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Olá, sejam bem-vindos a mais um "Artigo 38". O meu convidado desta semana é José Eduardo Moniz. Eu ia dizer o jornalista José Eduardo Moniz, não sei se ainda é jornalista ou não.

Eu sou jornalista. A carteira profissional baixinha, quatrocentos e pouco. Não, cento e pouco.

E nunca alargou?

Nunca alarguei, nem alargarei. Eu sou jornalista e tenho muito orgulho em afirmar isso.

Aliás, ultimamente temo-lo visto num programa onde faz jornalismo. Mas eu ontem estava no meu feed de Facebook e de repente vejo-o a ser hipnotizado. O que foi aquilo?

Não, foi apenas uma situação de, sendo aquilo um programa de fact-checking, eu queria fazer a demonstração de que aquela operação que o professor que ali estava entendia e conseguia fazer, era real.

José Eduardo, você não estava nada hipnotizado.

Estava.

Não estava nada.

Não estou aqui a mentir. Houve ali um período de ausência. Ligeira, mas de ausência.

Eu achei muita graça a isso.

Eu acho que nós temos que nos desconstruir um bocado. Eu detesto o jornalismo formal, engravatado. Os tempos mudaram, nós vivemos numa outra era. E acho que nós não só nos temos de aproximar das pessoas, como temos que saber falar com elas. Não é usar truques, é saber falar com elas. Porque como nós estávamos a conversar há pouco ali fora, há uma realidade. Hoje em dia, às 8 da noite, quando as pessoas chegam a casa, já sabem tudo, já viram tudo, já estão mais do que informadas. E, portanto, nós temos que saber para que é que servimos hoje em dia. Não é só para dizer que o que se diz no Facebook é mentira ou que o Instagram também veicula coisas que não são verdadeiras. Não é isso. Nós temos muito mais do que isso para fazer. E, portanto, temos que saber, de facto, chegar às pessoas.

Certo. Com esta mudança na presidência do grupo Media Capital, surgiram notícias em que se dizia mesmo assim: "Chegou ao fim a era de José Eduardo Moniz enquanto consultor de conteúdos de entretenimento e ficção da TV", e que teria passado para estar a trabalhar na Plural, a produtora de telenovelas.

Eu estou a trabalhar na Plural desde que fui contratado pela Media Capital. Eu tenho lá uma sala na Plural desde sempre. Eu, com a Rosa Colello, o que fazia era basicamente encontrar-me com ela quando ela pretendia e queria, e desempenhava as funções que ela me pedia ocasionalmente para fazer. E dava as opiniões que entendia. Com a conversa que eu tive com o Luís Cabral, vai no mesmo sentido. Portanto, eu não percebo porque é que estas notícias surgem da forma que surgem.

E por que é que surgem da forma que surgem?

Não sei, acho que há muita especulação no mercado, acho que hoje se vive muito do diz que diz, e acho que há muito jogo oculto. Eu não estou a falar dentro da TVI, estou a falar no meio. E como isto aqui é uma espécie de salve-se quem puder no conjunto da nossa atividade, infelizmente. Seja porque as empresas atravessam dificuldades financeiras, seja porque a instabilidade nos empregos é muito grande, seja porque as redações estão cheias de estagiários e de gente sem memória, seja por um conjunto de razões que não vale a pena nós estarmos aqui a escalpelizar, até porque o tempo não chegaria, nós assistimos à veiculação de muita informação que não corresponde à verdade, pura e simplesmente. É preciso as pessoas entenderem uma coisa: eu neste momento faço aquilo que me apetece fazer. É um privilégio. Pode parecer presunção da minha parte, mas é mesmo assim. Eu neste momento só faço o que me apetece fazer. Portanto, se amanhã alguém me chatear, eu vou-me embora.

E o que é que lhe apetece fazer?

É tão simples quanto isso.

O que é que lhe apetece fazer hoje em dia?

Apetece-me fazer bom jornalismo e apetece-me ter boa ficção, que eu gosto. Eu gosto de contar histórias. Eu acho que nós todos gostamos de contar histórias e gostamos de ter opinião. E um jornalista, um autor, um ator, no fundo, nós ou inventamos as histórias ou as materializamos de uma forma qualquer. E é isso que eu gosto de fazer. Se as coisas surgirem da forma como eu estou a referir, boas, modernas, inovadoras. Eu gosto de inovar. Não gosto de estar sempre na mesma pasmaceira. Fico arrepiado quando vejo que as pessoas se mantêm agarradas a modelos que persistem há muito tempo e que têm que evoluir. Fatalmente, têm que evoluir. Isso eu fico arrepiado, e fico triste, e fico aborrecido. Nessas alturas é que me apetece ir embora.

O José Eduardo Moniz está ligado à TVI, que neste momento, depois de muitos anos na liderança das audiências, foi ultrapassada pela SIC. O que é que falhou? É mérito da SIC, é demérito da TVI, o que é que se passou?

Você vai me permitir que eu não entre por esse caminho, porque, como você disse, e bem, eu sou consultor da TVI.

