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Olá, sejam bem-vindos a mais um episódio. Hoje trago pela primeira vez aqui ao podcast uma comediante, a Mónica Vale Gato, que é uma pessoa que eu conheci curiosamente a fazer uma caminhada aleatória em Sintra. Fomos as duas para sair da nossa zona de conforto, fazer uma caminhada na natureza e acabei por me cruzar com ela e depois passar a acompanhar o trabalho dela. E achei que fazia sentido também trazê-la aqui para falarmos um bocadinho da parte da comédia, de como é que estas pessoas, comediantes, parecem tão confiantes, transbordam muito essa energia, mas que depois no final do dia se calhar até são as pessoas mais tímidas, mais reservadas, e que por trás de todas essas piadas é uma forma de expressarem essa dor para o mundo. Vamos abordar um bocadinho deste tema, os limites do humor, de que forma é que ela também encontra a criatividade no dia a dia dela. Hoje em dia está a preparar um novo solo que está quase a começar, que é o "Próxima Paragem", já é o segundo solo dela. E também entrei um bocadinho por aí, porque eu consumo muita comédia, vou a muitos espetáculos de stand-up e também tenho muita curiosidade de como é que este mundo funciona por trás daquilo que nós vemos na internet, por trás daquilo que nós vemos nos shows de comédia. Portanto, vai ser uma conversa em que vamos abordar vários temas, também muito da parte de como é que ela encontra uma rotina dela, o impacto que a terapia também tem na vida dela, em ela estar bem para depois poder aparecer bem. Portanto, vamos tocar em vários pontos diferentes. Espero muito que vocês gostem também de entrar neste mundo por trás da comédia e vamos passar ao episódio. Não é fácil, eu sei, mas amiga, faz parte. Encontramo-nos domingo à hora do costume? E eu queria começar aqui por falar sobre um estudo que li esta semana, queria comentar contigo. Diziam que nos anos 50 as pessoas riam em média 18 minutos, não sei se já viste este estudo, e que hoje em dia a média é seis minutos.
A sério? Eu acho que agora devêssemos rir mais.
Achas?
Sim, não sei porquê. Não sei se é porque consumimos mais conteúdo engraçado.
Estamos ali para os nossos reels.
Se calhar aquele "ha ha ha" é falso. Eu recebi imensos reels de amigos e ri-me imenso, mas eu estou tipo: "Ha ha, mas não me estou a rir." Pois, se calhar faz sentido.
Eu falei disto há uma semana, mais ou menos, numa palestra que estivemos a debater sobre bem-estar e saúde mental e tudo mais, e aquilo que chegamos à conclusão tem muito a ver com a era digital, com estarmos sempre agarrados ao telemóvel, se calhar menos presentes em eventos sociais e coisas assim, que acaba por diminuir este número.
Sim, é triste. Bem, eu estou a contribuir com a minha profissão, com os meus espetáculos, vamos tentar reverter esses números.
Tu és esta pessoa também na vida? De ser o palhacinho do grupo?
Já fui mais. Eu acho que quando era mais nova, já fui mais. Agora estou numa fase de, imagino eu, da minha personalidade, mas gosto de, sei lá, quando estou num grupo e sei que vai uma pessoa engraçada, fico mais tipo: "Ah, que bom, aquela pessoa vai-me fazer rir."
Ah, é? Não ficas competitiva? Queres ser a mais engraçada.
De todo, porque como já é a minha profissão, também preciso de ter aqueles momentos que eu estou calada e que alguém me está a divertir. Então adoro quando há alguém assim mais engraçado. Até quando estou junto com outros comediantes, normalmente eles têm aquela coisa de competição e parece que só falam a mandar piadas. Eu normalmente sou assim mais caladinha, porque gosto que me entretenham a mim. Sabe bem rir, adoro.
Mas sabes que, por acaso, eu acho que ao ver de fora, e eu acompanho muitos comediantes, e acho que todos temos um bocadinho esta ideia de que os comediantes são todos mega confiantes. Tu sempre foste assim? Sentes que és uma pessoa confiante?
Sim, confiante e insegura ao mesmo tempo. Ou seja, eu acho que meto sempre muita pressão em mim. Eu quando subo a palco, meto pressão e acho que nunca está suficientemente bom, mas também sei que nasci para fazer isto e que está em mim. Então esse lado também sei que tenho confiança, é meio que um misto. Nunca podes estar também 100% confiante. Há dias que tu te sentes tipo: "Ah, isto não teve graça nenhuma." Mas é QB, eu acho.
Mas tu sentes que vocês criam estas narrativas e as piadas para esconder, ou seja, para quase que tirar um bocadinho do peso?
Da máscara.
Sim.
Sim.
De inseguranças vossas, no fundo.
Sim, eu já não sei quem é que falou sobre isto. Sei que era um comediante americano, mas que falava que a maior parte dos comediantes acabam por ter ou depressão ou por serem pessoas realmente mais low profile. E no meu caso, o humor, eu olhando também para a minha história de vida e tudo mais, eu acho que o humor foi, as vezes que eu estava mais brincalhona na escola, eu lembro-me, porque ainda não sabia o que era humor e ser comediante, mas que eu estava mais brincalhona e mais parva, era os dias que eu estava se calhar mais em baixo. Então acaba por ser ali uma máscara que tu não deixas que as pessoas percebam que realmente tu estás em baixo. Isso sempre fez muito parte da minha personalidade e o humor também acabou por ajudar a sarar algumas feridas ou momentos menos bons. Por exemplo, eu no meu espetáculo abordei a morte do meu pai com cancro e consigo agora brincar com isso, porque o meu pai era cego, então eu dizia, ele faleceu de cancro, não viu o cancro chegar, então brinco com isso. E as pessoas ficam tipo, eu assim: "Podem rir que ele não está aqui." E pronto, consigo satirizar com isso. E eu acho que o humor é importante, é tipo um carinho, que consegues olhar para as coisas com mais descontrador.
Mas se calhar tu consegues ser tu a gozar com isso, mas se calhar se for outra pessoa a fazer piadas da tua situação, se calhar já levas a mal.
