Militar, depois no último ano, o aluno mais classificado e mais distinto é o comandante de batalhão. E esteve aqui completamente envolvido, houve várias conspirações na casa do pai, com o pai em Angola, sem saber o que se passava. E depois dá-se um caso que me atingiu muito, porque eu gostava muito dele, do rapaz. E em determinada altura, nós estamos ainda no Luz, isto passa-se nos finais de abril, e recebemos uma mensagem do quartel-general em que dizia assim: "Está aqui um capitão do MFA que vem de Lisboa, anda aqui a procurar explicar o que se passou. Ele vai aí ao Luz estar com vocês no dia tal". E nós preparamos as coisas para uma reunião com toda a gente a receber o capitão do MFA. Quando eu estou lá na mesa, na sala à espera que o capitão venha, quando me aparece é o capitão Macedo. Aproveito que tinha lá o pai também. Quando vi o Macedo: "És tu?". Foi um momento extremamente forte, porque foi sempre um moço de quem eu fiquei muito amigo. E o Macedo fez ali o primeiro esclarecimento que nós recebemos. E passado dois ou três dias, nós do Luz, o jornal tinha sido saneado, o brigadeiro Macedo tinha assumido o comando da Zona Militar Leste. Isto passa-se logo nos princípios de maio. O Costa Gomes vai à Angola e Moçambique com o Otelo e levava com ele o novo comandante-chefe para Angola, o general Pinheiro, porque o comandante-chefe que lá estava tinha sido saneado, o governador tinha sido embora, iam os novos órgãos de comando. E o general Costa Gomes, que tinha estado em Angola uns anos antes, tinha sido comandante-chefe, leva o novo comandante-chefe, o general Franco Pinheiro. O homem foi empossado e no dia seguinte eu recebo uma mensagem do Luz: "Major Bezerra Correia, apresente-se imediatamente em Luanda". Fiz a mala, a minha filha ainda lá estava, ia acabar a quarta classe, ia fazer a quarta classe, ainda tinha que lá ficar. Eu disse: "Venham vocês depois ontem comigo, eu vou pra Luanda, chamaram-me, não sei o que é". Quando cheguei lá, o que é que se tinha passado? O general Franco Pinheiro, novo comandante-chefe, queria formar o gabinete do MFA. Queria ser aconselhado por um gabinete do MFA. E reuniu-se com as estruturas do Movimento dos Capitães e do MFA que havia do antecedente. E quando lhe expôs o problema, eles disseram: "Meu general, mande vir o major Bezerra do Leste, que é a pessoa que tem que ficar aqui, que tem que coordenar esse trabalho". Tudo isto consequência de quê? Da minha intervenção naquela reunião.
Sim, naquela reunião do Otelo.
Eu depois mantive ligação com eles, mas aquela intervenção fez com que depois todos os camaradas que estavam em Luanda, quando foi preciso constituir o gabinete do MFA, dissessem ao general: "Mande vir fulano". E é assim que eu entro no movimento. Quer dizer, eu já estava no movimento, mas que eu passei a assumir responsabilidades dentro do movimento. Depois Angola foi aquele turbilhão que se sabe.
Logo nos primeiros momentos, não têm indicações ainda de Lisboa sobre o que é que vai acontecer à Angola? Quer dizer, ainda não há decisões. Decidem no local tomar a iniciativa, porque se cria uma espécie de vazio das próprias Forças Armadas, na sociedade civil angolana.
Não, naquela altura, às tantas o gabinete do MFA começa a ser a válvula de escape para tudo. Primeiro, porque os próprios militares, os oficiais dos órgãos institucionais, dos quartéis-generais, dos comandos, etc, estava tudo um bocado desestabilizado. Quem é que manda? A primeira preocupação que nós tivemos era: o comandante é o general comandante-chefe. Nós não vimos aqui usurpar poderes de ninguém. Nisso tivemos sempre uma preocupação, porque a primeira coisa que eu tive que fazer foi depois promover eleições para constituir a primeira comissão coordenadora do MFA.
Como é que foram essas eleições?
As eleições foram na base do pessoal que estava em Luanda, fundamentalmente.
Sim.
O pessoal que estava em Luanda.
Reuniam-se.
Reuniram em assembleias e acabaram por nomear os homens que eram mais conhecidos, que eram mais populares. Quer dizer, no exército, de uma maneira geral Teve várias circunstâncias engraçadas. No exército foi o ramo em que houve mais participação na comissão dos capitães. Portanto, foram alguns daqueles homens que tinham sido mais ativos no movimento dos capitães. A Força Aérea e a Marinha entraram tarde naquilo, de maneira que a primeira comissão coordenadora que se constituiu acabou até por ser uma comissão coordenadora bastante conservadora. Mas, de repente, nós começamos a confrontar-nos com uma quantidade de problemas em que iam todos convergir com o general, e o general depois era nós que o chamava, porque a estrutura de aconselhamento dele, aliás, foi por isso que ele quis constituir o gabinete do MFA, foi exatamente para a ligação à sociedade civil. E depois começaram a surgir greves por todos os lados, e começaram a surgir contestações, e começaram a surgir problemas entre brancos e pretos, e depois era o problema das PIDs, era o problema do jornalismo, a liberdade de imprensa, quer dizer, os problemas eram montes deles. E vinha tudo para a comissão coordenadora. Tudo ia cair na coordenadora. Isto é, o próprio general despedia. Qualquer problema chamava-me imediatamente: "Vamos resolver isto". É claro, aquilo foi realmente apaixonante, mas de uma intensidade e exigências, porque depois já sabem como é, nestas coisas depois também começam a surgir os desencantos, e os tipos são se aproveitar. Um dos homens, por exemplo, da Força Aérea, que era um homem que estava ali há muitos anos, era um piloto, que ele nem era da academia militar, mas era um piloto daqueles que vinha de oficial miliciano. Era o célebre Rock, mas que era um piloto extraordinário, conhecia a Angola toda por inteiro. Mas era um homem muito ligado à sociedade branca, civil de Angola, clubes de caçadores. Mas como era muito popular, foi eleito para a comissão coordenadora, não tinha nada a ver com o MFA, não tinha nada a ver conosco. Mas as coisas começam a andar e nós começamos a perceber que o problema colonial estava com muita dificuldade de solução, porque aqui o Spínola tinha conseguido exigir, na própria noite do 25 de abril, a alteração ao programa do MFA, em que tirou aquela alínea fundamental, que era a alínea que vinha do tal