Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Passado muitos anos, ofereceram-me um gato e eu pus ao gato o nome de Otelo. E um dia encontrei o Otelo. Disse: "Olha, Otelo, tenho um gato. Tens um gato? Sabes que eu nunca tive cães nem gatos. O gato é extremamente simpático, é muito bonito. Sabes como é que o gato se chama? Otelo. Sabes por quê? O gajo é muito simpático, mas não é de confiança. Lá estás tu. As nossas relações de grande amizade, mas cada um sabendo." O Otelo telefonou-me poucos dias antes de morrer.
Portanto, achou que ele foi envolvido naquele ambiente.
Estava absolutamente impreparado para aquela coisa. Nunca fez o jogo do Partido Comunista voluntariamente. Ele era de outra coisa, era de uma extrema esquerda, era um artista, cantou da ópera, podia ser um homem da ópera, do teatro.
Olá, bem-vindos ao "A Vida em Revolução". Eu sou Rui Ramos, historiador, e comigo está o Pedro Jorge Castro, jornalista. "A Vida em Revolução" é um programa em que vamos falar com pessoas que viveram a revolução em Portugal em 1974 e em 1975, para tentar perceber como foi o seu cotidiano nesses tempos de mudança e de confronto político, e o que pensam hoje, 50 anos passados, sobre essa experiência.
E Rui, hoje temos a segunda parte da conversa com o General na reserva Manuel Monge, que foi assessor militar de Spínola na Presidência da República, e conta-nos o que aconteceu a seguir à renúncia de Spínola, portanto, a seguir ao 28 de setembro, e tudo aquilo que se seguiu.
Sim, e temos aqui material extraordinariamente interessante, que é das relações do General Spínola com muitas figuras do Partido Socialista, dirigentes do Partido Socialista, antes do 11 de março. E depois, o General Manuel Monge tenta resolver aquela meada que é o 11 de março, e creio que é uma visão que talvez esclareça um pouco o que se passou e até a confusão através da qual o 11 de março aconteceu. Temos aqui uma perspetiva sobre o 11 de março extraordinariamente interessante.
Sim, nas consequências do 11 de março, o General Manuel Monge foi preso novamente, tal como tinha acontecido antes do 25 de abril, e teve até um cúmplice carcereiro que tinha armas à sua espera para o que fosse preciso, dentro da prisão de Caxias. Vamos ouvir então o General Manuel Monge na primeira pessoa. Queria que nos guiasse um bocadinho pela presidência de Spínola, pelo gabinete dele, pela equipa, as pessoas que ele reuniu à sua volta, e um dia normal ali no Palácio de Belém, como é que era?
Um dia normal no Palácio de Belém era uma tragédia, porque era um militar, não percebia nada daquilo. Depois do 25 de abril e de termos de estar sete meses e meio na prisão, eu levei para Faro, para Massamá, que era a quinta onde estava o Spínola, levei lá tudo o que era inteligência política deste país. Todos menos o Mário Soares. Por uma questão de segurança. Mas foi o Almeida Santos, o Gama, que gostava imenso de lá ir, o Manuel Alegre ia lá, adorava, o Souto de Moura Cardia, toda a gente lá ia.
Mas não a Belém.
Não, isso já foi depois do 28 de setembro.
A pergunta era sobre o 28 de setembro.
Ainda era antes, em Belém, ainda era antes do 28 de setembro, antes ainda das coisas se despitar.
Como lhe digo aquilo-
É a reunião de uma primeira equipa, de um presidente
Começa a haver Conselhos de Estado. E os Conselhos de Estado tinham algumas pessoas nomeadas pelo presidente e pelas forças digamos, tradicionais do país, e tinha a comissão coordenadora, que era quem mandava. E a comissão coordenadora mandava. Era um governo sombra, para não dizer um antigoverno do governo que estava-
Mas Spínola sentia-se oprimido, não conseguia impor-se perante essa comissão
Nem ele, nem o primeiro-ministro, nem os ministros. Ainda a tropa era assim. Por que o Otelo acaba por ser graduado em brigadeiro? Porque se tinha acabado com a disciplina. Havia o MFA e havia os militares. Um dia eu ia com um camarada, um major mais antigo, íamos fazer uma coisa qualquer e eu disse: "Ó Major Soares, Monge, não, tu é que és do MFA". "Não, aqui não é MFA, tu és um senhor Major Soares mais antigo do que eu, nós somos portugueses. Tu é que vais à frente". Havia sítios em que os coronéis, comandantes, pediam licença ao capitão para fumar na sala dos oficiais. Chegou-se a isto, quer dizer, a quebra de disciplina e a demissão da cadeia hierárquica chegou a este ponto. Tinham medo de ser saneados. Criou-se uma bagunça. As Forças Armadas foram destruídas pelo MFA radical.
E no Palácio de Belém não se conseguiu contrariar isso.
Spínola queria, andou pelos quartéis a fazer as suas arengas.
Quem é que tinha mais influência junto de Spínola nesses meses em que ele exerceu efetivamente as funções de presidente?
Não sei. Se fosse o Monge estava tramado porque ele não entendia nada de jeito. Mas os outros também não. Quando estava um dia em Massamá, ele estava a ser muito pressionado pelas alas mais radicais, e eu fui lá um dia e ele disse-me: "Ó general, o senhor quando foi para Presidente da República, levou para lá três ou quatro militares, que eram uns gajos valentes da tropa, completamente ignorantes em termos de política, só lhe diziam disparates se alguma vez o senhor lhes perguntou alguma coisa. O senhor agora tem aqui as melhores cabeças do país. E agora como é que é? O senhor continua a ouvir os militares que não sabem nada disso?"
Só para compreender esta atitude, qual é que acha que era o problema do General Spínola? De facto, ele enquanto está na presidência Não se aproxima, como poderia parecer previsível que o fizesse, que enquanto a Comissão Coordenadora se está a aproximar do PCP e da extrema-esquerda e a apoiar-se neles, poderia parecer que o General Spinola podia se aproximar do Partido Socialista ou do PPD, do Sá Carneiro, mas não o faz. Como é que é? O que se passa?
O Sá Carneiro tinha uma grande proximidade com o General Spinola.
Eles têm.
O Sá Carneiro tinha. O Soares tinha algumas desconfianças.
E eram desconfianças mútuas ou era só do lado do Soares?
Talvez também um pouquinho mútuas. Porque a gente tem que ver os passados de um e de outro. O Soares vem lá de esquerda e o conservadoríssimo General Spinola olhava para ele com alguma desconfiança. Mais tarde, adoravam-se. O Soares deu-lhe a Grã-Cruz da Ordem Militar da Torre e Espada, fez-lhe o chanceler e ofereceu-lhe o bastão de marechal. O Soares adorava o Spinola, e o Spinola também a ele, mas isso é mais tarde.
Mas se isso tivesse acontecido mais cedo, as coisas podiam ter sido diferentes.
Não sei se o Soares nessa altura conseguiria dominar o seu partido.
Transporte-nos para a Manifestação da Milícia Silenciosa e para a forma como isso foi vivido dentro do Palácio de Belém.
A Manifestação da Milícia Silenciosa não foi feita em Belém. Aquilo foi uma organização cá fora do Galvão de Melo e de mais alguns homens mais conservadores. E o Spinola disse que sim, como o Spinola disse que sim quando é enganado e levado em pijama para Batanca no 11 de março, que já é uma outra história. Portanto, o Spinola pensou que o Portugal profundo pudesse. E o Portugal profundo existia, mas nas revoluções não são as maiorias que vencem, são os mais dinâmicos e os mais organizados que fazem as revoluções.
Portanto, o que foi decisivo aí foi essa organização. Isto é, uma organização bastante forte. Há uma organização também da Comissão Coordenadora do MFA. Eles estavam muito mais organizados.
