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O que te faz levantar da cama de manhã para ir trabalhar? Num dia que não te apetece, qual é o critério que mais pesa para ti? Na motivação, o que tu dirias à primeira vista que as pessoas iam votar mais?
O dinheiro.
Eu achei que ia ser dinheiro. Não.
Qual era?
Muito mais ambiente saudável, ambiente de trabalho saudável.
Pois é, mas eu acho que as pessoas estão muito-
As pessoas estão a mudar. Eu senti muito isso, que está toda a gente muito mais virada para: "Eu trabalho tantas horas, eu tenho de estar bem onde eu estou a trabalhar."
E há muita gente que não gosta daquilo que faz. E quando tu não gostas daquilo que fazes, das tarefas, as pessoas que estão à tua volta são muito importantes para tu te sentires bem.
E sabes o que eu também reparei? É que, e isto também deves concordar, que nós, as duas, estamos numa bolha, há pessoas à nossa volta também, muito bolha de privilégio, de poder pensar em propósito ser um dos motivos.
Pois é.
Significa que tudo o resto para nós está-
Garantido.
É o salário, é o ambiente bom, é tudo o resto, o equilíbrio. Por isso é que nós podemos passar para o propósito.
As opiniões dos outros sobre alguma decisão que tu faças profissional, tem muito a ver com essas necessidades e com se calhar não estarem no mesmo ponto de privilégio que tu estás. Tu estás num emprego que detestas, choras todos os dias, mas recebes superbem. Qual vai ser a opinião de muita gente, principalmente de pessoas mais velhas a dizerem: "Estás a chorar, tu ganhas isso, não sei o quê. Aguenta mais um bocado."
Hoje em dia, a nossa geração e as gerações mais novas valorizam muito o trabalho remoto, o trabalho híbrido, como condição quando vão para um novo emprego, porque valorizamos o bem-estar e pomos o bem-estar no centro, o equilíbrio na nossa vida, estarmos bem ou não perdermos horas no trânsito, etc. E as gerações mais velhas têm muita tendência a olhar para isso como comodismo, não gostam de trabalhar, são preguiçosos. E eu mostrei um bocadinho este ponto de que acho que simplesmente as coisas estão a mudar e nós estamos a acordar.
Eu acho isto um problema que não é muito falado, que é: há certo tipo de serviços que tu tens que tirar um dia de férias para poder fazer.
Que é só em horário laboral.
Como é que tu vais à Segurança Social se tu precisares? Há tantos serviços que uma pessoa que trabalha das 09:00 às 17:00 tem que tirar um dia de férias para ir, porque não está aberto ao fim de semana.
Imagina, acaba por te facilitar muito a tua vida se tu tiveres dois dias em casa e na hora de almoço puderes lavar roupa, arrumar minimamente a casa, também facilita imenso. E era uma coisa que me diziam muito assim: "Já não perco um dia de fim de semana a fazer isso." E não significa que está a fazer menos, não, só simplesmente a hora de almoço.
Ou a hora inicial antes do trabalho que passas no trânsito e a hora de final também.
É isso, acabas por poupar três horas do teu dia que consegues fazer outras coisas. Eu acho que é muito ainda mentalidades retrógradas, que acham que as pessoas que ficam em casa não trabalham e que gostam de estar sempre a controlar.
Eu sentia que eu vivia à espera do fim de semana. Eu nunca tinha sentido isso na minha vida e foi assustador.
Um estudo recente mostra que 56% dos empregados entre 18 e 24 anos afirmam que considerariam largar um trabalho se este não contribuísse para a sua felicidade. Achas que isto é too much? Não é fácil, eu sei, mas amiga, faz parte. Encontramo-nos domingo à hora do costume? Olha, minha Rosa, eu acho que estas últimas duas semanas e este mês, tenho tido muito trabalho, mas trabalho muito alinhado com aquilo que eu quero fazer no futuro. Por exemplo, o fim de semana que tive agora, que vamos falar um bocadinho neste episódio, com a Comissão Europeia, sinto que está muito alinhado com aquilo que eu comunico, com aquilo que eu quero fazer, portanto, tenho tido muito trabalho. Ponto negativo e o meu espinho, é que eu não tenho tido tempo para a minha rotina e está a mexer bué comigo. Eu esta semana não consegui treinar praticamente, tive dificuldade em conseguir arranjar tempo para correr, por exemplo, estes últimos três dias e vou ter a meia maratona e acho que este é o meu espinho. Imagina, leitura, comprometemo-nos e eu tinha dois livros para ler, Inês, não li nada. Nada. É que nem sequer abri um livro estas últimas duas semanas. E para mim é uma coisa que eu gosto de ter as minhas rotinas organizadinhas. Só que ir a Lisboa, tantos projetos, tanta coisa a acontecer. E eu estava ontem a falar com a minha mãe, ela estava a perguntar: "Quando é que consegues vir a casa?" Eu as últimas duas semanas praticamente não fui a casa, não tive tempo, não consegui.
E estás a meia hora de casa dos teus pais.
E estou a meia hora de casa dos meus pais. E eu disse-lhe: "Não, isto é uma fase." Ela: "Mariana, é sempre uma fase."
É o sprint, mas ela acaba.
Mas eu estou num sprint agora, efetivamente. E é bom porque o sprint está a acontecer em coisas que eu gosto e estou motivada com o podcast, estou motivada com os conteúdos e isto é bom.
Eu também acho, até porque tu consegues não te culpabilizar a ti, ou seja, tu percebes que é um ritmo que está a acontecer pelo trabalho que tu tiveste antes e isso são coisas que te fazem estar assim, não uma decisão tua de "não me apetece ir treinar e eu não vou" e ficas te a sentir culpada.
Mas eu sinto-me culpada na mesma, porque eu sei o quanto eu preciso. E eu ao fim desta semana, foi uma semana inteira que eu fui muito pouco ao ginásio, corri uma ou duas vezes, foi muito pouquinho comparando com aquilo que eu costumo fazer e culpo-me, porque eu sei que isto vai afetar a minha performance no futuro da minha meia maratona. É porque eu também, para além de todos os objetivos profissionais que tenho, também tenho objetivos nestes meus mini desafios. Então sinto que tenho de arranjar um equilíbrio melhor e, portanto, a minha semente vai partir um bocadinho por aí, de se calhar passar a treinar mais cedo, de manhã, tentar ajustar e ter uma rotina mais consciente de que está muita coisa a acontecer boa, positiva na tua vida a nível de trabalho, mas tens de conseguir fazer tudo, arranjar uma forma de conseguir ajustar. Não é fazer tudo, é conseguir ajustar a agenda.
Eu acho que o planeamento, neste tipo de casos, e eu sinto também muito isso, e a minha rosa, semente e espinho, é mesmo parecida contigo, pelo facto de eu sentir que Estão coisas boas a acontecer, mas se nós não conseguirmos ter este planeamento e esta tranquilidade de saber que as coisas estão sob o nosso controle, nós não conseguimos usufruir tanto das coisas boas que estão a acontecer. Eu pelo menos sinto isso.
Sim, há "non-negotiables" que têm de acontecer na minha vida para eu estar bem e feliz para conseguir aproveitar o resto.
Porque se calhar até estás num projeto profissional que tu adoras e está a correr super bem e estás feliz, mas-
Mas que na minha mãe não estou a treinar, não estou a correr. Porque imagina, estive estes últimos três dias, e é uma coisa que vamos falar agora aqui também no episódio, estive estes três dias com a Comissão Europeia em Braga num evento e foram três dias em que eu saí de casa às 08h30 e cheguei a casa às 20h30. E eu tentei e um dos dias defini comigo: "Vou correr de manhã". Pus o despertador era tipo 05h50. Achas que eu consegui? Eu estava de rastos.
Não.
Não consegui. Mas achas que me culpei? Claro que sim.
E se calhar quando estavas lá na Comissão Europeia, voltei meia, terceira.
Só pensava: "Eu não corri". E é isto.
É a bola de neve.
