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Vamos a mais um Quente e Frio na Rádio Observador, como sempre, com a Filomena Martins. Filomena, bem-vinda, mais uma vez.

Olá, Filipa.

Vamos começar, como sempre, com a nossa belíssima previsão. Duas depressões no horizonte e a mudança de tempo em novembro. Vêm aí a chuva e o frio?

É isso mesmo. Parece confirmar-se, pelo menos todos os modelos meteorológicos estão de acordo. Novembro vai finalmente trazer essa mudança ao estado do tempo em Portugal e há duas datas que merecem especial atenção. Uma já para o fim da semana, 5 ou 6 de novembro, e depois outra na semana seguinte, 10 ou 11 de novembro. A primeira situação prende-se com uma grande depressão que os principais modelos estão a colocar a sul das Ilhas Britânicas. Associada a essa depressão, há uma frente atlântica que se vai aproximar de Portugal na quinta ou na sexta-feira e vai trazer o regresso da chuva. O IPMA, neste momento, já prevê probabilidade de chuva em todos os distritos do país. Não é chuva intensa, é chuva fraca ainda.

Menos mal.

Mas vai cá chegar. Depois, para os dias 10 a 11 de novembro, Dia de São Martinho, dia de estar a verão, os modelos mostram uma depressão no Atlântico ao largo da Madeira, com sinais de aprofundamento, e já vamos falar do que é isto. Se os modelos se confirmarem, essa depressão vai aproximar-se de Portugal pelo sul e vai trazer chuva, vento forte, agitação marítima, pode mesmo ser a primeira grande tempestade deste outono inverno. São previsões ainda desta quase duas semanas. São probabilidades, não são coisas certas, não podemos estar já a anunciar a primeira grande tempestade para Portugal, mas a formação, a intensidade e a trajetória não são confirmadas, mas tudo parece que vem por aí.

E o calor, Filomena, também vai desaparecer?

Sim, há outro elemento que pode alterar estes cenários todos, mesmo as depressões, porque há um anticiclone muito intenso sobre as Ilhas Britânicas. É lá que está o anticiclone, neste momento fugiu-nos. Este bloqueio poderá dificultar a circulação habitual das depressões atlânticas e favorecer a deslocação do ar frio que vem do leste da Europa. Que vem lá das Rússias e das Sibérias. E por isso, a partir de terça-feira, já dia 3, algumas previsões apontam para uma descida significativa das temperaturas em Espanha e noutras regiões europeias, França também. Em Madrid, por exemplo, depois das máximas, que estão nos 20 °C no domingo, eles estão com 25, 26 °C também agora, os termômetros poderão descer até aos 4 °C de mínima na quarta-feira, dia 4, e a máxima nesse dia não deverá ultrapassar os 14 °C. Portanto, Portugal pode não ter uma descida tão acentuada, as previsões não apontam para isso ainda. Não sabemos até onde essa massa de ar frio vai conseguir chegar, mas as temperaturas vão descer. Até lá, vamos ter tempo de primavera, porque esta sexta-feira Setúbal vai chegar aos 28 °C, Lisboa, Évora, Santarém e Beja nos 27 °C, Coimbra pode estar nos 24 °C e o Porto ainda nos 22 °C, mas as manhãs e as noites continuam muito frias. Haverá grandes amplitudes térmicas. Évora, por exemplo, vai ter 9,4 °C de mínima e 27,2 °C de máxima. São 18 °C de diferença. No sábado, 31 de outubro, noite do Halloween, São Pedro parece disposto a colaborar com bruxas, fantasmas e vampiros e o que virá. A chuva não vai estragar nem a festa, nem as maquiagens. As temperaturas voltam a ser elevadas. Setúbal estará nos 28 °C, Santarém e Évora nos 27 °C, Lisboa também nos 27 °C, Coimbra 25 °C, Porto 22 °C. Portanto, as bruxas podem ir sem capa durante o dia, mas depois à noite levam a capa e o capuz e tudo o que quiser.

O casaquinho pelas costas.

No dia 1 de novembro, Dia de Todos os Santos, o tempo deverá continuar seco e ameno, mas já com temperaturas a baixarem. Ainda assim, Santarém nos 27 °C, Évora nos 26 °C, Coimbra e Lisboa nos 26 °C e Porto nos 24 °C. Depois deste fim de semana, é que novembro deve finalmente começar a impor-se, já mais fresquinho, com as primeiras chuvas e as tempestades que os modelos já mostram. E é precisamente dessas tempestades e depressões que vamos falar agora.