Sim, tem que haver. Imagina, depende. Os meus amigos, eu tenho um amigo que também o pai dele abandonou quando foi comprar tabaco e não voltou, que é o que a gente brinca. E então ele às vezes diz que no dia do pai, que não viu o pai. Eu, pois o meu também não me viu, porque ele é cego. Então, nós temos essa confiança para brincar e satirizar um bocado a desgraça um do outro. Se for um humor bem feito, acho que é tranquilo. Há muitos seguidores que também brincam com isso, que já sabem a questão da cegueira do meu pai e às vezes mandam aquela cena do Stevie Wonder a tentar apanhar o sol, mas o sol está não sei onde. Isso é tranquilo, a não ser que seja um humor agressivo.
Mas tu ganhas esse poder de encaixe?
Sim.
É uma coisa que se treina?
Eu acho que quando tu não vês maldade e pensas assim: "Não, isto realmente é uma boa piada, eu gostava de ter pensado naquela piada." Agora quando é aquele humor que eu às vezes sinto que algumas pessoas na internet têm para comigo, que é, como eu sou engraçada, há pessoas que tentam ser engraçadas, mas é um engraçado ofensivo. Por exemplo, houve um vídeo que eu tinha e houve uma senhora que comentou: "Temos imenso em comum, também tenho uma franja oleosa." E eu respondi assim: "Ah, que bom saber..." Como é que eu disse? Eu posso dizer asneiras aqui?
Podes.
Boa. E eu disse: "Que bom termos mais uma coisa em comum, também sou puta." Foi alguma coisa assim. Imagina, eu percebo que tu estás a tentar ser engraçada.
Eu vejo que às vezes tu vais pondo também nos teus stories a gozar com essas pessoas que te mandam essas mensagens.
Houve uma a dizer de eu estar grávida, que como é que é possível eu estar grávida e nunca ninguém vai querer estar comigo. E eu disse: "O seu marido não diz o mesmo?" Acabo por também brincar um bocado com as coisas, mas aí é gratuitamente falar mal.
Está a gabar a pessoa.
Mas há outras que é tentar... Por exemplo, eu lembro-me quando engordei no pós-parto, que a minha aliança, agora não tenho porque fui treinar e esqueci-me de voltar a pôr. Mas a minha aliança estava muito apertada, porque eu engordei. E estava a mostrar as minhas unhas depois de ir à manicure, porque eu gosto sempre de fazer as unhas todas diferentes. E houve uma que disse: "Olha a aliança a pedir socorro" e vários emojis a rir. Sei lá.
Se calhar toca-te porque era uma insegurança tua no momento.
Sim, imagina, mas acaba por não ter graça, é só uma ofensa mascarada com humor. E eu acho que quando são ofensas mascaradas com humor, não encaixa bem. Poderias ter brincado de outra maneira. Acho que isso, a aliança a pedir socorro...
Sim, mas eu acho que isso também tem muito a ver com o facto de tu seres a brincalhona da internet e acharem que têm espaço para isso.
Sim, completamente. Eu sei que depois levo muita coisa desse género e às vezes tento trazer à internet para as pessoas também perceberem. Calma, eu sei que vocês tentam ter graça, mas às vezes estão só a ser rudes. E aí acho que é aquele limite, que também tem a ver com cada um. Se calhar se fosse outra pessoa dizia: "Olha, pronto."
Sim, tem a ver com as tuas inseguranças.
Sim.
Porque este tema dos limites do humor é muito debatido, mas é uma questão muito pessoal, não é?
Sim.
Tu se calhar na tua forma de construir texto e assim, se calhar optas por não ir tanto por essa vertente. Daquilo que estávamos a falar antes, de humor negro, ou seja, os teus limites estão mais estabelecidos.
É, por exemplo, eu jamais conseguiria gozar com alguém gordo. No máximo, gozo com a minha própria gordura, o facto de eu ter engordado, de eu parecer assim. Ou seja, eu acabo por satirizar mais comigo mesma ou com as pessoas que eu tenho confiança. Falo de cegos, porque o meu pai é cego. Ou seja, para mim esse humor é mais confortável. Já me convidaram para noites de roast, mas eu nunca aceitei, porque eu sei que se eu quisesse, eu destruía aquela pessoa, mas eu não consigo.
Porque achas que também não ias aguentar que fizessem isso contigo?
Por acaso, eu tenho receio de ir a uma noite de roast, mas por um lado, tenho curiosidade, porque eu sei que vou exatamente saber o que é que o outro pensa sobre mim, porque eu sinto que tu vais saber o que penso sobre ti a brincar, mas no fundo as pessoas pensam isso. E também gostava só por isso, apesar de saber mais ou menos o que provavelmente diriam.
Mas isso abala mesmo uma pessoa mega confiante, não é?
Sim, a pessoa ia ficar tipo... Eu não sei se tenho estaleca para isso, acho que não. Acho que não. Hell, no.
Mas tu gostas de consumir outro tipo de comediantes com outras abordagens? Ou gostas mais de acompanhar pessoas que têm o teu registo, mais ou menos?
Sim, eu acho que me sinto mais confortável com o humor mais parecido ao meu, porque é o humor que me vai fazer rir mais. Não me deixa desconfortável, tipo: "Ai, meu Deus, eu não tenho coragem de dizer isso." Não me rio tanto. Portanto, como também não é o humor que eu me revejo, prefiro ver um humor mais genuíno, mais de storytelling, tu sentires que aquela pessoa é mesmo assim, não esteve ali em casa fechada durante três semanas para tentar ter graça. É uma coisa genuína, gosto desse humor mais puro.
Mas tu achas que pegar nestas coisas assim mais óbvias do humor negro, como estávamos a discutir antes, achas que é mais fácil? Ou achas que há público para isso e que faz sentido também seguir esse caminho?
É, eu acho que há público para isso e está tudo bem. Não sei se é humor assim mais óbvio, às vezes até é difícil. Eu sei que quando pego nas coisas do meu pai, não pode ser logo no início do espetáculo, tem que ser mais a meio, porque as pessoas às vezes ainda sentem aquele embate e têm meio que vergonha de rir disso. É também, é um talento, eu não consigo ter essa capacidade. Tu bates, literalmente. Eu até agora estava a pensar, eu no Muay Thai, ontem o meu mestre disse: "Tu não gostas de bater no outro." Eu: "Pois não." Eu estou sempre assim: "Ai, desculpa, mas eu quero aprender." Se me agredirem, eu dou. Ou seja, eu mesmo no stand up, se calhar só diria se depois de ouvir umas quantas piadas sobre mim, eu já me sentisse na intimidade.