É isso. Portanto, eu não quero deixar que a bola continue a rolar e a crescer e a minha semente vai ser mesmo... Porque imagina, eu sinto que vivi um ano inteiro em que a minha prioridade número um na agenda era treinar, era fazer o exercício físico, isso aparecia sempre antes de qualquer coisa. E agora nesta fase, como já estou mais equilibrada, já estou tipo: "Ok, se calhar posso priorizar o trabalho também." Eu não quero é que as coisas tentem estar assim ao mesmo nível. Não quero que agora seja um, de repente, o trabalho está a ser prioridade acima de tudo e deixo o resto de fora. Portanto, voltar ao equilíbrio, acho que é a minha semente.
A minha questão também tem sido um bocadinho essa, o meu espinho também vai de encontro a isso, que é: sinto que tive um processo grande para não ser tão extremamente focada no trabalho, ter tempo para os meus amigos e para a minha família, que era uma coisa que eu não tinha. E o que me está a acontecer, e é o meu espinho, é: estou com muito trabalho, estou na mesma a priorizar o meu tempo de lazer, todas as semanas estou a ter momentos sociais, estou a ir estar com as minhas amigas, a fazer coisas que eu gosto, mas o que acontece é que o meu tempo de descanso vai para baixo, treinos não estão a acontecer. Pequenas coisas tão simples como ter o meu quarto organizado, as minhas coisas organizadas, planeamento para pequenas tarefas.
Sim, casa arrumada e limpa. Falha.
Até alimentação, eu cozinhar e ter esses momentos só comigo. Eu não estou a ter momentos só comigo, porque como a parte social de família e amigos estava no lodo, foi do gênero: "Tenho que melhorar."
É isso, na área que nós pomos mais esforço, depois acaba por sobrar o resto, até chegar ao equilíbrio, é preciso calma.
Tenho que subir o pólio agora.
Não desces tanto. Arranjei um ponto no meio.
Sim, e depois são as coisas pequeninas. As coisas pequeninas são bem importantes e eu tenho que as voltar a priorizar e eu não estou a conseguir fazer isso. Então o meu espinho é esse e a minha semente é continuar a batalhar para encontrar esse equilíbrio e dar prioridade também a estas pequenas tarefas como limpar a casa, ir treinar, ter momentos só para mim, fazer sei lá.
São bem importantes, não é assim tão pequeno.
Não é não.
É bem importante. Só que muitas vezes acabamos por descurar porque achamos que não é prioridade neste momento. É sempre prioridade, tem que ser sempre prioridade. E olha, um dos tópicos que vamos também explorar muito aqui hoje vai ser, portanto, isto vai ser um episódio surpresa para ti, Inês, não fazes ideia do que é que estamos aqui a falar. Por quê? Porque eu não tive tempo de ler e não tive tempo de preparar um episódio sobre finanças. Eu quero muito fazer, talvez seja o próximo, porque nos comprometemos a isso e acho que é importante e quero muito fazer um episódio sobre isso, mas eu não consegui. E eu queria também ter tempo para estruturar um bom episódio sobre isso e não consegui, porque semana caótica, muita coisa a acontecer. Então o que eu pensei? Vamos fazer um episódio a falar dos temas que eu estive a falar este fim de semana, que tive três dias no Green Fest com a Comissão Europeia, em que basicamente estivemos a falar muito dos direitos laborais e direitos sociais. Só que de forma muito simples, estivemos a descomplicar e a fazer perguntas, basicamente a toda a gente que lá aparecia. Apareceu de todo o tipo de pessoas, desde crianças até adultos, sobre equilíbrio entre vida pessoal e profissional, sobre o que é um emprego de qualidade, o que é que valorizas no trabalho. E sobre também muito à volta da inteligência artificial, o impacto desta evolução, desta geração digital que está a crescer. E eu estava basicamente a coordenar um baloiço que tinha lá no meio. E as pessoas sentavam-se, cada uma numa ponta e sentavam-se lá crianças, sentavam-se adultos. E eu ia fazendo perguntas. E as pessoas até sentiam que eu era meio que psicóloga. Quando sentavam lá, as pessoas abriam-se e começavam, havia pessoas que ficaram lá tipo uma hora e meia sentadas no baloiço, não estou a gozar. Só a falar sobre a vida.
E o teu papel era conversar com elas sobre esses temas.
E depois eu podia simplesmente entrar na área que eu queria, fazer as perguntas que eu quisesse, eu estava quase a moderar uma conversa de podcast. E foi superinteressante, porque nas crianças eu explorava: "Mas tu estás a usar inteligência artificial, não estás? O que é que achas?"
Já existe esse conceito nas crianças, elas sabem o que é?
Vamos falar disso mais à frente. Ou seja, estruturar isso mais por ordem de temas. Mas foi essencialmente isto, foi fazer conversa com as pessoas. Fiz imensas perguntas sobre gerações, o que é que os mais velhos acham sobre as gerações Mais novas, sobre a visão que nós temos sobre o trabalho. E isto também tinha atrás de mim um quadro enorme com umas perguntas, que eu queria começar por aqui, porque eu basicamente vou te mostrar e vou tentar pôr no YouTube uma foto deste quadro e das perguntas que tinha lá, porque assim podíamos responder nós e seguia como mote para esta conversa. Basicamente, era assim um quadro que neste momento tem algumas respostas que dá para ver mais ou menos a tendência das pessoas também. A ideia era essa, era nós também conseguirmos perceber como é que as pessoas estão a pensar. Então a primeira pergunta, que eu também ainda não respondi, portanto giro para mim: de que competências necessitas para o futuro? Ou seja, nós também estávamos a perceber se hoje em dia pudesse aprender qualquer coisa na tua vida, o que é que achas que te ia ajudar mais a tu seres mais bem-sucedida no trabalho e fora dele também? Portanto, a nível de opções era as competências digitais, aprender mais sobre inteligência artificial, programação, essas coisas, ou whatever, no mundo digital. Competências profissionais e técnicas, alguma coisa especializada que tu gostasses de aprender. Competências criativas, portanto, aprenderes mais sobre a tua criatividade, competências sociais, relação entre pessoas ou pensamento crítico. Portanto, se neste momento pudesses escolher uma coisa para tu aprenderes na tua vida, o que é que achas que te ia ajudar mais a tu teres um melhor futuro?
Deixa-me ver as opções outra vez.
Pronto, eu posso ir respondendo, porque eu estive a pensar sobre isto e obviamente que estamos todos a aprender em várias áreas, mas eu acho que neste momento aquilo que eu aprenderia mais seria profissionais e técnicas, porque eu sei como é que sou e quero lançar negócios e acho que aquilo que me faz mais falta são parte técnica de, por exemplo, mais gestão, coisas mais específicas de negócio, de lançar um negócio, de escalar um negócio, de construir um negócio bem cimentado a partir do dia um. Eu acho que iria por aí, porque todas as outras áreas acho que tenho vindo a desenvolver no meu último ano. E acho que aquela é a única que se calhar está a falhar mais para aquilo que eu quero para o futuro. Portanto, pensando nos projetos que eu idealizo para o meu futuro.
Eu também sinto um bocadinho que a minha resposta pode ser semelhante, não tanto se calhar nessa vertente, mas mais descartando as restantes. Ou seja, por exemplo, eu sinto que as minhas competências criativas são boas, eu trabalho muito todos os dias, mas depois sinto que é muito importante esta parte profissional e técnica para colocares em prática algumas coisas relacionadas com esta vertente criativa. Ou seja, as competências digitais também. Eu tenho uma ideia criativa e consigo.
Eu acho que digital eu também tenho muito a trabalhar, e temos todos.
Sim, porque está tudo a evoluir.
Sim. Pela velocidade com que isto evolui, exatamente.
E sabes uma coisa que eu gosto muito sobre isto das competências digitais, de todas estas competências, principalmente as digitais, as profissionais e técnicas e as criativas, é que o elo fulcral para tu as trabalhares é tu seres uma pessoa curiosa. E eu gosto muito disso.
Sim, eu acho que quando as pessoas olham para competências profissionais e técnicas, pensam sempre em tirar outro curso ou uma licenciatura, uma pós-graduação. Não é isso, não é no papel. É tu quereres fazer minicursozinhos, mini formações, aprender sobre um tema específico.
Sim, sem dúvida.
Acho que é muito mais por aí.
Giro pensar sobre isso.
