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Eu ouvi a pergunta, mas ela não é uma pergunta.
A pergunta parte com um princípio errado.
Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos. Eu às vezes tenho mais para fazer do que estar a responder diariamente.
Que estas perguntas são uma antecipação daquelas que a comunicação social vai fazer.
Ó Paulo, tu que és a pessoa para falar sobre isto, de restaurantes. Afinal, há ou não crise no setor da restauração?
Pelo Paulo, não havia.
Paulo, não.
Se fossem todos como eu... Vamos lá ver. Os empresários do setor e o governo dizem que sim, que há crise. Tanto é assim que há poucos meses o governo lançou algumas linhas de apoio financeiro para os restaurantes e agora as associações do setor até querem mais ajudas e desta vez a fundo perdido. Portanto, uma coisa são linhas de empréstimo, outra coisa é fundo perdido e agora querem a fundo perdido. Qual é o grande problema aqui? O problema é que os dados reais sobre a atividade dos restaurantes não mostram nenhuma crise. Ontem Álvaro Santos Pereira publicou no Twitter uma série de indicadores sobre o setor da restauração que, pelo contrário, até mostra um setor dinâmico, com margens de lucro e resultados positivos nos últimos anos, que já recuperou do impacto da pandemia, de facto a pandemia teve impacto no setor, mas isso já lá vai, e que não mostra sinais de crise. Portanto, o governador do Banco de Portugal apresentou uma coisa sempre aborrecida nestas coisas, são dados, factos, números.
Chato.
Enfim, contra aquela perceção.
As perceções contra as perceções.
Contra as perceções. E parece que aquela perceção de crise está longe, está confirmada pelos números. Isto pode causar, obviamente, algum incômodo ao governo, além de causar incômodo no setor, mas é sempre bom decidir com base em factos.
E Bruno, Seguro é a Suíça do pacote laboral?
Foi o presidente quem o disse em Espanha, não disse: "Eu sou a Suíça", mas foi esse o sentido das suas declarações, porque o presidente da República assegurou a sua neutralidade em relação ao pacote laboral. Diz que não vai pressionar ninguém quando se reunir com os parceiros sociais, pressionar para que haja acordo, obviamente, ou não. E também não falou em vetos nem em promulgações. E, portanto, Seguro é Suíço. Agora, se esta visita oficial à Espanha é quase uma reafirmação de uma tradição dos presidentes da República, que começam sempre as visitas ao estrangeiro pelo país vizinho, o que faz também sentido. Seguro recuperou outra tradição de outros políticos portugueses, que é a de, no estrangeiro, não falar de política interna. Abriu apenas uma exceção, lá está, para o pacote laboral, mas de resto manteve-se firme. Só que não se percebe bem este pudor presidencial ou político para não falar de política interna quando está fora do país.
Coisa que é violada depois frequentemente pelos próprios.
E naturalmente, porque o país continua a existir, não fica em estado de suspensão quando o presidente está fora. Uma coisa é comentar avionetas que se despenharam ou o estado do tempo, tudo bem, aí percebe-se que o presidente da República queira manter até uma certa solenidade, mas o presidente da República Portuguesa não se devia impor a si mesmo esta estranha lei da rolha que só funciona quando sai do país.
E Paulo, qual é o julgamento que vai acabar primeiro? O da operação Marquês ou o de José Sócrates contra o Estado português?
Ora bem, antes de mais, vamos contar isto rapidamente. Nós sabemos que o ex-primeiro-ministro está a ser julgado agora na operação Marquês, depois de ter sido detido no final de 2014. Portanto, isto arrasta-se há mais de 12 anos, porque temos que contar depois o tempo de investigação antes dessa detenção, que começou antes. E há nove anos, foi o próprio José Sócrates que decidiu colocar o Estado em tribunal por violação dos prazos máximos legais do próprio inquérito à operação Marquês. Ora bem, este julgamento de Sócrates contra o Estado, julgamento colocado pelo arguido, vai começar já em maio, e o outro da operação Marquês, como nós sabemos, tem estado ali parado e anda para trás e para frente com as peripécias à volta dos advogados. Vamos ver agora qual deles é que termina primeiro. Isto se calhar vai ser ao foto finish. Mas até apostaríamos que vai ser este último, que o Sócrates colocou contra o Estado. No fundo, é a justiça portuguesa a continuar a dar este triste espetáculo de si própria.
Bruno, então e a Rede Expressos, ocupa muito espaço?
Ocupa tanto espaço, Maria João, que não deixa espaço nenhum para a concorrência, para os outros. Já falámos disto aqui há cerca de um mês, um pouco mais de um mês. O Tribunal Administrativo de Lisboa deu razão à Flixbus, concorrente da Rede Expressos, para ter acesso imediato ao terminal rodoviário de Sete Rios, que até agora era, e pelos vistos vai continuar a ser, território exclusivo da Rede Nacional de Expressos. Só que a sentença dizia que a concessão imediata do acesso estava limitada à capacidade efetiva disponível no terminal e logo na altura a Rede Expressos disse que então não constituía uma autorização automática, porque estava limitada ao espaço disponível e o espaço disponível é ocupado pela Rede Expressos. Ora aquilo que se temia desde essas declarações da Rede Expressos confirma-se agora com a Flixbus a acusar a empresa concorrente de não cumprir a decisão judicial. Nos comboios não há concorrência e nós vemos como é que as coisas funcionam. Nos autocarros agora há concorrência, parece que até funciona, os passageiros estão satisfeitos, mas nem todos convivem bem com essa concorrência, mesmo lá está que os prejudicados sejam os passageiros.
Eu ouvi a pergunta, mas ela não é uma pergunta.
A pergunta parte com um princípio errado.
Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos. Eu às vezes tenho mais para fazer do que estar a responder diariamente.
Que estas perguntas são uma antecipação daquelas que a comunicação social vai fazer.