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Ao vivo, na Rádio Observador.
Recompensa em noite escura. Mãos metidas na cintura. Um avanço, uma abertura, uma avalanche de aventura. Lengalenga, lado a lado. Rio, pranto, amarguras. Lombo, pranto, sepultura. Dependência, provas duras e planos furados. Filamentos apagados. Mas à hora da prontidão, tu pedes mais e eu faço. Apressa-me o coração e eu prometo mais empanho. Landro, racha e ligadura. Instrumentos de tortura. Olhos feridos pela sombra a noite inteira em claro. Pagamentos em atraso. Mas à hora da prontidão, tu pedes mais e eu faço. Apressa-me o coração e eu prometo mais empanho. À hora da prontidão, tu pedes mais e eu faço. Apressa-me o coração e eu prometo mais empanho. O amor é revolucionário. Não cabe num armário. O amor não é sedentário. O amor dá muito trabalho. O amor não é reacionário. O amor é operário. O amor é operário.
"Amor Operário", de Benjamim, na versão ao vivo na Rádio Observador. Obrigado por teres trazido, Benjamim. Bem-vindo de regresso.
Olá, obrigado eu.
Agora com o "Crónicas do Monte Zeus", já cá fora. Quinto álbum de estúdio?
Quinto álbum.
Já começa a pesar.
Sim.
Parabéns, belo disco.
Obrigado.
Bastante diferente do teu anterior, "As Berlengas". Até é um disco que me parece com mais sintetizadores, mais assente nesse tipo de instrumental. E aqui parece-me também que existe um regresso à composição mais assente nas guitarras. Foi isso que aconteceu?
Sim. Canção de guitarra.
E também mais focado na clareza da palavra, na melodia, diria até também no amor, em muitas temáticas, o que é sempre bom. Escrever estas canções fez-te de alguma forma olhar para as tuas próprias rotinas e relações com o trabalho de construção e reparação?
Sim.
Esse lado operário, desse lado também.
Sim, o trabalho que o amor e que as relações dão diariamente, que fazem parte da nossa rotina.
E que precisam de manutenção.
Precisam de manutenção, precisamente. Essa é a mensagem da canção também.
Há aqui uma outra curiosidade que estava a ler. Resolveste gravar as bases do disco num gravador de fita de oito pistas. Eu gosto particularmente disso, quase que se apanha o ar da sala, a respiração, há ali uma série de elementos que passam a fazer parte da gravação, numa altura em que as produções são cada vez mais digitais, mais asséticas. Que statement é este?
É o statement de querer fazer o contrário. Às vezes sinto que de repente a música está toda muito em cima, está sempre tudo muito aos berros. Os sons são muito sintéticos, parece que há muitas soluções que são parecidas e eu, como também estou cansado disso, quis voltar pro básico. Tanto na escrita, concentrar-me na palavra que escrevo no meu caderno, nas canções que escrevo na guitarra e depois tentar me manter. Obviamente que há a produção e há estúdio, mas tentar manter que quando as pessoas ouvem estas canções, que se sintam dentro dessa sala, que se sintam dentro desse ambiente. Não há nada para disfarçar, não há grandes truques para disfarçar coisas.
Falavas das produções. Elas continuaram a acontecer entre o Submarino e Alvito?
Sim, o Submarino hoje em dia é um estúdio diferente do original, porque o Submarino original, para quem não sabe, era o meu estúdio. Era numa cave muito apertada e agora eu tenho uma sala, um estúdio maior que se chama Louva-a-Deus. E fiz aí o meu submarino, que é um estúdio já com outras condições, que dá para ter uma banda a gravar na sala. E houve uma parte também em Alvito, sim, o final.
Há sempre Alvito.
Há sempre Alvito.
Na tua carreira.
É verdade, em todos os discos. Eu pensava que este não ia a Alvito, mas no final eu já estava desesperado de tentar fechar as vozes e pensei que o melhor sítio era Alvito.
É ótimo teres esse sítio. De alguma forma, também há aqui esta novidade, parece-me que é o primeiro disco que partilhas a produção. Como é que foi o trabalho do João Correia? Como é que, para alguém que é sempre tão autónomo nos estúdios, Submarino e Alvito, partilha aqui um bocadinho também o ouvido e a arquitetura com outro músico?