Não é? Depois, o que te motiva no trabalho? Portanto, esta pergunta é muito: o que te faz levantar da cama de manhã para ir trabalhar? Num dia que não te apetece, qual é o critério que mais pesa para ti? Portanto, temos um ambiente de trabalho saudável, o salário, remuneração e benefícios, temos o equilíbrio entre a vida pessoal e profissional, a estabilidade no emprego, oportunidades de formação e crescimento, portanto, projeção de carreira ou propósito e impacto. O que é que para ti te faz levantar da cama de manhã?
Olha, durante muitos anos o propósito e impacto era a única, era o mais importante de tudo. Hoje em dia, pelos investimentos e despesas que eu tenho, pelo fato de eu ter a minha própria empresa, a parte financeira também é muito importante.
A sério?
Sim, mesmo. E isto é curioso. Eu às vezes sinto uma coisa que eu nunca tinha sentido antes, que é a predisposição e a vontade para fazer mais um ou outro projeto, consoante também a parte financeira.
Sim, mas isso faz muito sentido. Mas dirias que é isso que te faz levantar da cama para querer continuar a trabalhar?
Não, a parte do impacto é mais importante, o propósito e impacto. Mas eu comecei a sentir a parte financeira como algo importante.
Sim, para mim, e já falamos disto antes, eu também sou bué money oriented. Acho que a parte financeira tem muito peso, mas eu nunca diria que fosse aquilo que me motiva para trabalhar.
Isto também não é o que me motiva para trabalhar. Eu só quis trazer aqui para cima da mesa por ter sido um shift na minha vida e que eu acho que também é importante eu também assumir isso para comigo própria.
Mas olha, se eu pensar, por exemplo, neste momento, na minha vida, como eu trabalho é o digital. Se eu puser agora outro negócio em cima, eu vou perder, por exemplo, o equilíbrio que eu tenho neste momento entre vida pessoal e profissional.
Ok.
E este equilíbrio para mim é um ponto positivo da vida que eu tenho agora, hoje, do trabalho que eu faço hoje. Pensando no futuro, eu gosto muito de empreendedorismo, quero fazer mais, sinto que preciso disso, tenho fome para isso. Agora, sinto que estou numa fase em que o equilíbrio me está a pesar imenso. Portanto, o propósito, sem dúvida, porque acho que tudo aquilo que eu estou a fazer aqui também quero que tenha impacto e que ajude outras pessoas que estão a ouvir e que estão a consumir o conteúdo. Mas o equilíbrio também é um ponto, nesta fase da minha vida, que me pesa.
E essa vontade por ter equilíbrio pode te Não fazer avançar com algumas coisas, porque queres preservar o equilíbrio?
Sim, 100%. É por isso que eu ainda não avancei para nada. Estou há um ano sem projeto, sem a marca. Portanto, também estou a deixar estar, mas o que está a pesar neste momento é o equilíbrio. E por acaso, a última pergunta também é: qual é o teu equilíbrio entre vida pessoal e profissional? E é basicamente uma escala entre é um caos, é difícil, é bom ou é perfeito. E ok, neste momento estava a dizer que estava num sprint e estou num sprint, mas eu acho que o meu está entre o bom e o perfeito, neste momento da minha vida.
O meu está o contrário. Já não está caos. Já esteve caos, está melhor do que o caos, mas é difícil.
Mas sabes como é que foi os resultados lá? Isto foi só no primeiro dia, mas todos eles, foi muito positivo. Eu fiquei mesmo chocada com os resultados. Na motivação, o que tu dirias à primeira vista que as pessoas iam votar mais?
Dinheiro.
Eu achei que ia ser dinheiro. Não.
Está bem. Qual era?
Muito mais ambiente saudável, ambiente de trabalho saudável.
Pois é, mas eu acho que as pessoas estão muito-
As pessoas estão a mudar. Eu senti muito isso, que está toda a gente muito mais virada para: "Eu trabalho tantas horas, eu tenho de estar bem onde eu estou a trabalhar."
Sim, isso é muito importante. Eu sinto que para nós o ambiente não pesa tanto, pelo facto de nós trabalharmos sozinhas, por conta própria, mas concordo plenamente com isso do ambiente, porque me ponho no lugar de quem trabalha num contexto de empresa, que tens uma comunidade à tua volta.
São pessoas que passas imenso tempo e vinham muito com esta história de pessoas que já tiveram experiências negativas, já tiveram chefes supertóxicos, ambientes tóxicos e que hoje em dia já não têm, então é o ponto principal que lhes vem à cabeça é estarem bem onde estão.
E há muita gente que não gosta daquilo que faz, tecnicamente. E quando tu não gostas daquilo que fazes, das tarefas, as pessoas que estão à tua volta são muito importantes, para tu te sentires bem.
Toda a gente falava muito de é como se fosse uma segunda família.
Isso é muito fixe.
E sabes o que é que eu também reparei? É que, e isto também deves concordar, que nós, as duas estamos numa bolha e há pessoas à nossa volta também, muito bolha de privilégio, de poder pensar em propósito ser um dos motivos.
Pois é.
Percebes? Porque imagina, significa que tudo o resto para nós está garantido. É o salário, é o ambiente bom, é tudo o resto, o equilíbrio, conseguimos controlar. Por isso é que nós podemos passar para o propósito.
Eu acho que é por isso, agora que falas, que eu falei sobre o dinheiro. Porque como eu agora comprei casa, sozinha, vou ter despesas maiores. Agora tenho a empresa, pago ordenados a pessoas, e eu acho que é por isso que a parte financeira subiu na lista de prioridades pelo facto dessas responsabilidades aumentarem. E é isso que tu dizes, é um privilégio nós não nos termos que preocupar. Claro que todos temos, mas quando algo falta ou algo se coloca como mais importante e como uma necessidade e como uma obrigação, mudam-se os critérios.
Quando eu me despedi e passei a trabalhar só com o digital, o meu foco número um era fazer dinheiro, porque eu precisava de pagar as contas a viver sozinha em Lisboa. Portanto, se calhar até fazia coisas que não me traziam tanto propósito, ou dos conteúdos para crescer, whatever, outras coisas, mesmo gerir redes sociais de outras pessoas ou editar conteúdos de outras pessoas que na altura nem me identificava assim tanto, se calhar já não era tanto em linha com o meu propósito, mas não tinha esse luxo de poder pensar nisso.
Sim, escolher que eu só quero...
Portanto, sim.
E isto também é muito engraçado. As opiniões dos outros sobre alguma decisão que tu faças profissional, tem muito a ver com essas necessidades e com o se calhar não estarem no mesmo ponto de privilégio que tu estás. Quantas vezes tu já não ouviste: "Olha, tu estás num emprego que detestas, choras todos os dias, mas recebes superbem." Qual vai ser a opinião de muita gente, principalmente, eu senti isso, porque já estive nessa situação, pessoas mais velhas a dizerem: "Estás a chorar, tu ganhas isso, não sei o quê. Aguenta mais um bocado."
A mim me custa quando eu me queixo, ou não me custa, não gosto de me queixar, principalmente a pessoas que não fazem aquilo que eu faço, porque acho que é first world problem.
E é. Percebo. Claro que sim.
Eu tenho o trabalho que sempre sonhei, ganho bem, estou estável.
Claro.
Tenho uma vida boa, um bom equilíbrio e estás-te a queixar?
E quando vamos ver salários médios em Portugal e a quantidade de pessoas que ganha salário mínimo em Portugal e o preço da habitação e todas essas coisas, nós sentimo-nos ridículos quando começamos a pensar, de facto.
Claro que nós não podemos estar sempre a desvalorizar os nossos sentimentos e os nossos problemas, todos temos as nossas questõezinhas, mas é isso que eu acho que pondo em perspectiva e também principalmente olhando para pessoas à minha volta, da minha geração, eu não gosto de me queixar porque acho que me estou a queixar de boca cheia.
Sim. E é giro isto, porque isto é uma amostra da população. Ou seja, estas respostas e esta resposta do ambiente saudável ser o mais importante, não é Só de pessoas num espaço físico.
