Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Esta é a história do dia da Rádio Observador: Espanha, uma tragédia à beira das eleições. O caminho da esperança frente ao ódio, uma campanha positiva, a campanha do amor. Era assim que Pedro Sánchez queria seguir em direção às legislativas antecipadas com otimismo. Mas a um mês das eleições, Espanha ficou de luto. Um choque entre dois comboios em Toledo matou mais de 60 pessoas e interrompeu a pré-campanha, e entre partidos que suspenderam comícios e outros que mantiveram os ataques, o atual primeiro-ministro espanhol ficou sem narrativa. É sobre isso que vou falar hoje com a jornalista internacional do Observador, a Madalena Moreira. Vamos olhar para os efeitos que este acidente teve na campanha de Pedro Sánchez, vamos olhar para as primeiras reações dos partidos da oposição e também dos partidos que sustentam o governo e perceber se Sánchez está em condições para evitar que os eleitores respondam à tragédia nas urnas. Eu sou o Pedro Benevides e esta é a história do dia de sexta-feira, 30 de outubro. Olá, Madalena, bem-vinda.
Olá, Pedro.
Antes de começarmos, vamos dar aqui um contexto. Pedro Sánchez tinha em marcha uma espécie de campanha do amor. Isto não é um exagero, era mesmo assim que ele estava a conduzir a sua pré-campanha eleitoral.
Sim, era exatamente. Ele utilizou a palavra para se referir a uma campanha que o PSOE estava a tentar fazer pela positiva, ou seja, fazer uma política não focada nos aspectos negativos, mas no que nós já fizemos, no que nós vamos continuar a fazer enquanto governo e depois numa parte mais prática do amor, de abraços e contacto com as pessoas. E há uma imagem que depois o Vox até utiliza para o atacar, que é um comício de pré-campanha que ele fez recentemente em que dá um beijo à mulher e então beijinhos, abraços, amor, positiva, otimismo.
Portanto, esse era o mote com que Pedro Sánchez imaginava que ia fazer esta pré-campanha eleitoral. E há até um momento crucial, que é aquele momento em que ele faz uma publicação nas redes sociais a falar precisamente disto e com esse espírito positivo, e uns minutos depois o tom muda completamente.
Sim, ele publica um excerto de um podcast e diz: "Vamos fazer política do otimismo". E menos de uma hora depois, a publicação seguinte é ele a dizer: "Aconteceu esta tragédia, a minha solidariedade aos mortos", a dar a notícia do acidente entre os dois comboios, da colisão entre os dois comboios em Toledo na quarta-feira, em que morreram 69 pessoas. Isto vem aqui pôr um ponto final numa campanha que ele estava a tentar fazer de otimismo, porque não há nenhum otimismo que se possa retirar deste acontecimento em que algo correu muito mal, ainda está a ser apurado o que é que correu muito mal, e que há aqui uma tentativa por parte dos outros partidos de responsabilizar o governo por isto. Portanto, não há aqui uma reviravolta que em apenas um mês e um dia, que é o que falta à data do acidente até às eleições, que Pedro Sánchez consiga voltar ao ponto de partida. Mesmo na possibilidade muito pequena que ele consiga dar a volta por cima, que é muito pequena, nunca conseguirá voltar ao ponto otimista em que estava há três dias.
Perante uma tragédia, não há como fazer isso. Agora, normalmente na política isto acontece muitas vezes e quem está no governo tem sempre essa questão, que é o apuramento de responsabilidades e até que ponto é que se pode dizer que uma tragédia desta natureza é responsabilidade de um governo. Problema: este não foi o primeiro acidente grave em Espanha, precisamente na ferrovia de alta velocidade. Em que ponto é que as coisas estão do ponto de vista político?
Como estavas a dizer, este é o segundo acidente, não sei se as pessoas se recordam, em janeiro deste ano em Córdoba, em que morreram 46 pessoas. E estamos a falar do mesmo governo, o mesmo ministro dos Transportes, a mesma linha férrea de alta velocidade. Já tendo os partidos pedido a demissão do ministro dos Transportes em janeiro, nove meses depois, isto é a gota d'água. Ou seja, ele não se demitiu na altura e agora, para os partidos da oposição, não há mesmo forma de ele se manter no poder. A questão aqui é que este pedido não foi feito de forma inequívoca por nenhum dos partidos. Este pedido de demissão, que foi posto em cima da mesa principalmente por comentadores e pela imprensa espanhola, como é inevitável, nenhum dos partidos o disse abertamente. E há aqui dois caminhos diferentes que os diferentes partidos seguiram.