Foi excelente, foi muito importante. O João Correia, que para os amigos e para quase toda a gente é o Joca, toca comigo desde os 16 anos. Ele toca bateria na minha banda, mas para além de ser baterista, escreve canções, toca guitarra, toca baixo, é um músico genial e muito vasto nas suas capacidades e é um amigo do coração e alguém com quem eu tenho trabalhado ao longo dos anos e, portanto, já temos uma relação em que podemos ter discussões muito acesas, sem nenhuma cerimônia, mas manter completamente a nossa amizade. Nós os dois somos completamente obcecidos. De todas as pessoas que eu conheci na vida, acho que ele é a pessoa que eu sinto que seja tão obcecada como eu.
Como tu.
E que um diz mata, o outro diz fola, ficamos a gravar até às duas da manhã, três da manhã, se for preciso. E no dia a seguir já estamos a trocar mensagens sobre as coisas que temos de mudar. E portanto foi ótimo, porque o disco anterior eu tinha feito todo sozinho com máquinas e sintetizadores, e este fiz-lo acompanhado não só por ele, mas por parte da minha banda, por amigos meus que vieram tocar e cantar. Isso foi espetacular.
Porque há aqui várias colaborações, se calhar a mais sonante, diria, a Lena d'Água no fim da greve, o tema que vamos ouvir daqui a pouco, mas depois há outras pessoas que entraram. Bruno Pernadas?
Bruno Pernadas toca guitarra elétrica nos Dias do Nada, o solo de guitarra.
Margarida Campelo.
Margarida Campelo faz coros em bastantes músicas.
E a Francisca Cortezão.
Francisca Cortezão, Afonso Cabral, Rita Cortezão.
José Soares no saxofone.
José Soares, que é uma peça muito importante deste disco, toca saxofone, faz um solo lindo nos Recursos Humanos e depois há algumas canções em que há uns arranjos de saxofone dos quais eu gosto mesmo muito. Estou a esquecer-me de pessoas. Inês de Sousa, Mariana Ricardo, assim uma série de malta.
Mariana Ricardo dos Spinettes, a saia.
Exatamente, para os fãs de indie rock.
Gosto sempre de recordar esta história.
De 2000. Mariana Ricardo, que tocou pandeiro.
Muito bom.
E mais malta.
É um disco, de facto, mais-
Vai dar tocar. Desculpa, vai dar tocar.
Vai dar tocar. Muito bom. É um disco, de facto, mais colaborativo do que o anterior. Bem mais, diria. Focamo-nos aqui um bocadinho no dueto com a Lena d'Água. Como é que correu? Não é a primeira vez que colaboras com ela, mas não sei se já tinha acontecido assim em disco.
Não.
Gravado.
Quer dizer, eu fui um dos produtores do álbum Desalmadamente, que foi o primeiro disco que ela gravou de originais em muitos anos, em décadas. Esse foi um disco muito importante, acho que marca uma nova etapa na carreira dela, também para nós, que trabalhamos com ela, acho que foi um momento muito importante de conseguir estar a produzir um disco da Lena, obviamente. E depois o impacto que o disco teve, que foi muito fixe.
É verdade.
E isso fez com que eu também, por acaso-
Não foi um capítulo isolado, teve continuação já com outro disco.
Esse já não participei no segundo disco.
Sim, mas é um momento na carreira dela que acontece, que a coloca de novo.
Coloca de novo, sim, sem dúvida.
E coloca junto uma nova geração, que também é fixe.
Sim. Eu toquei na banda dela durante vários anos, era teclista dela. Portanto, existe uma cumplicidade enorme com ela. De vez em quando ainda dou concertos com ela. Ainda recentemente fomos ao Porto à Feira do Livro. Portanto, há uma relação verdadeira de amizade e de música e, obviamente, imagina, eu não pensei assim: "Vou fazer uma canção para ter um dueto com a Lena". Isso não foi o que aconteceu. O que aconteceu foi que esta canção-
Pedia
...pedia alguma coisa no segundo verso, que a canção não estava a crescer. E o Joca disse logo: "Pá, bora fazer um dueto". Lena, tipo: "Bora, claro". É só agarrar no telefone ou mandar-lhe uma mensagem e perguntar-lhe: "Queres cantar no meu disco?" E ela dizer logo que sim.
