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Seja bem-vindo ao "Ao Vivo". Hoje não temos música ao vivo aqui na Rádio Observador, mas temos alguém que canta que se farta, que é a Teresinha Landeiro. É a nossa convidada esta sexta-feira. Olá, Teresinha, bem-vinda.

Olá, obrigada.

Um prazer estar contigo. "Para Dançar e Para Chorar" é o nome do teu último disco, saiu este ano, não é?

Sim, exatamente. Início do ano, fevereiro.

Fevereiro. É o terceiro disco da Teresinha Landeiro, que é pra mim um dos grandes talentos do novo fado, se quisermos, ou dos últimos anos deste gênero musical. Gosto particularmente de algumas entrevistas que li tuas. Já falei com pessoas que cantam fado, que se assumem mais como cantor do que como fadista. Tu não, tu assumes-te como fadista.

Sim.

Por quê? É um sentimento?

Eu acho que é uma maneira de estar na vida e na música. E a verdade é que por mais que eu goste de cantar outras coisas, talvez seja o fado que me emociona, que me move e que me faz querer cantar. Também há espaço pro resto, mas de fato, o fado é talvez o motor de tudo isto e aquilo que me inspira diariamente.

É também muito espetacular quando percebemos que tu gostas de escrever os teus fados, tu escreves estas canções. Muitas das vezes temos esta imagem um pouco antiga de que o fadista é intérprete, e tu és compositora também dos teus fados. Como é que começas a escrever fado? Tenho sempre a ideia que é um gênero de música, ou esta é uma ideia que nos passam, que exige uma certa maturidade, não é?

Sim, eu acredito nisso. Eu acredito que o fado exige maturidade e por isso mesmo é que eu comecei a escrever, porque eu não tinha maturidade pra cantar as letras que já existiam. Era tudo muito pesado pra minha idade, tudo muito denso, e eu quando começo a cantar tinha-

Não te relacionavas com aquilo.

Zero. Tinha 12 anos ou 13, e havia muito poucas letras pra minha idade, de fato. E então cada vez que eu tentava cantar alguma coisa um bocadinho mais pesada, diziam: "Mas tu sabes o que é que estás a dizer? Tu entendes a letra?" Então eu pensei: se eu começar a escrever as minhas letras, já ninguém pode dizer que eu não entendo.

Claro.

Se fui eu que escrevi, eu entendo. E então esse foi o mecanismo que eu arranjei pra me defender neste caminho e neste meio. E depois ficou uma paixão quase tão grande quanto cantar.

Fala um bocadinho deste "Para Dançar e Para Chorar", porque tem também alguma novidade nesse aspecto da composição com alguns convidados que escreveram letras para cantares.

Sim, é a primeira vez que eu convido outros compositores a escrever pra mim. Os primeiros discos foram muito baseados na minha escrita e em fados que já existiam e que já compunham meu repertório desde muito cedo. E então neste disco decidi que gostaria de desafiar outras pessoas, de outros estilos musicais, a comporem pra dentro do fado, olharem pra mim, pra forma como eu canto e desafiá-los: "Olha, gostava que escrevessem um tema pra este disco, pra dançar ou pra chorar". Deixei ao critério de cada um.

O disco está dividido nessas duas-

Nessas duas temáticas, exatamente. Estas duas temáticas, por quê? Porque eu acredito que o fado é um retrato da vida. E embora toda gente ache que o fado é tendencialmente triste, eu não concordo com isso, porque a vida não é só triste. Embora eu acho que nós temos alguma facilidade em falar mais das tristezas do que das alegrias.

Isso não é português?

É muito português. Eu acho que é muito português. Tanto que, por exemplo, eu dou sempre o exemplo do samba, que também é sobre a vida e que é completamente ao contrário, é muito mais alegre do que triste. E as histórias são uma desgraça total. É uma pobreza extrema, tudo acontece.

Mas dança-se em cima disso.

Dança-se sobre isso e nós choramos sobre a tristeza sempre.

É engraçado, isso é herança cultural, não é?

Claro, eu acho que sim, totalmente.

Maro, Mário Laginha, Milhana, Jorge Cruz, Beatriz Pessoa, Francisco Guimarães, Rita Dias são alguns dos convidados para este disco que escrevem canções. Queria ouvir contigo um bocadinho a "Maré de Sorte", que é um tema que eu gostei muito logo quando ele surgiu e serviu também de lançamento a este teu novo álbum. Fala um bocadinho desta canção.

Eu adoro este tema, precisamente por isso que estávamos a falar agora, porque é o retrato do final de uma relação, mas sem ser aquela coisa pesarosa e dramática. É uma visão nova sobre: uma relação termina e muitas vezes é uma maré de sorte e não uma tristeza. E as pessoas às vezes têm dificuldade em perceber isso e quando o tempo passa, percebem que se calhar estão muito melhor assim. E então eu gosto muito deste tom de brincadeira e de comédia que o Jorge pôs nesta letra.