Não quer contar os segredos.

Quem tem que se pronunciar sobre estas matérias são os elementos da administração da TVI e os seus diretores, não eu. Eu sou consultor da TVI. Como consultor, dou opiniões, não faço mais do que isso.

Mas não nos quer dar aqui a sua opinião.

Se as seguem ou não seguem, isso já é outro problema, mas não vou entrar por esse caminho.

Certo. Ok, muito bem. Acho isso legítimo. Tem uma carreira muito longa no domínio da televisão.

E com muito orgulho.

E com muito orgulho. Ao longo do seu percurso fez muita coisa. Começou como diretor nos tempos de uma RTP monopolista. Teve o privilégio de assistir à chegada dos canais privados. Quando olha para esse tempo, qual diria que foi a época de ouro da televisão em Portugal?

Há vários períodos de épocas de ouro. Devo dizer que o período de 89 a 93, em que eu trabalhei na RTP e em que pela primeira vez me deram a responsabilidade de eu ficar com a informação e a programação nas mãos, foi porventura o período mais desafiante para mim. Eu estou a falar sempre na minha perspectiva.

Ou seja, está a falar do tempo em que foram introduzidos os canais privados em Portugal.

Foi o antes e o depois.

O antes e o depois, exatamente.

Isto é, houve que fazer uma transformação muito grande na RTP, uma transformação de mentalidades brutal. As pessoas não tinham noção do que estava a acontecer no interior da RTP, porque contrariamente ao que aparecia escrito nos jornais, etc., e se dizia em comícios e em todo lado, a RTP estava a fazer uma revolução silenciosa. Nós mudámos uma redação inteira ou quase toda, sem ninguém dar por isso, com jovens vindos das universidades. E andámos a prepará-los durante dois anos e pouco, para que a informação da RTP deixasse de ser aquilo que era: apontada a dedo, como sendo dependente dos governos, como sendo seguidista, etc.

E era?

Não era seguidista. Eu sempre funcionei na lógica, e sim um bocadinho maoísta, mas de dar dois passos à frente para quando tivesse que dar um passo atrás, estar sempre a ganhar um. Sempre fiz isso. E consegui estabelecer uma relação com aquelas que eram as chamadas forças políticas dominantes na altura, e que ainda são basicamente as mesmas duas, um tipo de relação que era uma relação de respeito. Quando eu tenho um conflito com o doutor Mário Soares, por exemplo, em antena, e depois ficámos a dar-nos muito bem.

Quando é que isso foi?

Foi em 90, 90 e poucos.

Que conflito foi esse?

O doutor Mário Soares mandou uma mensagem ao Parlamento a dizer que a RTP manipulava e fazia isto e fazia aquilo. E eu, como diretor da RTP, assumi as dores da RTP, obviamente. Fui à antena e respondi à letra. Foi uma coisa nunca vista. Pediram a minha cabeça no Parlamento, etc. Na altura estava na RTP, porventura, aquele que foi o melhor presidente com quem eu lidei na vida, chamado José Manuel Coelhos Ribeiro, em relação a quem nunca ninguém prestou a devida homenagem. Ele tinha sido bastonário da Ordem dos Advogados e que fazia despachos fantásticos. Quando vinham queixas do gabinete do Primeiro-Ministro, Cavaco Silva ou da Presidência da República, fazia uns despachos daqueles que eu não vou aqui escalpelizar e dizer o que significava, mas era: "PQP, extravie-se." Eram estes os comentários, as notas, os despachos que ele fazia nas cartas que recebia. Ou então dizia: "Essa matéria é da responsabilidade do diretor de informação, faça o favor de se dirigir a ele." Portanto, foi de facto um período em que se conseguiu trabalhar no sentido de preparar a RTP para enfrentar as mudanças que o audiovisual ia sofrer. E de facto, quando a SIC apareceu e foi a primeira, e toda a gente dizia que nós íamos morrer, a verdade é que não morremos. Não morremos e demos um baile desgraçado, durante muito tempo. Até 94. Eu saí em maio de 94, precisamente porque não estava feliz. E quando eu não estou feliz, vou-me embora.

E por que não estava feliz?

Não estava feliz, basicamente, porque achava que havia muita gente a querer meter a colher onde não devia, nomeadamente naquilo que era o novo perfil de informação da RTP, que era um perfil mais agressivo, muito distanciado, na linha daquilo que eu havia feito antes em relação ao doutor Mário Soares.

Então diria que a fama da RTP e da informação da RTP estar nas mãos dos governos é uma fama injusta?

Não, ela esteve nas mãos dos governos durante muito tempo. E houve muito jogo de divisão de poder, ora PS, ora PSD. Não vamos ignorar isso. Ora PS, ora PSD, ora PCP, consoante as ondas, assim estavam lá as pessoas. Agora, houve um esforço muito grande nesses anos que eu estou a referir, de transformação de tudo isto. E a circunstância de eu não ser membro de partido nenhum, nunca ter querido ser. A única coisa em que eu estou filiado é no Benfica, não estou filiado em mais nada. Permite-me ter uma à-vontade muito grande em relação a qualquer matéria. Quando houve o tal conflito com o doutor Soares, sanado de uma maneira extraordinária, que é um episódio que vale a pena contar.

