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Se quer aprender a comer, está no sítio certo. Este é o programa da Rádio Observador, onde recebemos as preciosas dicas da nutricionista Mariana Chaves. Olá, Mariana.
Olá, Maria.
E cá por Portugal, Mariana, estamos muito familiarizados com a roda dos alimentos. Nos Estados Unidos é diferente. Apresentaram-nos uma nova pirâmide alimentar, que está inclusive a gerar muita discussão e até alguma polêmica.
Sem dúvida.
O que mudou, Mariana? Conta-nos tudo.
Mudou imenso. É uma das maiores reformulações nutricionais das últimas décadas. É uma espécie de uma pirâmide invertida, que gerou aqui muita polêmica. Agora que toda a poeira já assentou, vamos nós analisar aqui as duas com muita calma. Mas uma grande mudança foi que colocou no topo, portanto, uma pirâmide invertida, em que no topo estão, além dos vegetais e da fruta, as proteínas, as gorduras e os grãos integrais. Portanto, os cereais apenas aparecem no vértice inferior desta pirâmide, que normalmente estava na base.
E agora passam a estar na parte de baixo.
Exatamente. E depois há aqui uma recomendação muito clara desta pirâmide para aumentarmos o consumo de proteína de alta qualidade em todas as refeições. Tudo bem, mas focam-se muito nas carnes vermelhas, nos ovos e nos laticínios gordos. E ao mesmo tempo, fazem aqui um cerco muito firme aos alimentos ultraprocessados e aos hidratos de carbono refinados. Falam também de uma expressão de comida de verdade, para reforçar que nossa alimentação tem que ser minimamente processada. Tudo isso, evitar os ingredientes artificiais, os açúcares adicionados. Gerou bastante discussão também porque tem aqui, por um lado, este destaque grande às carnes vermelhas e aos laticínios gordos, que não está de acordo com as recomendações internacionais associadas, por exemplo, à saúde cardiovascular, e também, por outro, tem aqui pouca ênfase em alguns ingredientes que normalmente estão também associados a uma alimentação mais saudável, como o peixe, por exemplo.
Conseguimos perceber aqui a natureza de alguma polêmica que se tem gerado. Mas trazendo um pouco esta pirâmide invertida para a realidade portuguesa, como é que se compara esta pirâmide invertida à nossa roda dos alimentos?
Tem uma lógica muito diferente. Nós temos uma representação que é um prato, é um círculo. E, portanto, não temos hierarquias entre grupos, que faz todo sentido, ao contrário da pirâmide, porque na verdade nós queremos é complementariedade. Ou seja, nós queremos compor um dia alimentar que seja equilibrado e que vai precisar de vários grupos alimentares. Uns em maior quantidade, e por isso a fatia é maior, e outros em menor, por isso a fatia é menor. Isso também está organizada, bastante mais organizada do que a pirâmide, diga-se de passagem, quando virem a imagem, por afinidades nutricionais, ou seja, pelos nutrientes que aquele grupo nos dá. E nós realmente conseguimos fazer aqui muito mais associação, por exemplo, com a nossa cultura e com os nossos hábitos, porque estão lá produtos que nós estamos habituados a comer e que fazem parte, por exemplo, da alimentação mediterrânica. Nós também temos uma pirâmide, pirâmide mediterrânica, que usamos em Portugal, e que não substitui a roda, e que fala, por exemplo, acrescenta a esta roda dos alimentos o estilo de vida mediterrânica, em que nós devemos valorizar tudo o que são produtos sazonais, devemos confeccionar em família, estar em família nas nossas refeições. Portanto, nós temos muita informação com esta roda de alimento e com este acrescento, e penso que esta pirâmide pouco ou nada vem trazer para a nossa cultura portuguesa.
Então não há nada que possamos aproveitar aqui para a nossa cultura?
Há sim algumas boas ideias que nos podem fazer refletir.
Ok, nem tudo é mau.
Nem tudo é mau, exatamente, porque a mensagem de base é privilegiar a comida de verdade. E isso é útil. Se for bem explicado, isso é útil. Mas também é importante nós dizermos, por exemplo, que nem todos os processados, de forma generalizada, são maus, porque imagina, já falámos aqui em vários programas sobre, por exemplo, legumes congelados, sobre iogurtes sem açúcar, sobre conservas naturais, conservas de peixe. Portanto, isto leva algum processamento, por isso não podemos colocar tudo dentro do mesmo saco. Os ultraprocessados, sem dúvida, é para evitar, com aquelas listas de ingredientes muito longas e artificiais. Portanto, isso faz sentido. Essa recomendação de evitar os ultraprocessados faz sentido em qualquer parte do mundo. Mas o tom desta nova pirâmide é muito do tudo ou nada. E em Portugal, onde nós comemos sopa, onde nós comemos fruta, peixe, azeite, com regularidade, o foco pode ser um pouco mais equilibrado.
Ok, e eu tenho aqui uma curiosidade muito específica, que é: esta nova pirâmide recomenda no máximo 10 g de açúcar por refeição. Isto é realista?
Olha, isto é um trabulhão enorme para os americanos.
Ainda por cima para a realidade deles.
Completamente.
Que é muito dispar da nossa.
Muito. Isto para eles é realmente um oito ou 80. É muito ambicioso. Vamos dizer, com ótimas intenções, mas muito ambicioso. Estas 10 g de açúcar adicionado, atenção, também é importante dizer, equivale a duas colheres de chá, facilmente ultrapassado, infelizmente, com um refrigerante, com umas bolachas. Mas claro que é uma recomendação que poderia ser útil. Aliás, eles até são mais exigentes, porque até os 10 anos de idade eles põem zero de açúcar. Até os 10 anos de idade
Parece ser ainda mais difícil.