Jorge Cruz?

Jorge Cruz.

Belíssimo escritor de canções.

Maravilhoso. E então eu gostei muito desta canção e eu identifiquei-me logo, porque ainda à altura da minha vida fez todo sentido. E eu acho que pode ser uma lufada de ar fresco e de esperança pra algumas pessoas que tenham terminado as relações de forma menos boa, a pensar: "Se calhar ainda vem a minha sorte e eu ainda não vi".

Vamos ouvir aqui a "Maré de Sorte" e já voltamos à conversa com a Teresinha Landeiro.

E no Instagram duas vezes mais seguida. Bem quis sofrer, mas como hei de eu perder o norte? Desde que o meu amor partiu, ando em maré de sorte. Ai, em boa hora se lembrou ele dos meus defeitos. Abençoado o dia em que arranjou alguém que lhe parece mais perfeito. No emprego, fui louvada e promovida. E no Instagram duas vezes mais seguida. Bem quis sofrer, mas como hei de eu perder o norte? Desde que o meu amor partiu, ando em maré de sorte. Custou perdê-lo, mas agora ele que não volte. Desde que o meu amor partiu, ando em maré de sorte.

O Jorge Cruz faz isto superbem. Tu também tens um pouco esta tendência, que é trazer para o fado este tipo de temáticas que nos dizem muito mais hoje em dia, estas coisas do Instagram, dos likes. Fala-se de um assunto com que os jovens se possam identificar, em contraponto com aqueles fados mais antigos e que não têm temática nenhuma desta vivência mais mundana e mais normal.

Mas sabes o que eu acho? Que esta é a melhor maneira de inovar. É através das palavras. Às vezes não é preciso trazer outros instrumentos ou outras sonoridades.

Associa-se muito a inovação do fado a novos instrumentos.

A novos instrumentos, a musicalidade. E às vezes a inovação basta só ser através das palavras e já é inovar, já é uma lufada de ar fresco.

Tenho gostado de perceber que este ano também foi agitado pra ti. Que balanço é que fazes deste disco que já não demora muito a fazer um ano, apesar de ainda ser de 2024? Correram bem os concertos? Como é que estas canções também se interligam com os teus discos anteriores quando tens que fazer um alinhamento pra um espetáculo?

Sim, é muito fácil fazer um alinhamento que faça sentido com o que foi acontecendo e com o que está a acontecer agora. Foi um ano muito cheio, de concertos de norte a sul, até fora de Portugal. E foi giro ver como este disco é tão bem recebido nos diferentes lugares, por diferentes faixas etárias. Consegui ver sempre muita gente jovem misturada com pessoas mais velhas, o que é fantástico, e perceber que o fado está a conseguir chegar a um público muito mais novo. Tenho tido mesmo muita sorte, porque tem sido um ano cheio de coisas boas.

Como é que as tuas canções ou os teus fados vivem neste formato ao vivo? Porque há uma grande parcela da tua vida que é passada em Alfama.

Sim.

E depois levar isto pra palcos que são ou de festivais ou de salas de concerto, não te estranha quando aí vês esta canção que parece tão oleada na mesa de Frades em Alfama e agora estou aqui num sítio qualquer?

Estranho. A coisa mais difícil pra mim em palco é a distância que há de mim pro público, porque eu estou habituada a ter as pessoas coladas a mim.

À mesa, não é? Na mesa de jantar.

Sim, quase coladinhas. E ali estão bastante afastadas, então não consigo ter uma percepção tão clara se estão a gostar. Claro, depois quando batem palmas ou assim, consegues perceber se estão contigo ou não. Mas durante, há ali às vezes um certo aperto. "Será que eu estou a conseguir chegar às pessoas ou não?" Porque não consigo vê-las. E isso pra mim causa-me um pouco de ansiedade. Mas as músicas resultam bem, consigo transportá-las bem de um sítio pra outro.

Com toda esta inovação no fado e todos estes últimos anos em que o fado realmente conquistou outros palcos, mesmo internacionais, como é que está Alfama? Alfama ainda é o habitat natural deste género.

Totalmente.

A transformação do fado também passa por Alfama ou continua a ser um reduto de um fado muito mais tradicional? Como é que olhas pra isso?