Que é o top.
E vir ao estúdio e cantar. Portanto, foi supernatural. Acho que a canção, depois, à medida que eu ia imaginando que ela ia cantar, eu ia afinando a letra pra ainda ficar mais fixe pra ela e, portanto, apesar de originalmente ela não ter sido concebida como um dueto, há um lado que parece que a canção se torna Plena quando ela aparece.
Isso é bom. Ouvimos o "Amor Operário", vamos ouvir o "Fim da Greve". Por que não há nenhuma data de apresentação na Voz do Operário?
No Barreiro.
Ou no Barreiro.
No Barreiro.
No Barreiro há?
No Barreiro, a primeira data.
É a primeira?
É a primeira. Primeira data, 17 de outubro.
Há Coimbra, Lux, em Lisboa, Plano B no Porto, Leiria, Braga, Freira Mundo, Odemira. Já são muitas as datas para mostrar este "Crónicas do Monte Zeus".
Isso vai ser uma turnê que vamos fazer agora até o final do ano, de clubes, sítios pequenos, para chegar ao pé das pessoas, tocar as canções para elas, em salas mais pequenas e mais íntimas. Com banda.
Só uma pequena pergunta também para um trabalho que fizeste aqui com o Observador há algum tempo, sonorizaste o podcast "Os Segredos da Seita do Yoga". Como é que foi essa experiência?
Foi espetacular. Foi muito divertido. Já eu adoro desafios. Uma das melhores coisas que me podem pedir é: faz uma música para isto. E eu tenho uma desculpa para estar no estúdio o dia todo só a experimentar e a tentar criar.
Ali um universo meio Índia que também te diz alguma coisa, não é?
Sim, porque eu passei a lua de mel na Índia e trouxe uns instrumentos de uma loja linda em Jaipur, uma loja de instrumentos musicais. E eu percebi: "esta é a oportunidade perfeita para ir buscar estes instrumentos".
Para dar uso.
Sim.
Muito bem, "Crónicas do Monte Zeus", já com muitas datas de apresentação. Confiram também pelas redes sociais do Benjamim, convidado esta semana no Ao Vivo na Rádio Observador. Muito obrigado por teres vindo.
Obrigado eu.
Muitos parabéns por este disco. Vamos ao "Fim da Greve". Ouçam-no também na versão do disco que tem a Lena d’Água, mas está aqui numa versão mais despida, para fechar o Ao Vivo desta semana. Muitos parabéns e obrigado.
Obrigado. O fim da greve anuncia a pausa em eventos que quase deram cabo de nós. Uma operação jacobina pra inverter esta queda e voltar pro teu cobertor. Eu sou proletário e desavindo com os meus vínculos laborais. Ando à procura de um contrato afetivo com os teus turnos matinais. E o termo incerto que eu vi do outro lado. Foi um deserto, foi mesmo mau bocado. Foi infinito estar sem nós. Durante a greve fui passear ao inferno, dormi na lama só pra deixar passar a dor. Quando embalei na vertigem, fui consumir-me a conhecer os cambiantes do sabor. O sindicato deu um sedativo pros abalos casuais, mas só tu me salvas deste sismo, que hoje foram abalos a mais. E o termo incerto que eu vi do outro lado. Foi um deserto, foi mesmo mau bocado. Foi infinito estar sem nós. Foi infinito estar sem nós. Foi infinito. O termo incerto que eu vi do outro lado. Estar sem nós. Foi um deserto, foi mesmo mau bocado. Foi infinito, infinito. Foi infinito estar sem nós.
Ao vivo, na Rádio Observador. Obrigada por ter ouvido este podcast. Se gostou, pode subscrevê-lo, pode partilhá-lo e também pode ouvir a Rádio Observador online em 98.7 em Lisboa e em 98.4 no Porto.