Não é de todo uma bolha, porque apanhamos de tudo. E vamos fazer uma pausa no episódio de hoje para vos falar do patrocinador. Ao longo deste episódio e um bocadinho mais para a frente, vamos falar também muito da inteligência artificial, os perigos da internet, principalmente para as gerações mais novas. Mas a verdade é que nos veio facilitar muito a vida e tal como falamos aqui muito, são ferramentas que vêm para nos ajudar no nosso dia a dia. E uma delas, e que eu acabo por usar muito, é facilitar as nossas compras online. Eu ultimamente, e já há vários meses que eu não faço compras em lojas físicas, porque gosto muito mais de ter o comodismo de estar em minha casa, conseguir escolher facilmente, encomendar para casa, poder devolver, experimentar muito mais confortavelmente. E um dos sites que eu uso mais e que é agora patrocinador aqui do podcast é a About You, que é um site multimarcas, tem imensa coisa, desde Tommy Hilfiger, Adidas, Nike, para diferentes ocasiões. E eu há uns tempos tive uma fase de reestruturação do meu armário e acabei por usar muito a About You, principalmente por ter tanta variedade de marcas, de estilos, de tipos de peças. E uso muito no meu dia a dia, porque também me facilita o facto de eu poder devolver em 30 dias, experimentar, poder encomendar e estar muito mais confortável em todo este processo. Portanto, fica aqui a minha recomendação, se nunca usaram o site da About You. Tenho também um código de desconto que é AMIGA20, que dá 20% de desconto no site da About You e vou deixar também todas as informações na caixa de descrição para poderem perceber de que forma é que este desconto pode ser utilizado. Mas fica aqui a minha recomendação, se também estiverem nesta fase e quiserem procurar coisas diferentes de forma mais fácil e num site seguro, porque a internet também nos vem ajudar e acho que devemos usar e aproveitar isso também a nosso favor. Por acaso esta semana vi uma frase que apontei aqui que gostei imenso, porque muita gente também dizia: "Passamos tanto tempo a trabalhar, temos de gostar de onde estamos." E até teve uma criança que sentou lá e disse: "Eu quero trabalhar no que gosto, porque assim não vou trabalhar um único dia na minha vida." Eu: "Fofa, não é assim." Mas fofa, querida. E vi uma frase que nunca tinha visto, que é: "Job your love." Muito gira.
Sim.
Tu achas que trabalhas aquilo que tu gostas mesmo?
Acho, mas acho que existem transições. Ou seja, acho que é importante tu aceitares que não tens que amar aquilo que fazes.
Mas não tens de gostar de todas as partes do teu trabalho.
Sim, não é isso que eu estou a dizer. Eu sinto que estou numa fase de transição, em que uma coisa que eu era completamente apaixonada, começo a não ser tanto. E acho que é importante tu aprenderes que não tens que ser apaixonada só por aquela coisa para o resto da tua vida. Tu podes fazer outras coisas e ser apaixonado por outras coisas. Não tem que ser só uma coisa para sempre.
Sim, mas depois também é aquela questão de estar tanto tempo a trabalhar para que uma coisa dê certo.
Exatamente.
E depois é tipo, está a dar certo, eu não posso agora sair daqui.
Eu acho que é o tema da nossa idade agora. Aqui dos 25, 30, 35.
É que estudas tantos anos, trabalhas tantos anos para construir uma carreira, depois chegas ali a uma fase que se calhar já nem te estás a identificar com aquilo e é tipo, eu não posso saltar fora.
Sim.
Não há opção, mas há!
Pois há. Mas depois começas a sentir o que é que tu perdeste, o que é que tu estás a perder, o que é que tu podes perder.
Ya. Olha, mas sabes o que é que me pediam principalmente em termos de mudança? Era flexibilidade de horários. Quase toda a gente.
Eu não imagino a minha vida de outra forma.
É liberdade. Quase toda a gente dizia que estava num bom ambiente, que tinha até um bom equilíbrio. E o que é que querem dizer com equilíbrio? A maior parte das pessoas que lá iam trabalhavam oito horas, depois conseguiam desligar e tinham tempo para o fim de semana e conseguiam desligar 100%, portanto, tinham um bom equilíbrio na ótica deles entre vida pessoal e profissional, mas pediam depois a flexibilidade de horários. E isto fez-me pensar também na questão que eu, semana passada, fiz um post no LinkedIn sobre trabalho remoto. Gerou ali um bocadinho de polêmica.
Ok.
Porque basicamente a minha posição foi que hoje em dia a nossa geração e as gerações mais novas valorizam muito o trabalho remoto, o trabalho híbrido, como condição quando vão para um novo emprego, porque valorizamos o bem-estar e pomos o bem-estar no centro, o equilíbrio na nossa vida, estarmos bem ou não perdermos horas no trânsito, etc. E as gerações mais velhas têm muita tendência a olhar para isso como comodismo, não gostam de trabalhar, são preguiçosos. E eu mostrei um bocadinho este ponto de que acho que simplesmente as coisas estão a mudar e nós estamos a acordar e a perceber o que é que faz sentido, o que não faz sentido. Estar 30, 40 anos numa empresa, percebes? E que a realidade está a mudar. E obviamente que toda a gente da nossa geração concordou e as gerações mais velhas é que estavam um bocadinho mais contidas.
Há uma coisa que isto não tem a ver com o trabalho remoto, porque não vais desaparecer do trabalho a meio do dia e não dizer nada a ninguém, porque o trabalho remoto também não é isso. Eu também acho uma coisa que é, o trabalho remoto é sobre flexibilidade no sentido de estar em casa, não perdes tempo no trânsito e tudo mais, mas também eu sinto que há pessoas que também usam o trabalho remoto de uma forma errada.
Mas também há muita gente que diz que trabalha muito mais em casa, em trabalho remoto, do que no escritório, porque o escritório desfoca.
Eu sou muito boa a trabalhar em casa, por exemplo. Mas o que eu ia falar sobre a flexibilidade de horário, eu acho isto um problema que não é muito falado, que é: há certo tipo de serviços que tu tens que tirar um dia de férias para poder fazer.
Que é só em horário laboral.
Como é que tu vais aos Correios? Como é que tu vais à Segurança Social se tu precisares? Há tantos serviços que uma pessoa que trabalha das 9 às 17 tem que tirar um dia de férias para ir, porque não está aberto ao fim de semana.
Isto é que é ridículo.
Isto é ridículo, isto é grave.
E mesmo, imagina Acaba por facilitar muito a tua vida se tu tiveres dois dias em casa e na hora de almoço puderes lavar roupa, arrumar minimamente a casa. Também facilita imenso e era uma coisa que me diziam muito: "Assim já não perco um dia de fim de semana a fazer isso."
Sim, consegues ir fazendo.
E não significa que está a fazer menos, não, só simplesmente a hora de almoço, que é uma hora, em vez de estar com os colegas.
Ou a hora inicial antes do trabalho que passas no trânsito e a hora de final.
É isso, acabas por poupar três horas do teu dia que consegues fazer outras coisas. No fundo, é isso. Só que eu acho que é muito ainda mentalidades retrógradas, que acham que as pessoas que ficam em casa não trabalham e que gostam de estar sempre a controlar. Mas nós já não vivemos nesse mundo. E aquilo que eu disse foi que as empresas que não cederem nesse ponto, acho que vão perder o comboio, porque há imensa gente que nem sequer aceita este tipo de trabalhos, se for cinco dias no escritório. Tu imaginas-te aí cinco dias para o escritório?
Não, eu tive essa experiência. Tu já trabalhaste em agência?
Sim, mas tínhamos de ir só dois dias.
Ah, ok.
Era super ok e eu gostava dos dois dias em que ia. E acho que o regime híbrido é fixe.
Acho que é muito importante o equilíbrio.
É importante. Eu adorava ir e estar com eles. Agora, também adorava ter três dias em casa.
Sim. Eu sempre fui freelancer, ou quase sempre, durante muitos anos, e depois tive uma experiência profissional que era full time das 9 às 17h, aliás, das 9 às 21h, quase, que eu tinha que ir todos os dias. Isso foi um choque gigante na minha vida, mas gigante. Eu, por exemplo, sempre fui a pessoa que disse: "Eu vivo num T1 minúsculo, nunca vou precisar de alguém que me ajude a limpar a casa, que vergonha." Eu passado duas semanas, estava tipo: "Onde é que eu contrato alguém para me ajudar?" Porque eu era incapaz de fazer nada em casa, não conseguia fazer nada em casa durante a semana. Ao fim de semana, depois de eu estar 12 horas por dia num escritório, eu não queria passar os únicos dois dias que eu tinha a limpar a casa e fechada em casa. Eu ficava extremamente cansada. Eu sentia que eu vivia à espera do fim de semana. Eu nunca tinha sentido isso na minha vida. E foi assustador.
