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Eu ouvi a pergunta, mas ela não é uma pergunta.

Eu percebo as vossas perguntas, mas vamos com calma, está bem? Não quero que ninguém se magoe.

Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos.

Eu às vezes tenho mais que fazer do que estar a responder diariamente.

Calma, Jesus.

Bruno, já nos habituamos aos rankings?

Olha, Carla, lentamente e sem grande entusiasmo ao início, com grandes resistências, a divulgação do ranking das escolas lá se impôs. É sempre um exercício divertido todos os anos irmos ver onde é que anda a nossa escola, se está a brilhar lá em cima como uma estrelinha ou se anda lá embaixo pelas ruas da amargura. Mas o mais importante ainda do que esse exercício pessoal é a transparência. O país inteiro fica a saber os resultados das escolas, a saber onde é que estão as maiores dificuldades, as grandes desigualdades e também a saber que a realidade não se esgota apenas numa única tabela ou num ranking. Temos o ranking, a tabela da superação, que também nos mostra uma outra realidade. Mostra-nos o outro lado da realidade, que não é só olhar para a média, para os resultados brutos.

Para os resultados que todos conhecemos, mas pelo esforço.

Exatamente, que para algumas escolas, se calhar, representa muito mais ter ali uma décima do que para outras ter um 16 ou 17. Em nome da transparência, a divulgação do ranking acaba por ser um pequeno feito num país que, em muitas outras coisas, é muito dado à opacidade.

E Paulo, há sinais de entendimento entre a AD e o PS?

Há ali uns sinaizinhos, são muito ténues, são quase uns sinais de fumo, mas parece que eles existem. No caso do PS, José Luís Carneiro saiu ontem da audiência em Belém. O presidente da República quis falar com todos os partidos sobre coesão social e saiu dessa audiência a dizer que está disponível para uma solução estável na habitação e com promessas de abertura ao diálogo. Já do lado social-democrata, Marco António Costa, que não vincula ao partido, não tem cargos dirigentes agora, mas disse que não gosta nada de triângulos amorosos, nem da tática do pisca-pisca, e disse ao Expresso que o governo e a AD deviam escolher um parceiro estável para entendimentos e que esse parceiro devia ser o Partido Socialista. Por quê? Porque é mais fácil e mais estável do que procurar consensos com o Chega. Tudo isto faz muito sentido e o país só teria, de facto, a ganhar com alguma estabilidade de políticas públicas e para isso é preciso alguns entendimentos, mas nem sempre os partidos, lá está, preferem o que é melhor para o país.

E lá está. A ideia de um bloco central é uma espécie de saída de emergência?

Parece ser a solução para quando tudo o resto falhar, no cenário de uma vitória eleitoral do Chega. É Carlos César que o diz, o presidente do PS admite que deve existir um bloco central para impedir que André Ventura governe. Bom, nesse caso, nesse cenário hipotético, estaríamos mesmo perante um governo do PS e do PSD, à maneira dos anos 80, quando o país teve que chamar o FMI pela segunda vez. É o plano de uma geringonça ao centro, presumindo que seria, no fundo, o segundo partido mais votado a liderar um governo, seja ele o PS ou o PSD. Talvez os tais entendimentos setoriais que vão faltando e que demoram muito entre os dois partidos, talvez pudessem evitar esse cenário se realmente começassem a resolver os problemas mais urgentes das pessoas, porque se continuarem com os bloqueios atuais e com a incapacidade notória do Estado para quase tudo, então mais vale estenderem já a passadeira vermelha ao Chega.

Bruno, então o que é feito do autoproclamado presidente do Brasil?

Está no Brasil. Não está. É capaz, de Miami. Deve haver, se calhar, uma avenida do Rio de Janeiro. Estamos aqui pertinho. Foi a partir de Miami que fez a pomposa declaração. Miami, que é onde os sonhos da presidência do Brasil parece que vão morrer. Sonhos dourados. Com este ato, Flávio Bolsonaro pode ter dado o golpe de misericórdia no bolsonarismo, o mesmo é dizer na corrente política que nos últimos anos cresceu à sombra do clã Bolsonaro. É que os bolsonaristas não gostaram muito da declaração, seguindo, aliás, um sentimento maioritário na direita, no eleitorado conservador. Há um grande número de eleitores que, mais do que acreditar nos Bolsonaros, em Jair e Flávio, queria afastar Lula, queria afastar o PT do poder e agora terá de se reinventar politicamente e encontrar outras figuras que corporizem estas ideias ou pelo menos consigam convencer uma parte do eleitorado que não ficou convencida com o facto de ter como candidato mais um Bolsonaro. Veremos se o bolsonarismo sobrevive sem os Bolsonaros ou se nasce alguma coisa parecida no mesmo espaço político.

Eu ouvi a pergunta, mas ela não é uma pergunta.

Eu percebo as vossas perguntas, mas vamos com calma, está bem? Não quero que ninguém se magoe.

Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos.

Eu às vezes tenho mais que fazer do que estar a responder diariamente.

Calma, Jesus.