Então conte.

Que foi sanado não por minha iniciativa, foi sanado por iniciativa da Manuel, que ligou para o chefe da Casa Civil do Presidente da República e disse: "Bom, eu gostava de convidar o Presidente da República para almoçar." Ela. E a resposta que veio de lá foi, no dia seguinte: "O senhor presidente gostaria muito, de facto, de almoçar consigo, mas é ele que a vai convidar. E como certamente vão falar do seu marido, melhor ele vir junto."

Ok.

E então chegamos a Belém, esperámos que o Presidente da República entrasse numa salinha pequena de espera. Quando ele entrou, sentámo-nos e ele disse: "Bom, vamos resolver o nosso assunto antes do almoço." E então desbobinou tudo quanto tinha para desbobinar, mas tudo. E eu ouvi-o absolutamente em silêncio. Quando ele terminou, eu disse: "O senhor presidente autoriza-me agora que fale?" "Com certeza." Eu disse: "Senhor presidente, se fosse hoje, eu faria rigorosamente a mesma coisa. Por isto." Expliquei-lhe qual era a minha estratégia para a informação da TV. Portanto, estivemos ali.

Da RTP.

Da RTP. Estivemos aí durante 15 minutos à conversa, no fim dos 15 minutos, eu disse: "Vamos almoçar." E não se falou mais no assunto. E ficámos com uma ótima relação a partir daí, porque ele percebeu que eu não estava ali para fazer favores a ninguém. Nem me disponho a fazer favores a ninguém, nem hoje nem no passado. Podem dizer o que quiserem de mim, cobras e lagartos, até podem dizer que eu fazia os fretes, é-me indiferente, porque não é verdade.

Numa entrevista sua ao Público, em 2008, dizia o seguinte: "Fui várias vezes para a prateleira da RTP, consoante mudavam os governos, eu ia para a prateleira. A piada era que os mesmos governos que me tinham posto na prateleira, passados dois meses, ou três, ou quatro, ou cinco, me vinham convidar para voltar. Não tenho dúvidas sobre a transitoriedade das coisas". Imagino que mantenha esta afirmação.

Da transitoriedade, total.

E esta ida e saída da prateleira?

Sabe, uma coisa que a gente se vai habituando ao longo do tempo. Sabe por quê? A primeira vez que eu fui para a prateleira, para quem dizia que eu era do PSD, uns diziam que eu era do PS, outros diziam que eu era do PSD, e depois que tinha traído o PS e tinha traído o PSD. Eu ria-me com essas coisas todas, porque eu acho que um jornalista está aqui exatamente para dizer o que pensa, independentemente dos rótulos que lhe apliquem depois. A primeira vez que eu fui para a prateleira foi com o Bloco Central, foi com o governo do Bloco Central. Assim, tal e qual. E ao fim de três meses de vigência do Bloco Central na informação da RTP, há um secretário de Estado da Presidência do Conselho de Ministros que pede pra falar comigo. Eu lembro, eu estava a fazer os noticiários da Rádio Renascença na altura, das 19h às 22h, eu não estava desocupado. E fui lá falar com o senhor. E ele diz-me assim: "Nós queremos que você volte para diretor, para tomar conta da informação da RTP". E eu disse: "Bom, mas a que título? Os senhores correram comigo há três meses". "Não, isso porque está tudo muito mal, não pode ser, tem que se rearrumar a casa outra vez, tem que se fazer uma informação séria". Séria, não sei se devia levar aspas ou não, isso é outro problema. E eu disse: "Tudo bem, desde que eu possa constituir a minha equipa, não tenho qualquer espécie de dificuldade nisso". Uma equipa, obviamente, com pessoas que trabalham lá dentro. "Não, mas nós temos aqui já um diretor adjunto para si". Eu disse: "Então, olhe, governe-se com o diretor adjunto, porque eu não aceito". E continuei mais um período, exatamente na mesma situação. Passados quatro meses, cinco meses, houve um secretário de Estado do outro partido.

Isto está a falar mais ou menos em que época?

Época do Bloco Central, portanto, 80 e qualquer coisa.

Ok, certo.

Mota Pinto, Mário Soares.

Certo. Estamos falando, sim, da primeira década de 80.

Um secretário de Estado do outro partido da coligação, pede pra falar comigo, do partido majoritário da coligação. Pede pra falar comigo e diz: "Bom, você tem que voltar". A mesma conversa, basicamente, que eu tinha tido anteriormente. E eu disse: "Não tem problema nenhum, desde que eu possa constituir a minha equipe e que tenha capacidade de ação, como eu no passado tive". "Tudo bem, mas quem é que será a sua equipe?" "Bom, esse é um problema meu. Na altura, obviamente, eu falarei com o conselho de administração da RTP e certamente encontraremos a equipa adequada". E ele responde: "Bom, mas nós temos um nome para lhe sugerir como diretor adjunto". Eu disse: "Bom, lamento imenso, mas esse nome não só não aceito, como isso é matéria suficiente para nós interrompermos a nossa conversa".