Estavam mais organizados e muito mais apoiados. A rapaziada que tinha feito o 25 de Abril com as armas na mão, tinha regressado a quartéis. Uns tinham perdido o controle das suas tropas devido aos chufos e aquilo que na altura começava a criar a indisciplina dentro da tropa. E outros estavam amarrados ainda àquele espírito dos decretos, desse espírito contra os miliçianos, que não tinham dado o passo seguinte, estavam longe da política.
Neste caso, poderia parecer que o interesse do General Spinola seria não tentar ir para um confronto em que estaria em desvantagem em relação aos outros, mas ele acaba por ir.
Acaba, repara.
Ninguém o aconselhou a pensar isso.
Nós não podemos pôr no General Spinola as virtudes políticas do General Costa Gomes. A maleabilidade, a artimanha, o jogo de cintura, todas essas coisas que o General Costa Gomes conseguiu ter, o Spinola não tinha.
O Spinola não tinha.
O Spinola não tinha. Se fossem dizer ao Costa Gomes que o Melo Antunes tinha feito isso, ele diria: "Sim, eu vou falar com ele". O outro diria: "Eu pego numa pistola, eu mato". Repara, são duas figuras completamente diferentes, que acabaram por se divorciar completamente também, a ponto de que antes do 11 de março, o Costa Gomes dá dois passaportes ao Spinola para ver se ele se vai embora.
Se ele se vai embora. Mas, por exemplo, durante o verão de 74, o General Spinola ainda confia no General Costa Gomes.
No verão ainda confia, até que ele descobre que o então já primeiro-ministro Vasco Gonçalves ia conspirar com ele para o Forte de São João da Barra.
Ia conspirar com o General Costa Gomes. Ele descobre isso. Alguém lhe diz?
Descobri eu.
Como é que descobriu isso?
Estava doente. O Spinola precisava falar com o General Costa Gomes, qualquer coisa. Eles eram muito amigos, "o Chico, o Chico". Eu era muito amigo do ajudante campo, um homem da Marinha, que está agora lá para a Suécia, que era o ajudante campo do General Costa Gomes. E ele telefone-lhe: "O nosso general precisava de falar com o teu general, vê lá se ele pode cá vir". "Mas o general está doente". "É uma coisa qualquer na garganta". "Olha, o nosso general, se ele está assim, fala com ele, como sabes, somos muito amigos, vê como é que ele está de saúde". "Espera aí um bocadinho, por favor". "O nosso general já se recolheu, é melhor não". Só que nós nessa altura já não éramos parvos, já também tínhamos as nossas coisas montadas, nomeadamente a GNR que tinha lá gente da nossa confiança. E então vieram-nos dizer que o senhor General Costa Gomes, que estava muito doente, não podia ir a Belém receber a visita, estava a conferenciar com o Vasco Gonçalves. E nós tivemos que dizer isto ao Spinola.
Como é que foi?
Começou aí o...
Como é que ele reagiu? O que ele disse?
Como é que foi a reação dele? Ficou triste. "O Chico". Ficou triste, mas eram muito amigos. E depois há toda uma história de um afastamento, depois há uns tipos chatos, que não ajudam nada a que eles se reconciliem, como o Monge e outros deputados.
O que fez para não ajudar a conciliação?
Os ajudantes de campo, um dia estão os dois um ao lado do outro numa missa, da selva, qualquer coisa, ou ver o Papa. Então, a mulher do Costa Gomes vai dar o beijo da paz ao Spínola. E depois o Spínola respondeu aquilo, depois o ajudante de campo andou a querer fazer as pazes entre eles. É preciso a gente ver o que se passou. Eu fui duas vezes aos jornais da Vera Lagoa defendê-la quando o Costa Gomes lhe pôs os processos.
Sim.
E depois, a primeira vez que eu fui defendê-la, o Costa Gomes mandou-me levantar um auto, porque ele era o chefe das forças armadas. E depois eu fui ser ouvido num auto por um brigadeiro de artilharia. Quando o homem me foi ouvir, às duas por três o homem acabou por me dizer assim: "Homem, olha só, gostava de ter a sua idade para estar eu no seu lugar". Como as coisas se movimentavam já da divisão terrível em que o nosso país estava ao meio. E eu depois na vez seguinte fui dizer à Maria Armando: "Olha, agora achou-lhe outro processo, eu venho cá ser testemunha". "O senhor já veio da outra?". "Não, mas o general Costa Gomes mandou-me um processo e eu para mostrar que não tenho medo do processo dele, quero cá vir segunda vez". Depois havia outra coisa, nessa altura eu já estava muito próximo de muita gente do PS, e eles não podiam com o Costa Gomes.
Com o Costa Gomes. Voltando ainda só ao 28 de setembro, esteve na torada do Campo Pequeno, não?
Estive na torada do Campo Pequeno. Fui uma torada.
Como é que viu a forma como as pessoas reagiram e apuparam Vasco Gonçalves?
O Vasco Gonçalves foi apupado porque lá dentro estavam os Marialvas. A gente de direita, que naquela altura estava metida na operação do 28 de Setembro. Do lado de fora, estava a Mortágua do Templo com os seus apaniguados. Não tinha flotilha, mas tinha aquele barulho todo para pedrar à porta do Campo Pequeno. Uma sucessão precisamente desagradável, primeiro lá dentro com o Vasco Gonçalves, porque realmente depois veio a área, é chato, e depois cá fora fizeram também o contra, como fizeram quando cercaram a Assembleia da República, a extrema-esquerda estava na rua.
Mas nessa altura, a relação entre o general Spínola e Vasco Gonçalves era péssima.
Era péssima.
Como é que se degradou? Foi logo às primeiras? Não. A relação entre eles.
Não, porque o Spínola politicamente era um ingênuo. O Spínola a quem ele quis fazer primeiro-ministro foi o General Firmino Miguel. Mas depois o MFA conspirou logo com os sindicatos para impedir que isso acontecesse. E então o Miguel disse: "Não, amanhã há uma greve geral, eu não quero". E então apontaram-lhe o Vasco Gonçalves. O Vasco Gonçalves era um quadro do Partido Comunista. Se não tinha cartão, tinha o coração, o estômago, o peito, era um homem do Partido Comunista. Ideologicamente era um homem do Partido Comunista. Mas o Spínola não sabia. O Spínola a princípio, obviamente que confiava no militar superior para o 25 de Abril, tinha que confiar. Foi a pouco e pouco que foi vendo o que eles realmente faziam.
Qual foi o momento de viragem ou a primeira surpresa desagradável com Vasco Gonçalves?
Isso, a primeira surpresa, não lhe sei dizer porque não assisti a ela.
Foi muito rápido, não é? Foi muito rápido, em três meses. Conhecia o Vasco Gonçalves antes mesmo de 64?
A gente conhecia, mas considerava um idealista, um poeta. Quando nos dizem que aquele senhor é indicado para primeiro-ministro, a gente é assim, estar a pensar: "Sei lá, no meu Manuel Alegre Papa", alguma coisa assim, quer dizer, coisas que não dão. É um grande poeta, mas naturalmente não conhece a Bíblia. Sou imensamente amigo do Manuel Alegre.
Mas é uma surpresa para vocês, de repente vê-lo, não estavam à espera.
A gente não estava à espera que ele fosse assim, mas quando ele aparece, já ficamos desconfiados. Repare que ele vem em contraponto do Firmino Miguel, portanto, isso dá-nos logo ideia de que as coisas não estão a correr bem, mas pensamos que ainda pudesse haver algum equilíbrio. E o Spínola até tentou várias vezes, até porque tinha vários ministros no governo da sua confiança. Mas não era possível.
Porque havia aqui várias pessoas que mudam. O Otelo Saraiva de Carvalho é uma delas, Carlos Fabiano é outra.
Carlos Fabiano é um problema muito complicado.
Então.