manifesto, que é o reconhecimento do direito dos povos das colônias à sua autodeterminação e independência. E o Spínola conseguiu retirar. Isto fez com que os movimentos de libertação ficassem em dúvidas, era o que eles diziam. Disseram depois mais tarde: "Já sabemos, vai ser liberdade para os portugueses, mas para aqui democracias que são grandes ditaduras nas colônias, já a gente conhece há muitos anos". Bom, resultado, a guerra intensificou-se. A guerra intensificou-se. Nas três colônias, a guerra intensificou-se. Em Angola tínhamos depois um problema acrescido, é que havia três movimentos de libertação. Enquanto que na Guiné e Moçambique era preciso negociar apenas com um movimento, em Angola havia três movimentos e que se debatiam uns com os outros, mais do que conosco. A UNITA tinha feito um acordo conosco, a Operação Madeira estava em curso quando eu cheguei ao Leste. Meados de junho, nós recebemos uma mensagem, eu, nós e o comandante-chefe, recebe uma mensagem do padre, que tinha sido já o homem que na Operação Madeira tinha servido de intermediário para a aliança do SAVIMBI com a zona militar de Leste, em que novamente o SAVIMBI, com o novo regimento de Portugal, estava disposto a negociar. O general chamou-me, diz: "Tenho aqui esta proposta do UNITA" e eu disse: "Vamos aproveitar já isso. Se a gente conseguir fazer o primeiro acordo com o movimento de libertação, é uma laçada em África". E vimos que o SAVIMBI estava sempre disposto a trair tudo. De maneira que o SAVIMBI queria ver se conseguia antecipar-se, porque era de longe o partido que tinha menos projeção em Angola, e uma antecipação dava-lhe possibilidades de depois se projetar. E assim é, ao mesmo, sim, senhor. Constituímos uma comissão em que sou eu, o Passos Ramos, ele até já era tenente-coronel, o Passos Ramos, e o Moreira Dias, metemo-nos no helicóptero e vamos às terras da UNITA. Com as devidas escoltas, já lhe conto por quê. Com as devidas escoltas, com os devidos cuidados de segurança, e vamos ter com a UNITA a sua base. A base que de acordo com a Operação Madeira, ele se tinha comprometido a estar ali e a não sair de lá. Mas a Operação Madeira, esse acordo já estava rompido há tempos. E fomos ter com ele. Estivemos com a direção da UNITA durante um dia inteiro. Até fomos nós que levamos o almoço. E como é que foi no primeiro encontro? Há sempre uma certa- Desconfiança? Há sempre um certo peso de um contexto, aquilo era uma base guerrilheira, em que aparecem ali os militares com uma escolta, portugueses, eles também com a sua escolta de segurança. E ao fim do dia trazíamos o acordo assinado. Portanto, tinham parado as operações com a UNITA, o que foi extremamente bem recebido ali pelos camaradas todos do Leste, porque ali o MPLA na altura já não tinha grandes atividades, às vezes vinha da fronteira, fazia ali umas emboscadas. Mas já agora, há aqui um outro aspecto curioso, e isto também nestas histórias convém contar algumas histórias picantes. Há vários livros que têm publicados e que têm uma fotografia em que estamos exatamente os três, ou quatro, que também está lá o padre, que fomos negociar com o SAVIMBI. Estão os três, está o Passos Ramos, está o Moreira Dias, estou eu e o padre. Estamos todos encapuzados. E se repararem nessa fotografia Só há uma pessoa que está armada, sou eu. Tenho uma Kalashnikov, era a arma deles, tenho uma Kalashnikov na mão, que era uma arma com que eu andava sempre, porque tinha uma arma que tinha sido capturada. E eu estou de Kalashnikov na mão. E as pessoas às vezes: "Por que tu estás de Kalashnikov?" E eu dizia: "Foi muito simples". Eu estava na Guiné. Lembram-se de um episódio, já devem ter ouvido falar, que foi a morte dos três majores.
Dos três majores, sim. O senhor Manjaco, não é?
Eu estava na Guiné nessa altura. E os três majores foram apanhados quando estavam em conversações. Foram completamente desarmados.
E foram mortos.
Na traição, foram apanhados, foram todos mortos à catanada, os três majores. Eu estava na Guiné na altura e era muito amigo deles, ainda por cima. Um deles, desses três que foram mortos, era irmão do Passos Ramos, que ia comigo ao Savimbi. Era o mais velho. Este era do meu curso, tinha uma admiração extraordinária. Nós fomos de helicóptero, depois fomos a uma determinada base onde estava um grupo de combate para nos escoltar depois até às terras de Savimbi. E quando íamos na coluna, todos nós íamos com armas, e depois eu disse aos meus camaradas, eu tinha a experiência da Guiné, eu disse aos meus camaradas: "Eu tenho aqui a minha Kalashnikov. Se quando a gente chegar ao destino, se o Savimbi estiver desarmado, eu deixo ficar aqui a Kalashnikov, na viatura. Se o Savimbi estiver armado, eu levo a minha arma". Entendeu? E assim foi. Quando o Savimbi veio ao nosso encontro, trazia o pistolão, ele andava sempre com um pistolão à cinta, e trazia o pistolão à cinta. Eu desembarquei de Kalashnikov na mão.
Claro.
Portanto, quando nós fizemos o cessar-fogo com a UNITA, teve uma repercussão muito grande. A gente veio aqui a Lisboa, falar com a Junta de Salvação Nacional, com o coordenador do MFA, etc. Mas foi o único movimento que aceitou fazer o cessar-fogo. Por quê? Porque todos os outros movimentos, aliás, os movimentos das várias colónias tinham um órgão multi-colonial, que era a CONCP, Confederação das Organizações Nacionalistas das Colónias Portuguesas, onde eles coordenavam esforços, e que depois do 25 de Abril, fartaram-se de fazer comunicados. O Spínola na noite de 25 de Abril, depois de ter obrigado a corrigir o programa do MFA, tem uma frase que é desastrosa, de Spínola, quando ele faz uma conferência de imprensa, já presidente da Junta de Salvação Nacional, e em que ele diz: "Nós comprometemo-nos perante o povo português a manter o Portugal uno e indivisível". Isto para os movimentos das colónias. Entrava-se num círculo vicioso. Qual foi? Portugal exigia das colónias que os movimentos de libertação aceitassem um cessar-fogo pra depois se discutir quais as soluções para cada uma das colónias. A Junta de Salvação diz: "Não, nós estamos há 13 anos em guerra. Portanto, Portugal primeiro reconhece o nosso direito à independência e depois vamos negociar o cessar-fogo". E daqui não se saía, e a situação na guerra piorava.