A força do contra-ataque.
Sim, que no fundo eu só mando aquelas mais lixadas quando me mandam coisas mais...
Então se calhar num roast até ias.
Se calhar tinha que receber um roast primeiro e depois dava-me aquele, senão era só piadas do tipo: "És roxo, és não sei o quê, pareces uma batata." Se calhar só assim, coisas assim. Que eu vou num roast a dizer isso.
Mas estavas a dizer a questão de algumas piadas teres de esperar mais para a frente para contar. Mas se calhar, sendo o teu público, já está preparado para as receber porque já te conhece.
Mesmo assim, ainda não.
Ainda assim não?
Eu não posso começar a piada do meu pai logo no início do espetáculo.
Mas deve ser mais difícil para pessoas que não te conhecem de lado nenhum.
Não, quando não conhecem de lado nenhum, riem-se mais, não sei porquê. Eu acho que é porque como não têm relação, não têm empatia, riem-se. Normalmente metade da sala conhece-me, a outra metade vem sempre a acompanhar. Mas fica sempre aquela coisa de "não vou rir". Tens que criar uma empatia primeiro, fazê-los rir mais para já estarem à vontade para depois sentirem que vamos rir da desgraça e tenho que brincar. Estão já à vontade, vamos bater no ceguinho e pronto, aí riem-se e bora, vamos lá. É assim um trabalho. E nos bares as pessoas riem-se mais, porque não te conhecem de lado nenhum. "Olha esta aqui, com o pai não sei o quê." São mais frias. Não há esta relação contigo. São mais rough.
Olha, e como é que chegaste à comédia? Como é que achaste: "Isto pode ser a minha profissão."
Eu já fazia vídeos em pequena de sketch, eu adorava a Marina Mota, o "Bora lá Marina", adorava. Depois veio os Gato Fedorento, eu tinha um grupo com amigas minhas no ensino básico, éramos as Arlettes, e também gravávamos com uma câmera, tínhamos sketches, era várias coisas.
Mas colocavam em algum lado?
Não, ficava conosco, porque não havia internet ainda, depois havia o YouTube.
Não havia o Vine na altura?
Não, foi muito antes. Eu sou muito velha. Não, o Vine ainda não havia nessa altura, no ensino básico. Começamos a pôr no YouTube, mas o YouTube, entretanto, tive que ocultar lá um ou outro, porque eu estava assim: "Meu Deus, se as pessoas apanharem isto." Tipo prank calls minhas, que eu ligava à pessoa caramba e dizia: "É a cara que o caramba." No fim, as minhas amigas riam muito e eu tipo: "Sou bem engraçada." Quando as chamadas começaram a ser grátis, porque antigamente não era, e a pessoa aí sentiu, vamos ligar às pessoas. Então isso já estava em mim, mas eu não sabia que poderia ser uma profissão. Depois com a internet, as redes sociais, foi em 2015, aí eu decidi: "Não, vou criar uma página no Facebook chamada a Caixa de Areia, para eu pôr toda a merda que me apetecer por ser Mónica Vale de Gato."
Mas isso foi um podcast também.
Depois foi um podcast mais à frente que eu decidi usar esse nome do meu início e foi o que eu fui buscar. Mas a página era Caixa de Areia, na altura já existia também a página no Facebook da Bomba na Fofinha, que ela ainda não mostrava a cara, portanto, havia muito esse culto dos nomes, como a Pipoca Mais Doce, e então eu decidi que o meu alter ego ia ser a Caixa de Areia e comecei a colocar aí os meus vídeos e depois acabou por ser um salto natural também para o stand up, porque também estava à vontade nos palcos e também queria sentir que não era só a miúda que ia fazer vídeos na internet.
Mas isso já foi mais para a frente. Por acaso eu ouvi há pouco tempo um podcast do Bruno Nogueira em que ele estava a falar disso, de que sente que antigamente era muito mais difícil entrar na comédia do que hoje, porque hoje em dia tu já sabes que é uma profissão e já sabes o que fazer. O caminho já está mais ou menos traçado, é tipo, vais para as salas fazer stand up, testar texto, conheces pessoas, crias a tua rede networking, depois a partir daí já sabes, é pôr na net, vai começando a crescer. E depois o caminho passa por ou criares podcast ou ires para solos. Tu achas que antigamente era mais difícil de tu perceberes qual era o caminho, por onde ir?
Mesmo quando eu comecei, isso ainda não estava muito estabelecido. Agora há imensas salas de stand up. Quando eu comecei a ir a bares, havia para aí três. Agora são imensos e há cursos. Porque eu ainda estava no Facebook, ainda não havia o Instagram. Eu acho que agora sim, é mais fácil. Eu nessa altura ainda não sabia bem sequer que ia fazer um solo, porque o solo veio depois ter muitos mais seguidores nas redes sociais. E sim, se calhar antigamente, sem dúvida, era mais difícil, eu acho que em todas as profissões, porque agora nós podemos mostrar o nosso talento e fazer por nós e não esperar que alguém da televisão pegue. Agora é o contrário, a televisão percebe que as redes sociais é que estão a bombar e vão buscar talentos às redes para a televisão também não morrer. Agora temos um bocado a faca e o queijo na mão nesse sentido. Mas sim, antigamente, em tudo eu acho que era mais difícil. Quem queria ser atriz, eu lembro-me de ir aos castings daquela novela da "Filha do Mar". Eu ia meio de barco, fila buéda miúdos, bué crianças. Claro que eu nunca iria passar aquilo.
Mas tu gostavas de ir para a televisão ou foi só experimentar?
Em miúda, sim, eu fazia teatro e sempre gostei muito de teatro. Eu gostava de ir para a televisão ou teatro, mas personagens cômicas. Já tentei fazer personagens sérias e parece que eu preciso do riso, senão parece que não estou a fazer bem. Eu já fiz uma psicóloga e gostava, muito séria. "Então, como é que se senta?"
Imagina-te.
Eu só consigo fazer personagens cômicas, senão parece que é tipo: "A personagem é sensata." Quem sabe uma tresloucada qualquer um dia.
