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Eu ouvi a pergunta, mas ela não é uma pergunta.

Eu percebo as vossas perguntas, mas vamos com calma, está bem? Não quero que ninguém se magoe.

Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos.

Eu às vezes tenho mais que fazer do que estar a responder diariamente.

Calma, Jesus.

Paulo, por quê? Por que a política não nos dá descanso?

Tu já vais de férias.

Sim, é por isso mesmo.

Não te podes queixar muito. Não nos dá descanso, nem a nós, nem aos próprios políticos. E eles bem precisam, como se tem visto com estas confissões todas. Reparem, estamos a 14 de agosto, uma larga maioria dos portugueses ainda nem foi de férias ou ainda está a gozá-las, e já vêm os políticos falar da rentrée, da reentrada, do recomeço. Falar e praticar. Já hoje que o PSD faz a sua festa do Pontal no Algarve, aquele momento que marca o recomeço dos trabalhos, embora se calhar alguns deles regressem de férias. Mas isto é muito cedo. Precisamos todos de mais tempo para repor as energias. Não precisamos de andar todos os dias a ouvir políticos, e estes também a ouvir comentadores, analistas, a entrevistas todos os dias nos explicadores. Aquela ideia, que hoje é absurda, por exemplo, de fazer um dia de reflexão na véspera das eleições, devia ser decretada, mas para o verão. Não era apenas um dia, mas imaginem uma semana ou duas de reflexão, de facto. Não havia notícias sobre políticos.

Só música.

O que é que achas?

Só música.

Tens aí uma playlist?

Temos.

Então pronto. Se fizéssemos isso, depois ia tudo correr muito melhor.

Paulo, e que gráfico é esse onde o Chega diz que está em primeiro?

Isto são coisas do Chega, antes de mais. São apresentadas assim nas redes sociais, e cito o próprio tweet do partido: "Este resultado é a prova de que o Chega será governo mais cedo ou mais tarde." Ora bem, que resultado é esse a que se refere o tweet? É de uma coisa a que nunca se pode chamar uma sondagem, nem um estudo de opinião, nem sequer um indicador de intenções de voto, como o próprio Chega lhe chama, intenções de voto. Há umas barras, uma espécie de gráfico com uns números, em que o Chega atribui a si próprio um número mais elevado do que à concorrência direta, à AD e ao PS. Depois remete para um link, para a sua folha nacional, que é o jornal oficial do partido, e aí em letras pequeninas aparece o seguinte: "Estes resultados representam a opinião dos inquiridos e não podem ser generalizados ao eleitorado, não se tratando de uma sondagem, mas de inquéritos realizados em diversas plataformas online. Pode consultar a análise deste estudo e os dados técnicos aqui." E então onde é aqui? São três links: imigrantes portugueses que gostam de saber de Portugal, grupo dos motoristas portugueses na Suíça e o Notícias do Conselho de Palmela. Portanto, são esses três links para saber mais desta alegada sondagem do Chega. Já percebemos o logro que isto é. Aliás, porque estes links a única coisa que nos apresentam é uma folha em branco de um documento.

Não é sequer uma página do Facebook.

Não, é um Word com os mesmos resultados que com o gráfico a representar aqueles resultados. Portanto, já percebemos o logro. Depois o Chega fica muito incomodado quando a primeira coisa que nos vem à cabeça é que o assalto ao gabinete foi uma encenação. Pronto, por estas e por outras, digo eu.

É preciso ler as letras pequeninas. Paulo, e a ministra do Ambiente foi mesmo barrada no acesso a uma praia?

Ela teve de passar, conta a própria, por um torniquete onde perguntam o nome a cada pessoa que quer passar ali, e depois passou. Foi a própria Maria de graça Carvalho, de facto, que revelou aos jornalistas que foi ao terreno ver o que se passava. Visitou recentemente vários troços da costa entre Troia e Melides, que é basicamente aquela zona de praias onde tem havido reportagens ou suspeitas de haver empreendimentos que barram o acesso à praia, transformando-a quase num espaço privado. A ministra foi acompanhada do presidente da Agência Portuguesa do Ambiente e por representantes do Instituto de Conservação da Natureza e da Florestas. Só detetaram este caso no parque de campismo da Galé Fontainhas, e a governante sublinha que, e citamos: "As praias em Portugal são públicas e têm acesso público." E por isso só se espera que agora o governo e as autoridades ajam em conformidade. É que nem se entende como é que uma polémica desta se arrasta tanto tempo sem estar resolvida, sem estarem desimpedidos os acessos e sem estarem responsabilizados judicialmente as pessoas que decidiram colocar barreiras no acesso às praias. Não é uma coisa muito difícil de resolver. Se alguém decidir barrar a Avenida da Liberdade em Lisboa, não vai demorar muitos minutos ali, imagino eu.

Eu ouvi a pergunta, mas ela não é uma pergunta.

Eu percebo as vossas perguntas, mas vamos com calma, está bem? Não quero que ninguém se magoe.

Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos.

Eu às vezes tenho mais que fazer do que estar a responder diariamente.

Calma, Jesus.