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Será que David e Salomão foram mesmo grandes reis do Médio Oriente? Este é o quarto episódio das Histórias da Bíblia, o podcast da Rádio Observador, em que deciframos o livro mais impresso e distribuído da história da humanidade, mas não necessariamente o mais lido. Eu sou o João Francisco Gomes, sou jornalista e escrevo sobre religião no Observador.

Eu sou o Francisco Martins, padre jesuíta e professor do Instituto Bíblico de Roma.

Eu sou o João Bastos, padre e colunista do Observador.

E todas as semanas, com a ajuda destes dois especialistas, vamos olhar para uma parte da Bíblia e percorrer este livro do início ao fim. Na semana passada falámos sobre Moisés, a fuga do Egito e a comunicação da lei divina ao povo hebreu. No final do episódio passado, deixámos a história neste ponto: o povo de Israel, depois de fugir do Egito guiado por Moisés, estava a caminhar longamente no deserto rumo à Terra Prometida. Esta semana fazemos fast forward na história contada pela Bíblia para chegarmos a Israel. Deixamos o tempo incerto dos acontecimentos iniciais e estamos agora por volta do ano 1000 a.C. E vamos falar sobre o tempo dos reis, sobre David e Salomão e sobre como Israel surgiu como entidade política. Estas são as Histórias da Bíblia. Olá a todos. Nós estamos a percorrer a Bíblia do início ao fim através dos episódios e dos momentos mais marcantes e mais significativos destes textos, mas não queremos, apesar de tudo, deixar de explorar a linha narrativa do texto. Francisco Martins, nós no princípio, obviamente estamos a falar, e já falámos disso nos episódios passados, de um povo formado pela descendência do patriarca Jacó ou Israel. Depois esse povo foi oprimido pelo Egito e libertou-se com a ajuda dessa figura extraordinária e central do Antigo Testamento que foi Moisés. E por volta do século X a.C., vemos uma monarquia a ser instalada ali naquela zona costeira do Médio Oriente, sob a liderança do rei Saul. E a pergunta é: como é que nós chegámos até aqui? O que é que aconteceu desde aquele momento em que Moisés liberta o povo do Egito e no deserto houve as leis de Deus transmitidas no Monte Sinai, e este momento em que de repente parece estar a aparecer aqui um Estado político, uma monarquia ali na Palestina.

No deserto passam-se 40 anos, embora este é um número simbólico, evidentemente, 40 anos é uma geração. E por que é uma geração? Porque o povo rapidamente, quem lê a história ali no Pentateuco, o povo rapidamente chega às margens da Terra Prometida, mas depois envia uns espiões para ver como é que eventualmente pode conquistar a terra. E quando os espiões voltam, dizem ao povo: "Isto realmente vai ser tão difícil, o melhor é abandonarmos o projeto". E é aí que Deus os castiga a 40 anos no deserto. Os 40 anos no deserto não é exatamente atravessar o deserto, é andar às voltas no deserto.

Ali à porta.

Depois de estar à porta do deserto e não ter confiado em Deus, no fundo. Portanto, esta ideia de uma geração, a geração que não confiou em Deus, deve ficar no deserto, de alguma forma. Portanto, daí os 40 anos. Número simbólico, novamente, quando aqui falo é número simbólico.

Mas é curioso esse aspecto. A terra era prometida por Deus, mas afinal estava habitada por outros e era preciso conquistá-la à força, é isso?

É essa a ideia, mas o povo, no fundo, inicialmente desconfia que nunca vai ser possível. E aí é que Deus diz: "Então vão aqui passar 40 anos no deserto para depois voltar pra Terra Prometida". Exatamente, a conquista da terra, que é o livro seguinte ao Pentateuco, é o livro de Josué, conta esta epopeia da conquista, que no livro de Josué é extremamente veloz e com enorme sucesso. Também tem algumas das páginas mais violentas da Bíblia, este livro de Josué, o sexto livro da Bíblia. O sétimo livro da Bíblia, o livro dos Juízes, conta a história da sociedade tribal depois do estabelecimento na terra, antes da monarquia. A Bíblia tem uma visão muito pessimista sobre este período tribal, o povo está constantemente a abandonar Deus e a dedicar-se a outras coisas. Depois há a opressão, e depois há um salvador, e depois há a paz, mas aquilo é muito cíclico e parece que nunca se sai dali. E no final do livro dos Juízes, há uma espécie de descida ao caos que prepara a ideia de que a monarquia, de alguma forma, com Saul, David e Salomão, é a solução política para o povo.

Só para talvez enquadrar os ouvintes. É, por exemplo, nesse período do livro dos Juízes, que aparece aquele episódio célebre do Sansão e da Dalila.

Exatamente.

Que é muito conhecido do corte do cabelo e da força.

Exatamente.

Porque ele era também um dos juízes.

Ele era um dos juízes, exatamente. Esta palavra juiz é um bocadinho de difícil compreensão, porque o juiz não é exatamente aquele que toma decisões no tribunal, no caso do livro dos Juízes. Os juízes aqui eram uma espécie de salvadores carismáticos de caráter militar. Usamos a palavra juiz, mas é com esse sentido.