Carlos Fabiano era um homem de grande confiança do Spínola. O Partido Comunista apoderou-se de grande parte das informações, das fichas e das coisas que haviam na PIDE. Eu conheço, com nomes, oficiais que foram chantageados por terem qualquer coisa na PIDE que pudesse se ligar ao Estado Novo. Por exemplo, uns oficiais marineiros, numa determinada altura, veio de comissão, não tinha nada que fazer, e experienciou uma ficha a dizer que poderia ser candidato a ser inspetor da DGS. Mas não foi! Mas apanharam aquilo e foi o suficiente para o chantagearem quando ele era depois oficial a seguir ao 25 de Abril.
Quem é que o chantageou?
O PCI, o MFA radical. "Nós temos cá a tua ficha, se não fazes o que a gente quer".
E foi-lhe contado pelo chantageado? Não, como é que sabe isso?
Foi-me contado pelo indivíduo que falou com o chantageado. Eu sei o nome e tudo a bem, mas não vou dizer. Era um oficial brilhantíssimo o Fabião. O Fabião esteve metido no massacre do Pisiquiti, em missão. E não sei como é que isso não poderia ser mais tarde explorado pelo MFA radical e pelo PC. Porque a primeira pessoa que entrou no gabinete do Fabião quando ele foi feito chefe do Estado-Maior do Exército foi o Alvares Gunhal. Mas não passa pela cabeça de um careca. O Fabião é trazido da Guiné para chefe do Estado-Maior do Exército pelos moderados. O Fabião era um homem da nossa confiança.
Mas alguma vez falou com ele sobre isso? Sobre essa viragem?
Pior do que falei, mandei uma vez uma carta e foi muito desagradável a minha carta para ele e a resposta dele, porque eu responsabilizei-o por estarem a ser fuzilados os nossos antigos combatentes na Guiné. Quando eu estava preso em Caxias e a gente começou a saber que estava a acontecer.
E como é que ele respondeu?
Respondeu que os culpados tinham sido os que tinham estado metidos no 11 de março. Estavam presos, não era o meu caso, eu não tinha nada a ver com o 11 de março, mas fui bem preso, porque obviamente eu era um indivíduo perigoso.
Queria só perceber o dilema, se é que houve dilema, de Spínola, antes de se demitir, antes de renunciar à presidência da República. Ninguém o convenceu a continuar? Ou foi o quadro que lhe convenceu que aquilo era a melhor coisa?
Ele achava que já não tinha autoridade.
Isto por causa da reação à manifestação.
Nomeou um Conselho de Estado. E no Conselho de Estado dele, a única pessoa que o defendeu foi a Magalhães Godinho.
Isabel Magalhães Colasso.
Magalhães Colasso. Os outros, mesmo aqueles que tinham sido nomeados por ele, estava tudo a tremer perante as barricadas nas ruas, que pudesse haver qualquer coisa mais complicada. E quando o Spínola vai fazer a sua proclamação ao país, a casa militar dele estava por trás dele armada, porque nós tínhamos informações de que o MFA iria impedir que a televisão transmitisse aquilo. Veja o ambiente em que a gente estava. Não era possível continuar.
Mas participou na decisão da renúncia, não? Ou foi uma decisão solitária que ele comunicou?
Não, a decisão foi dele.
Como é que ele vos disse? Como é que ele disse ao gabinete? Como é que ele disse às pessoas?
Ele não fez nenhuma reunião para nos dizer isso. Mandou preparar o discurso, e a gente não me recorda, mas o Trás-se do Bolonha que nos disse: "Olha, o nosso general vai-se embora". E nós percebemos que aquilo também já não podia ser.
Mas essa altura ainda pensam que ele irá ter um papel depois, não é? Não se vai pôr fora de jogo completamente.
É o que eu conto quando eu levo toda a gente.
Exatamente. Aí há uma aproximação, por exemplo, do Partido Socialista.
Partido Socialista.
Isto é depois do 28 de setembro, portanto, o general vai para Massamá.
Quando ao 11 de março, o Vasco Gonçalves e o MFA radical levantam um processo ao Soares, acusando-o de estar incriminado no 11 de março. E o Soares disse que sim, senhor, que responda ao processo, mas com uma condição: é ouvido no gabinete do Vasco Gonçalves, com o Vasco Gonçalves lá presente.
Essa aproximação de Spínola com o Partido Socialista, portanto, já se dá depois do 28 de setembro, quando ele já está fora da presidência da República. Os contactos, enfim, é o senhor general. Mas quem é que estabelece os contactos? É do Partido Socialista, foi o senhor general que tomou a iniciativa? Como é que se estabeleceram os contactos aí?
Eu julgo que fui capaz de ter responsabilidade nisso, porque eu sou muito amigo do Manuel Alegre. E portanto, os homens que nessa altura mais próximos estavam meus e do general Spínola, era o Manuel Alegre e o Nuno Pedro. Quem era o grande animador de nos levar lá, isso realmente era eu, foi por isso que eu estive preso.
E levou-os lá, eles iam lá frequentemente, assistia às conversas também?
Sim, assistia às conversas.
O que se falava? No fim de 74.
A ideia era mais ou menos o seguinte: o país tem que reagir a esta onda pró-comunista em que está. Nós sabemos que o senhor general também está do nosso lado com isso, nós temos que fazer aqui uma frente comum para conseguir acabar com essa situação. Esta era a posição deles tinham.
Vamos agora fazer uma pausa, voltamos depois do intervalo. Voltamos para a segunda parte da conversa com o general Manuel Monge. É nesse contexto que está presente no Congresso do Partido Socialista em dezembro de 74. Quer dizer que aparece lá pra dar apoio a Mário Soares. Quem é que teve essa ideia disso?
O congresso é assim: um dos homens que estava a fazer o congresso, que liderava o congresso, que era muito meu amigo, ia constantemente comigo ao Spínola na Massamá, disse-me assim: "Monge, o Manuel Serra vai ter lá uma delegação do MFA a apoiá-lo, e nós precisávamos que vocês, os militares operacionais, tivessem também uma delegação lá pra equilibrar isso". E eu disse: "Vitor da Cunha Rio, amigo Vitor, quantos é que o senhor quer? Cem?" "Major, 100 não é uma delegação, é uma parcelada". "Então quantos quer?" "Uma unitade." "Leve 30." "30?" "30." Quem é que foi? Soga Maia, Caetano Ferreira, o Ajudante de Campo do Otelo, o Marques Júnior, o Jaime Neves, o Morales Gila, 30. 29 militares e um civil. O civil era um moço que prendeu o padre Anselmo no célebre 25 de Abril, que aparece um fulano com uma pistola.
Certo.
Esse moço tinha sido alferes do futuro Comandante Correia de Campos do Regimento, tinha sido alferes dele na Guiné, e que apareceu ali não sei quanto, e deram como estava à paisana, toma lá uma pistola e vai lá. E foi ele e o Jaime Neves que prenderam o padre Anselmo.
Isso no dia 25 de Abril.
Exato.
E aparecem no Congresso, qual é que foi o ambiente?
Estamos lá 30, aquilo era na Ala Magna, lá à frente estava o Vasco Lourenço, com mais três ou quatro fulanos, e nós estávamos cá atrás. E ninguém sabia, nós sabíamos do MFA, o MFA não sabia de nós, estavam lá atrás.
Como é que foi a reação?
Quando eles começam a ver aquilo, o que é que se passa? À frente estava o Tenente-Coronel Garcia do Chão. Garcia do Chão olhou para o lado e disse: "Opa, eu estou é enganado, o meu lugar não é aqui, vou lá pra perto de nós". O Garcia do Chão também tinha sido um operacional conosco, e estava lá ao lado dessa remissão. Ficou lá o Vasco Lourenço com mais duas ou três pandilhas que tinham tanto que ver com o 25 de Abril como eu com a monarquia grega. Quer dizer, tinham chegado ali depois do-
Os senhores não iam fardados, iam todos à civil.
