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Eu ouvi a pergunta, mas ela não é pergunta.

Eu percebo as vossas perguntas, mas vamos com calma, está bem? Não quero que ninguém se magoe.

Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos. Eu às vezes tenho mais que fazer do que estar a responder diariamente. Calma, Jesus.

Paulo, o Chega é neste momento o mais forte seguro de vida político de Luís Neves?

Ora bem, isto pode parecer paradoxal, mas é isso mesmo. Ao estar insistentemente a pedir a cabeça do ministro e agora a dar um ultimato ao primeiro-ministro para demitir Luís Neves, porque senão avança com uma moção de censura ao governo. Ao fazer isto, André Ventura faz um seguro de vida no cargo ao ministro da Administração Interna, porque nenhum primeiro-ministro pode demitir um ministro sob ameaça de um partido da oposição. Senão em meia dúzia de meses as ameaças iam multiplicar-se e as caras do governo lá iam rodando sucessivamente. E teríamos durante meses, neste caso, o Chega a exibir a cabeça de Luís Neves, uma espécie de troféu de caça político. Mas isso não melhora, obviamente, a posição de Montenegro. Não pode demitir agora o ministro, mas também sabe que a permanência de Luís Neves neste momento é corrosiva para a imagem do governo. Por isso não são fáceis as opções do primeiro-ministro.

Ó Bruno, e reformas é com a Iniciativa Liberal, com a IL?

Atenção que não são pensões, são as reformas, as sempre prometidas e sempre adiadas reformas. Mariana Leitão, a líder da Iniciativa Liberal, disse no discurso da rentrée dos liberais, que Luís Montenegro dispôs de condições muito favoráveis para implementar as mudanças que prometia, mas que nada mudou. Sendo assim, terá de ser a Iniciativa Liberal a avançar não só com o espírito, mas presume-se que também com o corpo reformista. A grande questão é saber então como é que se avança para essas reformas. Como é que a IL pode levar a cabo mudanças se não tem os votos suficientes para aprovar medidas no Parlamento e estará mais longe do que nunca, a julgar pelas palavras da líder, do governo de Montenegro. Nós não sabemos se algum dia a Iniciativa Liberal terá condições de avançar com as célebres reformas. Para já, começa onde todos os outros começam e muitas vezes também acabam: é nas promessas.

Exato. Paulo, e olhando agora também lá para fora, a Islândia continua a rejeitar um casamento a sério com a União Europeia?

Eles são ricos, têm um país tranquilo e pacífico, não têm, por exemplo, problemas de imigração da União. Isto o facto de serem uma ilha tem as suas vantagens. Já têm também acordos de associação económica e pertencem ao espaço Schengen, portanto, têm aqui algumas vantagens que teriam também estando dentro. Para que é que eles iam complicar mais aderindo plenamente à União Europeia? É a pergunta que fazem. Terá sido isto que passou pela cabeça de uma maioria de islandeses que este fim de semana votaram não no referendo que foi feito para iniciar negociações de adesão ao grupo dos 27. Foi isto, basicamente, e as pescas, que é um setor fundamental na economia da Islândia, onde as regras de Bruxelas, nós sabemos, põem e dispõem, nós percebemos também pela reação muitas vezes do setor das pescas cá com a fixação das quotas. O Político, o jornal, neste caso a versão europeia do jornal norte-americano, resumia o resultado do referendo com uma adaptação daquela célebre frase. Neste caso é: "É o peixe, estúpido". Portanto, pela boca morre o peixe e neste caso, pelo peixe morre a adesão à União Europeia.

Bruno Salazar já não é doutor?

Não, para a Universidade Federal do Rio de Janeiro, já não é. A instituição concedeu o título de Doutor Honoris Causa ao presidente do conselho em 1941. Já foi há uns aninhos, tantos que a universidade ainda se chamava Universidade do Brasil. À época, havia uma grande proximidade entre o regime de Salazar e do presidente Getúlio Vargas no Brasil, e por isso, na altura, a decisão terá sido tudo menos estranha. Mas mudam-se os tempos, mudam-se as vontades e o Conselho Universitário da Universidade Federal do Rio de Janeiro decidiu que era a altura de acertar contas com a história e retirar o título ao antigo ditador por, de acordo com a instituição, não ser compatível com os valores democráticos, acadêmicos e constitucionais que hoje orientam a faculdade. Não é a primeira vez que esta universidade retira títulos a figuras polêmicas agraciadas com estas distinções, mas é a primeira vez que o doutoramento Honoris Causa é retirado a um antigo chefe de Estado de outro país. Isto são sinais dos tempos.

Eu ouvi a pergunta, mas ela não é pergunta.

Eu percebo as vossas perguntas, mas vamos com calma, está bem? Não quero que ninguém se magoe.

Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos. Eu às vezes tenho mais que fazer do que estar a responder diariamente. Calma, Jesus