Mas tu quando estavas a começar na comédia, tu já começaste numa de "isto vai ser a minha profissão"?
Não.
Porque tu depois foste para marketing.
Sim, eu nessa altura já trabalhava numa agência de comunicação, quando decidi fazer o meu blog. Então quando eu ia para o meu trabalho, como eu morava em Martim, o trânsito na IC19 era enorme e eu gravava no carro, chegava ao trabalho E publicava logo, nem editava. Era tipo aqueles vídeos de desabafo. Antigamente era muito mais assim, a pessoa sentada, falava, tínhamos mais atenção do que agora, tem que ser tudo editado, tudo rápido, porque ainda era aquele formato horizontal, era mais fácil. E foi assim, nunca foi de: "Isto vai ser a minha profissão." Simplesmente, as pessoas foram chegando, gostando do conteúdo e foi acontecendo naturalmente. E ainda bem que foi assim, porque eu acho que hoje em dia as pessoas têm muito essa coisa de: "Vou despedir-me e vou ser influenciador a tempo inteiro." E estão muito atrás dos números.
Porque tu já sabes que pode resultar.
Sim, mas parece que é aquele do it for the fame e não porque gosto de fazer isto, e isto é uma coisa que me dá prazer. E quando tu fazes só para os números e teres aquela vida, acabas por, sei lá, acho que é meio vazio, não sinto verdade nas coisas, sinto que querem só dizer como é que foi o dia delas e estão felizes por agora conseguirem ir ao pilates e ter uma vida...
É muito self-centered, não é?
Sim, não sentes que está a fazer aquilo. Ou seja, é o deslumbramento pela fama, pelos seguidores, e não porque têm conteúdo.
É porque queres a vida do outro. É porque vives a ver aquilo e também quer igual.
Sim, então acho que agora também está a haver, sei lá, não gosto tanto de acompanhar. Há novos talentos a surgir que eu sinto mesmo, tu és uma delas, que eu realmente gosto muito de seguir, porque olho o teu perfil, faz-me sentir bem. Nota-se que tu tens um propósito, acabas por motivar as pessoas, partilhares a tua trajetória dos teus treinos, a forma como também te dedicas ao trabalho, como queres planear as coisas. Tem sempre a casa organizada, eu assim: "Uma casa organizada."
Não tem mel, não mostra tudo.
Manda a pizza lá para casa. Eu assim: "Isto é uma casa que vale a pena acompanhar." É uma pessoa que investe nas coisas. Então eu realmente gosto. Eu sinto que não és uma pessoa forçada e fazes a tua vida, fazes o desporto e podes ir ao teu pilates. Nota-se que tens uma missão, tens coisas para fazer, tens coisas para dizer. Já acompanhei pessoas com 5 mil seguidores que estão a começar e que estão com aquela conversa já de influenciadora.
Sabes que eu estava a ver hoje um post de manhã que era a morte dos influencers e a surgir a onda de mais criação de conteúdo.
Sim.
Ou seja, as pessoas já não acreditam tanto nessa venda de estilo de vida perfeito, que eu acho que há uns anos era totalmente assim, com as fotos lindíssimas e tu quereres era ter aquela vida e acompanhar a vida de luxo daquela pessoa. E hoje em dia é a criação de conteúdo. Tu acompanhas pessoas que sentes que te acrescentam em alguma coisa.
Sim, sem dúvida.
E quem está a seguir o outro caminho, acho que vai acabar por eventualmente não conseguir.
Pois, algumas conseguem.
Mas põe o objetivo, onde é que queres chegar, o que é que queres com isso?
Tu tens vários canais de televisão que são para este tipo de pessoas que gostam deste tipo de deslumbramento. Mas pessoalmente prefiro coisas mais genuínas que me façam sentir bem. É aquela coisa, eu às vezes digo ao Alexandre, eu mostro e digo assim: "Se forçar mais caga." Eu digo: "Bué forçado." E isso também me traz alguma ansiedade. Não sei se vamos falar de ansiedade hoje, mas posso trazer para cima da mesa e perguntar.
À vontade.
E perguntar também se não sentes isso, que é, eu assim: "Hoje vou perguntar, já que estou numa, assim aproveito para desabafar com outra." Que quando eu decidi tornar isto a minha profissão, sinto muito mais ansiedade, muito mais ter que não seguir certos perfis para não ficar com aquela coisa da comparação de oportunidade.
Comparação de devias estar a fazer mais e mais.
Sim, porque antes quando tinha o meu trabalho, era tipo: "Eu tenho o meu trabalho, isto é um hobby, who cares?" E agora sinto muito mais essa pressão.
Sim, porque no fundo, tu fazias porque gostavas e quando te apetecia.
Sim.
E passa a ser o teu trabalho, agora tenho que fazer todos os dias.
Sim.
E sentes esse compromisso de, eu pelo menos sinto isso, que é este comboio que nunca para, de que eu devia estar a fazer mais para chegar mais longe, para chegar mais rápido.
Sim.
E causa muita ansiedade.
Sim. Pronto, boa.
Mas eu também sinto muito isso de comparação com outras pessoas, mas faço muito isso, de tentar não olhar e pensar: "Este é o teu caminho, estás a fazer as tuas coisas bem." E eu estou há muitos anos nas redes e sempre foi um crescimento muito lentinho. Nunca tive aquele pico de um momento para o outro, e acho que é bom.
Sim, porque vais criando a tua comunidade aos poucos.
E é pensar, as coisas estão a acontecer, foram muitos anos e continuam a acontecer, é continuar no mesmo caminho, a ser fiel a mim mesma.
Ya, é mesmo isso.
E tu sendo comediante, por acaso eu queria te perguntar isto, porque eu sinto que há muitos comediantes que são tipo: "Eu não estou nas redes e eu sou cool por não estar nas redes, não fazer conteúdo."
Bem hipster.
Sabes? Sabes do que eu estou a falar?
Sei.
Tu sempre estiveste nas redes a fazer imenso conteúdo também, vídeos engraçados. Tu achas que isso choca um bocadinho, ser influencer e comediante? Ou achas que já estamos numa de depende do tipo de comediante e do posicionamento?