Claro.
Iam todos à civil e apareceram ali e deram o apoio, portanto, deram apoio ao Mário Soares.
Naquele congresso já era uma bagunçada, havia barulho. Quando falava o Soares, gritavam os caras do Manuel Serra: "Acabou o Congresso". E o Manuel Serra era amigo pessoal do Vasco Lourenço. E então o Vasco Lourenço foi pedir: "Vá lá então tu, dizias que ganhavas, fizeste-nos esse papel, vamos pra lá e perde-te, o que tu queres? O Monge vem por aí com os chaimites".
Como é que os congressistas perceberam que vocês estavam com o lado Soares? Estavam próximos de Soares, Soares ia falar com vocês?
Para já, os líderes do Partido Socialista sabiam. E, portanto, quem são estes? É fácil ali, boca a boca, facilmente perceber. Falavam aos ouvidos, e a gente mandava-os aplaudir. Era evidente.
E vocês aplaudiam, claro.
Claro, a gente fazíamos parte do Congresso naquela altura. Não estávamos lá só pra fazer de notário, como diria o senhor almirante.
Embora o general Spínola tivesse saído da Presidência da República, as coisas não estavam propriamente a correr mal, porque o Mário Soares triunfa no Congresso do Partido Socialista, e depois no princípio de 1975, também tem-
Nos Conselhos de Armas.
Nos Conselhos de Armas, vocês têm uma série de sucessos nas eleições.
Exatamente.
Portanto, têm apoio, quer dizer, têm o apoio das Forças Armadas.
Mas nós não temos nada que ver com o 11 de março. Nem nós, nem o Spínola. No dia 9 de março, eu fui com o Caetano Nova Ferreira, à casa da sobrinha da Maria Luísa, do Spínola, porque sabíamos que o Spínola estava muito agitado, porque ele tinha visto na televisão uma coisa a chamarem "bêbado", ou Luís de Camões, estava muito agitado. Nós fomos lá falar com ele e dissemos: "Olha, major, daqui a uns dias há eleições, o senhor tente estar sossegado".
Ele estava agitado, o que ele queria fazer?
Ele mostrou-me os dois passaportes que lhe tinham sido dados pelo Costa Gomes, passaportes diplomáticos. Era um convite a eles sair do país. Eu disse: "Ó major, não vê que o querem fora daqui? Deixe estar sossegado, vamos lá ver as eleições". Ele prometeu-nos que não fazia nada. Bom, e na noite do 11 de março, o Spínola tinha uma guarda pretoriana, todas as noites iam pra lá dois oficiais fazer a guarda. Era uma coisa simbólica, obviamente. Dois oficiais, todas as noites. Nessa noite estavam lá os dois oficiais que foram fazer a guarda ao Spínola. E a dona Maria Helena tinha sempre um chazinho com uns bolinhos pra eles. Nesse dia não houve. Os oficiais, a posteriori, claro, estranharam. Só às 03:00 que souberam que o Spínola já lá não estava. Quem é que nomeava os oficiais que iam pra lá fazer a segurança ao Spínola? Era o major Monge, que tinha uma lista, e o Spínola uma vez pediu: "Monge, vá me dar a lista dos oficiais. Chega um aí fulano que eu mal conheço, dizem que foi o senhor que mandou fazer a minha segurança". "Ó major, não há lista". Tinham sido todos presos a seguir ao 11 de março, e alguns não foram, porque ninguém soube quem eles eram. Iam lá fazer a segurança à noite.
Portanto, mas nessa altura, nesse dia ou nessa noite, digamos assim.
Nessa noite vai lá. Ele nunca me perdoou eu dizer isto, porque ele diz que ele também não foi responsável. Eu acho que o responsável pela ida do Spínola foi o Alpincalvão. Eles levam à história da matança da Páscoa, da lista da matança da Páscoa, todas essas-
Chegou a ver a lista, não?
Vi a lista. Qualquer um faz uma lista. Mas que havia um espírito de perseguição e de ameaça, havia. Eu estou uma vez em Santarém, eu era professor da Academia Militar, e estou em Santarém com os cadetes pra fazer uns exercícios. Era os postados aparecem-me à porta dois oficiais. O oficial de dia foi-me chamar, era meia-noite, já me ia deitar. "Major, estão ali dois oficiais que querem falar com o senhor". Fui lá, dizem meus assim: "Manel, tem cuidado, porque há uma lista para prender as pessoas". Páraquedistas, ainda bem que tinha fureiro. Vocês acham que vêm agora os gajos prender-me aqui nas copas de cavalaria, vêm cá os Tupamaros prenderem-me. "Mas tem cuidado". Lá seguiram, andavam a prender as pessoas que eles achavam que iam ser perseguidas e que eram amigas. Havia esse clima. O 11 de março é feito pelo senhor general Tavares Monteiro e por alguns indivíduos da reserva, com o apoio da Força Aérea e dos pára-quedistas. Nem o exército tem nada a ver com isso e muito menos os spinolistas, não têm nada a ver com aquilo. E o Spínola vão à casa dele na noite do 11 de março e querem levá-lo para Tancos. Tudo o que eu estou aqui a contar é factual. Isto que eu vou contar daqui para diante é uma reconstrução minha para explicar o inexplicável. Como é que eles convencem o Spínola a ir de pijama, depois é que se fardou lá em Tancos, a correr, a sair dali a correr, porque lhe falam no assalto ao Palácio da Santa Páscoa. E o Spínola disse: "Não, nós aqui". Ele tinha lá os seus dois oficiais e tinha uma pequenina força da GNR lá à porta. Isto já é construção minha, nunca falei nisto ao Spínola. E eu acho que eles disseram: "Pois, o senhor não teme pela sua vida, nem pela sua segurança, mas os seus amigos e os seus apoiantes é que vão ser maltratados se o senhor não faz nada". E isto não se pode dizer ao Spínola. Spínola embarca logo. Porque o comportamento dele não: "A segurança que lá está é nomeada por mim. Estão lá os oficiais, não sei o quê. O papel que nós tivemos no 11 de março". Claro que fomos presos e bem presos, no meu caso, fizeram bem em prender-me. E o tempo que lá estive preso também posso dizer. Mas quando o Spínola voltou, ele disse: "Ó meu general, o senhor quando estava no exílio, para mim, era o Ali Babá e os 40 Ladrões. Ó meu general, era pior do que o que o senhor pensa". Ele teve a noção de onde é que andou realmente metido.
O que fez no dia 11 de março? Quer dizer, soube de repente?
No dia 11 de março, nós começamos, na véspera, à noite, eu estava a jantar na Fateixa, que é um restaurante ali de Carcavelos, com o Coronel Varela e com o chefe da espionagem militar alemã. Os serviços secretos ocidentais militares estavam do nosso lado e ajudavam-nos. Aquele senhor era um major das Forças Especiais alemãs, dos serviços secretos militares alemãs, que estava cá como adjunto do assessor de economia da embaixada, mas era o homem das informações e que tinha ligações, não comigo, porque eu não estava nessas áreas, mas com as informações portuguesas onde estava o Varela, que estava na parte de informações. Então o Varela e o homem disse que queria conhecer-me, fomos jantar os três. E quando estamos a jantar, aparece lá o Coronel Xavier Brito e diz: "Ó Manel, passa-se isto e isto, já levaram o nosso general para Tancos". Isso era uma perfeita loucura. "Mas o que é que..." "O nosso general veio-me dizer para tu ires para Tancos". O nosso general disse para eu ir para Tancos. Os senhores pensam.
Então, mas Spínola mandou recado.
Não mandou nada.
Para o chamar. Não mandou nada.
