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Eu ouvi a pergunta, mas ela não é uma pergunta.
Eu percebo as vossas perguntas, mas vamos com calma, está bem? Não quero que ninguém se magoe.
Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos.
Eu às vezes tenho mais que fazer do que estar a responder diariamente.
Calma, Jesus.
Paulo, amanhã é dia de greve, como é que vai ser? Os serviços mínimos para a greve vão ser isso mesmo, mínimos?
São mínimos, como a lei e a lógica impõem, mas em alguns casos são tão mínimos que foram-
Que nem vai valer a pena
...é o mínimo igual a zero. Veja-se, por exemplo, o caso dos transportes. A Carris e a CP têm obrigação de prestar os tais serviços mínimos, mas quem vive na Grande Lisboa e queira atravessar o rio, precisa atravessar o rio de barco, simplesmente não pode, porque o tribunal arbitral, que funciona junto do Conselho Económico e Social e que decide estas coisas, acha que todos os barcos da Transtejo Soflusa podem ficar parados. Portanto, não há serviços mínimos para a Transtejo Soflusa. E o mesmo se passa com o metro de Lisboa, que não tem serviços mínimos decretados. Já no Porto, a metro do Porto vai manter em funcionamento com frequências reduzidas o troço comum da Senhora da Hora até o Estádio do Dragão e parcialmente a linha amarela. Portanto, no caso de Lisboa, os mínimos são reduzidos, nalguns casos, à sua mais baixa expressão, que é zero.
Que é zero. Bolas fora. Nada.
Exato.
Já se pode comentar à vontade nas redes sociais, Bruno?
Pode. Poder, pode. Só que à vontade não é para todos. O Conselho Superior da Magistratura está a analisar uma queixa contra o juiz Carlos Alexandre, que é o atual presidente da Comissão de Combate à Fraude no SNS, por comentários feitos no Facebook sobre processos mediáticos, figuras políticas e temas ligados à Justiça. Para já, o Conselho Superior da Magistratura nem sequer decidiu abrir um processo disciplinar, pediu mais informações à Ordem dos Advogados, que foi quem apresentou a queixa, antes de avançar. Carlos Alexandre fez comentários no seu perfil do Facebook sobre Ricardo Salgado, falou de uma epidemia de Alzheimer, meteu a colher na Operação Influencer, criticou políticos ligados ao PS e referiu-se a um povo na RTP. A Ordem dos Advogados, chocada com o teor dos comentários, fez uma participação contra o desembargador, mas o Conselho Superior da Magistratura quer mais informação, pelo que agora deveremos ter uma análise forense aos comentários feitos no Facebook para apurar se Carlos Alexandre prevaricou ou não.
Aguardemos pelas conclusões.
Boa novela que vem por aí.
A lei da eutanásia, Paulo, está a ser naquele processo de morte assistida?
É, parece mesmo que a lei da eutanásia está a ser, ela própria, eutanasiada. A lei está aprovada há três anos, mas há um ano o chumbo constitucional de algumas normas fazem com que parte do diploma esteja, de facto, a entravar o processo. E agora, como conta o Observador, há aquele habitual jogo do empurra entre várias partes políticas envolvidas. O governo entende que são os partidos que devem corrigir o diploma no Parlamento, mas os partidos ou não respondem ou dizem que a responsabilidade, neste caso, é do governo. O certo é que a lei está ali naquele limbo, é uma espécie de lei de Schrödinger. É uma lei aprovada, mas não está em vigor, nem produz efeitos. É uma lei clinicamente viva, mas na realidade parece estar condenada. Só que ninguém quer assumir aqui a prática da eutanásia à própria lei.
Bruno, então agora querem roubar-nos as praias.
É verdade, Maria João. Já não bastava a grande guerra dos guarda-sóis, onde é que podemos espetar os guarda-sóis ou não. Agora temos os proprietários da Herdade de Comenda a avançar para tribunal, defendendo que cinco praias da Arrábida fazem parte dos seus terrenos, ou seja, estão dentro dos limites da propriedade e, por isso, fora do domínio público marítimo do Estado. A ação foi posta no ano passado contra o Estado português e a Agência Portuguesa do Ambiente e ainda no ano passado o Ministério Público arrasou a argumentação dos proprietários, com argumentos também muito técnicos. Não aconselho ninguém a ler demoradamente aquilo, também não vou sujeitar os nossos ouvintes a essas justificações. Mas parece que as praias portuguesas estão debaixo de fogo ou a ser alvo do apetite voraz de alguns privados. Vamos lá ver. Salários baixos, problemas na saúde, uma pessoa ainda tolera, até greves gerais. Agora, tirar-nos as nossas praias, bem.
É tirar-nos tudo.
Não, isso é que já não pode ser. Se isto continuar assim, ainda vamos ter um verão muito quente, com os banhistas a marcar território nos areais da Arrábida e a dizer: "Aqui também é Portugal."
Eu ouvi a pergunta, mas ela não é uma pergunta.
Eu percebo as vossas perguntas, mas vamos com calma, está bem? Não quero que ninguém se magoe.
Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos.
Eu às vezes tenho mais que fazer do que estar a responder diariamente.
Calma, Jesus.