Então quais são esses caminhos?
O Vox foi o partido da extrema-direita do Santiago Abascal, teve a posição mais vincada, mais agressiva, em que diz preto no branco que há aqui um governo que depois de ter visto que algo tinha corrido mal em janeiro, tinha que ter investido fundos, investigações, recursos financeiros na reparação das linhas férreas. E, portanto, diz: "A culpa é do governo".
Portanto, é o partido mais claro a responsabilizar o governo sobre isso.
Diz que é um gangue criminoso, é uma expressão que não é a primeira vez que ele utiliza para se referir ao PSOE de Pedro Sánchez, é um gangue criminoso e que tem que cair. Aqui o cair para eles é cair nas eleições que estão aí à porta. Ou seja, nem sequer perdem tempo a falar de um pedido de demissão, porque estão a partir do princípio que não, isto é
Este governo não vai continuar e, portanto, não vale a pena manter. E os outros partidos, nomeadamente ainda à direita, por exemplo, mas também à esquerda, partidos que têm sustentado o governo de Pedro Sánchez?
Temos aqui tanto o PP, que é o principal partido da oposição, como o Sumar, que é o parceiro minoritário de coligação e que neste momento vai a eleições num novo formato, que é a Frente Ampla, uma coligação em que eles são partido maioritário, falam apenas em responsabilidades políticas. Responsabilidades técnicas, que Pedro Sánchez já assegurou que vai acontecer, efetivamente descobrir o que correu mal e que até já está em processo. E depois a parte de responsabilidades políticas, sabendo o que correu mal, quem é que nós podemos responsabilizar no governo e em Madrid por isso. Não vão além disso por uma questão de respeito. Estão ainda no período de luto nacional e, portanto, durante esses três dias definiram como prioridade respeitar as vítimas, olhar para as famílias. Ainda há desaparecidos, ainda há famílias que não foram informadas de onde estão os seus familiares, se estão vivos ou se estão feridos. E, portanto, há aqui esta prioridade de vamos ter aqui um período intermédio em que não vamos partir ao ataque, não vamos fazer um aproveitamento político da tragédia. E, portanto, durante estes três dias, se calhar há aqui um-
Uma certa contenção.
Exatamente. Ou seja, o que, não sendo uma estratégia política, para Pedro Sánchez, é um balão de ar e para o PP também mostra: nós somos um partido institucional, somos um partido que sabe ser responsável, que não é tão agressivo como o Vox, que respeita este momento difícil que o país está a passar.
O PP, sendo o principal partido da oposição e tendo ambições de ganhar estas eleições espanholas, está a adotar uma postura mais tranquila do que se poderia esperar do principal partido da oposição, no sentido em que não partiu logo ao ataque ao governo e quer primeiro centrar-se nas vítimas. Aliás, uma das vítimas é uma pessoa que é próxima do PP.
Sim, era uma antiga ministra do Trabalho dos dois governos de Mariano Rajoy, e terá havido aqui mesmo um efeito muito pessoal de os dirigentes do PP ficaram abalados porque a conheciam pessoalmente. Então nem sequer havia o interesse por parte deles de partir ao ataque quando eles próprios estavam de luto. Mas há também aqui uma consciência política, diz a imprensa espanhola, que falou com fontes dentro do PP, de dizer: não, nós vamos nos distanciar do Vox e vamos nos distanciar do que eles acham que o PSOE teria feito se fosse partido da oposição, que era fazer aproveitamento político. Portanto, de forma consciente, o PP vai escolher não aproveitar isto politicamente e dar a outra face, quase, ou seja, dizer: veem como nós somos o partido que tem o povo espanhol em primeiro lugar e que não pensa imediatamente como é que eu posso traduzir uma tragédia em votos.
O que não quer dizer que a estratégia não mude à medida que forem sendo apurados naturalmente mais dados e mais informações sobre o que aconteceu.
