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Eu ouvi a pergunta, mas ela não é uma pergunta.
Eu percebo as vossas perguntas, mas vamos com calma, está bem? Não quero que ninguém se magoe.
Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos.
Eu às vezes tenho mais que fazer do que estar a responder diariamente.
Calma, Jesus.
Paulo, como é que é? Vamos continuar com uma paz podre na Comissão Nacional de Eleições?
Há um conflito, de facto, que se arrasta há algum tempo, há poucos meses. E este conflito é entre cinco elementos e o presidente da própria CNE, da Comissão Nacional de Eleições, que no fundo é acusado de falta de transparência e de má gestão financeira da entidade. E muito a custo e a pedido desses cinco elementos, o presidente João Carlos Trindade lá arrastou os pés e forneceu nos últimos dias alguns dados financeiros que eram pedidos, mas que são insuficientes. Trezé Leitão Coelho, que é um dos membros que reclama mais dados, anunciou ontem que os críticos, este grupo de cinco pessoas, vão voltar ao plenário da CNE para que esta não fique bloqueada nas suas decisões. Mas há várias questões que se levantam. Quanto tempo mais vamos continuar com este conflito na CNE, que não está sanado? Quanto tempo temos que esperar para afastar as dúvidas sobre os gastos de dinheiros públicos na entidade? E se vamos continuar a pagar ordenados de €10 mil por mês a quadros da CNE, como foi noticiado no âmbito deste conflito. E estes €10 mil incluem subsídio de risco e subsídio de lavagem de viaturas. Portanto, isto vai se manter ou não? Neste caso, tem a palavra o Parlamento, que no fundo acaba por ter uma tutela da CNE.
Vamos ver como termina isso. Já Cavaco Silva divide até a direita, Bruno.
Divide, Carla, e até quando é homenageado, como foi o caso esta semana. A sessão no Parlamento Europeu para distinguir Cavaco Silva e mais 19 personalidades acabou com uma troca de acusações entre o PSD e o Chega, depois dos eurodeputados do grupo Patriotas, a que pertence o Chega, não terem assistido à cerimônia. O PSD, através de Sebastião Bugalho, eurodeputado, disse que pensava que os hábitos circenses do Chega não chegavam ao Parlamento Europeu, ficavam por Lisboa. Já António Tanger Correia, do Chega, disse que estas ordens atribuídas eram uma palhaçada. Temos aqui, pelo menos, uma certa coerência, hábitos circenses, palhaçada. Ora, que Cavaco Silva não é consensual junto de todos os partidos portugueses, já o sabemos há muito. As reações do Bloco de Esquerda e do PCP a esta homenagem confirmaram-no também. Mas o Chega também não parece morrer de amores pelo antigo primeiro-ministro, que aliás, também tem sido muito crítico do partido de André Ventura em diversas ocasiões e assim, amor com amor se paga.
Pois é. Será que estamos preparados para a abertura dos arquivos sobre as organizações terroristas, Paulo?
É um tema importante que o Parlamento começou ontem a discutir. Formalmente, há projetos do Chega, do Bloco de Esquerda e do Livre que defendem a desclassificação, a organização e a abertura dos arquivos sobre, por exemplo, as FP 25 ou o MDLP. Isto entre outras organizações que mataram ou que usaram violência física após o 25 de abril. Aparentemente, estes três partidos até se podem entender no geral, aqui há um propósito comum, que é a abertura dos arquivos de todos, quer da extrema-direita, sobre todos, extrema-direita ou extrema-esquerda.
De todas as ações, de todas as organizações.
Exatamente. Embora depois divirjam no processo para tratar os arquivos, mas o PS e o PSD temem que este processo possa reabrir feridas, que parecem que já está saradas, e recomendam muito cuidado a mexer nestas gavetas do passado. Provavelmente, estas propostas vão morrer na praia, sem o apoio do PSD e do PS. E obviamente, a votação destas duas bancadas é essencial para os fazer seguir em frente. Mas é pena, porque não devemos ter medo de enfrentar o passado, por muito incômodo que ele seja.
Bruno, precisamos de mais incentivos para a compra de livros?
Precisamos. Já existe o cheque-livro para os mais jovens, mas se calhar o melhor é falarmos com o advogado Gonçalo Trindade Ferreira, que a pedido de Carlos Santos Silva, terá comprado 2374 exemplares dessa obra de referência de José Sócrates, "A Confiança no Mundo Sobre a Tortura em Democracia". O próprio advogado reconheceu ontem em tribunal, em mais uma sessão do julgamento da Operação Marquês. José Sócrates queria muito que o livro fosse um sucesso, o que é normal, é o que todos os autores desejam, mas decidiu dar um empurrãozinho, usando para tanto os préstimos do seu bom amigo Carlos Santos Silva. O empresário distribuía dinheiro por uma série de pessoas, incluindo este advogado, que depois iam de livraria em livraria e adquiriam livros que entregavam ou a Santos Silva ou à mulher deste. Este esforço para apoiar o mercado editorial é enternecedor e poderá estar aqui a solução para muitos autores desgostosos com as vendas. Só têm de encontrar um amigo como Carlos Santos Silva.
Tens um amigo, Bruno.
Quem me dera.
Eu ouvi a pergunta, mas ela não é uma pergunta.
Eu percebo as vossas perguntas, mas vamos com calma, está bem? Não quero que ninguém se magoe.
Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos.
Eu às vezes tenho mais que fazer do que estar a responder diariamente.
Calma, Jesus.