Já agora, militarmente continuava?
Militarmente, mais baixas, mais mortes, aumentaram o número de mortes, etc. E a guerra continuava isso. Só que a moral das nossas tropas dizia: "Então o 25 de Abril não foi pra se acabar com isto?"
Sentiram isso, a questão da moral das tropas.
Mas depois havia um problema terrível, que era este: 50% das nossas tropas nas colónias eram de recrutamento local. E esses então diziam: "Mas em que exército é que nós estamos a combater?" Vocês já eram nascidos, lembram? Nem mais um soldado para as colónias, os regressos militares já, unidades aqui a negarem-se a regressar. A situação começou e os movimentos do MFA nas colónias, todas as colónias, começaram também aqui a pressionar. Resultado: cai o primeiro governo de Carlos, toma posse o primeiro governo de Vaz Gonçalves, e é quando se publica a lei que é a lei mais importante, na minha opinião, de todo o processo revolucionário, que é a Lei 7/74, que é uma lei de três artigos que reconhece o direito das colónias à independência. A partir daí começam as negociações. Mas a UNITA tinha se antecipado. E eu começo a receber determinados contactos. Particularmente eu, mas não só eu, em Angola, começo a receber determinados contactos em que os movimentos de libertação, a FNLA era muito difícil, a FNLA não tinha representantes em Angola, estavam todos concentrados lá no Zaire, com o Mobutu, lá em Kinshasa. Mas o MPLA, principalmente, que era o partido que praticamente dominava ali a classe média e a classe urbana em Luanda, em Nova Lisboa, etc., Benguela. Eles começam a vir contestar o acordo que a gente tinha feito com a UNITA. E a gente dizia: "Mas vocês têm uma solução. Façam também um acordo de cessar-fogo conosco". Porque a UNITA, como fez cessar-fogo conosco, passou a ter um estatuto de partido político, que tinha baixado as armas, portanto, não podia andar armado, mas podia fazer propaganda política por toda Angola. Isso deu-lhe uma vantagem enorme.
Vamos agora fazer uma pausa, voltamos depois do intervalo. Vamos agora pra segunda parte da conversa com o general Pedro Pesarado Correia.
Tivemos em Angola um outro problema muito complicado. Foi a nomeação do governador. O Obadiah Santos vai à Angola e Auscultar a classe civil para escolher o governador para Angola. Eu acompanhei o Almeida Santos em todos os deslocamentos que ele fez. Eu e foi outro camarada nosso, também da coordenadora do MFA, e fui aos vários sítios. Simplesmente, não assisti depois às reuniões. A gente preparou, convocou as pessoas que o Almeida Santos queria conversar, tratamos dos alojamentos, mas depois, quando ele se reunia com as populações, nós deixávamos o Almeida Santos. Mas o Almeida Santos depois falava conosco. O Almeida Santos, como sabem, era um homem que gostava de conversar, e ele falava muito conosco. Quando a gente perguntava: "Então, doutor Almeida Santos", ele era ministro da Comissão Interterritorial. "Bem, vou tirando aqui umas conclusões, mas isso não é fácil, porque as pessoas são muito pouco convergentes". E não nos deixou nenhuma ideia do que ia ser. Qual não é nossa surpresa quando ele chega aqui, e quem é que acaba por ser nomeado para governador? Silvério Marques, que tinha sido governador no tempo do KAOP, e que era um homem claramente um integracionista convicto, quer dizer, não tinha nada a ver com independências, etc. O Silvério Marques vai para Angola, é recebido muito friamente, é claro, sempre os seus apegos. Nunca saiu do palácio. Está lá um mês inteiro, praticamente sem sair do palácio. Não sentia nenhuma capacidade. A situação começou a se deteriorar nos mosques. Nós começamos a receber, nós MFA. Isso é importante dizer: a Comissão Coordenadora do MFA era uma comissão coordenadora que trabalhava junto do comando-chefe, mas não era junto do governador. Nós não tínhamos nada a ver com o governador, porque se o comandante-chefe fosse o governador também, a situação estava facilitada. Por exemplo, para Moçambique foi nomeado Vítor Crespo, que era alto comissário, mas também comandante-chefe, e era fácil a coordenadora. Nós em Angola tivemos esse problema complicado.
Claro que sim.
E depois o Silvério Marques, se bem que nós tivéssemos tido uma reunião com ele, e disséssemos: "General, senhor governador, nós não temos nenhuma dependência da sua parte, nós não somos seu órgão de conselho, mas fica a saber que hoje as Forças Armadas têm o papel que têm neste contexto todo, conta com a nossa colaboração, de maneira que não vimos aqui hostilizá-lo". Mas ele fez sempre um distanciamento enorme. Em determinada altura, houve mesmo uma cena de hostilização direta dele com o MFA. Eu convoquei um plenário do MFA em que vieram os nossos representantes do MFA de toda Angola, porque nós tínhamos depois coordenadoras do MFA em todos os escalões de comando, nos comandos de zona.
Entre a convocatória e a reunião, quanto tempo é que demoravam todos a chegar?
Para chegarem? Eles vinham de avião. A gente convocava, no dia seguinte estavam lá todos, porque não vinham do mato. Quer dizer, não íamos até ao capitão. Não, era ao nível de comando de setor. E vinham, e reunimos uma grande reunião do MFA em Angola e decidimos correr com o Silvério Marques. Porque as insistências da população civil junto de nós eram permanentes. Se vocês lerem, há mesmo uns comunicados do cônsul americano em Luanda naquela altura, em que ele dizia para o Kissinger e para Washington que não viam que o governador tivesse a mínima possibilidade de atuar ali, tinha até uns discursos passadistas. Portanto, era impossível a manutenção dele. Mas por que depois viemos a saber que o Silvério Marques tinha sido nomeado para Angola? Porque foi sempre para mim uma surpresa. E eu, que era amigo pessoal do Almeida Santos depois, e que lhe perguntei várias vezes: "Ô Almeida Santos, mas diga-me lá, como é que você acabou por escolher o Silvério Marques?" "Porque não sei o quê". Nunca explicou, mas eu hoje já sei o que aconteceu. O Almeida Santos queria nomear para governador de Moçambique o seu amigo, que era um advogado. Como é que ele se chamava?
Soares de Melo, não era? Soares de Melo, salvo eu?