Eu acho que pode chocar, se calhar, esses mais hipsters. Uma vez criaram um grupo de WhatsApp com todos os comediantes e a Joana Gama mandou lá uma piada que eu sei que foi, já não sei o que ela disse, mas era uma boca da Mónica Tristeza que faz pub ou não sei o quê. À frente dos comediantes todos naquele grupo, eu fiquei cabra de merda.
Que desnecessário.
Mas ri-me e foi tranquilo, mas assim é que tu percebes como as pessoas te veem. Mas eu também sei que ela agora tem que fazer pubs e tal, é tipo, temos que ter estas da Mónica como inspiração e ver isto. E depois também sei que uma coisa puxa a outra. Mas sim, sei que se calhar tenho um posicionamento que para o comediante mais hipster não é Não é fixe, não é cool, mas eu estou a fazer isto, é da minha personalidade, da minha maneira de ser. Não estou a tentar caber em nenhum grupo ou nenhuma caixinha.
Estás a fazer o teu caminho e faz sentido passar por aí quando saíste de uma carreira estável, também queres ter várias fontes de rendimento.
Eu gosto. Há dias fiz uma campanha para uma marca de colchões e fui buscar um vídeo meu de há 23 anos atrás, que era eu a promover um colchão, porque nós tínhamos um programa de televisão com os meus primos, que ficava em cassete, aquilo não ia para lado nenhum. E depois fazíamos os anúncios de publicidade no meio, portanto é uma cena minha, eu divirto-me a fazer isso. Eu venho do marketing, portanto eu estou habituada a criar estratégias de comunicação para marcas e estou a me divertir imenso poder fazer isso, mas com o meu lado de comédia.
Isso só fortalece também a tua comunidade para depois poderes ir a solo e ter mais gente a assistir e a querer ir.
Sim.
Quão difícil foi criar o primeiro e agora o segundo?
O primeiro foi muito mais fácil, porque foram vários anos de criação. Este está mesmo a sair do pelo. Este foi mesmo muito difícil.
Mas criar o texto?
O texto, sim.
Mas já está fechado?
Já está.
Fizeste muitos testes?
Fui fazendo. Marquei espetáculos numa sala em Sintra e marcámos uma série de três espetáculos, mas eu tinha 20 minutos. Normalmente, quando vais a baixo, tens menos tempo. Também fui fazendo isso, mas às tantas eu preciso de experimentar blocos maiores para conseguir testar o espetáculo inteiro. Sempre testar o espetáculo inteiro. E depois também tive outras atuações, já mesmo do solo completo, em Viseu, antes de chegar a Lisboa. Viseu, estive em Leiria, fui também ao Casino do Espinho e foi uma forma de eu começar também a testar a organização. O que é que eu digo primeiro. Agora em Leiria fiz uma organização totalmente nova para ver se assim está melhor e cheguei ao fim e pensei: "É isto."
Estás confiante?
Sim, agora estou. Tinha corrido bem nos outros, mas eu ainda estava tipo e este aqui eu pensei: "Não, agora eu estou contente e correu bem." Mas custou muito, porque isto foi tudo criado no pós-parto.
Tu foste mãe no ano passado.
No ano passado, sim. Foi. É o teu ano e qualquer coisa. Acho que sim.
E quão difícil é tu-
O ano passado não, já é o outro.
2024.
Sim, 2024. Sim, foi em julho.
Mas quão difícil era tu, lá está, porque também manter a tua profissão, que tu é que defines as tuas rotinas, teus horários. E ao mesmo tempo é uma profissão que tu tens que estar meio que com a cabeça para.
Sim. Não é fácil, porque quando tu tentas ser criativa, não há uma hora. Não há hora de tu seres criativa. Às vezes é aquela coisa de estar a chegar a hora de ir buscar à escola e eu precisava mesmo de acabar este guião ou de acabar esta ideia e começa-me a dar aquela ansiedade. E imagina, chegar tarde, parece que já não consigo criar, porque estou com aquela ansiedade de vou ter que ir buscar e já não consigo. Teve que ser também uma negociação familiar, do Alceno perceber há dias que eu tenho mesmo que me isolar e criar. Mas não foi fácil. Isto foi no fundo mais para me provar a mim mesma que eu poderia continuar a fazer aquilo que eu mais gostava, mas saiu-me do pelo. Eu acho que eu devia ter esperado mais tempo, mais pela minha sanidade mental, porque também as redes sociais tiveram um grande pulo o ano passado, que eu não estava à espera, que me rouba muito tempo.
Por acaso eu queria te perguntar, em termos de rede e rotinas, tu estás muito presente por lá. Como é que tu consegues ter espaço depois na tua vida para estar a criar uma coisa maior, que é o solo? Porque também precisas de espaço mental e de não estar nas redes a ver outras coisas, não é?
Sim. Não é fácil. A pessoa tem mesmo que dedicar tempo no calendário.
Tu sentas-te e agora é escrita e guião.
Tem que ser, porque senão, não dá. Senão começas a ser atropelada por coisas várias da vida, até coisas pessoais. Então a pessoa tem mesmo que tirar ali um tempo e tipo agora é para isto e não ter mesmo mais nada, porque senão vais estar sempre a fazer coisas, há sempre coisas para fazer, coisas para ver, coisas para escrever de outras coisas.
Mas ajuda ter tempos definidos de: "Ok, tenho que te entregar até este dia, porque o solo vai acontecer nestas datas."
Tem que ser, senão não dá. Mas o meu tem que ser às tantas é, estou no dia do espetáculo a definir a estrutura ali, porque ainda não consegui. Mas não tem como. Chegas uma altura que não tem como, eu tenho mesmo que parar todo o resto e dizer que não a mil coisas, porque o meu espetáculo está aí a chegar e eu não consegui preparar nada e começas a entrar naquele modo ansiedade quando é tipo: "Ai, meu Deus, tenho que acabar isto tudo." Mas é tirar tempo, tem que ser.
E tu vais construindo essa tua confiança de "ok, meu texto agora está bom." Ao longo do tempo, sentes que estás muito a autossabotar e será que isto não está bom o suficiente. É assim muito difícil de gerir ou foste aprendendo ao longo do tempo?
Eu acho que me vou sabotando mais até neste, no primeiro, como é o primeiro, tu não, sei lá, parece quando a pessoa começa, mesmo nisso das redes ou em qualquer arte, tu não te pões tantas amarras. Depois passado uns anos já te começas se calhar-
Agora tem que ser melhor que o outro.