Naturalmente, não mandou nada. "Eu vou-me embora, eu tenho que ir para Tancos". Chegou o Bruno, daí a alguns minutos. Chegou o Bruno também à Fateixa. Que eles sabiam, não sei como é que eles souberam onde é que eu estava. Conseguiram saber, falaram até comigo. E diz-me o Bruno: "Ó Manel, o Coronel Xavier Brito foi lá comigo para nós irmos para coiso". "Mas isto não tem cabeça nenhuma, isto não faz sentido nenhum". E não fomos, claro, obviamente que não fomos. Eu ainda fiz uma coisa que me pediram, que fui à Cavalaria Sete, estava o coronel, meu amigo, para que a Cavalaria Sete não saísse contra aquilo que eles iriam fazer, mas a gente não sabia minimamente o que se estava a passar.
Quem é que lhe pediu para ir à Cavalaria Sete?
Veio o ajudante de campo do Spínola de Tancos. Quem é que estava no meu gabinete? Quem é que estava na minha casa nessa noite? O Eanes, o Varela e o Armando Ramos. O senhor general Eanes nunca conseguiu conviver bem com essa sua presença lá. E como ficou muito preocupado com a sua imagem por poderem acusar o 11 de Março, de que ele sabia mais do que eu, como depois eu vim a saber. Foi à polícia, fazer um tornado, um monte de coisas. Qualquer motivo, eu nesse dia, nessa tarde, só soube quando estava a jantar na Fateixa.
Mas antes esteve com o General Eanes?
Como?
Antes esteve com o General Eanes.
O general estava lá na minha casa.
Antes de irem jantar.
Depois.
Depois.
Depois de jantar, eu fui para casa.
E o que é que conversaram? Qual foi o sentido da conversa?
O sentido da conversa é: "O nosso general, não sei o quê, vamos ver o que isto vai dar". Eu digo: "Isto vai dar disparate". Eu nunca tive nenhuma esperança naquilo. Curiosamente, nem eu, nem o Varela. O nosso então tenente-coronel Eanes e o Armando Ramos estavam mais otimistas do que nós. Eu estava muito pessimista porque eu percebi que andava ali a mão dos radicalismos militares, do Opulino Galvão e dessa gente. O Opulino Galvão jurava a uma pé junto que não tinha sido ele e que realmente não foi Não foi ele que montou o 11 de Março, foi a Força Aérea, foi o General Tavares Monteiro, o Coronel Corbal ou Corvelo, que era um tipo que talco ressonava lá na prisão, e mais uns homens da Força Aérea, que depois conseguiram movimentar algumas bases da Força Aérea e os paraquedistas.
E qual era a ideia deles? O que é que lhe parece?
A ideia deles, também não sei qual foi o contacto que eles fizeram. Eles pensavam que iriam ter algum apoio, levando o Spínola, que iriam ter algum apoio da Escola Prática de Cavalaria. Mas não era possível, assim como não era possível no 28 de Setembro, o Spínola reagir de outra maneira.
Portanto, achou que no 11 de Março, há um grupo de militares, sobretudo da Força Aérea, que toma a iniciativa e que está a usar o General Spínola.
Havia uma preparação de reação militar contra o que estava a passar. Nós estávamos a organizar-nos, isso é verdade. Nós tínhamos contactos com oficiais da Força Aérea.
Certo.
Só que esses contactos que nós tínhamos com a Força Aérea era com os oficiais de baixa patente. Um deles era o cunhado do Yano, do Neto de Portugal. Havia realmente um ambiente de preparação para reagir.
Generais para reagir no caso de acontecer qualquer coisa.
Claro. Ou possivelmente até, se necessário fosse, conforme as circunstâncias. Mas havia uma coisa que era sagrada: tinha que haver eleições. Nunca se faria nada antes de haver eleições.
Portanto, isso era o objetivo.
Objetivo fundamental.
Nessa altura, por exemplo, Melo Antunes, que está a preparar um plano, aquele plano económico, que não tem nada a ver com o que se fez a seguir ao 11 de Março. Sentiu que ele estava próximo de vocês ou ainda não?
Não estava próximo de nós, mas também não estava com os outros. Curiosamente, estava na Argélia nesse dia. E curiosamente, o ajudante de campo dele, o secretário dele, que era um então major do meu curso, vem-me dizer: "Está aqui muito coisa polvorosa", porque havia boatos naquela altura. "Nós e o Melo Antunes estamos agora no meio da Argélia, tu achas que nós podemos ir em segurança à Argélia?" Eu disse: "Eu acho que sim, não me parece que nos próximos dias haja qualquer coisa". E esse dia era o 11 de Março, como eu digo, até parece que eu dei uma informação errada. Não, eu não sabia de nada.
Mas nessa altura, na antiga comissão coordenadora, já havia divisões, já não estavam todos do mesmo lado.
Não estavam todos do mesmo lado.
E vocês sabiam isso?
A gente sabia disso. Apesar de haver grandes dissonâncias na descolonização com o Melo Antunes, mas nós considerávamos que o Melo Antunes era um indivíduo com os pés assentes no chão, e tínhamos com o Melo Antunes e com a sua gente, que eram poucos, convenhamos, algum bom relacionamento, porque nessa altura, o Vasco Lourenço e essa gente toda ainda estavam alinhados com o Vasco Gonçalves.
Ainda estão nessa altura, à volta do 11 de Março, ainda estão ligados.
Sim. O 11 de Março depois dividiu um bocado, porque os disparates da ala radical foram tão grandes que levaram que o Vasco Lourenço e outros fulanos mais sensatos, na Assembleia Selvagem tivessem tomado uma posição, porque já se falava em fuzilamentos. Ali há uma linha divisória. Eu poderia dizer que o grupo dos Nove nasceu na madrugada do 11 de Março. Perceberam que aquilo era um conjunto de disparates que estava a ser feito pelos radicais de extrema.
E no 11 de Março é preso outra vez. Como é que é preso dessa vez? Como é que é a sua prisão no dia 11?
No dia 11 de Março, como digo, fui à Cavalaria 7 ver o tipo. E às duas por três, venho para casa e apercebo-me do ambiente, que obviamente eles me iriam prender.
Mas já agora, essa sua ida à Cavalaria 7 acaba por o tornar cúmplice do que estava a acontecer, de alguma forma. Ou seja, mesmo que não estivesse por dentro daquilo que estava a ser preparado, o facto de ir ali para tentar de alguma forma influenciar o curso dos acontecimentos.
Mas o que só quem sabia era o comandante, mais ninguém. Eu não fiz nada, eu disse para ele não fazer nada. "Olha, a gente pede para não fazer nada". Ele também não iria fazer, mas foi só para não dizer que eu não cumpri a ordem. Está a história do "vai lá falar com o Coronel Cavalaria 7, que ele não sei o quê". Está disparate. Ali não diz disparate, mas lá fui dizer ao senhor.
"É a segunda vez que faz isso", diz o comandante. Segunda vez que faz.
Mas ali não tinha grande coisa, era uma coronela: "Olha, este rapaz disse um disparate qualquer, não se meta nisso". Pronto.
Era só isso. Portanto, era pedir a precisão.
Mas então prendem-no como?
Como é que o prendem?
Prendem porque eu, nessa altura, vou à Academia Militar, vejo o ambiente terrível que está criado e disse ao-
No dia 12, já no dia 12 ou ainda no dia 11?
Não, isso na noite do dia 11.
Na noite do dia 11.
Na noite do dia 11. Um camarada meu, que curiosamente tinha sido quando eu fui, digamos, entre aspas, tomar o Lançadores 2 e Cavalaria 7, ele foi também com mais umas forças para dar talvez umas pacificações, umas unidades que ainda não se tinham entregue na noite do 25 de Abril. Era um tipo chamado Bax Bivar. E então o Major Bivar: "Esta gente, nós vamos ser presos". Eu: "A mim não me prendem em casa". E então metemo-nos no meu carro, fomos para o norte, porque a gente calculava que aquilo no norte seria diferente. Mas depois estavam as barragens do Poder Popular nas estradas, puseram umas coisas com pregos no Uma coisa para os carros passarem, um carro ficou sem pneus e a seguir ainda fui apanhado perto de Alcobaça.