Pela segunda vez.

Exatamente, portanto, foi assim. Isto aconteceu tal e qual.

Certo. Mas isso significa que também que o José Eduardo não é uma pessoa rancorosa, nesse sentido de ter uma espécie de lucidez sobre as coisas.

Não, o princípio da transitoriedade para mim é válido. Em todos os aspectos. Isto é, as pessoas têm as suas estratégias, cada um pensa como quer pensar e atua como quer atuar. Eu posso concordar ou não. Só há duas pessoas com quem eu cortei relações na vida, porque achei que foram pessoas que foram manifestamente desonestas comigo.

E quem foram? Pode saber?

Não, prefiro não dizer. Uma delas já nem está viva, portanto, não.

Então só já sobra uma. Devia dizer quem é, quem está sabendo.

Porque mesmo quando nós temos adversários, nós temos que ter respeito por eles. E temos que usar armas limpas. Podemos não gostar dos truques que nós fazemos para obter mais audiência ou menos audiência, mas devemos ser minimamente leais na forma como funcionamos e na forma como nos pronunciamos uns sobre os outros. E portanto, eu senti-me muito agredido. Houve uma ocasião mesmo em que, inclusive, mal eu pus os pés na TV, por exemplo, tive logo um processo na Polícia Judiciária por causa de um fim de semana em que a SIC se entreteve a dar uma notícia de que eu tinha ido fazer uma viagem ao Brasil com a Manuela a troco de não sei o quê. É evidente que o processo foi arquivado ao fim de um mês e meio. Ao fim de um mês e meio, nessa altura, a justiça foi célere, muito célere na investigação. Perguntou-me o procurador quando me anunciou o arquivamento, perguntou-me se eu queria pôr um processo à SIC e ao seu diretor. E eu disse: "Não".

Está a falar de Emídio Rangel na altura?

Sim, eu disse: "Não, não quero, porque eu acho que jornalista não põe processo a jornalista".

Acha que o Emídio Rangel foi o seu grande adversário na luta pelas audiências?

Acho que foi um bom adversário. Acho que era, acima de tudo, um líder. Eu não vou dizer que ele sabia muito de televisão, porque não tenho essa opinião. Tenho opinião, sim, de que ele era um bom líder, era um bom chefe e era um homem que conseguia mobilizar as pessoas, tinha um espírito de aventura e de risco, que é uma coisa que eu aprecio. Eu acho que a vida sem risco não tem interesse. E só arrisca quem tem confiança nele próprio Nesses termos, eu obviamente tenho que reconhecer que ele foi um bom adversário.

Chegou a enfrentá-lo quando estava na RTP?

Sim, enquanto eu estive na RTP ganhei sempre.

E depois na TVI, novamente.

E depois na TVI. Enquanto estive na RTP, ganhei sempre. Depois saí. Eu saí em maio. Passado pouco tempo, a RTP começou a cair. Eu podia ter passado pelas três televisões. Não passei, porque não quis.

Sim? Está a nos dar aí uma novidade. Porque depois do Emídio Rangel sair, foi convidado pela SIC?

Ainda com ele lá.

Então por que não foi pra SIC nessa altura?

Porque as circunstâncias não se proporcionaram.

Muito bem. Estamos aqui à conversa com José Eduardo Moniz, em mais uma edição deste "Artigo 38". Vamos interromper aqui para um brevíssimo intervalo e voltamos já a seguir para esta segunda parte da nossa conversa. Olá, sejam bem-vindos à segunda parte do "Artigo 38". O meu convidado desta semana é o jornalista José Eduardo Moniz. O José Eduardo, é verdade que saiu de muitos lados, mas quando saiu, não sair em condições de rutura. Quando eu digo condições de rutura é não sair dos sítios a protestar excessivamente dos sítios de onde saiu. Houve, nomeadamente, uma saída, que era dessa que gostava de abordar consigo, muito badalada, que foi a de 2009 da TVI. Eu gostava um pouco que nos contasse esse processo. Em primeiro lugar, nós sabemos toda a polêmica que houve com a Manuela Mauro Guedes, sua mulher, por causa do Jornal Nacional, da TVI. Ela sai e pouco tempo depois o José Eduardo Moniz também sai. As duas coisas estão relacionadas?