Soares de Melo.
Soares de Melo, exatamente.
Que era amigo dele e queria nomear Soares de Melo para governador de Moçambique no pós-25 de Abril. Mas o Spinola tinha pensado no Silvério Marques para Moçambique. E às tantas eles fazem o jogo para ir Soares de Melo para Moçambique, veio o Silvério Marques para Angola, o que foi, de facto, uma escolha desastrosa. Resultado, nós reunimos ali, nós tínhamos todas as forças fundamentais conosco em Angola. Conosco, o MFA, quer dizer, os comandos. Um dos homens principais dos comandos era da Comissão Coordenadora, por exemplo, os paraquedistas, os fuzileiros, a Marinha. E dos comandos do setor, todos dissemos: "Temos que exigir a saída do Silvério Marques". E assim foi.
Foi unânime? Todos decidiram.
Todos concordaram.
E então, entre essa decisão e a saída?
A nossa decisão é a seguinte: demos um ultimato, um comunicado, que exigíamos a retirada do governador no prazo de 72 horas. Davamos três dias, findo os quais, se não retirassem o governador, retirasse a Junta de Salvação Nacional. Se não retirassem o governador, nós tomávamos o poder em Angola e entregávamos ao general comandante-chefe, que tinha aceitado, previamente combinado conosco. Entregávamos o poder ao general comandante-chefe, até ele. Portanto, não éramos nós, MFA, que assumíamos o poder. O general comandante-chefe assumiu o poder até a nomeação do novo governador. Fizemos esse avaliação final, entramos em ligação com o Contreras, que morreu há pouco tempo, e que era o homem da Marinha das comunicações e que fazia parte da comissão coordenadora daqui. E dissemos: "Nós vamos mandar hoje, em mão do comandante da TAP, um documento altamente secreto e altamente urgente, em que é preciso que alguém vá receber isto, porque está a ser entregue em mão ao comandante do avião. Tem que estar alguém na pista para receber a coisa". "Sim, senhor, está descansado." Eu e outro camarada que fui ao aeroporto com o envelope lacrado, cheguei à banca da TAP, sabíamos que havia um voo às tantas horas, desse mesmo dia, e dissemos: "Olhe, eu tenho aqui um documento, nós somos do MFA, tenho aqui um documento que é para ser entregue em mão ao seu comandante do avião do voo tal". "Sim, senhor, ele foi lá dentro." E de repente veio a assistente do balcão: "Olhe, o seu comandante já está a fazer o check-in no avião, portanto não pode vir aqui, mas diz para fazerem o favor". "Então olhe, este é o seu comandante, que vai aqui este envelope, leva aqui um protocolo de recepção e isto é para ser entregue a um elemento do MFA que há de estar em Lisboa, quando chegarem, tem que entregar isto em mão". "Sim, senhor". Ela foi entregar, eu fiquei à espera que viesse o protocolo assinar e quando ela chega: "Olhe, está entregue e o seu comandante Humberto Delgado manda-lhe um grande abraço". Então quem era? O comandante do avião era o filho do general Humberto Delgado, que era do meu curso do Colégio Militar, que eu já não via há muito tempo e que era oficial da Força Aérea e que depois transitou, quando foi depois da candidatura do pai, acharam por bem encaminhá-lo para a TAP para ele sair da Força Aérea. E foi por coincidência, foi ele que trouxe o documento. O documento foi recebido aqui pelo Contreras no dia seguinte, eu dava 72 horas. No dia seguinte, recebemos a informação do Contreras, ele disse: "Isto já está aqui a ser divulgado, vocês não se precipitem, o assunto vai ser resolvido a vosso contento". No dia seguinte, o Severo Marques é mandado vir a Lisboa, já não regressou, é mandado vir a Lisboa. Embarca para Luanda uma comissão com três oficiais, um da Força Aérea, um da Marinha e um do Exército, que iam fazer a averiguação do que é que se estava a passar. Falaram conosco, com a comissão coordenadora, falaram com o general Franco Pinheiro, comandante-chefe, falaram com todos e mandaram um telegrama para Lisboa a dizer: "Tem que ser este, tem toda a razão". No dia seguinte estava nomeado o Rosa Coutinho para ir substituir o Severo Marques. Foi o nosso 25 de Abril.
25 de Abril em Luanda. E como é que estava a sociedade angolana? Já falou da agitação nos museques, mas também havia os europeus que lá estavam. Como é que estavam?
Extremamente inquietos.
E também vinham ter convosco.
Para já, havia uma camada europeia muito recetiva, mas a grande maioria dos europeus, e principalmente dos europeus do interior, não se mostraram por aí além recetivos, principalmente quando claramente se começou a definir que a solução ia ser a independência. De qualquer maneira, não foi isso que nos causou mais problemas. O que nos causou mais problemas, tivemos um problema muito complicado, que foi, por exemplo, a greve nos caminhos de ferro do Lobito. O caminho de ferro e porto do Lobito. Do Lobito saía o caminho de ferro de Benguela que ia para a Zâmbia e para a Rodésia, e que era através dela que se alimentavam todas as unidades militares e que depois dali ia a zona militar leste, ia toda pro caminho de ferro do Lobito. E uma greve que começou a nos paralisar aquilo. Foi muito difícil resolver aquela greve. Felizmente, foi um capitão miliciano, que estava a comandar a companhia, e que era um homem do MFA, e que por acaso tinha sido meu instruendo, portanto havia uma amizade pessoal comigo, tinha sido meu instruendo aqui em Mafra, no curso para capitães, quando ele fez o curso para capitão miliciano, e que portou-se ali excelentemente e conseguiu negociar com os sindicatos. E aqueles sindicatos eram dominados na maioria por brancos, não era por pretos. E conseguiu-se resolver aquela greve. Tivemos um problema de uma greve também no Porto de Luanda, que também foi complicado. Depois houve umas greves, e aí já eram muitos angolanos. Greves de camionistas, por exemplo. Greves de camionistas, que era quem abastecia o interior. Houve também depois greves, a gente queria aumento de salários depois daquela altura. Depois havia o problema da correção dos desequilíbrios de salários entre pretos e brancos.
Mas como é que se convencia as pessoas a parar as greves? Como é que se parava a greve?