Perto de Alcobaça?
Não.
Portanto, numa dessas barragens...
Numa dessas barragens, furaram o carro.
Furaram os pneus.
E depois eu e o Vilar fomos a pé, à noite, sem conhecer nada. Ficar aqui a ver se a gente amanhã de manhã vai para algum sítio. Apareceu a GNR, que naquela altura o poder popular tinha anúncios, havia a vigilância popular. São dois oficiais, devem ser reacionários, vê a GNR, pronto, e a GNR prendeu-os, não poderia prender um oficial, mas estamos em revolução. Lá fomos. E então eu fui preso para a Escola Prática de Infantaria. Depois no dia seguinte fomos para Caxias.
Para Caxias, portanto foi para Mafra, para a Escola Prática de Infantaria e depois para Caxias. E aí é acusado de ter sido participante na tentativa de golpe.
Aí houve um oficial da administração militar que nos ia ouvir, um homem muito simpático, coitado, um coronel, e depois dizia: "Monge, tenho aqui um papel a dizer que o senhor no dia tanto e tal, estava a conspirar num sítio tal". Digo: "Ó meu coronel, a sua vossa pia é mais ruim que a anterior". "Então eu nesse dia estava não sei onde. Eu conheço essa gente que o senhor diz que eu estou a conspirar, são meus amigos. Eu conheço esse restaurante que o senhor diz aí, não vou lá há três meses". Acabaram por desistir e arranjaram um fulano da Marinha, um capitão de mar e guerra que vinha com um gajo do PC de barbas, então vieram me ouvir. Na altura eles queriam incriminar o Partido Socialista.
Era incriminar o Partido Socialista.
Então queriam saber quem é que eu levava.
Ver o General Spínola em Massamá.
Ver o General Spínola em Massamá. E o senhor comandante dizia: "Senhor major, então diga-me lá, quem eram as pessoas que iam a Massamá visitar o senhor General Spínola? Iam lá muitas pessoas, não iam?" "Iam". "E era o senhor general que eu levava, o senhor major". "Era". "Então quem eram?" "Isso não sei, já não me lembro". "Não se lembra?" "Não me lembro de ninguém". "Olhe, senhor comandante, eu julgo que há aqui um Marte, deve ser de outros tempos, em Caxias, que nos ataca a memória, que eu não me lembro de ninguém que eu levasse lá". "Então, mas não ia lá o Tomás Soares?" "O Tomás Soares toda a gente conhece, o Tomás Soares nunca lá foi". Era verdade.
E era verdade.
"Então e o Manuel Alegre?" "O Manuel Alegre era meu companheiro, todas as semanas íamos passar o fim de semana". "Manuel Alegre, mas quem é o Manuel Alegre?" "O senhor não sabe quem é o Manuel Alegre?" "Não". "É o senhor de barbas". Toda a gente usava barba naquela altura. "Não sei quem é o Manuel Alegre". Aquilo acabou com o senhor a dizer assim: "Senhor major, realmente, como está muito doente da sua memória, o senhor vai ficar aqui bastante tempo e eu vou deixar aqui o meu número de telefone, um cartãozinho, que é para se a sua memória melhorar, o senhor então favor depois me ligar". Digo: "Ó senhor comandante, leva logo o número de telefone, porque isto aqui não se cura com certeza, enquanto eu aqui estiver". Depois, quando o Melo ataca lá do norte, isso começa a mudar. Quando começa a mudar, cria-se o Tribunal Revolucionário e é nomeado, ainda hoje não sei quem foi que pediu o Prosenco de Carvalho para ser meu advogado. E há aquela cena, como eu disse, de nós escolhermos os oficiais que nos vinham ouvir. Então, o coronel Carmelo Rosa veio me ouvir com um senhor escrivão, não sei quem era, um advogado, um oficial meu, sargento, pá, impotente. E então diz-me o coronel: "Ó Manuel, vamos lá agora aqui ver o que é que tu dizes". E diz o professor: "Não, tu não me diz nada, quem diz sou eu, eu que sou o advogado". Então, diz: "Faz favor de me pôr em pasta, por favor, o seguinte: por que o senhor Major Monge está preso?" E diz o outro lá: "Está preso por suspeita de tomar parte no 11 de março". "Então, faça o favor de me dizer o que ele terá feito, quais são as provas que os senhores têm para o poder incriminar". "Isso não temos". "Não têm?" "Não". "Então, mas o que ele fez?" "Não sabemos". "Então, se não sabem, escreva, faça o favor, porque ele tem que ser libertado". Mas depois eu tinha um grande amigo, que se chamava almirante Rosa Coutinho, que conseguiu torpedear aquilo durante algum tempo, mas não foi muito mais tempo. No dia 31 de outubro, lá tiveram que me soltar.
Mas durante esse tempo, entre o 11 de março e 31 de outubro, houve algum momento em que estivesse preocupado com o que lhe poderia acontecer na prisão?
Em termos físicos, não.
Não.
Não. Apesar de tudo, não pareceu que aquilo chegasse. A gente também nem tinha bem noção das loucuras que estavam a passar cá fora, que um dos carcereiros tinha lá um armário cheio de armas e munições à nossa ordem. Mas só quem sabia disso, que era o alferes Raposo Macaneiro, só quem sabia desse armário era eu e o Casanova. Um dia, um camarada nosso andava por lá.
Mas isso era para o caso de vocês precisarem desarmar.
Se aquilo se descontrolasse.
Era um carcereiro cúmplice.
E então, estava lá um tipo muito cabide baixo. E o Casanova disse: "Senhor Manuel, vamos dizer ali a aquele fulano", que eu felizmente já me esqueci do nome, "para se animar, que nós temos aqui armas". Eu digo: "Ó Luís, não, o tipo está assim". Quando via aquela mulher, o gajo diz à mulher que não sei o quê. A seguir, isso descobre-se, este desgraçado vem para aqui preso ao pé de nós e a gente perde as armas. Só quem sabe és tu e eu. E assim foi.
E sabiam, tinham ali aquelas armas. Portanto, nunca estiveram com Inquietos sobre o que vos poderia acontecer pessoalmente?
Não.
Não. E entretanto, iam acompanhando o que o General Spínola ia fazendo no exterior, no exílio?
Íamos sabendo alguma coisa, mas naqueles primeiros tempos, a informação, como se recorda, era em catadupa.
Sim, e havia muitos boatos, etc. Mas não havia contactos, portanto não tinham contactos nenhuns.
Até porque nós não tínhamos nada a ver com aquilo. Nós tínhamos a ver com o General Spínola, mas eu sabia lá quem era o General Tavares, nem quem eram os coronéis que andaram metidos naquela guerra. Só os conhecemos quando eles chegaram à prisão ali ao pé de nós.
E nessa altura falaram com eles e perguntaram-lhes o que andavam a fazer?
A gente não pede satisfações a quem está na adversidade. Mas o outro até que dizia: "Quem roçona, não entra na roçada". Dizia o Casanova.
Mas portanto, eles nunca vos explicaram o que queriam fazer ou o que julgaram que estavam a fazer?
Não, eles julgavam que aquilo que tinha pernas para andar, os paraquedistas, parecia que era uma força. Realmente, no meio daquela bagunçada toda, os paraquedistas tinham alguma força. Só que os paraquedistas, principalmente ao nível dos sargentos, também já estavam tocados pelo PC.
Portanto, isso era o problema, não haver tropa que não estivesse contagiada, digamos assim.
Aliás, não é por acaso que depois são os paraquedistas que se vêm metendo na boca do lobo também no 25 de novembro.
