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Eu ouvi a pergunta, mas ela não é uma pergunta.
Eu percebo as vossas perguntas, mas vamos com calma, tá bem? Não quero que ninguém se magoe.
Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos. Eu às vezes tenho mais que fazer do que estar a responder diariamente.
Calma, Jesus!
Bruno, do que os franceses se queixam?
De tudo e mais alguma coisa, ou não seriam franceses. O custo de vida tem aumentado, isso não há dúvida, não tem sido só em França, obviamente, sabemos disso. A tentativa por parte do governo francês de reduzir a despesa do Estado nunca seria bem aceite, mas os protestos dos franceses vão muito além de ocasionais razões de queixa, que até poderão fazer sentido no caso dos estudantes, mas também já percebemos que neste momento vai muito para além da questão estudantil. Na verdade, França vive mergulhada numa cultura de protesto, que depois é aproveitada por quem quer semear o caos na extrema-direita e na extrema-esquerda, e não está nem nunca esteve interessado em resolver politicamente aquelas que são as questões políticas. Num país que oferece tantas garantias aos seus cidadãos, e é bom não esquecer isso, França tem um sistema de proteção social dos melhores da Europa. Quando falamos de educação pública, não estamos a falar de um país onde isso não seja uma prioridade. É uma prioridade. Poderá haver problemas, com certeza, mas em comparação com muitos outros países, se calhar até em comparação com Portugal, o acesso à saúde também é muito melhor do que na maior parte dos países. Num país com todas essas garantias, ver câmaras municipais a arder, lojas saqueadas e monumentos vandalizados é no mínimo estranho, mas há quem queira o fogo e o caos, seja como for.
Por cá, os protestos, até ver, são pacíficos, Paulo. Quanto tempo podem durar?
Podem durar até os manifestantes se cansarem de estar acampados. Sim, os protestos têm sido pacíficos, com exceção de alguns atos de vandalismo contra monumentos, como aconteceu no Rossio, em Lisboa. Por outro lado, têm violado a lei, de forma pacífica, atenção, mas têm violado a lei ao estenderem-se pela noite fora contra aquilo que dizem as regras. De resto, talvez a melhor forma de as autoridades lidarem com isto seja a passividade. As intervenções da polícia, a forma que adquiram, vão sempre ser aproveitadas para a vitimização dos manifestantes. E uma coisa nós sabemos: o protesto não vai manter-se nunca até os problemas da habitação estarem medianamente resolvidos, porque isso vai durar anos, e isto obviamente durará anos, mas serão resolvidos se tomarem rapidamente as decisões certas de políticas públicas. O que é estranho, por outro lado, porque nós ouvimos há poucos anos um primeiro-ministro, António Costa, a garantir que até o dia 25 de abril de 2024 tudo estaria resolvido. Como é que é possível que não esteja?
Como é que é possível? Isto é mesmo um país de doutores, Bruno?
Devia ser mais, Maria João, e é por isso uma boa notícia o aumento do número de alunos no ensino superior, um aumento cerca de 15% em relação ao ano anterior. E nestas ocasiões ouvimos sempre alguém a dizer que afinal de contas precisamos é de mais ensino profissional, precisamos é de trolhas e canalizadores, porque estes doutores depois vão para o desemprego ou trabalhar pra caixa de supermercado. Mas o país precisa mesmo de pessoas mais qualificadas e de preferência depois não deixar sair aquelas que se formam cá em Portugal. Esse talvez seja o principal problema, não é a falta de outras profissões, é a falta de quem se forme, tire um curso superior e depois, muitas vezes, acabe por ir trabalhar para fora do país. Se o tecido empresarial não consegue aproveitar essas pessoas que são formadas e absorver estes recursos humanos, aí o problema não será certamente das pessoas que apostam na sua formação, dos pais que apostam na formação dos filhos. O país ganha sempre quando as pessoas investem na educação e também ganha quando o país consegue aproveitar quem investiu tanto na sua formação.
E por falar em ganhar, Paulo, como é que vamos travar a caça ao lixo pra receber o dinheiro do Volta?
Calma, Alex, há um plano de 14 medidas que a STR Portugal, que é a empresa, entidade responsável pelo sistema de depósito, que nós conhecemos como Volta, pela instalação das máquinas, pela gestão de todo esse sistema. E a STR Portugal já entregou ao governo esse plano com 14 medidas. Não as conhecemos ainda, mas passam por um plano de cooperação para resolver os problemas de limpeza urbana gerados pelas pessoas, que no fundo andam à procura de garrafas e latas em bom estado para receber os 10 cêntimos depois de colocarem essas latas e garrafas nas máquinas de Volta. No fundo, o Volta está a ser vítima de um problema com o qual não tem nada a ver ou para o qual nada contribuiu, que no fundo é a pobreza que gera necessidade de deitar mão a tudo aquilo que possa conseguir algum dinheiro, nem que seja 10 cêntimos por lata ou garrafa. No fundo, o Volta deixou foi ainda mais às claras e à vista de todos as bolsas de pobreza do país. Mas estamos assim. De facto, queremos aumentar os níveis de reciclagem e esbarramos em velhos problemas sociais.
Eu ouvi a pergunta, mas ela não é uma pergunta.
Eu percebo as vossas perguntas, mas vamos com calma, tá bem? Não quero que ninguém se magoe.
Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos. Eu às vezes tenho mais que fazer do que estar a responder diariamente.
Calma, Jesus!