Na altura era saco roto. Ia-se negociando o que se podia, havia os responsáveis pela parte financeira que diziam se sim ou não. Na altura, toda a gente dizia que sim. Depois começaram a aparecer problemas raciais, principalmente nos museques de Luanda. A cidade de Luanda era constituída pela parte do cimento, digamos assim, que era maioritariamente branca ou então de uma burguesia negra ou mista. Na zona do cimento, também já eram umas dezenas de milhares de habitantes. E depois havia os museques. Mas onde já viviam muitos brancos. E havia os cantineiros brancos, por exemplo. Os cantineiros tinham as cantinas que vendiam ali. Tinha-se criado um certo mito da malta negra que vivia nos museques de Luanda. Vocês conhecem alguns, os bairros, o Prenda, o Sabisamba, etc. A grande maioria era tudo mpela, a grande maioria ali na zona à volta de Luanda. E tinha-se criado o mito, não sei se com verdade, se não, mas se calhar com alguma verdade Que muitos dos cantineiros eram informadores da PIDE. Porquê? Porque eram os indivíduos que estavam no meio do mato e que ouviam as conversar, conheciam os dialetos deles e que depois informavam a PIDE. E a entrada da altura, quando começa a haver uns confrontos entre brancos e pretos, começaram a ser assaltadas algumas cantinas de brancos. Resultado: os brancos fecharam as cantinas, acabaram as cantinas dos museques, e depois como é que se abastecia aquela gente? Quer dizer, e depois os abastecimentos pra eles. E foi um problema complicado que tivemos que resolver. E que o Rosa Coutinho, quando desembarca, já é o almirante vermelho.
Já o conhecia bem antes? Já conhecia bem o Rosa Coutinho?
Não. Eu não conhecia o Coutinho. Conhecia de nome.
Sim, mas não pessoalmente.
Não, pessoalmente não conhecia.
Qual foi a primeira impressão quando ele-
Fiquei muito amigo dele. Eu já tinha boa impressão dele, porque ele era membro da Junta Governativa. E depois ele assim que chegou, deu todo o apoio ao MFA. Porque ele, ao contrário do Severiano Marques, quando chega, a primeira coisa que faz é reunir-se com a Comissão Coordenadora do MFA. E quando se reúne com a Comissão Coordenadora do MFA, diz: "Olha, os comandantes dos três ramos do Exército, Marinha e Força Aérea vão todos embora, porque apoiaram aqui o Severiano Marques. Vão todos embora. Vamos nomear novos comandantes. São vocês é que nos vão indicar quem vão ser os novos comandantes". E foram indicados por nós. Nós, coordenadora. Depois da gente falar com muita gente. E depois ele já não era governador, ele era presidente de uma junta governativa que era constituída por ele, presidente, os três comandantes dos três ramos, que foram escolhidos por nós, e um oficial do MFA, que nós escolhemos entre nós. Na altura, pensaram em escolher a mim, eu achei que eu queria ficar na coordenadora, porque eu que estava mais ativo. E nós escolhemos um homem, que era um homem do MFA de origem. Não sei se vocês se lembram, ele já morreu também, era muito mais novo que eu, mas já morreu, e que depois ainda chegou a ser ministro num dos governos de Vasco Gonçalves, que era o José Emílio da Silva, que foi o homem que nós escolhemos e que era da Junta Governativa. E depois o Rosa Coutinho quis constituir um governo de transição, porque, entretanto, o mais importante que estava a dar é que nós, depois da Lei 174, começamos então a negociar, além da UNITA, já estava, com a FNLA e com o MPLA. Com o FNLA fez-se um acordo de cessar-fogo em Kinshasa. As conversações com o FNLA foram sempre fora de Angola. Com o MPLA fizemos o acordo de cessar-fogo no leste, ali no mato, montamos ali umas tendas. Veio uma delegação do MPLA com o Agostinho Neto, com o Lúcio Lara, o Ícaro Pereira, vieram todos. E foi a delegação portuguesa, na qual eu também incluído. E na Chanda do Lojames fizemos também o acordo com o MPLA. A partir de 22 de outubro, tínhamos os acordos feitos com todos os movimentos de libertação. A partir daqui, houve que passar à segunda etapa, qual era? Pôr os movimentos de libertação a falar uns com os outros, o que foi muito difícil. Mesmo assim, por influência nossa, conseguimos pôr o MPLA a falar com a UNITA, o MPLA a falar com o FNLA, a FNLA a falar com a UNITA, e todos foram lapidando as arestas, até que os três resolveram fazer uma reunião a três, uma cimeira dos três movimentos, que era aquilo que nós queríamos, pra eles se entenderem e chegarem a uma plataforma comum pra negociarem conosco. Eles reunem-se em Mombasa, no princípio de janeiro de 75. Chegam a uma plataforma comum pra negociar conosco e vêm negociar ao Alvor, que começa no dia 15 de janeiro, aqui no Algarve. Começou logo por ser difícil, porque nós fazíamos questão de que a cimeira com os três movimentos fosse em Portugal. Eles inicialmente, principalmente a FNLA, não queria que fosse em Portugal, mas conseguiu ceder, mas como o Algarve era quase independente. À altura, o acordo do Alvor foi um acordo em que eu tive muitas esperanças. Basta ler o discurso do Agostinho Neto na sessão de encerramento do Alvor, que era um discurso de esperança, em que ele até chamou a MFA o quarto movimento de libertação, em que os três movimentos de libertação com os seus líderes, todos deram a palavra ao Agostinho Neto pra ser ele a falar em nome dos três movimentos, em que o discurso do Costa Gomes é um discurso excelente. E todos nós recebemos o acordo do Alvor com muitas esperanças. Eu hoje não tenho dúvidas nenhumas que foram umas esperanças completamente infundadas, porque o futuro veio a demonstrar que os movimentos de libertação foram pro Alvor só com um objetivo: ver-se livres de Portugal. Depois, entre eles resolviam o problema, como resolveram à porrada. Mas eles o que quiseram foi ser livres de Portugal. E aquilo revelou-se logo no mês seguinte, o acordo do Alvor já estava todo estragado. Mas o acordo do Alvor, em minha opinião, teve uma falha muito grande. É uma coisa que eu posso dizer hoje, na altura participei também, e foi na parte militar. Assim em poucas palavras, posso lhes explicar como é que foi. O essencial do acordo do Alvor, aliás, que assentava na plataforma que eles tinham negociado, eles os três, que tinham negociado em Mombasa, e que trouxeram, a parte do governo próprio de transição. Havia um governo de coligação pra transição. E aquilo poderia ser muito tóxico Mas ao fim ao cabo era na altura o governo possível, era um governo quadripartido, que só podia funcionar se realmente houvesse boa intenção. Qual era? Repara, aquilo havia, por exemplo, 10 pastas, 10 pastas. Portugal, MPLA, FNLA e UNITA. Em cada uma das pastas, era dividido pelos quatro. Portanto, três, três, três.