No 25 de novembro, exato.
Os oficiais já tinham saído. Saíram de lá 100 oficiais, 103 oficiais saíram de Tancos. Em Tancos ficou a entrega dois ou três oficiais e aos sargentos que estavam muito feitos com o PC.
E quando sai em outubro, o que vai fazer?
Vou para casa, sou dispensado.
E qual é o seu estatuto nessa altura?
Estava apresentado na Direção de Arma de Cavalaria, mas nos primeiros tempos não me deram nada que fazer.
Não deram nada.
Depois fui posto à ordem do exército, mas isso já é um bocado mais próximo do-
Do 25 de novembro. Mas recebe o vencimento, essas coisas todas?
Houve uma altura em que cortaram.
Quando estava preso?
Quando estava preso, cortaram o vencimento, mas foi só um mês, depois houve um conjunto de camaradas cá fora, que fizeram força.
E continuaram a pagar.
Continuaram a pagar.
Portanto, foi só esse mês.
Juro que até que nem chegaram a cortar, mas anunciaram.
Anunciaram que iam cortar.
Eu lembro no caso da minha mulher, havia uma pessoa, nossa amiga, que tinha casado, ela passou-lhe um cheque e o cheque voltou para trás porque as contas estavam congeladas à ordem de Jorge Gonçalves.
Portanto, teve as contas congeladas também. E quando é que lhe descongelaram as contas? Quando saiu da prisão?
Isso eu estava preso, já não me recordo.
Mas teve as contas congeladas.
Foi pouco tempo depois.
Isso para a sua família foi também um momento difícil, não é?
Claro.
Eles provavelmente até estariam mais preocupados do que o senhor general na prisão, não é?
Sim. Quando veem as listas da UDP, independentemente, ninguém sabia onde eu estava. Já estava nas listas do UDP para ser preso.
Tá.
Eu era o Spínola fascista, furiosíssimo, que levava os fascistas do PS a visitar o Spínola, que estava na primeira linha.
Estava na primeira linha. E portanto, quando sai em outubro, volta a encontrar-se com os seus camaradas, pensam em fazer alguma coisa?
Não, repare, eu saio no dia 31-
De outubro de 75
E o 25 de novembro é cinco dias depois.
Nem chega a um mês depois. E soube de alguma maneira do 25 de novembro, da preparação do 25 de novembro?
Vamos lá ver. Naquela altura, o ambiente no país era a reconquista aos mouros. No Alentejo, os tipos estavam com receio que viessem também queimar as sedes do Partido Comunista, o que obviamente no Alentejo não seria possível. Mas a verdade é que o país estava completamente dividido, o governo preparou-se para ir para o Porto, como se recordam. A contrarreação, chamemos assim se quisermos, fazia barricadas de Rio Maior para cima. O país estava dividido nessa altura. Havia a hipótese da comuna de Lisboa. Todo o país do Norte estava a reagir ao que se estava a passar em Lisboa.
Aqui ficou em Lisboa.
Ficou em Lisboa.
Ficou em Lisboa. Sentia-se em segurança?
Sentia, porque a gente sentia perfeitamente que as coisas estavam a mudar. Eu lembro-me de, aí no dia 4 ou 5 de novembro, de vir com um dos meus filhos mais novos, coitado, que morreu numa coisa grave no Algarve, e eu vinha com ele para o Mar. Ele nasceu em 70, isto passa-se em 75, ele tinha cinco anos, e vim passear ali para a frente do Mosteiro dos Jerónimos, porque havia ali uma manif qualquer em frente do Palácio de Belém. "Vamos lá ver o que há ali".
Foi ver uma manifestação.
Nós sentimos que o país tinha mudado quando todos os nossos camaradas, que ficaram com receio de serem também apontados como simpatizantes do 11 de março, passaram a ir visitar-nos a Caxias. Aquilo era uma procissão. A gente ia lá e o comandante do Forte, nessa altura, também tinha todo o gosto em que levassem lá as nossas visitas. E a maior parte dos presos de 11 de março estavam soltos. Não estava eu, porque nunca mais dizia que era o Spínola. O Fontava já tinha sido solto, o Varal já tinha sido solto, e eles iam soltando.
Portanto, no seu caso era mesmo por causa do Partido Socialista, isto é, queriam que incriminasse o Partido Socialista.
Exatamente. Porque era um homem muito próximo do Spínola.
Do General Spínola, pois, muito próximo.
Eu lembro-me que a primeira vez que eu ouvi a palavra MDLP Foi da boca do doutor Rui Moreira, o pai deste fulano. Eu sabia que o Spínola não estava a fazer o MDP.
Porque também estava preso, exato.
Ele estava lá preso um dia e disse: "O senhor sabe o que é o MDP?". Eu digo: "MDP? Não". "O MDP é o movimento do general Spínola". Eu não sabia.
Não sabia.
No entanto, para os meus camaradas do outro lado, eu devia ser o representante do MDP dentro da prisão.
E portanto, vem o 25 de novembro.
Como é que eu assisto ao 25 de novembro, então? Fiquei sem perceber se estava a par daquilo que ia acontecer. Não estou a par, estou a par. Por exemplo, sei lá, às duas por três, os oficiais de Lanceiros resolvem sair todos do Lanceiros também, por causa daquela história do Tomé, daquela gente toda. Os oficiais que lá estão, saem. E um deles vem falar comigo. Diz: "Manuel, o que é que a gente faz?". "Vamos todos para o comando, vão se apresentar ao Jaime Neves". Eu não tinha nada a ver com aquilo, mas sabia qual era o lado de onde estava. Mas tirando isto e uma ou outra, não fiz nada.
Não fez nada. Mas depois do 25 de novembro, é contactado para retomar serviço nas Forças Armadas?
Eu estava aposentado da Escola Prática de Cavalaria e entretanto sou nomeado para ir pra academia militar, que era a minha unidade, dar aulas. Voltei à academia militar.
Foi dar aulas na academia militar. E o ambiente aí já é completamente diferente, ou como é que foi?
Sim, completamente diferente.
Portanto, mas sentiu que-
Quando eu fui preso no 11 de março, conseguiram prender metade dos meus alunos . Na Cavalaria.
Metade dos seus alunos da academia.
Que também eram só quatro, porque só me deram oito na Cavalaria.
Pronto.
E eu brincava com eles, eu era o adjunto do mestre. O mestre ficou com quatro, o adjunto ficou com outros quatro .
Com outros quatro presos.
Quatro jovens cadetes, mas que eram mais reativos. Na academia militar houve uma caça às bruxas terrível, que se seguir ao 11 de março. Houve oficiais que foram também perseguidos.
Portanto, metade dos seus alunos foram presos, é isso?
Metade dos meus alunos foi preso.
E portanto, estiveram presos consigo em Caxias.
Mas depois soltaram, passado pouco tempo. Eles depois iam soltando quem viam que não tinha grande perigosidade. No meu caso, como lhe digo, eles não tinham nenhum interesse em que eu saísse.
Em que saísse. Como é que foi o seu liv-
Naquela célebre, aquelas célebres quatro horas do bate-papo entre o Soares e o Cunhal.
Sim.
É que depois o Soares diz às duas por três: "Eles andaram a prender as pessoas que não tinham culpa nenhuma do 11 de março". E o Cunhal disse: "Não, eu ainda almoço amanhã, porque fui solto ontem", não sei quanto.
Ele foi.
Disse o Soares. Nessa altura, o meu telefone começou a tocar. Não sabiam que eu tinha telefonado no resto da noite para os meus amigos. "Já saíste, não saíste nada". "Não, mandava pôr agora um anúncio".
Eu não sabia que tinha sido solto.
Pois, não sabiam.
Como é que foi depois o reencontro com o Spínola? Quando é que voltou a vê-lo?