E não aguentaste muito tempo aí?
Não, não foi só por isso, mas eu acho que, de facto, é horrível. Eu não gostei mesmo nada disso. Também eram muitas horas.
E achas que este shift está a acontecer foi a partir do Covid, que nós vimos a possibilidade disto acontecer?
Sim, eu acabei a faculdade no Covid, então não tinha tido uma experiência profissional séria full time antes, mas eu nunca tinha ouvido falar assim de trabalhos remotos como eu comecei a ouvir depois do Covid. Pelo menos nenhuma amiga minha, nem pais de amigos meus, nem os meus pais tinham trabalho híbrido ou remoto.
Eu acho que isso acaba por ser preciso fazer as coisas com consciência. E também devem haver imensos casos de pessoas que abusam e que dizem que é para o bem-estar e para isto e aquilo, e se calhar é só mesmo para poderem. Mas muita gente também vai para o escritório e está lá a fingir que está a fazer. É que eu acho que isto é absurdo. Também, por exemplo, o ser horário limitado, ter que estar lá a picar o ponto, acho que isto é absurdo, porque muitas vezes eu tenho muitas amigas minhas que não têm o que fazer durante oito horas.
Eu trabalhei em televisão, o meu primeiro trabalho era em televisão. E era regime freelancer, porque nestas áreas é muito regime freelancer. E uma das coisas que um dos meus diretores me disse uma vez e ficou para a minha vida, e eu sou assim com as pessoas que trabalham comigo, acho que é a forma de estar profissional correta. Tu tens tarefas para fazer, tens uma timeline, até aqui este momento isto tem que estar feito. Gere.
Projetos. Não é por tempo.
Eu acho que isto é soft skill.
Não é contar os minutos. É que se o teu horário de saída é às 18h e se tu acabaste às 17h30, se tu saíres às 17h30, vão ficar a olhar para ti. O que achas que é?
Está feita a tarefa, está concluída.
No outro dia dás mais. É absurdo, acho que está tudo ainda...
E porque há muitos dias em que tu completas muito mais tarefas do que aquelas que é suposto para aquele dia, ou porque é preciso, ou porque acontece alguma urgência, ou porque estás motivada. E acontece. Mas eu tenho muitos amigos que trabalham em empresas internacionais e acontece ao contrário. Eles já receberam chamadas dos diretores e dos responsáveis a dizer: "Olha, tu ontem ficaste a trabalhar muito mais tempo. Não queres tirar a tarde?" E eu nunca vi ninguém a dizer-me que isso aconteceu em Portugal.
Ya.
E já tive feedback de vários amigos meus que trabalham em empresas internacionais com esses feedbacks e empresas mais ativas. Eu acho que em Portugal está a começar.
Sim, eu acho que a mudança vai acontecer.
Sem dúvida, e está a acontecer.
Está a começar por startups e coisas assim.
E haver eventos e haver todos esses conceitos que valorizam o ecossistema profissional. Eu acho que isso é mesmo importante, são coisas que antes não existiam e que hoje há empresas com departamentos de felicidade, com comunicação interna muito.
E focar também na saúde mental, se a pessoa está bem, se não está, formação, projeção de carreira, tudo isto acho que empresas mais jovens estão a começar a mudar isso. Mas acho que ainda vai, lá está, tudo chega depois a Portugal.
Sim.
Portanto, vai ser um processo até chegarmos aí. Eu também acho que sim. Imagina aquela questão também de ficar 40 anos numa empresa. Tu viaste a fazer isso como os nossos pais, na altura.
Eu nem sequer me vejo a fazer a mesma coisa, quanto mais a mesma empresa.
Pois é, como é que é possível?
Jamais.
Olha, apuntei aqui uma coisa que eu achei giro, que é um estudo recente mostra que 56% dos empregados entre 18 e 24 anos afirmam que considerariam largar um trabalho se este não contribuísse para a sua felicidade. Achas que isto é too much?
Qual é a porcentagem?
56% dos jovens entre os 18 e os 24.
Acho assim tanto. Até achei que seria mais.
Mas tu achas que só porque não me faz, é que isto daqui depois também eu acho que a Rosália não é-
Não é assim.
Rosália é aquela de desistir fácil só porque...
Eu sou um bocado...
É que nós estamos aqui a falar muito de bem-estar no centro, equilíbrio, mas eu acho que também tem de haver um equilíbrio e no início, não precisa estar sempre feliz no teu trabalho.
Sabes a regra dos três meses?
Não.
Para tudo. Foi uma amiga minha que me ensinou isto. Ela entrou num trabalho novo e eu perguntava: "E então, estás a gostar?" E ela: "Falamos daqui a três meses." E eu: "Por quê?" E ela: "Precisamos de três meses para avaliar se estamos realmente felizes, se gostamos ou não, o que é que gostamos e o que é que não gostamos. Precisamos desse tempo." E é verdade, e principalmente profissionalmente, porque os primeiros meses são de grande adaptação, são de aprendizagem a todos os níveis sociais, porque estás a lidar com novas pessoas, contigo próprio, que estás a lidar com tu não seres bom a fazer uma coisa, porque quando tu começas, lidas com esse tipo de questões, estás fora da tua zona de conforto. É todo um prazo de habituação necessário para tu conseguires ter um feedback real e até para tu dares a ti próprio, quase conversares contigo próprio sobre isso, porque se tu começares logo, não gostas de uma coisa e começas logo: "Porque eu não estou feliz, porque nanana." Também é fácil tu teres essa vontade imediata de desistir e de não quero isto.
Mas será que é por isso que nós temos essa vontade em desistir e saltar para outros trabalhos? Porque imagina, na altura dos nossos pais, eles procuravam ficar nas mesmas empresas sempre. Eu acho que hoje em dia nós temos também muito mais oportunidades, muito mais oferta.
Claro.
Percebes? E acho que isso também acaba por pesar de, se eu não estou bem aqui, tenho muitas outras opções no LinkedIn, até remotos, até em qualquer parte do mundo, que para os nossos pais se calar na altura era impensável.
Tão simples como: como é que tu antes encontravas uma vaga de emprego?
É isso.
Não devia ser tão fácil, certamente, como é hoje.
Faz ali um paralelismo para relações, aquilo que nós falamos de saltar sempre da nossa geração.
Tu vais à dating app e procuras o próximo.
Não é? Isto faz bué sentido os trabalhos ser a mesma cena.
É tudo mais descartável, é verdade. Mas eu acho que o que tu estavas a dizer é mesmo importante. Não só isto dos três meses, mas tu não podes também ser só emocional e romantizar de que tens que ser superfeliz e superrealizado no trabalho. E eu acho que precisas ter um plano.
Ya, isso é bem importante. Olha, eu ontem estava a ter uma conversa com um empreendedor que estava a me contar que está com uma vida muito caótica e que sente que está perto de um burnout, porque está a trabalhar demasiado, mas ele está a gostar muito do que está a fazer, está há três anos numa empresa que está a construir e que está a viver para aquilo. E ele tem a consciência de que está a ser demasiado e que está a roçar ali já o desequilíbrio para ele. Mas ele estava a dizer: "Mas eu tenho um plano, e o plano é que eu daqui a uns tempos consiga desligar muito mais e saltar muito mais fora, que as coisas já estejam a rolar. E eu acredito que numa fase inicial é preciso haver um hustle para montar as coisas." E eu acredito que sim, acho que é preciso, e eu também passei por isso, e também passei por esse hustle para construir aquilo que tenho hoje. Mas, por exemplo, acho que se já começa a mexer com a nossa saúde, acho que nós não podemos passar esse limite. E, por exemplo, eu estudei economia na FEUP, toda a gente que sai de lá vai, por exemplo, para Big Four. Eu era incapaz de ir para uma coisa da cena, para uma empresa da cena. Não me identifico e acho que iria estar durante muito tempo infeliz e desequilibrada. Isso para mim já não preenche. Mas, por exemplo, trabalhar mais horas e para além do meu, se calar, ter mais vida profissional do que pessoal numa fase inicial a construir um negócio, para mim já me faz mais sentido. Percebes?