É isso mesmo.

Se eu conseguir manter a voz, não sei se consigo.

Com calma, Filomena, respira fundo, fala baixinho que estes microfones são potentes.

Ok.

Vamos ao fenômeno. Por que algumas destas depressões se transformam em grandes tempestades? É isso que vamos falar.

Vamos. Acabamos de falar de duas, que os modelos dizem que estão no horizonte de Portugal, a que pode trazer chuva nos dias 5 e 6, e a que poderá aprofundar e aproximar-se do continente 10 a 11. O que significa, primeiro que tudo, uma depressão afundar-se? E por que se pode transformar numa grande tempestade? Vamos começar pelo princípio. Uma depressão é uma região da atmosfera onde a pressão é mais baixa do que nas áreas à volta. E a pressão atmosférica, de uma forma muito simples de explicar, é o peso que o ar exerce sobre nós e mede-se em hectopascais, que tem um diminutivo simpático que é h pequeno, Pa com o P grande, hPa. Ao nível do mar, a pressão média é de cerca de 1013 hectopascais.

O que acontece quando uma depressão se afunda?

Significa que a pressão no centro desce. Imagina que ontem uma depressão tinha 1000 hectopascais, hoje tem 990 e amanhã tem 980. Significa que a pressão está a baixar, a depressão está a aprofundar-se.

Ok, mas por que isso pode provocar aqui vento forte?

Olha, pensa numa corrente de ar lá em casa. Tens uma janela aberta, deixas uma porta entreaberta e de repente a porta bate com força. O ar desloca-se devido às diferenças de pressão. Na atmosfera também existem diferenças de pressão, só que numa escala muito maior. E há um pormenor importante: não interessa apenas saber se a pressão é baixa, interessa saber quanto varia a pressão entre dois lugares e qual é a distância entre eles. Imagina dois sítios separados por 50 quilómetros. Se a pressão for muito diferente entre eles, o ar fica sujeito a uma força maior. E se essa pressão estivesse distribuída, por exemplo, por 500 quilómetros? É por isso que os meteorologistas olham para aquelas linhas que aparecem nas curvas do tempo, dos mapas do tempo, e que são chamadas isóbaras. Quanto mais apertadas estiverem essas linhas, maior pode ser a intensidade do vento. Claro que a direção e a velocidade do vento também dependem da rotação da Terra, da altitude, do atrito com o solo, de vários fatores. Mas é assim que se mede.

Sim, dessas linhas.

Dessas linhas.

Mas uma depressão muito profunda provoca sempre uma grande tempestade ou nem por isso?

Não.

Não? Então.

Depende de onde está. Vou outra vez a outra alegoria, hoje trouxe-as todas. Um comboio enorme que passa muito longe do local onde estamos, nem damos por ele. Mas se passar ali à beirinha da nossa casa, aquilo abana tudo, certo? E é uma chatice. Com as depressões é mais ou menos o mesmo, embora com outro processo. Uma depressão com 970 hectopascal muito longe de Portugal é uma depressão profunda, mas pode provocar menos efeitos no nosso território do que uma outra, mais com 990, por exemplo, que passe junto à costa. E isso significa que a trajetória é decisiva.

Claro. E por que algumas depressões se aprofundam tão depressa? O que é que acontece?

Porque a atmosfera tem condições especialmente favoráveis à sua intensificação. Quando massas de ar muito diferentes, uma fria, outra mais quente, se encontram, elas podem criar condições para o desenvolvimento de uma depressão. Se além disso existirem ventos muito fortes em altitude, que favoreçam a subida do ar, a pressão junto à superfície pode descer ainda mais e por vezes desce a uma velocidade extraordinária. É aqui que aparece aquela expressão da ciclogênese explosiva ou do ciclone-bomba. Como referência, fala-se frequentemente numa queda de cerca de 24 hectopascal por 24 horas. Portanto, se houver uma queda de 24 hectopascal num dia, fala-se na ciclogênese explosiva. O valor técnico exato depende sempre da região do planeta onde a depressão está. Na nossa zona é 24 hectopascal em 24 horas, já temos uma ciclogênese explosiva.

Mas isto significa necessariamente que é uma catástrofe?

