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Eu ouvi a pergunta, mas ela não é uma pergunta.
A pergunta parte de um princípio errado.
Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos.
Eu às vezes tenho mais para fazer do que estar a responder diariamente.
Estas perguntas são uma antecipação daquelas que a comunicação social vai fazer.
Então, Bruno, 25 de novembro foi uma questão de arranjos florais?
Parecia o "Querido, mudei a casa" ou o "Querido, decorei a casa". Ontem assinalaram-se os 50 anos do 25 de novembro e esse foi o pomo da discórdia, ou as flores, as pétalas da discórdia. Houve uma guerra de rosas brancas salpicadas por alguns cravos vermelhos e a polêmica estalou quando André Ventura retirou um cravo. Acho que na altura só estavam dois. Já estavam dois? Pronto. E revelou os dotes, até agora desconhecidos, de decorador de interiores, caso para dizer: "São rosas, senhores, são rosas". Mas há quem prefira dar uma no cravo e outra na ditadura. A quem? Os nossos deputados. E continuando aqui no tema da floricultura, entre eles há quem não seja flor que se cheire e outros que mais parecem florzinhas de estufa. Como se discutiu ontem coisas muito fundamentais, o melhor é mesmo discutir flores. E ninguém se lembrou que na democracia não se bate nem com uma flor.
Muito bem. Isto que te trabalha a pensar hoje, Bruno.
Havia um complemento para essa frase.
Havia?
Só o vaso.
Normalmente era o que se dizia.
Estamos aqui a falar de conflitos muito intensos, mas há alguma coisa, por muito importante que seja, Paulo, que possa impedir um bom almoço?
Nada.
Nada mesmo.
Em Portugal, nada. Nem uma pré-guerra civil, nem um confronto entre realidades militares do mesmo exército. Em Portugal, sabemos, o almoço é sagrado e o jantar também, mas agora falamos de almoços. E é sagrado como poucas coisas. Ainda a propósito de 25 de novembro, o major Mário Tomé, que estava do lado dos que viriam a ser derrotados no 25 de novembro, conta numa entrevista de memória que dá à CNN, que no dia de ontem, há 50 anos, estavam cercados no Regimento de Lanceiros 2, na Ajuda, e com o conflito em curso, desceram, ele e mais dois camaradas, para o Palácio de Belém, onde almoçaram, e agora citamos: "Uma bacalhauzada maluca."
Uma bacalhauzada maluca.
É com todos.
Ele descreve o clima.
Estou a pensar nos temperos que terão usado.
Devia ser posta de lombo, talvez, não sei. E ele descreve, agora em discurso direto: "Estava ótima a malta toda, uns de um lado, outros do outro. Nós interrompemos o 25 de Novembro para ir comer uma bacalhauzada ótima a Belém. Estava toda a gente, de facto, de um lado e do outro ali, como se não houvesse nada." E portanto, foi este o clima também de almoço de 25 de novembro.
Isto é tão português.
Flores e bacalhau.
Acabado o bacalhau, retomaram as hostilidades e nós o resto já sabemos, o resto é história.
O resto é história. Olha, Bruno, e quem protege os imigrantes dos portugueses de bem?
Têm de ser portugueses mesmo do bem, que cumprem as suas funções, que cumprem os seus deveres. Ontem a Polícia Judiciária deteve 17 pessoas, entre as quais 11 militares da GNR e um agente da PSP, sendo estes suspeitos de facilitarem a ação de uma rede de tráfico e exploração de imigrantes, todos provenientes do Indostão, que trabalhavam em propriedades agrícolas no Alentejo. Estão em causa crimes de auxílio à imigração ilegal, falsificação, fraude fiscal, branqueamento de capitais e o Ministério Público acrescentou depois também numa nota os crimes de tráfico de pessoas, corrupção ativa e passiva e abuso de poder. Ora, quem diria que há portugueses que se aproveitam da fragilidade destes imigrantes para benefício próprio? E no caso dos agentes da autoridade, acumulando a isso a violação grave dos seus deveres e quebrando aquela confiança que deve existir entre as autoridades, a polícia e as populações. Uma surpresa. Às tantas, isto não é, de facto, o Bangladesh, isto é Portugal no seu pior.
Paulo, então em Bruxelas decidem fechar os olhos ao desconto fiscal nos combustíveis?
Para já parece que a coisa passa. Tem havido nos últimos meses pressões de Bruxelas para que o governo acabe com aquele desconto que há quase três anos foi decidido para amortecer o efeito de subida de preços dos combustíveis. Esse desconto tem vindo a ser retirado, mas ainda falta uma parte importante. Bruxelas tem pressionado, dizendo que isso viola as regras, mas para já, e o sinal é esse, aprovou o orçamento do próximo ano, diz que está de acordo com as regras de Bruxelas, e é um orçamento que não prevê com clareza, nem com uma data definida, o fim desse desconto. No fundo, Bruxelas acaba aqui por deixar passar para já. A pressão vai continuar, mas isto quer dizer que o governo tem tempo e pode gerir este assunto, que obviamente é delicado para os consumidores. Já sabemos que o preço dos combustíveis, como o preço do pão, por exemplo, são daqueles indicadores que podem não fazer muita mossa no bolso, mas de qualquer maneira dá muita conversa, sempre. E, portanto, o governo vai tentar fazer sem dores e agora com uma pressão, pelo menos mais aliviada de Bruxelas.
Eu ouvi a pergunta, mas ela não é uma pergunta.
A pergunta parte de um princípio errado.
Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos.
Eu às vezes tenho mais para fazer do que estar a responder diariamente.
Estas perguntas são uma antecipação daquelas que a comunicação social vai fazer