Sim, tem que ser melhor que o outro e se calhar já sabes mais. É um bocado como os músicos, sei lá, o primeiro álbum estás livre, estás a começar, tens o sonho de ficar conhecido e tal. E de repente estás no estrelato, mas tu quando criaste não tinhas essa pressão de ter uma comunidade enorme em cima. E agora tenho mais essa pressão, mas sei lá, é terapia, estou no psicólogo também já há vários anos e isso também me ajuda. Houve alturas que o meu psicólogo disse: "Tinha atuações de teste, Mónica, se não conseguir escrever coisas novas, leva o que sabe dos outros." E surgir, surgiu Uma vez quando ele me disse isso foi quando me correu melhor e eu consegui escrever coisas novas e testei tudo novo, porque ele ajudou-me a aliviar a pressão. Às vezes a terapia é importante também, sermos acompanhados.
Sim, para perceberes que se calhar és tu que estás a criar entraves na tua cabeça que nem faz sentido.
Sim, sem dúvida.
Estavas a falar da ansiedade que sentiste quando deste o salto, que outras dificuldades é que sentiste quando te despediste e isto passou a ser o teu trabalho?
Eu acho que é muito essa pressão, porque eu já tinha um pé de meia, portanto financeiramente estava estável. E depois é também essa pressão de será que isto vai continuar a correr bem? A pressão de ter que também criar mais coisas, ou seja, já que a minha profissão tem que criar, tem que se calhar planear mais. Eu tenho picos, eu não consigo ser aquela influenciadora que está sempre a criar, está sempre nas redes. Eu tenho picos que às vezes estou a publicar imenso, outras vezes estou uma semana que não aparece nenhum reels no meu perfil.
Mas isso tem a ver com como tu te estás a sentir ou mesmo fases em que precisas de-
É, como eu me estou a sentir. Lá está, é aquela coisa, se forçar mais, caga. Eu não vou forçar, se não está a sair nada, não vou forçar conteúdo, porque senão é meio vazio.
Imagina que estás a ter um dia mesmo mau e tens um show.
Já me aconteceu, o de Leiria, este aqui que até me correu superbem. Eu estava mesmo em baixo, estava drenada, estava sem energia, estava a chover imenso. Antes de sair de casa, eu disse ao Alexandre: "Olha, se eu tiver um acidente de carro, ainda bem." Eu estava mesmo-
Credo.
O Alexandre: "Não digas isso." E eu assim: "Não, é sério, olha, se eu me espetar em algo." Eu estava mesmo, esquece. Mandei vir pizzas, mandei vir cervejas. Não estava a conseguir pensar no meu texto, não estava a conseguir pensar na estrutura. Às tantas aquilo me deu uma coisa e pensei: "Bem, vou entrar em palco, fazer o melhor que sei. Se lixa, o que é." E foi superbom. E eu fiquei: "Ah, nem acredito." Eu estava mesmo-
Entraste em palco e o chip muda.
Muda logo. Gravaram um vídeo, eu bué: "Como é que é, Leiria?" Parece que estou bem, estava na merda, mas ficou assim. Por eu estar tão na merda, aquilo foi bué-
Sem pressão.
Sem pressão, estamos aqui para rir da merda da vida. Eu acho que já tinha entregado a minha vida a Deus. Se tiver um acidente de carro, tenho. O que é que quero dizer? Se correr mal, para quem não se importava ter um acidente de carro, se correr mal, então.
Ai, meu Deus.
Que horror. Não, eu estou na terapia, não se preocupem.
Desvanares.
Não, é aquela coisa de fuga. Claramente que eu não quero ter um acidente de carro, mas é aquela coisa de fuga, de não aturares uma coisa que não queres, não quereres ir fazer um espetáculo quando te sentes uma merda. É aquelas coisas, agora levar com um tijolo em cima.
Eu ouvi-te dizer que tu sempre foste uma miúda tímida.
Sim.
Muito caladinha, muito reservada. Eu acho que há muita gente assim que depois acaba por ir para a comunicação. Por que achas que isto acontece?
Talvez é uma forma de podermos exteriorizar o outro lado, eu sinto. Imagina, eu sou tímida, mas quando ganho confiança, tenho um lado muito mais comunicativo. Houve um dia que eu fui a uma entrevista, não sei onde, e estava lá uma cantora, cantava imenso, mas quando ela começava a falar era bem envergonhada. E ela dizia que cantar era a forma de se expressar. E eu assim: "Ai, meu Deus, parecem duas pessoas diferentes." E há imensa gente que me diz isso também, a senhora do café. "Ai, te via na internet. Ai, é tão diferente aqui é tão caladinha." Você também queria que eu te disse que é um pão, é o leite com chocolate. Também é diferente. E eu sou uma pessoa totalmente diferente com a família do meu marido, uma pessoa totalmente diferente quando estou com os meus amigos, quando estou no supermercado, quando estou no trabalho, tenho uma persona diferente.
Mas achas que em palco ainda é mais diferente?
Em palco sou eu no registo avacalho possível, como se estivesse a falar com amigos meus. Sim.
Ainda sentes medo de subir a palco, ou não?
Não, eu acho que tenho qualquer coisa que me impede de sentir nervos. Eu não sinto nada, fico mesmo assim-
Apática.
Apática. E só quando acaba, nas primeiras atuações, desce-me tudo, fico com uma megador de cabeça. Depois nas outras não sinto nervoso e já só me estou a divertir, porque já estou a repetir o texto que sei que resulta. Portanto, agora depois de Leiria eu sinto que ainda vou estar mais chill, porque é tipo, ok, este formato resultou, agora é só replicar e divertir-me.
Tu tens o texto todo decorado na tua cabeça?
Não. Eu não decoro. Sei os tópicos, as histórias, estão lá os tópicos.
E tens tipo um papelzinho.
Um papel. Sim. Tens aí temas. Imagina, pai cego.
E tu já sabes o que é.