Também não. Uma depressão pode intensificar-se muito rapidamente em pleno Atlântico, passar longe de terra sem causar danos significativos em Portugal.

Passa na paz.

O problema pode ser algum barco lá por alto. Mas também pode acontecer o contrário. Uma tempestade já estar a perder até intensidade e continuar a provocar vento muito forte, chuva intensa, ondas perigosas, quando chega já à costa e estar a perder, já mais fraquita.

O que temos de perceber nestas próximas depressões, Filomena?

Três coisas. Primeiro, se a pressão no centro continua a descer e com que rapidez. Segundo, se as tais linhas de pressão nos mapas ficam cada vez mais próximas, indicando a possibilidade de vento mais forte. E terceiro, e mais importante para quem vive em Portugal, para nós, qual vai ser a trajetória da depressão e que regiões podem ficar expostas ao vento, à chuva, à agitação marítima. Porque uma tempestade não se mede apenas lá pela pressão que tem no centro, mede-se sobretudo pelos efeitos que pode provocar quando se aproxima.

Muito bem, vamos passar à nossa curiosidade. Filomena, como é que o sol pode fazer cair um telescópio espacial? Como é que isto acontece?

Olha, primeiro é preciso começar por dizer que é um telescópio da NASA, passou mais de 20 anos a observar o universo, que está prestes a cair na Terra.

Epa! Então.

Chama-se Swift. Não é da Taylor Swift, mas falta o Taylor. Foi lançado em 2004 e tinha uma missão extraordinária, que era detetar explosões de raios gama, alguns dos fenômenos mais energéticos do universo, tem uma energia absolutamente brutal. Mas depois dessas duas décadas no espaço, a sua missão científica terminou agora no dia 20 de outubro. E então ele está a perder altitude e está-se a aproximar cada vez mais da atmosfera terrestre.

Epa, mas como é que é possível que um telescópio que está no espaço, agora do nada, decide cair? Como é que isto acontece?

A resposta é: agora é que vamos para o Sol, e é surpreendente porque em parte ele cai por causa do Sol. Quando a atividade solar aumenta, a energia que chega à Terra aquece as camadas superiores da atmosfera. E quando essas camadas aquecem, expandem-se. É um pouco como um balão. Eu hoje já disse que trazia as alegorias todas.

E tu hoje estás pela lista toda.

É um pouco como um balão que aumenta de volume quando o ar aquece no interior. Só que neste caso, a atmosfera terrestre expande-se para altitudes onde circulam alguns satélites.

Mas o que acontece a este telescópio?

Encontra mais partículas de ar pelo caminho. Pode parecer estranho falar de ar a centenas de quilómetros de altitude, mas ele está lá, embora seja muito raro o feito, e esse ar provoca resistência ao movimento do satélite. Lá vou eu. Como acontece com um ciclista que sente o vento atravá-lo e o telescópio vai perdendo energia, a sua órbita fica cada vez mais baixa e acaba por entrar nas camadas mais densas da atmosfera, e pronto, cai.

Mas eu tenho aqui uma questão que eu acho que isto é importante e os nossos ouvintes devem estar a perguntar o mesmo: onde é que ele vai cair? É para aqui para as nossas terras?

É a pergunta do milhão. Neste momento, não se sabe. O Swift deve reentrar na atmosfera nas próximas semanas, mas a data e o local estão por saber, estão por ser confirmados. Há umas notícias que apontam para a Argentina, mas não existe confirmação de que vá cair lá. E há uma diferença importante, reentrar na atmosfera não significa que o satélite caia inteirinho ao solo. Porque grande parte dos materiais do satélite vão aquecer intensamente e desintegrar-se na reentrada. A possibilidade de sobrevivência de fragmentos depende da sua construção e não se sabe. Portanto, temos um telescópio que passou 20 anos a estudar explosões do universo e que agora pode explodir, quando se aproxima do fim da sua viagem, e é o Sol que o fará vir para cá, trazê-lo de volta à Terra.

Pronto, olha, vamos esperar pelos próximos episódios e perceber qual é que vai ser o destino deste telescópio. Esperamos que não caia aqui em terras portuguesas. Quer dizer, mas se calhar vai-se fazendo pequeno, depois nem dá em nada, afinal. Mais um "Quente e Frio" com a Filomena Martins. Obrigada, Filomena.

Até amanhã.