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Quando a corrida eleitoral norte-americana mostra estar praticamente empatada, os dois candidatos afunilam as campanhas para chegar ao eleitorado no qual acreditam que pode fazer subir a intenção de votos. Kamala Harris, por exemplo, faz propostas direcionadas a segmentos específicos da população. Lívia Franco é especialista em Ciência Política e Relações Internacionais. Bem-vinda, obrigada por estar conosco mais uma vez. Kamala Harris revelou novas propostas direcionadas à comunidade negra, uma vez que neste momento está atrás dos números alcançados por Joe Biden em 2020. Parte da proposta inclui empréstimos a empreendedores negros para iniciarem um negócio. Este tipo de iniciativas pode ter efeitos práticos?
Sim. Boa tarde, Judite. É óbvio que tem, não é? É óbvio que tem, porque senão eles não eram apresentados. E, sobretudo, tem em Estados específicos com dinâmicas eleitorais próprias. Eu acho que aquilo que importa dizer é que não por acaso este tipo de iniciativas é apresentado na Pensilvânia, que como nós sabemos, é dos sete swing states aquele cujo peso eleitoral é maior, são 19 votos do colégio eleitoral que estão em jogo. E nós sabemos que, em particular aqui, convém dinamizar o voto deste grupo, que são os afro-americanos, do grupo de eleitores negros, homens e mulheres, convém dinamizá-los para além da intenção do voto, irem mesmo votar. Portanto, o ponto aqui não é tanto trabalhar os eleitores a terem o voto num certo sentido, mas é fazê-los mesmo levantar do sofá e ir às urnas colocar o voto. Eu acho que essa que é a grande batalha destas últimas três semanas que faltam para as eleições. Ou seja, não é tanto um voto de persuasão, no sentido: "Ah, vota em mim e não no outro candidato", mas eu acho que é mesmo um voto de mobilização e ambos os lados estão a fazer isto, que é: "Ok, levantem-se e vão votar", porque todos os votos neste momento, neste empate técnico, que já está a durar há um mês, pelo menos, e que não muda. Ele só pode mesmo ser desempatado pelos eleitores que decidem realmente ir votar.
Personalidades como Barack Obama ajudam nesse desempate ou nesse pedir às pessoas para irem votar, que é aliás o que Barack Obama tem feito, tem estado muito activo nesta campanha.
Sim, ele tem estado sobretudo activo agora nas últimas semanas. Aliás, prevê-se que nos próximos 27 dias, que ele de facto anda em um circuito muito intenso a acompanhar a candidata Kamala Harris. É óbvio que nós percebemos que, em particular, estes grupos, como sejam os afro-americanos, são muito mobilizados também por Barack Obama. Mas para além disso, Barack Obama é, e isso é também sabido e é demonstrado pelos estudos de opinião, é das personalidades do Partido Democrata que tem mais valor junto dos potenciais eleitores. Portanto, há muita simpatia pela figura deste presidente e aquilo que ele diz é de facto muito dinamizador. E se nós olharmos com atenção para aquilo que tem sido o discurso dele nestes últimos dias, e vai continuar a ser com certeza nos próximos dias, é muito nesse sentido de dizer às pessoas: "Não tenham desculpas e vão mesmo votar, porque é uma grande responsabilidade e portanto têm mesmo que se levantar". Nós sabemos que, em particular, o grupo dos eleitores afro-americanos foi decisivo em vários Estados para o resultado das últimas eleições de 2020. E portanto, como a Judite bem disse também no início, numa lógica de afunilamento, vamos buscar as pessoas indicadas para mobilizar os eleitores que nós precisamos que sejam mobilizados. Diz-se também, por exemplo, que Barack Obama, a comunicação social está a anunciar isso, na passada semana gravou 21 vídeos de apoio da campanha de Kamala Harris e nós vamos com certeza vê-lo agora com muita intensidade, para além dos vídeos, mas mesmo presencialmente, a participar de facto nesta reta final da campanha.
E tem estado não só activo, mas muito indignado na forma como pede às pessoas, nomeadamente aos eleitores negros, para irem votar. Até porque Trump tem conseguido desviar alguns apoios, entre os homens negros e latinos. Pergunto-lhe se continua a ser verdade aquela ideia de que quem conseguir obter vantagem nos subúrbios ganha em novembro.