Quando o Spínola voltou, foi o que há bocado contei. Ele veio, eu fui visitá-lo e ele disse: "Meu general", era o Oliva Marcos, "ainda é pior do que o senhor pensava", não sei quanto. Depois o Spínola veio e nós queríamos, obviamente, reabilitar o Spínola. Há ainda alguma resistência nas Forças Armadas, o Spínola fica um bocado em casa, não sei quanto. Até que quando chegou o Soares, as coisas entraram nos eixos.
Mas quais eram os-
O Yanes tinha medo. Tudo que lhes cheirasse, que ele pudesse ter alguma coisa que ver com o 11 de Março, o Yanes ficava muito preocupado. Por exemplo, uma das coisas que nos custou muito, foi um dia ver o Yanes dizer assim: "O cidadão Spínola", quando nunca o Marques Soares deixou de chamar ao Spínola, o senhor general Spínola. Custou-nos muito porque o Yanes era tão próximo do Spínola como eu. E depois a gente sabe que ele também teve a sua parte para que o Spínola voltasse. Mas o Yanes, como estava na minha casa naquela noite, viveu sempre com o fantasma de o poderem acusar do que ele tinha feito, que não fez nada. Ele foi lá porque ele ia frequentemente à minha casa, porque éramos muito amigos e, portanto, ele ia muitas vezes à minha casa. E naquela noite foi, ver o que se estava a passar. E ele não sabia de nada, tinha vindo do jantar com o Almada. O Almada sabia.
O Almada sabia?
O Almada sabia. O Almada mais tarde disse-me assim, ele era major, como eu disse. Depois mais tarde foi coronel, chegou aqui como coronel, foi adido militar em Moçambique. Um dia disse-me assim: "Monge, mas o senhor não sabia?". Disse eu: "Não". "Mas nós sabíamos que alguma coisa. Percebi eu mais tarde, pelas vossas conversas". E o Varela estava nas informações e tinha recebido uns dias antes um rádio do nosso embaixador e do adido militar nosso em Madrid, a informar se preparava qualquer coisa no Ralis. Portanto, havia indícios. Mas eu não estava metido naquilo, não estava para aí virado. Eu estava viradíssimo era para que houvesse as eleições, para que o Spínola estivesse sossegado.
Nessa altura, ainda antes do 11 de março, ainda estavam à espera, por exemplo, que o general Spínola pudesse um dia ser candidato à presidência da República?
Sim, claro.
Estavam à espera disso.
Esse era o grande receio do MFA. Isso uma vez, lembro-me, estávamos numa assembleia do MFA e às duas por três Começa a fazer muito mal do Spínola. Há um fulano que eu gosto imenso, que é o Major Tomé, mas que é um homem daqueles lados. E às duas por três eu levanto e digo assim: "Major Tomé, ouça, o senhor tenha lá cuidado para não estar aqui a ofender o general Spínola, porque se tu realmente estás zangado com o general, deves respeitar pelo menos os amigos do nosso general que estão aqui presentes. Pelo mesmo motivo que, por ser eu teu amigo, não digo aqui mal do general Costa Arriaga". Ele tinha sido ajudante de campo do Costa Arriaga, as pessoas não sabiam. Precisamente os marinheiros, às duas por três começam assim: "Mas o que é que se passa?". O meu amigo Tomé estava desta cor lá à frente, ele é loirinho de olhos azuis. Mas é imensamente amigo meu. O Otelo.
O que aconteceu?
Vivou poucos dias antes de morrer. Fui ao funeral dele, fiz uma oração fúnebre para ele, que entreguei ao filho.
O que aconteceu ao Otelo Saraiva de Carvalho em 74 e 75? Qual é a sua explicação para aquela-
Olha, em 74, quando ele foi-
Nomeado comandante-adjunto do COPCON, em junho de 74.
Para se ver a importância que nós dávamos à graduação dele, o general Spínola chamou o general Costa Gomes, que era o chefe de Estado-Maior da Força Aérea, para fazer a graduação dele e a graduação foi feita no-
Portanto, a graduação em brigadeiro. Ele era major e foi graduado em brigadeiro.
Entrou um fulano, não me lembro se era um militar, se era um dos homens do Palácio de Belém, com uma almofada com as duas estrelas de brigadeiro. Nós montámos este sistema. Veio, o general Costa Gomes e o general Spínola estavam aqui e o Otelo estava ali. Eu cheguei ao pé do Otelo, tirei os dois galões de major, peguei numas estrelas, dei ao general Spínola e dei outra ao general Costa Gomes, e os generais graduaram o Otelo. Depois eles cumprimentaram e eu fui o primeiro a dar uma abração ao Otelo. O Otelo trabalhou comigo um ano inteiro na Guiné, nós fomos secretários um do lado do outro. O Otelo era um homem da nossa confiança. Agora, quando chegámos cá fora, ele depois disse uns disparates ali em relação aos cus novos, não sei o quê.
Da despacha de pós.
Disse uns disparates, depois quando chegou cá fora, estavam os jornalistas todos à volta dele, e ele disse mais uns disparates. Depois eu disse: "Senhor Otelo, tu tens que ter cuidado, porque tu agora vais ser assediado por esta gente toda dos jornais, tens que ter cuidado com o que dizes". "Manuel, então tu não tens confiança em mim? Tu és um dos principais responsáveis por eu ter sido coisa. Foste tu que me puseste nos jornais e tu não tens confiança em mim?". Digo: "Não, Otelo, nem tinha confiança em ti, nem em mim, se eu estivesse no teu lugar. Nós não estamos preparados para aquilo que tu vais esperar. Tens que ter cuidado". Passados muitos anos, ofereceram-me um gato e eu pus ao gato o nome de Otelo. E um dia encontrei o Otelo. Disse: "Olha, Otelo, tenho um gato". "Tens um gato? Tu sabes que eu não tenho tido cães e gatos". "O gato é imensamente simpático, é muito bonito. Sabe como é que o gato se chama? Otelo. Sabes por quê? O gato é muito simpático". "Manuel, confiança. Lá estás tu". As nossas relações de grande amizade, mas cada um sabendo. O Otelo telefonou-me poucos dias antes de morrer.
Portanto, achou que ele foi envolvido naquele ambiente.
Estava absolutamente impreparado para aquela coisa. Nunca fez o jogo do Partido Comunista voluntariamente. Nunca. Ele era de outra coisa, era de uma extrema-esquerda, ele era um artista, um cantor da ópera, podia ser um homem da ópera, do teatro. Ele era uma pessoa desse cariz. E aquela figura que ele quis encenar do povo, do poder popular, encantou-o. E no dia do funeral, eu quando ali fiz uma oração, dei ao filho, o filho andou com o meu filho mais velho no Colégio Militar, ele disse-me assim: "General, eu com o meu pai, várias vezes lhe perguntei: 'Pai, mas como é que é essa história das FP, qual é a sua parte?'. O meu pai sempre fugiu. E um dia eu fui mais incisivo e disse: 'Ó pai, mas conta-me lá essa história'. E o meu pai disse-me assim: 'Olha, Sérgio, quando o leão velho está em cima da colina e as ovelhas passam, por mais que berrem, o leão não repara'. E eu, general, disse para o meu pai: 'Ó pai, mas eu sou uma ovelha'". E depois, no discurso fúnebre, o Sérgio disse do pai: "Eu sou filho do meu pai, não sou filho do Otelo". Reparem como o próprio filho, e ele adorava o pai, era um filho encantador e o pai adorava, mas aquela história dos FP marcou a eles profundamente. E a nós, criou-nos uma dificuldade em relação ao Otelo, uma vez convidei-o para uma coisa qualquer, importante, o lançamento de um livro, ele foi comigo, chegou lá e ele apresentou-se como o mulher número dois, porque ele era bígamo. Fez umas loucuras.
General Manuel Gomes, muito obrigado por esta longa conversa. Foi fascinante. Muito obrigado.