É isso. E às vezes esqueço-me de coisas. Houve uma vez que tinha o meu marido lá atrás no público, com o telefone assim, com uma coisa escrita, e eu: "Bolo?" E eu: "Ah, pois é, esqueci-me do bolo." Porque conta a história do bolo. E então, já estava quase no fim, que tinha a ver com Betos, mas encaixei lá a história. Aquilo às vezes vai dando assim umas voltas. Até o Tiago, que é o meu amigo que abre o meu espetáculo, ele diz que gosta de ver porque nenhum espetáculo é igual. Apesar dos temas estarem lá, tu às vezes avacalhas mais aquele tema e sai-te cenas nada a ver.
Se calhar também tens de ler a audiência, perceber o que é que gosta mais.
Sim, às vezes estou a rir mais e começa a puxar por ti. Quando estás a ser engraçadinho e estás a ver que as pessoas gostam, parece que andas mais parvo e começas a ir por aí acima. Mas não, eu não tenho tudo decorado à letra. Esse meu amigo já foi ver um espetáculo do Cinel, foi ver dois e diz literalmente as pausas, onde ele faz a pausa. Não sei se foi Cinel ou Guilherme Duarte, já não sei.
Está tudo treinadinho, tudo decorado.
Está tudo ali, aquilo é assim e também faz parte, mas o meu processo criativo também é um bocado mais all over, não é tão tipo escrever palavra por palavra.
Sim, é isso. Também depende de cada um, da personalidade de cada um. Se calhar ele ficaria mais nervoso por não ter o texto decorado.
Sem dúvida.
Se calhar até teria muito mais brancas e não ia conseguir.
Sim, e às vezes é um humor mais curto, em que tens mesmo que fechar daquela forma e dizer daquela forma. Quando é storytelling vivo também um bocadinho mais Deste lado mais livre.
Então é que começaste a fazer desporto há pouco tempo.
É verdade. Quem me vê, quem me vê.
Eu estava a ouvir o podcast com a Nur. Tu foste a uma caminhada.
Foi, foi essa.
Eu estava a ouvir o podcast e eu: "A primeira vez que ela foi à caminhada foi-
Pois foi. Sim.
Foi em Sintra, foi no início do ano passado.
Sim, que nós nos cruzamos aí, pois foi, que giro.
Que eu nunca tinha feito uma caminhada na minha vida, deste gênero, assim montanha. E foi supergiro, porque foi com a Nur à volta também muito de desporto e mindset e início de ano. E foi a partir daí que tu começaste. Depois foste para as corridas também.
Também, socorro! Mas sim, às vezes é aquela coisa, como é que se começa? Começando. E literalmente eu comecei, eu aumentei 20 quilos na gravidez, depois já me faltava perder seis, mas não estava a sair dali. Fui acompanhada por um nutricionista, mas faltava a meia parte do desporto. Mas como é que se começa? Eu não queria ir ao ginásio, pensei: "Olha, vou a esta caminhada da Nur." Depois desta caminhada com ela, comecei a ir fazer caminhadas com as minhas amigas todos os fins de semana. E depois entrei no Muay Thai, e o Muay Thai é muito cardio e corríamos na praia, o que eu adorava, corríamos na praia antes do treino, depois tínhamos o treino, são duas horas, é muito intenso.
Mas ainda continuas.
Sim, ainda continuo. E depois também fui fazer uma corrida com a Nur de 10 km, eu tipo: "Não, não podes parar." E até fiz, sobrevivi.
Essa foi a primeira corrida que fizeste?
De 10 K, sim, foi logo pumba, 10 K.
Meu Deus!
E depois fiz outra com ela, 10 K, também de manhã, às 06h00. E depois pensei: "Olha, vou tentar fazer 10 K sozinha." E depois estava a correr, eu tipo aos três quilômetros: "Ai, não, vou parar aqui porque ninguém sabe que eu vim tentar 10 K, nem pus nos stories, portanto vou parar." E é interessante como a cabeça te sabota. E eu gostei muito dessa sensação de ouvir o meu lado que me sabota, aquela voz de merda, literalmente, que está sempre ali. "Para, para, ai, já estás cansada, não sei o quê." Então, às vezes, é só mesmo para batalhar contra mim mesma.
Mas custou mais sozinha?
Custou mais, sim, porque estou eu e a minha cabeça.
Mas o que é que soube melhor quando acabaste sozinha?
A mim, sozinha, porque senti: "Eu consigo." Não foi porque quis desistir na corrida da Nur para não parecer mal ou estou aqui com a Nur, não vou desistir para não parecer mal. Foi eu sozinha, consegui perceber que eu consigo correr e consigo acabar até ao fim. E fui forte e fiquei superorgulhosa.
É mesmo um trabalho mental.
Super. Mais mental que físico. Claro que tem o físico, mas é muito mental. No dia 30 de dezembro e 31, decidi ir correr. Fiz 10 km com o meu cunhado em Espanha, foi supertranquilo. No dia a seguir, fui fazer cinco com a minha cunhada, porque ela tinha acabado de ser mãe há um mês. Bem, esses cinco pareciam 10 km. Um quilômetro, eu pensei: "Nunca mais um quilômetro, nunca mais dois." Parece que a tua cabeça mete o limite do limite que tu metes. Depois eu para a minha cabeça: "Ai, agora vais correr 10", que era para ver se me enganava a mim mesma. Bem, foram os quilômetros mais penosos, aqueles cinco, os mais penosos da minha vida. A cabeça é mesmo...
Sim, depois estás ali, se definiste 1000 km, estás ao quarto a pensar: "Fogo, nunca mais acaba." Mas se estivesse a fazer 10, o quarto ainda estavas fresca.
Mesmo. A cabeça é uma coisa, é muito complicado.
E tu sentiste mudança, para além da parte física, sentiste mudança em ti, sei lá, de energia, de trabalho?
Sim, sentia. Estava numa altura que sentia muita ansiedade antes de começar a treinar, nos picos quando antes de menstruar, uma semana antes, sentia que ficava mesmo desregulada, ficava mesmo, haviam coisas que me passavam que eu ficava mesmo: "O que está a passar comigo?" Até fiz análises mesmo para perceber se estava alguma coisa desregulada, porque eu sentia mesmo que estava. Eu passava, não é só eu, qualquer um passava, mas se tivesse para atirar esta mesa, eu atirava. E com o desporto, não, senti que fiquei muito mais controlada, mais equilibrada, e sem dúvida que faz toda a diferença para a saúde mental nós sermos ativos, completamente.