Obviamente estão relacionadas. Vamos por partes. A informação que a TVI tinha, era uma informação com um determinado perfil, que enquanto a TVI não foi líder, não causou problemas a ninguém. A partir do momento em que se tornou líder, aí começamos a ter o governo muito chateado, começamos a ter os partidos políticos muito incomodados e começamos a ter pressões a caírem sobre a redação e sobre a administração da empresa. Eu sou pouco dado a aceitar essas coisas. Reago normalmente ao contrário. Considero-me uma pessoa sensata e prudente, mas reajo normalmente ao contrário. Ora, se eu defino um perfil para a informação, eu quero que esse perfil se mantenha, seja executado e seja bem-sucedido, porque eu acredito nele. E portanto, foi isso que a TVI fez. Aliás, quando nós começamos, nós tivemos que enfrentar dois gigantes, a SIC de um lado e a RTP do outro. Nós éramos minúsculos. E aquilo que eu defini foi: "Vamos pelo meio". Eles tão grandes são, tornaram-se institucionais os dois. Portanto, nós vamos romper com este modelo. Eu não tinha grandes jornalistas, eu tinha estagiários, basicamente, porque nós não tínhamos dinheiro pra mais. Mas o que nós fazíamos era incutir nos estagiários ou nos repórteres que iam pra rua, a necessidade de eles chegarem com matéria que fosse diferenciadora. E dizíamos claramente: "Vocês vão com o microfone pra rua pra incomodarem quem tem poder, porque nós estamos aqui pra questionar quem tem poder. Não faz sentido que seja de outra forma". E sustentei isto desde o princípio. Toda a gente sabe, dentro daquela redação, que eu funcionei assim e sempre dei cobertura a toda a gente. Sempre dei cobertura. Eu não quero estar a falar muito sobre matérias da TVI, porque como devem imaginar, sendo eu consultor da TVI, há aqui princípios éticos que eu devo minimamente respeitar e não quero aprofundar, nem devo aprofundar. Mas obviamente foram episódios tão públicos que naturalmente não é preocupante falar deles. A partir de um determinado momento, nomeadamente no governo de José Sócrates, mas já antes com Pedro Santana Lopes, as pressões sobre a TVI eram muito grandes. Eu lidei com o Guterres e lidei com Durão Barroso, que qualquer um deles, à sua maneira, me faziam chegar os seus desencantos, mas de uma maneira civilizadíssima. Eram pessoas com quem nós podíamos conversar. Eles podiam discordar ou não, mas eram pessoas com quem falávamos tranquilamente. Aceitavam ou não aceitavam, mas a vida continuava na mesma. Agora, com Sócrates, nada disso.

E com Santana, primeiro?

Mas Santana não era de forma direta. Aliás, eu acho que não foi tanto ele, foram mais esbiros dele do que propriamente ele. Acho que muitas vezes os lacaios são muito mais.

E quem eram esses lacaios?

Não adianta estar aqui a mencionar nomes.

É a sua prudência, então, é?

Não interessa, pra quê? Já pertence ao passado, não interessa.

Não, é importante relembrar o passado.

Não interessa. Até porque eu acho que o Santana Lopes é um homem muito voluntarioso e corajoso. E a coragem eu aprecio. Agora, há outras pessoas que são uns cobardolas, que nós sabemos há muitos anos, que se põem em bicos de pés em determinados momentos, mas que objetivamente não valem nada e portanto, muitas vezes entalam aqueles que deviam proteger. Mas no caso do Sócrates foi diferente.

Mas está a falar de colegas seus antigos do Benfica, não?

Não estou a falar de ninguém em particular.

Só pra saber.

Não estou a falar de ninguém em particular neste momento. Percebo onde quer chegar, mas não me apanha nessa.

Mas no caso do Sócrates estava a dizer, há uma diferença?

Há uma diferença enorme. Sócrates arranjava formas de pressão direta sobre a redação e indiretas utilizando a própria administração da empresa. Portanto, foi um período muito duro. E aí tive muitas vezes de puxar os galões e não tenho a mínima dúvida que a minha capacidade para manter a TVI no mesmo rumo que ela estava a seguir se devia basicamente a dois fatores. Primeiro, as audiências que eram esmagadoras. Segundo, as receitas que eram correspondentes às audiências. E portanto, havia um risco grande de mexer nisto.

Então como é que se explica que sendo uma televisão líder, o Jornal Nacional da Manuela Moura Guedes era o jornal nacional mais visto, era o programa de informação mais visto do país. Como é que explica que ele tenha acabado?

Há duas situações diferentes. A primeira situação foi a da saída da Manuela como apresentadora do jornal de segunda a sexta-feira. Nessa altura, eu não autorizaria que isso tivesse acontecido, em nenhuma circunstância. Nem que isso correspondesse à minha saída da empresa. O que a Manuela fez foi uma coisa muito simples: foi aproveitar uma ausência minha da TVI para se dirigir à administração da TVI e dizer: "Eu saio da apresentação do jornal". E depois explicou-me que fez isso porque senão tinha plena noção de que eu iria partir a loiça. E que isso poderia ter repercussões muito negativas na empresa. Essa foi uma atitude dela. Confesso que na altura me achei nobre, foi uma atitude muito nobre. Pensou mais na empresa do que nela própria, o que me emocionou muito na altura, confesso, mas eu fiquei à mesma hesitando sobre o que deveria fazer. Mas mantive na cabeça que ela ia voltar. Isso para mim ficou claro. E a verdade é que ela voltou.

Com um extra bônus.

