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Eu ouvi a pergunta, mas ela não é pergunta.

Eu percebo as vossas perguntas, mas vamos com calma, está bem? Não quero que ninguém se magoe.

Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos.

Eu às vezes tenho mais para fazer do que estar a responder diariamente.

Calma, Jesus.

Então não é que a CIP veio trazer emoção e incerteza agora na reta final do pacote laboral?

É verdade, hoje é um dia decisivo para o pacote laboral, com a reunião que está marcada. Reunião final, supostamente final. Isto já houve vários momentos decisivos e vários finais. Mas desta vez deve ser mesmo a final, que está marcada para a concertação social. E quando tudo indicava que já não havia mais nada a fazer, não havia mais propostas, que o desentendimento com a UGT era certo, a CIP deu ontem uma guinada forte no guião, uma espécie de um plot twist, ali no último episódio. A Confederação da Indústria avançou por sua conta e risco, na cedência a algumas das regras que a UGT mais tem rejeitado. Banco de Horas, outsourcing, a possibilidade de não reintegração de um trabalhador despedido ilegalmente. Aqui cede por completo a CIP, mas também na formação contínua e na arbitragem, em caso de denúncia de convenção coletiva. Portanto, uma série de linhas vermelhas, como se diz agora, da UGT. Isto de alguma forma desarma grande parte dos argumentos da UGT, que agora terá de explicar muito bem porque é que não aceita a proposta. Por outro lado, também temos que ver até que ponto é que as outras confederações patronais alinham ou não com estas propostas da CIP.

E o próprio governo.

E o próprio governo. Portanto, quando tudo estava fechado, digamos assim, só faltava assinar a certidão de óbito, parece que ressuscita aqui esta negociação do pacote laboral. Vamos ver como é que é fechada esta negociação então logo à tarde.

Cada extremo parlamentar tem os seus ódios de estimação estrangeiros.

Tem, é verdade. Sabemos, por exemplo, que o Chega não gosta do Lula da Silva e que tudo faz para não estar no mesmo hemiciclo do presidente brasileiro. E do outro lado, a aversão é outra. O PCP gosta menos ainda dos líderes da Ucrânia do que o Chega gosta de Lula. E ontem no Parlamento português, que recebeu o presidente do Parlamento ucraniano, os deputados do PCP optaram por não estar presentes na sessão. Justificaram a ausência repudiando a presença de um representante que, diz o PCP, é o representante de um regime suportado por forças de extrema-direita. Caso se prove mais uma vez que os extremos tocam-se mesmo, cada um à sua maneira, ou não se tocam, de alguma forma e fazem destas coisas.

Paulo, e será que a AD vai resistir à pressão para fazer uma revisão constitucional?

Os responsáveis da bancada da AD, da bancada que apoia o governo, já disseram que isso não seria uma prioridade nesta legislatura, pelo menos agora na fase inicial. Mas entretanto, já temos a proposta de revisão de Constituição do Chega, que foi recuperada. Da IL, a Iniciativa Liberal, também anuncia que vai apresentar um projeto brevemente, onde quer, por exemplo, elevar a propriedade privada a um direito fundamental da Constituição. A questão é: será que o PSD vai a jogo ou vai continuar a deixar o assunto na gaveta? E se o PSD avançar, o PS avança também com uma proposta própria de revisão constitucional. Este pode ser um bom teste para o funcionamento daquilo a que nos habituamos a chamar de bloco central, que é, no fundo, os entendimentos entre PSD e PS, que até agora fez todas as revisões constitucionais, algumas delas bem importantes, nomeadamente em termos económicos. Vamos ver como é que corre desta vez.

Eu ouvi a pergunta, mas ela não é pergunta.

Eu percebo as vossas perguntas, mas vamos com calma, está bem? Não quero que ninguém se magoe.

Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos.

Eu às vezes tenho mais para fazer do que estar a responder diariamente.

Calma, Jesus.