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Eu ouvi a pergunta, mas ela não é uma pergunta. Eu percebo as vossas perguntas, mas vamos com calma, está bem? Não quero que ninguém se magoe. Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos. Eu às vezes tenho mais para fazer do que estar a responder diariamente.

Calma, é isso.

Paulo, a minha pergunta é sobre Ricardo Salgado: a justiça e o humanismo podem ser incompatíveis?

É verdade, é um grande dilema aquele que nos coloca este caso de Ricardo Salgado, ou em tempos o DDT, o dono disto tudo, e que foi condenado já em vários casos também, como a Operação Marquês, o caso EDP Emanuel Pinho. Sabemos também o papel cimeiro que ele teve na derrocada do Banco Espírito Santo, que tantos milhares de milhões custaram aos contribuintes. E sobre as condenações que já teve, as penas em cúmulo jurídico poderiam chegar aqui aos 10 a 11 anos. Cúmulo jurídico, já agora, é aquelas contas que se fazem quando alguém é condenado em várias sentenças. Não se faz o somatório das penas atribuídas individualmente, mas faz-se aqui, vamos pôr as coisas assim, um desconto de quantidade. Entretanto, foi comprovado que Salgado sofre de Alzheimer e tem incapacidade de compreensão da própria pena. Isto está devidamente comprovado clinicamente e por isso o próprio Ministério Público pediu a suspensão da aplicação da pena a Ricardo Salgado, porque o próprio procurador alega que a pena é inútil e seria contrária aos valores do direito penal, e é isso que a perícia confirma. É uma opção humanista do Ministério Público, da aplicação do direito e da lei, com que muitos cidadãos certamente vão concordar e outros não vão concordar, porque acham que a justiça deve ser cega, mesmo nestes casos em que estamos perante alguém com uma doença como o Alzheimer. E então este dilema não tem uma resposta fácil.

Nada fácil mesmo. Bruno, há uma guerra de adjuntos no Ministério da Administração Interna?

Adjuntos e ex-adjuntos, atuais adjuntos e ex-adjuntos, no mínimo, parece haver aqui, eu não sei se lhe hei de chamar fogo amigo, se fogo interno ou fogo cruzado.

Fogo na Administração Interna parece-me bem.

E parece que não há ninguém para o apagar, para já. A polêmica no SIRESP ganhou novos episódios, com uma troca de críticas entre responsáveis do ministério, incluindo divulgação de e-mails internos, acusações antigas e agora afirmações, respostas sobre interesses instalados. E quem veio a terreiro foi a adjunta de Luís Neves, Valentina Marcelino, que lançou um ataque bombástico contra o antigo secretário-geral adjunto do Ministério da Administração Interna, António Pombeiro, que foi quem esteve na origem de toda esta polêmica. A Valentina Marcelino falou num combate a interesses instalados, os interesses dos grandes operadores de telecomunicações que estão há anos a receber milhões do SIRESP. O choque entre estes adjuntos vinha já de abril, quando Valentina Marcelino fez algumas recomendações a um documento que iria ser apresentado, e António Pombeiro achou que estava a ser tratado como um estagiário de redação. Aqui uma referência ao fato de Valentina Marcelino ter sido durante muitos anos jornalista, passou os últimos anos no DN antes de ir para o ministério. Nesta guerra, a primeira baixa foi António Pombeiro, ou talvez tenha sido, como normalmente acontece e como normalmente se diz, a julgar pelas diferentes versões, a verdade.

E falando noutros fogos, Paulo, será que estamos preparados para a época de incêndios?

Pois, o alerta das previsões meteorológicas, pelo menos esse está feito. Estamos já com temperaturas de verão, que vão continuar nas próximas duas semanas, sobretudo nas regiões do interior do país. Nos próximos dias podemos também assistir a episódios de trovoadas secas e rajadas de vento convectivas, até com algum poder destrutivo. É isso que diz o próprio IPMA, o Instituto Português do Mar e da Atmosfera, que faz as previsões. E a pergunta que se faz, obviamente, nesta altura do ano, é aquela pergunta habitual: será que nós estamos preparados e conseguimos fazer alguma coisa pela prevenção dos fogos florestais? Este ano vai ser um ano de alto risco, sobretudo no centro do país. As tempestades de fevereiro derrubaram muitas árvores que ainda permanecem lá. Basta passar de comboio ou na A1, e ainda se vê ali nas zonas entre a sul de Leiria e mais a norte, perto de Pombal, ainda se vê muitas árvores caídas e por isso há muito combustível nas florestas. E depois há esta questão que o Bruno acaba de falar, do SIRESP. Esperemos que estas polêmicas dos últimos dias não tenham impacto, pelo menos na capacidade de resposta operacional do sistema, que enfim, já não é grande coisa, como nós sabemos. Portanto, olhem, vamos acender uma velinha por isto tudo, mas longe da floresta.

Como vai. Bruno, a Águas de Gaia está a meter água?

É mais um rebentamento de conduta, Maria João. E má conduta. A operação da Polícia Judiciária Águas Turvas, e parabéns à Polícia Judiciária por mais um nome de operação muito criativo. Esta operação levou à detenção 13 pessoas ligadas à empresa Águas de Gaia, municipal, entre empresários, dirigentes e funcionários, por suspeitas de corrupção, abuso de poder, branqueamento de capitais. Não estamos a falar de trocos, os investigadores falam aqui em prejuízos que poderão ascender aos oito milhões de euros. Segundo a PJ, existiria aqui um esquema bastante organizado à volta da contratação pública, com aqueles concursos feitos à medida e algumas adjudicações que nem passaram como deveriam por concurso público, relações próximas, benefícios trocados pelo caminho. Um exemplo: o empreiteiro António Santos Mota, num jantar de Natal, pagou aos funcionários da Águas de Gaia 6.785 € em uísque e bebidas licorosas. Não é água, uísque. Aqui a água não serve. Ao todo, o empreiteiro terá gastado ou investido, depende da perspectiva, 54 mil € em almoços e jantares a troco da viciação de contratos públicos a seu favor, 10 mil dos quais, destes 54 mil, num restaurante em Matosinhos. Além de refeições, os funcionários seriam recompensados com obras nas suas casas, viagens e eventualmente também com dinheiro. Aqui fala-se na troca de envelopes com dinheiro. Como não há almoços grátis, nem digestivos grátis, os contratos assinados entre a empresa e a firma de Santos Mota totalizaram no ano passado cerca de 1,2 milhões de euros, alguns dos quais, lá está, não cumpriam as regras de contratação pública. Portanto, estamos a falar de uma má conduta completamente rebentada.

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Eu ouvi a pergunta, mas ela não é pergunta. Eu percebo as vossas perguntas, mas vamos com calma, não quero que ninguém se magoe. Eu respondi a isso quando me disser aqui olhos nos olhos. Eu às vezes tenho mais que fazer do que estar a responder diariamente.

Calma, isso