Voltou com um jornal, que se não tivesse sido ela a fazer, seria eu a fazer. Porque era exatamente aquilo que eu queria que fosse feito. As pessoas não sabem, mas eu estava lá na redação. Às 19h, 18h eu estava na redação. Às 11h eu estava na redação. Portanto, eu não era um diretor distante. Nunca fui um diretor distante.

E as críticas que se faziam em relação ao tom? Ou seja, existe quase uma separação entre uma coisa é o conteúdo das reportagens, outra coisa é a maneira como és.

Eu estou-me nas tintas para isso. A mim o que me interessa é que a mensagem chegue e que a notícia que eu dou e que a informação que eu proporciono seja uma informação verdadeira. As pessoas podem gostar ou não do estilo, mas também eu posso gostar dos seus sapatos ou não, ou você pode gostar dos meus ou não. Portanto, isso é-me igual ao litro. Era agressivo? O que é agressividade? Não sei definir. Era acutilante? Prefiro mais esse termo do que ser agressivo. Enfim, acho que nós prestamos um serviço inestimável ao país.

Que ainda hoje não é reconhecido?

Acho que não é reconhecido. Ou melhor, já se reconhece. Acho que se reconhece a partir do momento em que muitas coisas saltaram para a luz do dia e, portanto, todos os processos judiciais que estão em curso são demonstrativos disso. A circunstância de nenhum processo judicial ter sido perdido por nós em função de notícias dadas pela TVI nessa altura, falam por si. Agora, eu costumo dizer que esta atividade, e nomeadamente ser jornalista ou ser responsável de uma estação de televisão ou de qualquer órgão de informação, obriga a que as pessoas tenham coragem. Não quero utilizar uma expressão popular.

Força!

Tenha os ditos no sítio. Isso obriga. E que esteja preparado para arcar com as consequências. Portanto, a partir do momento em que eu decidi sair da TVI. Eu decidi sair da TVI quando percebi que eu já não tinha nada a ver com, ou melhor, não é não ter nada a ver. Isto é, eu dificilmente iria continuar a poder conciliar as minhas divergências com quem era proprietário da empresa e que legitimamente, enquanto proprietário da empresa, pode definir o modelo que quer para a empresa. Porque eu sou daqueles que acreditam que se eu tenho um jornal, se eu fundo um jornal ou se tenho uma televisão e eu fundo uma televisão, a televisão deve ser aquilo que eu quero que ela seja. Portanto, se quem eu convidei para executar não faz aquilo que eu acho que deve ser, obviamente das duas uma: ou essa pessoa toma a iniciativa de se ir embora ou eu ponho-a na rua, porque eu acho que é assim que as coisas têm que funcionar. E portanto, quando me apercebi que nós estávamos em rotas divergentes, aquilo que eu fiz foi ir-me embora.

Mas está convencido que aquilo acabou não por uma decisão simples da administração da TVI, mas porque a administração da TVI cedeu a pressões do governo de José Sócrates?

Eu acho que José Sócrates teve um papel fundamental nessa altura, não tenho a mínima dúvida sobre isso. Eu acho que é uma perda de tempo até estarmos a discutir muito este assunto.

Mas há uma curiosidade que eu tenho. Os donos, aqueles que eram os donos da TVI, continuam a ser os donos da TVI. Isso para si não lhe ofereceu nunca nenhum problema, porque depois o José Eduardo mais tarde regressa à TVI.

Vamos por partes. Eu tive várias conversas com a Rosa Colello, CEO da empresa, antes de aceitar ser consultor da TVI e inicialmente para a área da ficção apenas Que é aquela para a qual mais sentido faz, neste momento, colaborar com a empresa. Neste momento e desde sempre colaborar com a empresa.

Acha que a informação está bem entregue?

Não. Essa foi uma questão que nunca se pôs e eu não me quero, sequer, envolver na informação da TVI.

Ok.

Portanto, esta é uma questão que, para mim, foi sagrada.

Por causa do passado.

Foi sagrada e definida desde o início. Não quero.

Mas por causa do passado?

Não interessa se é por causa do passado ou não, na minha cabeça ficou arrumado. Isto é, fui contactado para tentar fazer o relançamento da ficção da TVI, coisa que se conseguiu, e ponto final, parágrafo. Ao fim de várias reuniões, porque as minhas respostas iniciais foram sistematicamente "não". A própria Manuela me incentivou a aceitar. E criou-se uma relação com a Rosa Colaço, que foi uma relação de alguma confiança. Até que surgiu a proposta do Sérgio Figueiredo para eu fazer um programa de informação. Eu não pedi para fazer nenhum programa de informação. Portanto, isso pode traduzir, apesar de tudo, alguma evolução naquilo que foi o percurso feito pela TVI e aquilo que foi o raciocínio dos seus responsáveis, globalmente falando. E sobretudo, acho que foi muito importante a perceção de que o trabalho efetuado no passado, afinal, foi um trabalho sério. E foi indiscutivelmente um trabalho sério. Poder-se-ia não gostar do estilo, voltamos a essa questão, mas foi um trabalho seríssimo que obrigou a muita investigação, a muitas horas de trabalho e a muitas incompreensões.

