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Eu ouvi a pergunta, mas ela não é pergunta.

Eu percebo as vossas perguntas, mas vamos com calma, está bem? Não quero que ninguém se magoe.

Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos.

Eu às vezes tenho mais para fazer do que estar a responder diariamente.

Calma, Jesus.

Bruno, o caso das gémeas é politicamente tóxico?

Maria João, foi desde o início e continua a ser agora com a acusação do Ministério Público a ser conhecida. Já praticamente nos tínhamos esquecido dos pormenores. Os envolvidos tinham saído mais ou menos ilesos. E agora com a acusação a ser conhecida, lembramo-nos da gravidade de tudo isto, a começar pelos comportamentos eticamente muito duvidosos. E aí merece uma palavra especial o antigo presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, porque se nada de grave se tivesse passado, como alguns ainda querem fazer crer, certamente ele não teria cortado relações com o filho de forma pública e quase ostensiva como o fez. Mas o próprio Marcelo Rebelo de Sousa tem responsabilidade em tudo isto. Ele, que sempre se mostrou tão próximo e tão solidário em relação aos portugueses, acabou por fazer parte de todo o processo. E é um processo que mostra a existência de caminhos para ricos, de acesso a serviços, a bens, para aqueles que têm bons contatos e caminhos para a restante população. E esse é um legado que deve deixar muito frustrado aquele que ficou conhecido como o presidente dos afetos.

E de Espanha, Paulo, nem bom vento, nem bom arrendamento?

Parece que sim.

Não era bem assim.

Não era bem o ditado.

Não era bem assim que lembravas.

Os tempos mudam. E de facto quis o destino que a discussão das propostas do governo cá em Portugal para o mercado de arrendamento coincidisse com o sobressalto aqui ao lado em Espanha e a midiatização do caso Mari Carmen. No fundo, uma senhora de 87 anos que teve o fim do arrendamento da sua casa validado por um tribunal. Mas apesar disso tudo, está a haver muito clamor em Espanha. E claro que há logo quem queira olhar para o lado e ver ali um exemplo do que pode acontecer em Portugal. Mas as leis em vigor são diferentes. Ainda por cima, no caso português, podem mudar, porque o arrendamento que o Parlamento vai discutir hoje, no fundo, é o novo campo de batalha dos partidos. Trata-se de um tema fundamental, a habitação. Muito dado à demagogia, como sabemos, e à manipulação de dados e tendências de mercado, o PS já disse que vai votar contra as propostas do governo e apresentar as suas. Em princípio, as propostas do governo serão chumbadas se não descerem à especialidade. E uma coisa é certa, a instabilidade legislativa do setor só serve para afastar novas casas do mercado.

E por causa disso mesmo, em casa dos pais é que se está bem.

Por vezes, essa é a única solução para muitos jovens. Não que se esteja bem, mas de facto, por vezes é o mal menor. Não têm alternativa. E os dados do Eurostat dizem que, em média, os jovens portugueses ficam em casa dos pais até aos 29 anos. São dados de ontem. Somos o sexto país da União Europeia com a média mais tardia de saída de casa. No topo da tabela estão, adivinhem, os países do sul da Europa e alguns do leste europeu. E em contrapartida, nos países nórdicos, mais a Holanda e França, os jovens saem de casa em média antes dos 24 anos de idade. Há países em que saem aos 21, em média. O que significa que há uns que saem aos 23, 24, outros saem aos 18. Claro que há o problema dos preços da habitação, versus salários, como é evidente. Mas também não é isso que consegue explicar tudo, porque os preços da habitação estão caros um pouco por toda a Europa. O hábito de trabalhar em part-time desde muito cedo também ajuda a ganhar rapidamente alguma independência financeira, que permite sair do ninho. E este é um dos casos em que não temos claramente uma Europa, temos duas e são muito diferentes.

E Bruno, das nossas cidades, gostamos?

Gostamos. Em comparação com o que dizem os outros europeus, não gostamos assim tanto. Mas mesmo assim, sete em cada 10 portugueses dizem gostar da cidade onde vivem. É um valor mais baixo do que no resto da Europa. E este novo barómetro das cidades da Fundação Francisco Manuel dos Santos, que ouviu 1247 pessoas, concluiu então que 70% estão satisfeitas com a cidade onde vivem. Só que há uma região onde esse entusiasmo baixa de forma considerável.

Qual será?

É a área metropolitana de Lisboa. Caramba, logo onde vive mais gente. É mesmo azar. E o que leva os habitantes a não gostar assim tanto do lugar onde vivem? Pode ser surpreendente, preparem-se, mas habitação, emprego e transportes públicos são precisamente algumas das áreas em que as grandes cidades têm pior avaliação. Quem diria que uma casa a um preço acessível, um bom emprego e transportes públicos de qualidade afetam assim tantas pessoas? Ninguém estaria à espera disto. Mas há outros fatores, não são só estes, como por exemplo, o sentimento de pertença. Na área metropolitana de Lisboa, as pessoas sentem-se menos valorizadas, menos incluídas nas atividades locais, do bairro onde vivem, menos capazes também de contar com os vizinhos. E é também a região onde esse sentimento de comunidade é mais fraco. Parece que somos uns sentimentais que vivemos um pouco como selvagens, cada um por si.

Eu ouvi a pergunta, mas ela não é pergunta.

Eu percebo as vossas perguntas, mas vamos com calma, está bem? Não quero que ninguém se magoe.

Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos.

Eu às vezes tenho mais para fazer do que estar a responder diariamente.

Calma, Jesus