Eram 12 ministérios.
Uma pasta que fosse com o ministro português, tinha três secretários de Estado dos três movimentos. Se fosse o ministro do MPLA, tinha dois secretários de Estado dos outros dois movimentos. Se fosse da UNITA, tinha dois dos outros. E assim. Portanto, era um governo de coligação. É claro, para aquilo funcionar, só com muito boa fé é que aquilo funcionava. Depois tinha uma série de assessorias. Agora, era fundamental o problema de aparelho militar de quatro partes que tinham acabado de estar em guerra uns com os outros, em que os três movimentos estavam em guerra também uns com os outros, e que todos aqueles tinham que ir assegurar a tranquilidade de um território, a ser governado por eles próprios, de transição para a independência. Que solução é que se arranjou? Vamos constituir umas forças militares mistas. E as forças militares mistas são constituídas nesta base: eram 48 mil homens, 50% desses 48 mil homens são da parte portuguesa, 24 mil. 50% são da parte dos três movimentos de libertação, 8 mil de cada um. Ora bem, isso significava que Portugal, que tinha na altura cento e tal mil homens, tinha que diminuir os seus efetivos, até porque os 24 mil portugueses eram Exército, Força Aérea e Marinha. Os outros só tinham Exército. Tínhamos que começar a desmobilizar as nossas tropas. As tropas que acabavam a comissão vinham-se embora e não eram rendidas. E havia a desmobilização da totalidade dos militares que eram do recrutamento local. Movimentos de libertação. Eles não teriam, cada um deles, muito mais de 8 mil homens, e se calhar ainda tinham menos. Mas de qualquer maneira, ficavam os 8 mil homens. Resultado: nós, na boa-fé, começámos a desmobilizar as nossas tropas, Portugal começou a ficar com pouca força, e eles entraram a reforçar-se, particularmente nas forças auxiliares e nas forças de recrutamento local portuguesas, que nós começámos a desmobilizar, foi um corre-corre dos movimentos de libertação. Ora bem, resultado: nós começámos a desmobilizar, portanto a enfraquecer-nos. Nós tínhamos uma quadrícula que ocupava o território todo de Angola. Começámos a desmobilizar, a desocupar territórios. Eles começaram a reforçar-se, às tantas já estavam cada um deles com muito mais do que os 8 mil homens. E depois havia uma cláusula fundamental das forças militares mistas: as forças militares mistas tinham um comando conjunto, o comandante-chefe era o alto comissário, que era português, depois tinha o comando conjunto com representantes dos vários movimentos de libertação, e portugueses, estado-maior conjunto, etc. Mas havia duas missões fundamentais. Primeiro, garantir a tranquilidade interna do território. Segundo, garantir a inviolabilidade das fronteiras. Ora, somos um movimento de libertação que às tantas começam a pedir apoios internacionais. Primeiro é a FNLA, tropas do Zaire, começaram a entrar pelo norte, depois a África do Sul, depois são os cubanos, pelo MPLA. E aquilo que era um aspecto fundamental, que eram as forças militares mistas, nunca se formaram. Pronto, o resultado foi o que se deu, foi a guerra civil.
Disse que estava com esperanças no Alvor. Quando é que percebeu que as coisas iam correr mal?
Olhe, posso lhe dizer que a minha esperança não durou mais do que uma semana. Mas mesmo assim eu ainda tinha alguma esperança de que as coisas se pudessem compor. Não durou mais que uma semana, porque o Alvor foi entre 15 e 25. A 25, 26, 27, eu regresso a Angola com o Rosa Coutinho e com mais um outro camarada que também tinha vindo aqui para as conversações. Regressámos a Angola e estava preparado que o novo alto comissário, que ia ser o Silva Cardoso, que aliás era um dos homens da junta governativa do Rosa Coutinho, era um homem da Força Aérea, estava designado que fosse o Silva Cardoso, com cuja nomeação eu não concordei, porque eu conhecia o homem de lá e eu sabia que era uma personalidade bastante frágil. Mas não vale a pena estar agora a analisar isto, mas de qualquer maneira foi o escolhido, e nós vamos para Angola e o Rosa Coutinho tinha decidido regressar a 30, dia em que era nomeado, tomava posse aqui como alto comissário o Silva Cardoso. Portanto, o Silva Cardoso ia e quando lá chegasse, o Rosa Coutinho já lá não estaria. É aqueles protocolos. E então o Rosa Coutinho resolveu regressar a 30 de janeiro e decidiu que os homens, que tinham sido os seus mais diretos colaboradores, e que o Silva Cardoso não estaria interessado em que ficassem lá com ele, que regressassem com o Rosa Coutinho. Foi o meu caso, foi o caso do José Emílio da Silva, foi o caso do Correia Jesuíno, você lembra-se do nome?
Sim, era ministro da presidência do PCP.