Bom, em parte isso é verdade, no sentido em que, primeiro, as zonas rurais o voto é tendencialmente republicano e, portanto, o Partido Democrata também sabe que aí já não tem muitos ganhos a fazer e, sobretudo, ganhos de mobilização. E portanto, a luta acentua-se neste momento nos subúrbios, mas mais uma vez, nos subúrbios dos tais sete swing states. E muito em particular, eu até apontaria para o Michigan. Aí é mesmo fundamental que nos subúrbios do estado de Michigan, de facto, os eleitores vão votar. Porque isso decide. Porque são Estados onde o sistema que funciona é um sistema majoritário e, portanto, o candidato que ganhar vai ganhar todos os votos eleitorais. Aliás, isto acontece em quase todos os Estados dos Estados Unidos, claro, mas em particular nestes estados eleitorais, que também têm um peso significativo, isso ainda é mais importante. E portanto, tanto o Partido Republicano como o Partido Democrata, nestas últimas semanas, vão de facto tentar mobilizar o mais possível os eleitores com certo perfil, em particular nos subúrbios. E nós vimos, nos dados de 2020, que isso significou a diferença para a vitória de Joe Biden. Também sabemos que este ano, aquilo que os dados indicam destes primeiros meses De campanha é que Trump vai à frente ao convencer estas minorias, nomeadamente afro-americanas e latinas, a converter o seu voto em voto na sua candidatura. E portanto, a campanha democrata está muito preocupada com os subúrbios. Até por isto, na lógica da mobilização e desmobilização, vamos lá ver. Pelo menos até o final de julho, nós conseguimos perceber que eleitores com este perfil latino ou afro-americano não se sentiam muito mobilizados a ir votar em dois candidatos que não só eram bastante velhos, e portanto, isto é importante para os eleitores destes grupos jovens, mas eram candidatos brancos de um mundo e de uma mundivisão que não lhes dizia muito. Nós agora sabemos que isso mudou. A candidata democrata é diferente e portanto, obviamente, também tem um maior apelo a este tipo de eleitores, o que não quer dizer que a esteja a convencer, esse é que é o problema do Partido Democrata, e portanto o Partido Democrata tem que obviamente trabalhar essa base eleitoral se quer ganhar votos.
Há um indicador fundamental que representa um fosso cada vez maior entre as pessoas que têm educação e os que foram deixados para trás. E é aí que se vê a divisão maior entre democratas e republicanos. Por exemplo, em 2020, a CNN escrevia que os eleitores licenciados representavam 55% do eleitorado de Joe Biden. É expectável que continue a ser este o cenário?
Eu acho que uma coisa também interessante que nós temos que notar, e por exemplo, isto é muito diferente da nossa realidade nacional, quando acontecem eleições legislativas cá em Portugal, é que o eleitorado nos Estados Unidos é de facto muitíssimo diversificado. E portanto, as campanhas eleitorais, como nós acabamos agora de falar, têm que trabalhar sobre grupos e subgrupos de eleitores, porque é de facto um eleitorado muitíssimo heterogêneo. Nomeadamente, por exemplo, têm que trabalhar grupos por gênero, por raça, por região. Mas é verdade que o nível de instrução, portanto, eleitores por grupo de nível de instrução, nomeadamente são licenciados ou não são licenciados, é também um grupo que tem vindo a adquirir uma importância muito grande. E é uma importância porque ela traduz também uma grande mudança daquilo que era a inclinação do voto anteriormente nesse grupo de quem tem um nível de instrução mais elevado ou menos elevado. Ou seja, para dar um exemplo, até há relativamente pouco tempo, eu diria até sensivelmente 2016, portanto até à emergência do fenômeno Trump, inversamente ao que está a acontecer hoje em dia, a maior parte dos eleitores com maior nível de educação tenderia a votar no Partido Republicano, e o Partido Democrata era o partido que melhor representava as classes mais baixas e classes médias. Isso está agora, de facto, a inverter-se e o atual Partido Republicano, que é um partido que mudou muito internamente, e portanto, um partido agora sobretudo muito ligado à figura, ao discurso e ao manifesto eleitoral de Trump, é de facto um partido que atrai, sobretudo, já vimos as populações rurais, populações com nível de educação muito baixo. E portanto, eu acho que, claro que nós só vamos ver isto depois quando forem analisados os resultados propriamente das eleições do próximo mês de novembro, mas de facto a tendência é essa, a tendência é esta inversão e que é o Partido Democrata que consegue convencer melhor os com maior nível de instrução a votarem no próprio Partido Democrata.