Ainda mais difícil. Agora, a verdade é que nós temos recomendações da Organização Mundial de Saúde de consumo diário de açúcar, e não por refeição, que idealmente não devem ultrapassar 25 gramas. E portanto, também dá-nos que pensar que esta recomendação, de repente, que é feita de outra forma, pode-nos confundir, que é 10 gramas por refeição. Então, e se fizermos cinco refeições ao dia? Isto vai dar uma quantidade maior.
Sim.
Portanto, é uma indicação que é muito exigente para eles, mas eu também não sei até que ponto é muito importante ficarmos agarrados a esta recomendação. O açúcar sabemos que deve ser limitado. Também temos que trabalhar no "Aprender a Comer", a ler rótulos, por exemplo, a saber como ler este açúcar, que claramente nós devemos limitar o melhor possível, o mais possível.
É um ponto muito controverso, mas há outros, Mariana.
Sem dúvida. Eu acho que o maior, o mais controverso de todos é esta questão da gordura animal, porque ele fala em manteiga, mas também fala em sebo, em gordura de vaca, para utilizar para confeccionar. Ou seja, isto contradiz recomendações muito amplas que nós temos da Organização Mundial de Saúde, em que nós devemos limitar a gordura saturada, portanto esta gordura animal, diariamente para o máximo de 10% das nossas calorias diárias. Ou seja, é não utilizar de forma regular, é utilizar laticínios meios gordos para a população em geral, alguns em específico, se calhar, têm que ser magros, é utilizar o azeite como fonte primordial, que não é gordura saturada. E depois há aqui um ponto muito polémico, que é termos pouquíssimo peixe. Temos aqui uma posta de salmão mínima. Temos também uma embalagem de carne picada, que também não parece ser a melhor recomendação. Uma carne picada que poderá ter muita gordura ali no meio, parece que não valorizam isso. As leguminosas estão aqui um pouco, mas muito disfarçadas, apenas em ervilhas. E portanto, nós sabemos que as leguminosas, como feijão, grão-de-bico, as lentilhas, deveriam ter um destaque mais importante como fonte de proteína vegetal. E portanto, eu acho que o modelo americano aqui apresentado não é neutro. Acho que tem escolhas culturais, talvez comerciais por trás, diria eu. Foi muito aplaudido pela indústria da carne, e eu acho que tem que ser analisado com espírito crítico, como fazemos sempre aqui.
E no teu espírito crítico, coisas negativas, encontrámos algumas.
Sim.
Coisas positivas neste novo modelo, consegues encontrar alguma?
Consigo encontrar algumas, que acho que faz sentido. Ele faz realmente um reforço do consumo de proteína.
Ok.
No caso, fala muito em proteína animal, os laticínios, as carnes, que nós também sabemos que podemos ir buscar às nossas leguminosas, ao tofu, etc. Também os frutos secos, também a aveia, também é fonte de proteína, mas realmente ele fala aqui em números e isso também eu acho que é importante. Fala em 1,2 a 1,6 gramas de proteína por quilo de peso. Isto é especialmente importante até para os idosos e pessoas com perdas de massa muscular significativas. Por exemplo, agora, com esta grande moda de medicação para perder peso, as pessoas andam a perder muita massa muscular.
As injetáveis.
Exatamente. Podemos até fazer um programa sobre isso.
Fica aqui a sugestão.
Exatamente. Mas que realmente andam a perder grande massa muscular e portanto, temos que fazer foco nisso, temos que fazer foco no exercício com regularidade. Essa é uma parte positiva, e é uma ótima oportunidade para ensinar de onde é que vem a proteína e reforçar. Também fala aqui de outros pontos positivos, por exemplo, em relação ao consumo de álcool. Fala na restrição, na limitação, para melhorar a saúde em geral.
Mas que não é uma novidade, no fundo.
Não é. Essa não é uma novidade, mas é importante ele falar em vários pontos que têm a ver com o comportamento da alimentação relacionada com a saúde. Por exemplo, fala lá que é recomendado incentivar os adolescentes a participarem nas compras dos alimentos e na preparação das refeições para aprenderem a fazer escolhas alimentares saudáveis para a vida. Isso parece-me um ótimo conselho, desde pequeninos, terem esse hábito. Pequeninos, adolescentes, que é uma idade em que nem sempre intervêm dessa forma. E também o fato de se apontar para alimentos de verdade, acho que faz todo sentido. Também temos aqui bastantes frutos secos, também é um ponto positivo. Mas ainda assim, como digo, acho que há aqui alguns alimentos que deveriam ter um pouquinho mais de destaque e não sei se isto terá assim tanta aplicação para nós, portugueses, que já temos uma boa base com a nossa roda dos alimentos.
Sim, se calhar o melhor conselho é mesmo continuarmos focados na nossa roda dos alimentos. Já sabe que se tiver alguma questão, pode colocá-la diretamente à Mariana Chaves, pode escrever-nos para o e-mail marianachaves@observador.pt e se nos ouve nas plataformas de podcast, a Mariana Chaves também tem uma pergunta para si. Passe no Spotify e interaja conosco. Esta edição de "Aprender a Comer" fica por aqui. Quanto a ti, Mariana, estás de regresso sexta-feira. Até lá.
Até lá.