Diga-me uma coisa, quando sai da TVI, há uma notícia do Correio da Manhã que diz que saiu com uma indemnização choruda de 3 milhões de euros e entrou na Ongoing, e que dizia: "Moniz ficará agora com a vice-presidência da empresa e uma posição acionista que não ultrapassará os 3%". Não sei o que é que nesta informação é verdadeiro ou não. Também imagino que queira ou não queira comentar, é consigo. A minha pergunta é: é ou não possível nós entendermos isto como, conhecendo hoje as ligações que o grupo Ongoing depois acaba por ter ao BES e indiretamente a José Sócrates, que o governo de Sócrates tentou comprar o silêncio na altura de José Eduardo Moniz para ele sair relativamente pacificamente?

Não tenho dúvidas nenhumas a esta distância.

Tentaram comprar o seu silêncio?

Não tenho dúvidas nenhumas. Isto é, eu fui seduzido por um projeto.

Mas não tinha consciência disso?

Não.

Foi um trabalho bem feito, então.

Aliás, a primeira abordagem feita por um grande amigo meu, que ainda hoje é amicíssimo meu, nós encontramo-nos todas as sextas-feiras para jantar. Foi tão ingénuo quanto eu nesse aspeto. Basicamente, eu tenho que lhe explicar isto: quando nós atingimos grandes audiências na TVI, eu disse: "Bom, nós batemos no teto. Para fazermos alguma coisa mais, para podermos ir mais longe, nós temos que sair de Portugal. Nós temos que nos internacionalizar." E comecei logo a pensar que devíamos ir para Angola, para o Brasil e para Moçambique, e comecei a trabalhar nisto. Entretanto, esta coisa esboroou-se. Por força da situação dentro da TVI, porque enfim, não estava a constituir uma prioridade, até porque entretanto desabou a crise de 2008. E portanto, com a crise de 2008, eu estava em conversas bastante adiantadas com uma estação de televisão no Brasil para podermos estabelecer um tipo de relação que permitisse à TVI expandir-se para aqueles lados. Portanto, o que me é proposto, ou o que me é apresentado, é um projeto que é um projeto para o universo da língua portuguesa na sua globalidade. E portanto, estamos a falar de Portugal, de Brasil, de Angola, de Moçambique, de Timor. Aliás, eu mandei viajar por estes sítios todos. E China. Portanto, subitamente, sou confrontado com a possibilidade de fazer aquilo com que eu tinha sonhado. Isto é, vão-me proporcionar meios para, eventualmente a partir do Brasil, porque nós estávamos a pensar, na altura, ou estava-se a pensar na altura, na aquisição de uma posição relevante numa televisão brasileira para se poder fazer precisamente esse projeto. Portanto, eu fui seduzido por isso. Você dir-me-á: "Bom, estava ceguinho." E eu respondendo: "Estava, estava ceguinho." Mas como ceguinho, ou como ceguinho que sou, também tive um bom guia, porque a dada altura os olhos abriram-se-me.

Sim, esteve lá pouco tempo, não é? Em 2012.

Tomei eu a iniciativa de me vir embora.

Porque percebeu que aquilo era um balão.

Porque percebi que era tudo uma fantochada, porque basicamente, aqui entre nós, eu negociei a compra de uma estação de televisão, foi fechado o acordo. No momento em que o dinheiro devia aparecer, não apareceu. Foi negociada uma estação de rádio. Estabelecidos os valores, no momento em que o dinheiro devia aparecer, não apareceu. Foi negociada uma participação numa televisão em África. Foi negociado o valor, negociei-o eu. Quando o dinheiro devia aparecer, não apareceu. Enfim, foi tudo assim. E portanto, chega uma altura em que você diz: "Bom..." Tivemos hipótese de fazer na China dois programas, um deles sendo Morangos com Açúcar. Quando o dinheiro devia aparecer para a coprodução, não apareceu. Portanto, o que é que você começa a pensar? "Enfim, isto aqui, de facto, há mais do que eu havia pensado." E portanto, você me diz que fui ingénuo, fui

Arrepende-se desse passo?

Acabo por me arrepender do passo. Eu tenho o hábito de dizer que não me arrependo de nada do que faço, aprendo é com as lições.

Certo.

E de facto vou manter o mesmo princípio. Mas obviamente que eram situações pelas quais eu não precisava ter passado. O que é certo, de qualquer modo, é que nesses três anos eu aprendi muito. Aprendi muito e fiz contactos que são inestimáveis para a minha vida.

Uma espécie de estágio patrocinado.

Exatamente.

Diga-me uma coisa, tem a ambição de ser presidente do Benfica?

Não, não tenho essa ambição. Eu acho que o Benfica está no bom caminho, tem um presidente que já lá está há muitos anos.

Isso não é mau, estar há muitos anos no mesmo lugar. Eu sei que é uma grande tradição.