Há uma nova campanha publicitária lançada por Harris no Arizona para conquistar os republicanos que se sentem alienados pelo comportamento do ex-presidente, mas que ainda não tomaram a decisão de votar no outro partido. Isso é das questões mais difíceis, votar no outro partido. Em Portugal, essa questão esbate-se mais, talvez, do que nos Estados Unidos.
Eu acho que não tem tanto a ver com a realidade norte-americana, eu acho que tem mais a ver com o momento político que se vive. E desse ponto de vista, eu diria que ele é sobretudo acentuado nos Estados Unidos e que é o momento de uma profunda polarização política. Portanto, esta ideia da possibilidade de transferência do voto é uma ideia que quando o jogo se faz sobretudo ao meio e face a partidos moderados, é mais fácil de nós concretizarmos, mas que num contexto de profunda polarização é mais difícil, porque, na verdade, vamos lá ver, as candidaturas são muito opostas. Essa é pela qual a América está tão dividida. Essa eu acho que é a principal explicação. Ou seja, não é tanto pela dinâmica eleitoral geral ou até histórica norte-americana, mas tem a ver com o momento que nós estamos a viver, que aliás, é um momento também que se nota na Europa, onde a transferência de voto é muito mais diferente, porque são votos em sentidos completamente opostos. É verdade que dentro do Partido Republicano há uma minoria que se tem recusado, de facto, a votar mesmo em Trump. Eu acho que sobretudo por razões ligadas, obviamente, ao 6 de janeiro. E portanto, é mesmo aquele grupo que se intitula Never Trump, são aqueles votantes republicanos, e para eles tem sido uma grande dificuldade, outros não. Nós já vimos, aliás, já falámos disso, que há certos votantes que acham que, sobretudo em defesa da democracia, que têm que votar na candidata do Partido Democrata. E portanto, o que acontece é que ambas as candidaturas estão a convencer esses eleitores indecisos a converter o voto em cada um dos candidatos.
Só para terminar, Kamala Harris tem feito uma campanha de proximidade com o seu staff a andar de porta em porta, tem apostado muito nisso, até do ponto de vista financeiro, sobretudo, lá está, para fazer aquilo que a Livia falava há pouco, convencer as pessoas a sair de casa e a votar. Será a Harris a mais prejudicada com a abstenção?
Eu acho que tendencialmente será a Harris a mais prejudicada. Quer dizer, ela não é conhecida, ela nunca foi presidente. E Trump é muito bem conhecido e já foi presidente. Portanto, ela é aquela que tem que se mostrar melhor e mais conhecida e mais, digamos assim, familiar aos eleitores. E portanto, faz sentido, de facto, que ela faça também esse percurso e que precise Preciso de ir bater porta a porta. Já agora, também digo aqui uma coisa interessante. Ela foi uma grande apoiante das duas candidaturas de Obama, em 2008 e em 2012, e ela ofereceu-se como voluntária para fazer esse trabalho porta a porta para convencer os eleitores a votarem no Obama. Portanto, também não admira muito agora que Barack Obama sinta a responsabilidade de também responder dessa maneira. Claro que provavelmente já não vai fazer essa participação, que aliás é muito anglo-saxónica, de ir bater porta a porta para convencer os eleitores, mas claro que vai continuar nos próximos dias a participar, obviamente, nos grandes comícios. Mas sim, à sua pergunta eu diria que para ela isto é mesmo muito importante e, portanto, o desafio da mobilização eu acho que é um desafio para os dois partidos num contexto de todos os votos valem, mas acho que é sobretudo para o Partido Democrata.
Obrigada, Lívia Franco, por ter estado conosco mais uma vez.
Até à próxima.
Até à próxima. E já que estamos a falar em sair de casa e ir votar, vamos ouvir Bob Marley, "Get Up, Stand Up".