Que era ministro do Rosa Coutinho também. Regressou no mesmo dia, foi o chefe de gabinete do Rosa Coutinho, o Cavalheiro, e foi um homem do Exército, também já morreu, que era também ministro do governo do Rosa Coutinho. Éramos cinco e regressámos todos a Portugal. No dia 30, quando nós estávamos já de malas feitas A fazer horas para ir apanhar o aviões de regresso a Portugal, comissão cumprida e satisfeitos. Comissão cumprida, recebemos uma péssima notícia. Os indivíduos da FNLA, em Luanda, o Aldão Roberto ainda não tinha regressado a Luanda. E creio que o Rosa Coutinho também ainda não. Estava o Lúcio Lara, mas o neto também não. E nessa noite, umas horas antes, os indivíduos da FNLA tinham invadido a rádio, como é que se chamava na altura? Não sei, Rádio Nacional de Angola. Rádio, não havia televisão ainda na altura. Tinham invadido a rádio porque acusavam, e com alguma razão, de que a grande maioria dos jornalistas angolanos da Rádio de Angola era quase tudo MPLA. A classe cultural e a classe média de Angola era o MPLA, era assim mesmo. Não era por escolha nossa, era assim mesmo. Ora bem, e eles estavam já a fazer uns programas nitidamente tendenciosos pro MPLA. Resultado, os tipos invadiram aquilo, prenderam um tipo que era o António Cardoso, que era um tipo branco, até português. Português e angolano. Angolano branco. Prenderam, levaram para parte incerta. Prenderam lá mais umas outras pessoas e ocuparam a rádio. E nós a virmos embora e a querer deixar aquele problema resolvido pro Silva Cardoso não ter que chegar lá ainda com aquele problema. Eu não tenho a certeza, mas creio que depois quando a gente embarcou, que o problema já tinha sido resolvido, já se tinha conseguido libertar o António Cardoso. Mas isto foi o primeiro sinal que eu recebi. E depois regresso aqui, venho a Portugal. O que é que vinha fazer? Qual era o plano? O que é que vinha fazer. Depois há aqui o 11 de março, a constituição do Conselho de Revolução, em que eu sou nomeado para o Conselho de Revolução. E naquele período depois, eu também gozei aqui uns dias de licença, passado pouco tempo, há o primeiro incidente que mostrou que aquilo acabava. O que é que foi? Agora lá tenho eu que fazer outro parêntesis. Sabem que além de haver os três movimentos de libertação, havia um problema complicado dentro do MPLA. O MPLA tinha três tendências. Havia a tendência institucional, que era da Agostinho Neto, havia a tendência da chamada revolta ativa, que era dos irmãos Andrade, uma série dos intelectuais do MPLA, e havia depois a tendência do Chipenda. O Chipenda tinha sido o grande comandante da zona leste do MPLA e que depois tinha entrado em dissidência e estava num processo de aproximação à FNLA. Isso pra nós foi um problema, porque o nosso acordo era com os três movimentos de libertação. E os três movimentos de libertação tinham todos eles concordado que os únicos legítimos representantes do povo angolano pra transição éramos os três movimentos de libertação. As duas dissidências do MPLA não podiam contar. O Chipenda estava já num processo de dissidência com o MPLA e de aproximação à FNLA. E então na altura, salvo erro já em fevereiro, já nos finais de fevereiro, nós já tínhamos vindo embora, mas soubemos aqui. O Chipenda resolve abrir uma sede em Luanda, uma sede que era chamada a Revolta de Leste. E o MPLA foi ter com o alto comissário e disse: "Isto de acordo com o Alvor, os senhores têm que resolver isto. As forças militares mistas nunca foram constituídas, isto tem que se resolver. Eles não podem ter a sede". "Sim, senhor, vamos ver". Mas ninguém fez nada. Resultado, o MPLA resolveu, por conta própria, assaltar a sede do Chipenda. Foi o primeiro gesto violento. E aí houve realmente uma falta de iniciativa da parte portuguesa. Da parte portuguesa não, da parte do alto comissário e do poder já na altura de transição em Angola que não atuou. E depois foi cada um, isto depois é como as abelhas, cada um tinha a sua área e a sua zona, cada um dos partidos não aceitava que os outros interferissem. Foi a bancarização. Quando regressou a Lisboa, nessa altura, em 75, em fevereiro, o que é que estava à espera? Como é que encontrou a cidade? Eu estava à espera que eles realmente se entendessem. Eu quando cheguei, eu tinha esperanças que o projeto do Alvor fosse conseguido. A pouco e pouco comecei a ver que não havia hipótese nenhuma, que aquilo estava completamente frido. E entretanto, eu vou pro Conselho de Revolução. Certo. Estou no Conselho de Revolução e vou-me apercebendo da deteriorização da situação. Essa é uma das razões porque eu assino o Documento dos Nove. Mas espera aí, antes do Documento dos Nove, há muita coisa, não é? Há o início do Conselho de Revolução. Mas é que o Documento dos Nove é exatamente, que eu chamo aqui a atenção, que uma das razões que me leva a assinar o Documento dos Nove, é porque eu começo a ver que os meus camaradas que estão em Angola, os camaradas do MFA ainda, que estão em Angola, a querer resolver uma situação e que não têm suficiente apoio aqui da metrópole. Porque há tropas que têm que embarcar e não embarcam. Eu por acaso, na altura, depois estava a comandar a Região Militar Sul e mobilizou-se um batalhão da minha região militar pra ir pra Angola e o batalhão embarcou inteiro. Mas eu também fui todos os dias assistir à instrução desse batalhão. Mas eu não podia aceitar. E não era só eu, é evidente. Portanto, só pra dizer que não faltou muito tempo pra que eu começasse a desencantar com o andamento do processo. E é por isso que eu vos digo que o principal desencanto que eu tive foi aperceber-me que os movimentos de libertação tinham participado no acordo do Alvor, fundamentalmente com um objetivo, foi verem-se livres de nós. Sim, e conseguiram, não é? Porque eles já foram com a intenção de que aquilo depois ia ser resolvido a tiro. E qual era a ideia que tinham para a população europeia? O que é que pensavam? A população europeia, quem quisesse ficar, ficava. Mas a partir de um dado momento, foi uma das preocupações, exatamente das nossas tropas que ainda lá ficaram, dos poucos. Começaram a ficar concentrados nos principais meios urbanos. Foi Luanda, Lobito Benguela, Huambo Porque talvez lá embaixo, ainda em Moçambique, na parte litoral, e onde havia aeroportos. E as populações começaram a se concentrar, porque a grande maioria das populações começaram a manifestar desejo de regressar, de vir embora. E, portanto, uma das grandes preocupações da parte portuguesa foi assegurarem proteção, mas também não só a portugueses, e muitos angolanos que queriam sair de Angola, e foi a ponte aérea depois. Foi o problema da ponte aérea, e outros foram para o Brasil, outros foram para a África do Sul. Mas foi a saída, e foi assegurar que quem quisesse vir, que viesse. E conseguiu-se assegurar isso. Evidentemente que aqueles que eram os funcionários públicos portugueses e tinham o seu vínculo ao Estado português e não queriam perder os seus direitos, de maneira geral, tinham que regressar. Mas depois havia os indivíduos