Eu já escrevi, por isso estou à vontade de dizer isso, e já o afirmei. Eu acho que em todas as instituições deve haver limitação de mandatos, ponto final, parágrafo. Esta é minha opinião. Gostem ou não gostem que eu diga isso. Deve haver limitação de mandatos, porque ninguém se deve eternizar. Até porque nós precisamos de nos renovar. Não quer dizer que não voltemos depois, mas acho que se tem que dar oportunidades a outros, porque o sangue renova-se todos os dias. Tem que ser assim, senão nós vamos anquilosar-nos e acabamos por estragar tudo aquilo que eventualmente tivemos.

Mas ainda nunca conseguiu convencer Luís Filipe Vieira dessa sua magnífica opinião.

Nunca abordei esse assunto com ele. Nem tenho de o fazer. Ele é um homem feliz à frente do Benfica. O Benfica com ele tem recuperado glórias passadas, o que é relevante. Ganhou os campeonatos que sabe que ganhou, precisa de se afirmar agora na Europa, que é o próximo passo. Espero que se consiga isso.

Qual é o seu papel atualmente no Benfica?

Sou membro da direção do Benfica e sou membro do Conselho de Administração do Benfica, mas é preciso perceber que os clubes são entidades muito centralizadas numa pessoa. E, portanto, temos que ter a noção disso. Eu também só aprendi isso quando lá cheguei.

Está indiretamente a dizer que gostava de ter um papel mais relevante no Benfica.

Mas há uma coisa que eu tenho dito e que reafirmo. Eu acho que a coisa mais importante que eu fiz no Benfica foi garantir que o Benfica tinha estabilidade, porque quando eu entro no Benfica, foi numa fase em que se dizia que eu ia desafiar Luís Filipe Vieira na presidência do Benfica. E eu quis transmitir a toda a gente a noção que o Benfica só funciona a partir do momento em que as pessoas estiverem unidas. Independentemente de isso significar que o papel é mais relevante ou menos relevante.

Mas eu, de qualquer forma, faço-lhe novamente essa pergunta. Gostava de ter um papel mais relevante dentro do Benfica, no sentido em que acha que o cargo de administração exigia um pouco menos de centralização e mais empenho?

Eu acho que em todas as instituições as pessoas gostariam de ter, porventura, mais intervenção do que aquelas que têm. Mas eu vivo bem com aquilo que tenho. E como lhe disse, e esse é um lema na minha vida hoje em dia, eu só estou nos sítios até querer.

Aliás, disse que nunca recebeu um tostão como administrador da SAD, é verdade?

Nunca.

Mas isso faz algum sentido, uma pessoa ser administrador de uma empresa e não receber nada?

Os administradores do Benfica não são pagos.

Mas isso faz algum sentido?

Eu acho que não faz sentido, não deveria fazer sentido, mas é aquilo que os estatutos estabelecem. E, portanto, se é isso que estabelecem, é isso que se deve fazer.

Mas isso não é um convite para as pessoas, seja através de influência, de acabarem a receber em espécie, e não estou aqui a falar de andar a receber dinheiro por baixo da mesa, mas pela sua influência. Aproveitar essa sua influência para outras coisas.

Eu só posso falar por mim e pelos meus colegas.

Senão por que as pessoas dedicam uma vida ou dedicam tantas horas onde não recebem dinheiro nenhum.

Nós temos causas às quais nos agarramos. Muitas vezes. O jornalismo para mim é um motor muito grande, tem sido sempre um motor muito grande na minha vida. Eu já ganhei pouco dinheiro e já ganhei muito dinheiro a trabalhar nesta atividade. Nesta atividade, não tanto no jornalismo em si, mas no conjunto daquilo que veio com a minha experiência jornalística e sobretudo com a experiência de televisão e de produção. Mas as pessoas podem ter causas. Eu não vou pôr em causa a honestidade das pessoas por elas não receberem dinheiro, não me compete a mim fazer isso. Eu falo por mim, nunca recebi um tostão, nem tenciono receber. Tenho a certeza que os meus colegas também não. No momento em que eu tivesse a mais pequena dúvida de que não seria assim, eu garanto-lhe que nesse mesmo instante eu não estaria ali. Aliás, também lhe digo que quando não consigo, por exemplo, numa viagem que o Benfica faça ao estrangeiro, não consigo ir no avião da equipa, eu não peço ao Benfica para me pagar a viagem para eu ir até lá. Eu pago a minha viagem.

Portanto, ainda está a dar dinheiro ao Benfica. É isso?

Eu não estou a dar dinheiro ao Benfica. Eu estou a fazer aquilo que eu acho que coerentemente devo fazer. Isto é, eu não dependo do Benfica para viver, não quero depender do Benfica para viver. E mais, não quero que os sócios do Benfica pensem que alguma vez eu tirei partido de alguma situação privilegiada dentro do clube.

Muito bem. José Daniel Fernandes, foi um prazer. Muito obrigado por ter estado aqui presente. Até para a semana, para mais uma edição do Artigo 38.

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