Porque tu estás a construir algo teu, para ti.
Mas sem passar aquele limite de roçar o burnout, no fundo.
Sim. Eu acho que é muito difícil, porque é viciante.
Sim.
Tu estás em sprint, é viciante. É muito difícil parar.
Pois é.
E é por isso que o burnout acontece, porque tu estás em loop.
E houve outro também que falei com ele ontem que tem uma coffee shop e que vai abrir agora. Já tem duas, vai abrir outra. Isto foi muito interessante, vivo várias realidades e eu fazia bué da perguntas a esta malta.
Mas lá em Braga, e eu conheço sempre estas pessoas.
Este senhor também esteve em sprint a construir o negócio e chegou ali a um ponto em que ele disse: "Tudo mudou quando eu tive a minha filha."
As prioridades invertem-se.
E hoje em dia ele está muito mais fora dos negócios, porque a prioridade número um da vida dele é a filha e esse sprint parou, abrandou.
Então, nós falamos sobre isso no episódio anterior que eu te falei. Eu quando terminei minha relação, eu não sabia o que é que eu gostava, porque eu só trabalhava. E aí as prioridades inverteram, se eu percebi.
É porque lá está, acontece sempre alguma coisa. Para mim foi tipo choque de saúde.
Sim. E o nosso corpo começa a dizer-nos.
Ya.
Eu começo a sentir, é melhor parar.
Ya. Mas olha, foi muito interessante e falei também muito com gerações mais novas e queria te perguntar se achas que as gerações mais novas que nós vão ser piores, vão ser mais preguiçosas, com menos competências sociais. E também falamos muito isto de haver uma geração que se calhar é pior, que é a geração Covid, que perdeu muito Uhum. E depois disso, o ciclo ser renovado e ser ainda melhor que nós.
Eu sinto que existe essa geração Covid, em que há muitos miúdos que tiveram ali uma lacuna muito grande na parte social. De falarem uns com os outros, de brincarem uns com os outros. E estou a falar mesmo mais novos. Não falo de quem...
Estava a estudar na altura.
Sim, não falo de miúdos de 17, 18 anos.
Estávamos nós a estudar.
Sim, mas no secundário. Não falo tanto desses miúdos, mas os mais novos ainda. Ali 12, 13 anos, que é quando tu começas a criar amizades e a moldar um bocadinho. E aí acho que de facto são gerações com essas skills sociais muito menos desenvolvidas. Mas eu acho uma coisa sobre algumas gerações abaixo da nossa, e eu estava a falar sobre isto no fim de semana, que é: nós, hoje em dia, aos 25, 26, 27, 30 anos, questionamos coisas que os nossos pais não questionavam. Toda esta felicidade no trabalho, saúde mental, ansiedade, educação positiva, que educação é que nós tivemos, que traumas é que isso nos trouxe, o que é que nós queremos um dia para os nossos filhos. Isso são tudo temas que nós hoje falamos, mas falamos agora aos 30 anos. Eu acho que há gerações mais novas que nós, que aos 16 anos já estão a falar sobre isto.
Falam de saúde mental.
E isto é muito importante.
Muita gente tem esta opinião. Torna-os mais frágeis? Mais sensíveis?
Tu não podes controlar a forma como essa informação também chega às pessoas, porque é lotaria social. Um miúdo que se calhar vive num contexto familiar difícil, com pais desequilibrados, que se calhar sempre o colocou numa posição mais frágil ou ao contrário, que nunca priorizou os sentimentos deles, se calhar vai ouvir este podcast ou ouvir um conteúdo sobre saúde mental e vai interiorizar de uma certa forma e vai pegar nessa informação e lidar com ela de uma forma. Uma pessoa num contexto se calhar superestável, vai conseguir lidar de outra forma, o que é trigger para uma pessoa não é trigger para outra. Eu acho que tu nunca vais conseguir olhar para uma massa de pessoas e dizer: "Isto vai fazer bem a toda a gente ou isto vai fazer mal a toda a gente." Mas eu acho que começa por trazer os assuntos para cima da mesa e falar sobre eles.
Sim, eles têm muito mais acesso à informação do que nós tínhamos.
Só é bom. Agora, tem que ser informação, de facto, de qualidade, porque também há muita coisa. E aí entramos para a inteligência artificial, perigos da internet e tudo mais.
Olha, achei engraçado, por acaso, que houve umas miúdas de 12, 13 anos que sentaram lá no Baloiço, que eu lhes perguntei, porque eu fazia muitas vezes esta pergunta a miúdos: "O que tu mais gostavas de aprender se pudesses aprender qualquer coisa no mundo neste momento?" E não é que uma miúda de 12 anos me diz: "Finanças, investimentos, que gerir o nosso dinheiro é bem importante." Eu tipo: "Como assim?"
12 anos?
12 anos.
Fumo.
Portanto, há miúdos e miúdos.
Sim.
Fiquei mesmo surpreendida. Mas sim, vamos entrar em inteligência artificial. Muitos dos miúdos eu aproveitava para perguntar, porque tinha mesmo curiosidade: "Vocês usam o ChatGPT para fazer trabalhos da escola?"
Eles usam.
E todos eles me diziam: "Eu sei que é errado e que eu não devia, mas eu uso para fazer tudo."
Não sei se posso dizer isto, mas os pais, primos, pessoas me pediram: "Olha, podes fazer no ChatGPT um trabalho para o não sei quantos, para o meu primo?"
A sério?
Os pais usam para os filhos, os pais ajudam os filhos com o ChatGPT.
E depois sentava pais e perguntava: "Vocês têm medo da evolução da inteligência artificial, de que modo é que vai afetar o crescimento dos vossos filhos?" E todos eles diziam: "Isto vai afetar imenso, menos a capacidade social, menos pensamento crítico, raciocínio." E nós tivemos mesmo em debate como é que podemos contrariar isto, balizar isto, é possível? Eu acho que a mudança vai partir muito de mudar o método de ensino e método de avaliação.
Era isso que eu ia dizer. Sem dúvida.
Tem de partir por aqui.
Mas eu até acho que tem que ser muito mais, e já devia ser antes da inteligência artificial, muito mais sobre sentido crítico e pensamento e criatividade do que sobre coisas decoradas.
Inês, eu testei o meu curso na FEUP, porque era coisas decoradas, era muito isso. Era decorar no dia anterior, no dia a seguir, chapar no teste. Eu não gostei. Sinto que cresci muito na FEUP, sempre estava numa fase de crescimento. Licenciatura ajuda-te a crescer e eram avaliações supercomplicadas, então tinhas de ter algum tipo de raciocínio. Mas onde eu aprendi e sinto que cresci mais, foi numa mestrado lá fora, em Barcelona, porque era tudo à base de trabalhos. Era juntar malta, um grupo bem internacional, culturas diferentes, a construir um projeto em conjunto. Achas que o ChatGPT podia ajudar? Podia ajudar em certas coisas, mas o raciocínio e o método de avaliação era muito mais o debate entre nós, a parte social.
Eu acho bom ajudar.
Eu também acho, acho bom termos essa ferramenta. Agora, acho que o método de avaliação vai ter de mudar.
Claro.
Porque trabalhos escritos e testes de chapar a matéria vão ser todos ChatGPT. E o problema é que não dá para tu perceberes de onde é que vem a informação.
Sim. E eu acho que não é esse o foco, nunca será esse o foco.
Não, não é.
Quais são as skills que tu queres, de facto, que um profissional tenha?
Eu pensei sobre isto. Que disciplinas é que tu achas que hoje em dia deviam haver na escola que não há?
Literacia financeira, acho muito importante. Acho muito importante que não existem disciplinas criativas. As únicas disciplinas criativas que existem é EVT, mas isso não é criativo. Eu lembro-me de fazer trabalhos de pontilhismo e fazias uns pontinhos, fazias um desenho. Eu sempre adorei essas disciplinas, mas isso é mais parte de trabalhos manuais. A criatividade não é só esse tipo de artes. Escrita criativa.
Escrita criativa, estava a pensar nessa.