que também tinham as suas profissões liberais ou livres, trabalhavam em empresas que não era do Estado, mas havia muitos que tinham um estatuto que dependia muito do fato de serem brancos. Todos os sistemas coloniais tinham isso, porque o branco era o encarregado, era o chefe da seção, era sempre o branco, e que às vezes não tinha qualificação técnica superior. Esses também não tinham que vir embora. Não tinham condições para ficar, muitos. Então perdiam o estatuto. Depois havia os que tinham, que eram os quadros técnicos, ou os operários qualificados, ou os indivíduos que tinham negócios próprios. Todos esses, que eram em largas dezenas de milhares, tinham possibilidades de ficar. Mas depois a instabilidade foi difícil. Como é que viveu o 11 de março? O 11 de março? Sim. O 11 de março. Estava cá há um mês, pois? Já cá estava. Estava há um mês. Como era muito amigo do Fabião, o Fabião era o chefe do Estado-Maior. Eu quando cheguei de Angola, fiquei aqui: "Onde é que eu vou ser colocado?" Claro, eu: "Fabião, já cá estou. O que tu achas?" "Vais para o meu gabinete". Ele era chefe do Estado-Maior. Eu fui colocado no gabinete do Fabião. O Fabião encarregou-me de umas tarefas. E eu, no dia 11 de março, estava no gabinete do Fabião. E porque depois o Fabião teve que se meter no helicóptero, ele foi com o chefe do Estado-Maior da Força Aérea para ir a Tanques. E diz: "Ficas aqui no meu gabinete e vais tomando conta da situação, do que se vai passando". De maneira que acompanhei a situação ali a partir do gabinete do Fabião. Nós temos muita tendência para falar no PREC e só ver no PREC uma componente, que são as conquistas revolucionárias. Mas o PREC, como todas as revoluções, tem duas componentes, que é a revolução e a contrarrevolução. E que durante o PREC, as duas componentes, as duas dinâmicas estão em confronto. É curioso que vocês repararem, se analisarem o processo português, de uma maneira geral, todos os avanços bruscos da revolução foram respostas a iniciativas contrarrevolucionárias. A primeira, lembra-se à queda do governo Palma Carlos. O governo Palma Carlos cai por quê? Porque tinha um projeto em que queria o poder pessoal de Spínola, queria uma Constituição referendada contra aquilo que estava no programa do MFA. Portanto, o Spínola tomar conta do poder e afastar o MFA. Eu, já no princípio da nossa conversa, deves entender a consideração que o Spínola me mostrou. Mas depois, em minha opinião, como presidente da República, foi de fato muito mau, foi um desastre. E o governo Palma Carlos cai, dá origem ao quê? Vinda do primeiro governo Vasco Gonçalves, em que há logo uma dinâmica completamente diferente e em que entram uma série de ministros do MFA. Aliás, a revolução já estava na rua, porque o 25 de Abril é um golpe de Estado militar, nada dúvida. Não é uma revolução, é um golpe. O programa do MFA é um programa avançado, quer dizer, tem algumas tendências políticas que são suscetíveis de colher apoio popular. E é essa dinâmica que cria a transformação do golpe de Estado em revolução. No 1º de Maio, a revolução está na rua, a exigir transformações. Mas há uma segunda revolução, e que as pessoas muitas vezes também se esquecem. É que nas colônias em África, os movimentos de libertação estão a fazer uma revolução. A luta dos movimentos de libertação são revoluções, revoluções contra o poder. Portanto, o 25 de Abril é um golpe de Estado dentro de uma revolução, ou melhor, até de duas revoluções depois, a das colônias e aqui a do povo português. E todo o avanço, eu tenho até uma frase que costumo dizer, porque acho que tem alguma curiosidade, que é: o povo português aderiu ao MFA, no golpe de Estado, e depois o MFA adere à revolução do povo português. É a resposta. Ora bem, você repara, com o segundo governo constitucional, começam já a haver algumas manifestações de ocupações de casas, etc. Uma certa anarquia popular, até que se dá depois a tentativa do Spínola do 28 de setembro, que é mais uma vez uma tentativa de tomada de poder pessoal. A maioria silenciosa perde. Novo avanço revolucionário, e aí já se começam a ocupar algumas terras, etc. E depois há o desenvolvimento dos governos Vasco Gonçalves, já começam a ter uma tônica mais revolucionária, mas é em resposta a uma primeira tentativa contrarrevolucionária. 11 de março, novamente, uma tentativa contrarrevolucionária do Spínola de travar a revolução. Perde. E desemboca o Verão Quente, que é então o apogeu da revolução. Depois do Verão Quente, a ala espinolista já está afastada E as dinâmicas já começam a ser outras, já são as dinâmicas contraditórias dentro do processo de construção de uma nova sociedade. O que é que queremos construir? E aí depois dividem-se três opções também, na parte do MFA, mas que têm projeção na sociedade civil, ou se calhar até são na sociedade civil com projeção do MFA. Que é, digamos, nos militares, são os otelistas, a extrema-esquerda, são os gonçalvistas, bastante centrados na política do PCP e do MDP/CDE, e são os melantonistas, se vá dizer, identificados com o PS. Ora bem, e são estas três alas que depois se debatem ou se conflituam durante o Verão Quente. Depois aparece o Documento de Nove. O Documento de Nove é uma tomada de posição clara de uma das alas, o que vem realmente abalar muita coisa. Depois há uma tentativa do documento do COPCON, em que há tentativas de aproximação do COPCON e do Documento de Nove, em que seria marginalizado os gonçalvistas. Entretanto, o governo de Vasco Gonçalves já tinha caído, já tinha vindo o quinto governo. Portanto, repare, e até que isto vai desembocar no 25 de novembro. Muita gente é da opinião de que o 25 de novembro foi o fim do processo revolucionário. Eu não tenho essa opinião. Não tenho essa opinião, por quê? Há realmente uma travagem na dinâmica revolucionária com o 25 de novembro, mas a revolução não acaba. Depois do 25 de novembro, dá muitas ocupações de terras. E mais, o 25 de novembro, cinco meses depois, é aprovada a Constituição da República de 76. A Constituição da República de 76 é uma Constituição de matriz revolucionária, em que as conquistas revolucionárias são todas acolhidas. Depois os governos constitucionais é que vieram a não cumprir a Constituição, mas isso é outra coisa. Agora, realmente, a minha opinião, o processo revolucionário só acaba com a posse do primeiro governo constitucional. Aí é que as coisas depois mudam. Todas as revoluções, algumas levaram mais tempo. A soviética levou mais tempo. A francesa levou mais, mas também não levou tanto como a soviética. E as revoluções todas, por todo o mundo, conhecem este processo. E é por isso que eu penso que quando cada um destes processos, em cada uma parte do mundo, acabou, atingiu a sua queda, quando acaba, a sociedade está um bocadinho mais avançada do que quando começou.
A conversa com o general Pedro Pesarada Correia é retomada no próximo episódio. Vai falar dos desafios da ocupação de terras como comandante da Região Militar Sul e recordar o seu confronto com Vasco Gonçalves. Voltamos na próxima semana.