Tu tens alguns hábitos que para ti sejam inegociáveis neste momento, para além do desporto? Desde a terapia.
Sim, terapia, sem dúvida. Tentar sempre ir ao Muay Thai, o desporto, pelo menos isso, as aulas de Muay Thai, porque temos a parte de ir à praia ou andar de bicicleta ou correr. E eu acho que para mim isso é essencial, ver o mar, ter esse momento de fora de casa, não estar sempre ali fechada, olhar para tentar criar, eu acho que isso é o mais importante.
Tu trabalhas muito em casa, não é? Sempre.
Sim. Eu tento sempre, eu sei que faço o journaling, eu tento, mas eu não consigo, o meu dia começa, eu já tenho uma agenda, que eu já estive lá a meter as coisas que eu tenho que melhorar, mas não estou a conseguir ir lá todos os dias, que é uma coisa que eu também gostava de mudar, era escrever mais, mandar cá para fora e conseguir me organizar.
Sim, mas não é uma ferramenta que tem resultado com toda a gente.
Mas eu gosto. Quando eu lá vou, eu sinto-
Então força, no início força.
É isso, mas é aos poucos, porque às tantas, lá está, não dá para ir a todo lado. Não sei se não sentes isso, parece que temos pressão de sermos, não é bons em tudo, mas conseguirmos ter hábitos disto e daquilo.
Rotina perfeita.
Sim, então eu também às vezes tenho que aprender a tipo: "Calma, tu és mãe, já estás a fazer bué. Calma contigo."
Sim, eu acho que tens de ter aqueles que para ti são os mais importantes, por exemplo, o desporto, e tentar manter esse que sabes que te faz bem. O resto que venha por acréscimo, ótimo, mas não tem que ser tudo perfeito.
Ah, e o incenso. Eu ponho sempre incenso. Não sei porquê, sinto que, agora lembrando, que eu tenho bem esse hábito. Aquilo diz que mata bicheza, diz que é o mau-olhado, diz que é o não sei o quê. Eu às vezes vou lá: "Hoje o que é que me apetece? Hoje estou a sentir mais inveja. Olha, vou parar." Depois tenho logo uma selenite, eu agarro assim a selenite, faço assim. Não sei o que é isso. Acho que é selenite, é uma cena branca, é aquelas pedras. Estou a escrever o guião, estou a agarrar uma pedra que ela diz que desbloqueia, eu agarro uma pedra. Não sei se resulta, mas faço bué incensos e pedras.
É o que resultar para ti.
Podia ser uma pedra da calçada, se achas que aquilo me dá energia, eu agarrava e achava que aquilo resultava.
Só em relação ao desporto, imagina que está alguém a ouvir o episódio e que quer começar por algum lado, já que o teu também começo foi recente. O que é que tu dirias? Porque muitas vezes as pessoas dizem: "Eu quero começar a correr, não sei por onde ou quero começar a mexer-me."
Uma coisa que me disseram para começar a correr era, sem dúvida, primeiro fortalecer, ir ao ginásio, mas se nem estás com aquela coisa de ir ao ginásio, é começar pelas caminhadas. Às vezes são coisas simples. Eu comecei pelas caminhadas e aos poucos tu estás a envolver mais. É tipo uma bola de neve de coisas positivas, da mesma forma que depois pode ser uma bola de neve de desleixo para trás, que às vezes eu senti isso. Imagina, estou a treinar todos os dias, depois deixo de treinar, depois dou por mim e já não treinei em dezembro, depois cada vez estou mais para trás, depois nem caminhar.
É, porque pensamos: "Já falhei, vou continuar a falhar e está tudo bem."
É passo a passo, mas para a frente. É tipo, okay, caminha uma vez por semana só, e depois vais passar a duas. Começa pequeno e não te preocupar já: "Ai, quero ir treinar três vezes por semana." Não, vai e começa pequeno.
E vais começar a sentir os benefícios, vais começar a querer mais.
Sim. E dá-te ânimo, porque eu percebo, porque estamos desmotivados, estamos sem energia, comemos mal. É difícil tu conseguires ter essa energia e esse foco ao início, é impossível. Tens mesmo que te ir desintoxicando aos poucos.
Sim, sem querer tudo de uma vez. Acho que isso é uma questão.
Diz isto a Mónica Vale Gato.
Mas conseguiste bater.
É verdade. Sigam para mais dicas.
Estamos a chegar ao fim. Só queria perguntar-te sobre o teu novo show, Próxima Paragem. Se ainda tens bilhetes, como é que isso está?
Estão dois em Lisboa, que são aqueles lá atrás que ninguém quer. Se alguém quiser, não sei se vai chegar a tempo, mas Almada ainda tem. Tem alguns na sessão das 18:00 e mais a sessão das 21:00, que diz muito o meu público, é um público cansado. Malta dos 20, vão à das 21:00, que eu sei que vocês ainda têm energia. E Porto, o Porto está a custar bastante, porque acho que são mais linhetas. Não está a correr tão bem.
Não está a correr tão bem?
Acho que são mais linhetas ainda. Pessoas do Porto, apareçam. Vai ser no Teatro Sá da Bandeira.
Quando é que começa?
Março. Em março. Fevereiro vai ser Almada e fecho depois em abril, Lisboa. Ainda não sei se vou abrir mais em Lisboa ou não. Tenho que ver.
Mas está mesmo quase.
Está mesmo quase.
Estás nervosa?
Não, começou com Leiria, arrancou esgotado, já estou tranquila agora. Agora faz-se bem.
Olha, eu comprei para o Porto.
São os poucos, mas bons.
Eu vou estar lá.
Boa.
Obrigada, Mónica. Gostei muito de te ter aqui. Espero que corra muito bem, que vai correr de certeza, que seja só o segundo de muitos.
Sim.
E que continues a ir às corridas. Uma meia maratona agora, a próxima.
Vamos correr, se calhar vamos correr.
Podíamos combinar.
Sim, bora.
Começamos pelas caminhadas, agora vamos às corridas juntas. Obrigada, gostei muito de te ter aqui.
Obrigada.
Não é fácil, eu sei, mas amiga, faz parte. Encontramo-nos domingo à hora do costume?