Sim, e quando este período de luto acabar, continuam a faltar muitas semanas para as eleições. Portanto, daí para frente, eles podem passar ao ataque e realmente lembrar e utilizar isto a seu favor, de veem como nós demos este período de luto. Ok, agora vamos à luta.
Fomos institucionais, mas é preciso agora respostas. Agora, é interessante perceber como é que por dentro do PSOE esta questão está a ser vivida e mais concretamente dentro do núcleo do governo. Porque Pedro Sánchez podia ter aqui uma resposta imediata, que era demitir o seu ministro dos Transportes, não só porque liderava o ministério quando houve dois acidentes graves no mesmo ano. No entanto, esta decisão, que poderia ser fácil, não é tão fácil assim, porque nós não estamos a falar de uma figura insignificante para as próprias ambições de Pedro Sánchez.
Exatamente. O governo espanhol já disse preto no branco, quando questionado sobre isso, que o cargo de Óscar Puente, do ministro dos Transportes, não está em perigo, não está à disposição, porque não é da responsabilidade do ministério o facto de ter ocorrido um erro humano, aparentemente. Mas aqui vai além disso, que é esta figura é relevante no apoio a Pedro Sánchez e agora para entrar para a campanha, ele precisa de todos os aliados políticos que consegue. E, portanto, ele estar a alienar alguém que é um aliado próximo dele, é alguém fiel e é alguém que tem peso político dentro do PSOE, não é uma opção. E, portanto, as fontes da imprensa espanhola dentro do governo dizem que não há nenhuma dúvida que Pedro Sánchez vai manter a confiança política no ministro, porque precisa que ele o continue a apoiar para as eleições de 29 de novembro.
De qualquer forma, o que nós temos é, à esquerda do PSOE, alguma pressão sobre o que deve acontecer, pedidos de transparência, uma série de coisas. À direita do PSOE, temos um partido que para já está a tomar uma posição institucional, mas sem garantias de que não mude o registro do discurso, sobretudo quando sairmos do luto nacional. E à extrema direita do PSOE, temos um partido abertamente a acusar o governo. Ou seja, por muito que se olhe, Pedro Sánchez não está numa situação fácil, ele já não estava numa situação fácil em termos de popularidade e agora a coisa tem tendência a piorar.
É exatamente isso, porque Pedro Sánchez, para mal ou para bem, estava a conseguir definir o tema da campanha. Ele conseguiu levar o país a convocar eleições antecipadas com o tema da habitação como bandeira e agora, de repente, ninguém vai falar de habitação, pelo menos durante os próximos 15 dias. Vai-se falar: houve esta tragédia, quem é a responsabilidade, o que é que correu mal.
Porque é que há tantos acidentes em Espanha, porque já antes desse, no princípio do ano, já tinha havido outros.
Qual é o problema sistémico aqui que pode haver por trás e por que não houve uma resposta em nove meses, o que poderia ter sido feito para prevenir. Portanto, mesmo que Pedro Sánchez consiga dar uma resposta credível a todas estas questões que estão a ser apresentadas quer pela oposição, quer pelos parceiros de coligação, ele já passou para a segunda linha, ou seja, ele já passou a ser o alvo dos ataques e não a definir o tema de campanha como ele tinha vindo a fazer até aqui. Portanto, claramente é um duro golpe numa campanha que à partida ele já começava atrás.
Madalena, obrigada.
Obrigada eu.
Eu hoje conversei com a jornalista do Internacional do Observador, a Madalena Moreira. Falamos sobre o trágico acidente de comboio que está a marcar a pré-campanha das eleições em Espanha. Para já, espera-se os resultados das investigações em curso, mas o tempo da política nunca para verdadeiramente. Daqui a um mês, os espanhóis vão votar, a oposição vai exigir respostas do primeiro-ministro e Pedro Sánchez vai ter de explicar o que aconteceu e dar garantias de segurança aos eleitores, se não quiser que explicações e garantias lhe sejam cobradas nas urnas. Esta foi a História do Dia. A sonoplastia é da Lourdes Oswald, a música do genérico do João Ribeiro. Eu sou o Pedro Benevides. Até amanhã.