É um fado muito mais tradicional. O que acontece nas casas de fado continua a ser uma coisa, embora também mais interpretado por pessoas mais novas, continuam a existir os fadistas mais velhos, mas os mais novos também começam a aparecer com cada vez mais força. Mas Alfama, a Mouraria e o Bairro Alto estão cheios de casas de fado. Neste momento, até eu acho que há mais casas do que fadistas, porque começa a haver falta de fadistas e de músicos pra tocar em tantas casas pra tanta gente. Maioritariamente visitadas por turistas, como é óbvio, mas muito visitadas, e o fado ecoa, sem dúvida, pelas ruas todas de Alfama.

Há alguma mágoa nessa questão do público desse tipo de locais ser bem mais turístico? O português, o lisboeta, e não só o lisboeta, devia também de consumir mais fado nestes palcos.

Certo.

Porque eu acho que eles depois vão aos concertos de fado, não é?

Sim, vão. Eu tenho pena de não ver tantos portugueses nas casas de fado, mas também entendo que às vezes os preços praticados não são tão acessíveis. E eu acho que isso é justificação mais que suficiente pra perceber que Que às vezes os portugueses não conseguem estar presentes numa casa de fados.

Entretanto, nos últimos anos também fezeste trabalho de passarem a existir festivais de fado, o Santa Casa, o próprio fado noutras cidades do mundo da América Latina e da Europa. E acho que isso também é importante pra tirar um pouco o fado daquele seu espaço que é mais tradicional. Depois de algumas viagens ao estrangeiro, ainda vais à vizinha Espanha em dezembro. No dia 3, estarás no cartaz do festival Fado Sevilha. Já foste a Sevilha?

Já.

Parece uma cidade que pode acolher bem o fado.

É maravilhoso. Cantar em Espanha, no geral, é maravilhoso, porque nós somos mais parecidos do que pensamos com os espanhóis. E a forma como eles recebem a nossa música é tão calorosa, é tão entusiasta, que nós saímos dali superarrebatados pelo público. Portanto, cantar em Sevilha, eu cantei em 2019, precisamente no Festival de Fado, e agora vou voltar. E é sempre um regresso maravilhoso.

E ao menos em dezembro não morres de calor naquela cidade.

Não, exatamente. Mas sabes que cantar no estrangeiro é realmente muito compensador, porque eu estive na China e nunca imaginei que os chineses pudessem receber o fado da forma como receberam.

Mesmo não percebendo nada do que se estava a passar.

Nada, rigorosamente nada. Mas até ao ponto de eu os convidar pra cantar, ensinar-lhes uma palavra ou duas em português e cantarem. É uma coisa mesmo extraordinária e perceber que o fado tem tanta força e tanta capacidade de cativar o público, mesmo sem perceber o texto.

Vamos ouvir o "Chegou a Hora" e já voltamos aqui pra falar mais um pouco com a Trezinha Landeiro, até pra olhar outras datas deste final de ano.

Chegou a hora de dizer, que por tantas vezes foi hora, de partir e não voltar. É também tempo de dizer, que por tantas vezes tive medo, dessa hora e quis ficar. Mas hoje o medo parece esmorecer, em mim o desejo de esquecer, o que ficaria se eu ficasse. Peço perdão, a mim, a vós e a Deus, por saber que sou feliz, na hora deste adeus. Amanhã, contudo, eu sei, estarei louca, estarei viva. Por cobardia ou gratidão. Estarei louca, estarei viva. Amanhã, contudo, eu sei, estarei louca, estarei viva. Por cobardia ou gratidão. Estarei louca, estarei viva.

Letra de Milheiras, letra e música de Milheiras para o novo disco da Trezinha Landeiro, "Para Dançar e Para Chorar". De resto, é um disco que cruza também algum folclore, canção, fado. Aqui está o novo trabalho da Trezinha Landeiro, que recebemos hoje aqui na Rádio Observador, neste Ao Vivo. Podem ainda apanhar a Trezinha ao vivo, ainda em novembro, no próximo dia 16, Estarreja, dia 23 de novembro, Ponte de Lima. Depois, em dezembro, a passagem no dia 3 pelo Festival Fado de Sevilha e no dia 7 há concerto na Casa da Música, no Porto. Aí está mais uma oportunidade para ver ao vivo a Trezinha Landeiro com as canções de "Para Dançar e Para Chorar". Muito obrigado por teres vindo à Rádio Observador e muitos parabéns.

Obrigada pelo convite.

Este disco é de fevereiro.

Fevereiro.

Vamos ver o que nos traz 2025. Ainda é cedo.

Sim, mas há qualquer coisa por aí. Vamos ver.

Ok. Ficamos à espera. Trezinha Landeiro, nossa convidada. Obrigado.

Obrigada.

Obrigada por ter ouvido este podcast. Se gostou, pode subscrevê-lo, pode partilhá-lo e também pode ouvir a Rádio Observador online em 98.7 em Lisboa e em 98.4 no Porto.