Tu crias um podcast, um espaço de debate, tu fazes uma linha de roupa.
Empreendedorismo. Acho que pode ser.
Sim, pensares no negócio. Eu acho que tu teres quase um workshop, um espaço, uma disciplina criativa. Claro que tu dás uma aula e tens um plano curricular, tu tens que delimitar ali um bocadinho, mas tu, por exemplo, tens um tema global. A Moda Lisboa vai ser agora daqui a pouco. É um desfile de moda, é um projeto de moda, são três dias com desfiles e com outro tipo de ativações relacionadas com moda. Normalmente existe um mote, existe um tema e depois a moda é o principal, mas existe muita coisa à volta, existe um conceito. Tu numa disciplina assim, tu podes ter um conceito.
Mas isso tu tens, se calhar, em opcionais?
No secundário não tens.
No secundário, não.
Ou seja, tu podes ter um conceito e cada miúdo pode desenvolver alguma coisa à volta daquilo. Pode escrever um poema, pode fazer um desenho, pode criar roupas, pode fazer um vídeo para redes sociais. Eu acho que isso é uma coisa muito fixe, porque dá liberdade aos miúdos e responsabiliza-os. Podes ter a certeza que eles podem usar o ChatGPT para fazer o projeto deles, mas eles não estão a induzir as matas, porque é o projeto deles que eles querem fazer. Eu acho que tem que ser mais daí.
Também acho. Gostei dessa ideia. Pensei também em educação digital, tipo cibersegurança.
Isso acho mesmo importante.
Bué importante.
E até o mais cedo possível.
E cidadania.
Sim, isso tínhamos. Eu não me lembro do que falava.
Era educação moral?
Não, isso era outra coisa. Havia cidadania. Educação cívica.
Educação cívica.
Que agora é cidadania, os miúdos têm cidadania.
É? Não sabia. Mas direitos básicos e assim.
Eu acho que dávamos.
Não me lembro.
Eu só me lembro que nessas aulas era com o diretor de turma e falávamos era dos problemas da turma.
Se calhar era isso, não me lembro.
Não havia propriamente um plano. Mas agora os miúdos têm educação sexual na escola. Acho que não é uma disciplina, mas eu sei que eles têm momentos.
Sim, mas era outra coisa que se podia substituir. Nem era acrescentar, era substituir.
Sim, eu acho.
Pronto, mas então em termos de inteligência artificial, tu achas que vai matar o sentido crítico das crianças que estão a crescer com isto? Porque eu acho que o facto de nós não termos crescido com o telemóvel tem bué impacto.
Sim.
Eles crescendo com o telemóvel e agora com a inteligência artificial, nós vamos ver o impacto disto se calhar um bocadinho mais à frente, mas vai ter um impacto gigante. E os pais estão todos cheios de medo. E em casa já proibiu o telemóvel. Imagina agora também o governo português proibiu nas escolas até ao sexto ano e montes de pais a dizerem: "Eu acho que devia de ser até ao 12º ano." Eu acho que deve ser até o mais longe possível. Acho que 12º é impossível.
Na minha escola, até ao 12º, nós tínhamos telefone, mas nós tínhamos de pôr na entrada da sala. Não podíamos estar na aula com o telemóvel.
A sério? Na minha, não.
Na minha era obrigatório.
Com que idade é que tiveste telemóvel?
Não me lembro. Sei lá. No secundário, não, mas sei lá, quinto ano?
Eu tive no meu terceiro ano.
Eu não. Eu tinha para jogar em casa.
Eu tinha.
Mas não levava para lado nenhum.
Eu tinha.
Acho que foi no quinto ano.
Mas acho que mesmo assim faz diferença o facto de termos tido um bocadinho mais tarde. E não era os telemóveis que é hoje em dia, portanto, não era um smartphone.
Não dava para fazer nada.
Não dava para fazer nada, era para jogar a cobra.
Eu ficava viciada no Tetris.
Mas eu acho que é isso, eu acho que vai prejudicar a criatividade, o sentido crítico, tudo isso. E acho que é difícil de perceber de que forma é que se pode ajudar hoje em dia. Têm um papel importante os pais e a escola também.
Super. Mas eu acho que a escola, os pais. Tu não podes querer travar a evolução tecnológica. Não podes.
Sim, todos eles olham para aquilo como um bicho de sete cabeças e que é tipo: "Não, é tudo errado, tudo mal." É a vida.
Tu tens é que saber adaptar e lidar, porque a evolução tecnológica vai te ajudar em inúmeras coisas, mas quando tu ganhas uma coisa, tu vais perder outra.
Tu usas muito no teu dia a dia?
Uso, sim.
Em que é que usas?
Eu não uso só o ChatGPT, uso muitas ferramentas de edição e de criação de conteúdo que têm inteligência artificial. Por exemplo, tu para legendares um vídeo.
É inteligência artificial.
Tu usas automações, isso é inteligência artificial também. Uso muito nesse tipo de ferramentas, de mudar os sons de voz e assim, são tudo esse tipo de ferramentas, mas utilizo muito o ChatGPT para bater bolas sobre temas. E às vezes por curiosidades, coisas que eu quero saber no momento. Uso muito.
Tu debates coisas da tua vida?
Debato. E ajuda-me.
No outro dia estávamos a ter uma conversa com uma amiga e tu disseste: "Vai bater bolas com o ChatGPT, buscar ideias." Eu faço isso muitas vezes.
Eu faço, mas muito, para tudo. Para a parte pessoal também fazes?
Faço.
É bom para racionalizar. E sabes que eu acho que comecei a fazer, porque tu uma vez me disseste, não para falar com o ChatGPT sobre isso, mas para fazer uma lista, prós e contras. Acho isso mesmo importante e eu lembro-me de perguntar ao ChatGPT.
Mas eu acho isso perigoso, sabes?
O quê?
Eu acho. Entrar assim em coisas pessoais.
Eu lembro-me de perguntar: "Achas que eu devo ficar no Porto ou em Lisboa?" Eu sinto isto e aquilo em relação a cada sítio. E ele não te dá uma resposta. Ou seja, ele não te diz: "Vai para o Porto."
Mas ele está treinado para perceber o que tu queres. Tu moldaste-o a ti. Percebes?
A mim, pelo menos, eu não sei como é que são os vossos chats, o meu nunca me diz para eu fazer uma coisa. A única coisa que eu sinto que é fixe é que eu atiro por lá-
Eu acho que nós somos pessoas que já fomos formadas fora disto e temos consciência de raciocínio.
Mas é perigoso para toda a gente.
É perigoso. Quando eu vejo crianças a dizer que fazem terapia no ChatGPT, é muito perigoso, porque não conseguem fazer a diferença do que é real e o que não é. Percebes? Isto me assusta.
Mas eu tenho amigos que já me disseram: "Eu não vou ao psicólogo, que eu tenho o ChatGPT." E eu: "Não, isso não é assim." Eu acho que não tem nada a ver uma coisa com a outra. Tu dizes uma coisa ou outra ao ChatGPT para racionalizares um bocado, parares ali um bocado, estás um bocado com uma situação e queres desabafar ali de uma forma rápida. Uma coisa assim leve, acho que é ok, um bocado para tu pores em perspetiva, quase como quando falamos em voz alta.
Quando escreves.
É um bocado, quando escreves, só que tens ali um bocado de feedback. Isso é uma coisa. Agora, dizeres que substitui a terapia, por amor de Deus, acho que isso está mesmo errado.
Mas ouve-se imenso isso nas crianças.
Pois ouve-se, mas isso é muito errado. Quando alguém me diz isso, eu mando o link da minha psicóloga.
Temos que trazer aqui a tua psicóloga.
Ela é fixe.
Acho que isso é uma boa conversa. Olha, sabes o que eu fiz? Fui perguntar ao chat se ele acha que ele é perigoso para as novas gerações. Vou ler a resposta, pode ser?
Lê.
Eu adorei isto. "Olha, eu não sou perigoso por natureza. O perigo não está em mim, mas em como as pessoas me usam. Profissionalmente, eu consigo automatizar tarefas repetitivas, mas não substituo coisas como criatividade, empatia ou liderança. Quem aprender a usar a inteligência artificial como ferramenta vai estar mais preparado. O perigo é ficar para trás por não aprender. No crescimento pessoal, sim, posso ser uma ameaça se as pessoas usarem só para respostas rápidas sem pensar. Isso pode adormecer o pensamento crítico. Mas também posso ser o contrário, uma ferramenta para aprender mais rápido, comparar perspetivas e até estimular o pensamento crítico se for bem usada. O verdadeiro risco é a dependência cega, o plágio e a desinformação. A inteligência artificial em si não é boa ou má, é como um carro. Podes usar para viajar ou atropelar alguém. O que importa é quem está ao volante."
Adorei. 100%. Não, mas é isso.
É isso, é mesmo isto.
É isto.
A conversa que eu tive aqui também com a Ana Beatriz Barbosa, falamos muito desta questão e ela também bateu muito na tecla de ser muito perigoso, principalmente para os mais novos, mas eu acho que é isso. Acho que nós temos essa consciência, porque nós vimos toda esta evolução do digital. E disseram-me isto, que a inteligência artificial para os mais novos é como para nós foi aparecer as calculadoras. Não é a mesma coisa.
Claro que não.
Não tem nada a ver.
O que tem a ver?
"É só uma ferramenta." Não é só uma ferramenta. Nós podemos usar só como uma ferramenta, mas não é só uma ferramenta.
Até porque a calculadora dá-te uma resposta específica.
Até podia ser mais como os smartphones, ir à internet, Google, mais por aí. Se na altura os nossos pais iam para as bibliotecas procurar informação.
Sim.
É todo um tema.
É um tema que não há respostas certas.
Quando tiveres filhos, tens noção de como é que vais querer lidar com o telemóvel e estas questões? Pensaste sobre isso?
Penso um bocado ao contrário. Acho que hei de ter que perceber, e acho que quando eu estiver nesse papel, vou perceber qual é o paradigma. Acho que também não podemos ser radicais e perceber que estamos a viver em comunidade e os nossos filhos também. E ele ser o outsider e a pessoa totalmente diferente de todos os outros também tem impacto. Ou seja, é importante tomares uma decisão que é racional e que tu achas que é a mais acertada, porque tu nunca vais ter a certeza, mas que tu achas que é a mais acertada, mas também perceberes em que meio é que o teu filho está inserido, quais são os hábitos das pessoas à volta dele. Se, por exemplo, ele está numa escola em que é proibido o telefone, tu não vais incentivar o uso do telefone. Mas se calhar, se ele está numa escola em que toda a gente leva, tu podes querer que ele não use tanto, mas também é importante existir um equilíbrio entre onde é que a pessoa está inserida.
Eu acho um bocado assustador quando, imagina, vejo crianças mesmo pequenas e os pais não querem se chatear e espeta o tablet na cara das crianças só para estarem entretidos. Eu tenho um primo mais novo que não consegue não estar com o telemóvel. E ele é mesmo pequenino.
É a dopamina.
E quer muito e pede o telemóvel, e se tiras o telemóvel, começa a chorar. Eu acho que é preciso haver em casa um limite.
Sim.
E acho também bem importante o exemplo que tu dás aos teus filhos, porque eu acho que se nós estivermos constantemente agarrados ao telemóvel all the time e a dizer: "O telemóvel faz mal, não podes usar", mas tu estás constantemente agarrado, que exemplo é que tu estás a dar, não é?
Sim.
E é uma coisa que eu tenho vindo a fazer, desligar cada vez mais e limitar o meu uso. E acho que no futuro, para os filhos que eu tiver, vai ser muito disso.
E outra coisa que eu acho bem importante é promover o contrário. Ou seja, tu ficas com o miúdo em casa o dia inteiro. Se calhar é um bocado normal que ele queira ir para o telefone. Promove atividades, mete-o num desporto, atividades extracurriculares. Eu quando era miúda, também se calhar não estava no telefone. Eu andava em tudo. Eu andava no desporto, no escuteiro, na catequese, no inglês, no não sei o quê. Estava sempre fora de casa em atividades com outros miúdos da minha idade, atividades que não estás com o telefone. Se os miúdos andarem no voleibol ou no basquetebol, durante aquela hora e meia, ninguém está no telefone
E acho bem importante também quereres saber, tendo o telefone já um pouco mais à frente, querer saber o que eles andam a consumir. Seres curiosa. O que é que estás a ver? O que é que tu vês? Estar a par, também mostrar interesse para se sentirem à vontade para partilhar.
Eu falo muito com o meu primo, ele tem 12 anos, e eu e as minhas irmãs falamos muito com ele sobre isso, porque agora há trends e coisas. Ele não tem redes sociais sem ser o WhatsApp. Tem WhatsApp agora porque a turma tem grupo de WhatsApp, ele anda no andebol, o andebol tem grupo de WhatsApp. Então os miúdos meio que têm que ter WhatsApp. E o WhatsApp eles usam como uma rede social, eles põem tipo histórias no WhatsApp. Eu não sabia. E há trends também e desafios. Coisas assim que nós já não estamos a par. Nós não usamos as histórias do WhatsApp.
Não.
Os miúdos usam, porque há muitos que é a única rede social que eles têm.
Era como na altura nós usávamos o Snapchat.
Exato. Ele tem Snapchat, por exemplo.
Ok.
E tu estás a par e eu pergunto: "Então, olha, o que é essa história que tu puseste?" Mas não no sentido que tu estás a criticar e que ele não pode fazer.
Não, num sentido curioso de mostra-me lá, eu quero saber. Conta mais.
Eu acho que quanto mais aberto tu fores e perceberes e não julgares e não teres essa perspectiva de que as redes sociais são todas más e estão todas erradas e eles não saberem o que é. Eu acho que é importante eles saberem também o que acontece, o que existe, mas nós conseguirmos, não é só para os nossos filhos, para os nossos primos, para os nossos sobrinhos, para isso tudo, tentarmos ser a voz que eles podem confiar quando tiverem uma questão. Porque se eles não confiarem em ti, há pessoas adultas que se fazem passar por crianças e falam com os miúdos. Isso existe, sempre existiu na nossa idade e existe nas gerações mais novas. Se o teu primo, se o teu filho, seja o que for, não tiver essa abertura para falar contigo, provavelmente não te vai contar.
Sim, é muito paralelo do telemóvel. Isto já é a forma da educação de ser restritiva.
Mas os perigos com o telefone e com as redes sociais são assustadores, também.
Sim, mesmo aquela série da adolescência. Filme? É série.
É uma série.
Ya. Também mostra muito isso.
Era todo um tema, toda uma situação, não só ligada às redes sociais, mas em que os miúdos ficam submersos na sua bolha.
E eles não conseguem já depois distinguir o que é real, o que não é.
Pois não.
É mesmo estranho. Mas pronto, olha, o meu fim de semana foi assim. Foi só assim. Foi nada interessante. Foi giro, percebes? Eu gosto destas coisas, conversei imenso. Imensa gente que ficava à conversa tipo uma hora e meia, duas horas comigo e ficávamos ali. E eu gosto, eu estava curiosa também a fazer perguntas e conheci pessoas mesmo de muitas realidades diferentes.
A tua cabeça parece ficar a borbulhar.
Imagina, eu chegava à casa exausta, por isso é que, percebem, eu não fiz mais nada, como é lógico. E ontem eu estava a falar com os meus pais: "Ah, mas tu gostas disso, tu gostas de conversar, tu gostas." Eu gosto, mas eu chegava ao final do dia também...
Bateria social.
Eu passava nove horas a conversar, sem pausas.
É muito.
Ya. Mas pronto, foi muito divertido. Olha, temos o episódio de hoje. Foi assim diferente.
Mas eu gostei.
Gostaste?
Gostei.
Não foi tanto sobre desabafo da nossa vida.
Não, mas acho que também são temas importantes. Estas coisas são importantes trazer para cima da mesa também.
Eu acho que sim. Voltamos numa próxima com finanças e negócios.
Bora!
E saúde mental, vamos também coordenar um episódio sobre isso, sobre ansiedade, sobre estas coisas todas. Estamos. Vamos lá começar a nossa semaninha, segunda-feira.
Sessão de terapia feita.
Yes. Não é fácil, eu sei, mas amiga, faz parte. Encontramo-nos domingo à hora do costume?