E há aqui também um aspecto que é de salientar, nós estamos aqui já no quarto episódio, é um mês de podcast, e nós já notámos, pelo menos no primeiro, que a Bíblia foi escrita de maneira muito progressiva. E se nós queremos uma prova, até como isto não é estranho ao povo bíblico, é o facto também a conquista da terra, a monarquia não ser um processo automático. Nada na Bíblia parece uma coisa muito automática. Nós temos que caminhar muito, passar por muitos solavancos, para chegar ao ponto, neste caso, da monarquia.

Achas que é aí que se enquadra, por exemplo, isto que o Francisco Martins estava a sublinhar de como o livro de Josué e este período é um dos períodos mais violentos narrados pela Bíblia?

Sim, eu creio que é neste sentido também de uma ideia de conquista da terra, que aliás, é talvez mais importante para a noção política de Israel propriamente, até do que o rei David, que falaremos daqui em breve. Portanto, a ideia de que a terra tem que ser conquistada, que tem fronteiras, mesmo que na Bíblia as fronteiras sejam muito periclitantes, são muito, às vezes, plásticas, representa também, às vezes, uma justificação da violência, até mesmo nos dias de hoje.

Mas deixa-me fazer a pergunta a partir da perspectiva

Puramente exterior de quem está a ler um livro que não é só um pedaço de literatura, mas é também um escrito sagrado. Como é que nós vimos de uma criação, e falámos disso logo no início, no segundo episódio, de um Deus que criou tudo e que criou toda a humanidade, para agora chegarmos a um ponto em que há um povo, que é o povo escolhido por Deus, que tem uma certa justificação divina pra poder conquistar violentamente território a outros povos humanos, suponho eu, também criados por Deus?

É curioso talvez dizer que-

Não sei se estou a lançar aqui uma batata quente pra você.

Não, o judaísmo e o cristianismo sempre tiveram uma relação difícil com estes textos. Se um leitor da Bíblia tem uma relação difícil com eles, ainda bem, porque Deus a dizer: "Temos que exterminar este povo, esta cidade, têm que ser todos passados ao fio da espada, mulheres, crianças, gado e toda a gente", etc. O judaísmo e o cristianismo tiveram sempre uma relação difícil, ambígua. Não é só o cristianismo, o judaísmo também com estes textos. Como lê-los enquanto palavra de Deus? Como lê-los enquanto escritos sagrados? Talvez começar por dizer uma coisa muito básica e muito importante, que é: o livro de Josué é novamente um relato que é uma epopeia, e muito provavelmente hoje em dia a arqueologia e a história dizem-nos que nada disto, na prática, aconteceu. A questão da conquista violenta da terra, muito provavelmente, o povo de Israel é um povo autóctone, é um povo que nasce do meio dos povos cananeus, não é que chega a maior parte do povo de fora da terra. E ainda menos é de imaginar que tenham feito este gênero de massacres de populações inteiras dos povos que tinham à sua volta. É mais um ideal, de alguma forma, de pureza, sobretudo de pureza religiosa, que é projetado num passado que é elaborado em forma de epopeia, do que exatamente um relato do que aconteceu historicamente. Agora, isto nada tira à questão da gestão, da imagem de Deus que estes textos transmitem, no fundo, e com a qual quer o judaísmo, quer o cristianismo, têm que dialogar. Como é que este Deus, ou a nossa compreensão de Deus, exige ou, de alguma forma, autoriza um ideal de pureza religiosa que exclui os outros de forma violenta? Ou não exige, ou será que isto é só reconhecer uma tentação possível e ver outras soluções? A própria Bíblia reconhece que isto é só uma possibilidade, entre outras, de habitar a terra prometida.

A conquista violenta.

A conquista violenta.

Outras possibilidades seriam?

Abraão, Isaque, Jacó vêm pra terra prometida, já habitam na terra prometida e negoceiam a sua presença com os outros habitantes que lá estão. E está sempre esta tensão entre negociar a presença com os outros e, ao mesmo tempo, um ideal de pureza religiosa, mais do que étnica, mas religiosa, de separação. Esta tensão que está presente em todo o livro.

Eu acho que posso estar a tentar salvar a dama, mas a questão é que, se calhar, o mais fácil seria excluir estes livros do cânone da Bíblia. Se isto é assim tão violento e massacrador, vamos excluí-los da Bíblia. O facto de eles estarem aqui parece também que representa duas coisas. Primeiro, uma certa fragilidade de um certo projeto político e da sua compreensão. Em segundo, uma tensão permanente entre a confiança em Deus e a lógica militar do poder. Parece-me que estas são as grandes chaves narrativas para compreender os livros que estão aqui e que claramente poderiam não estar, mas estão aqui por alguma razão. Deixa eu então fazer uma pergunta. Nós, na semana passada, arrumamos os cinco primeiros livros da Bíblia, que chamamos o Pentateuco, e entramos agora no segundo bloco de livros, maior, que na Bíblia vêm agrupados com o título Livros Históricos. Isto é mesmo assim? O que significa históricos? História verídica? São registros cronológicos históricos em que possamos confiar ao nível do pormenor?

Voltar a dizer aquilo que já dissemos num episódio aqui há umas semanas, esta ideia de que os livros bíblicos não têm título.

Certo, normalmente era até as primeiras palavras.

As primeiras palavras é que davam o título, depois na tradição grega receberam títulos. Os blocos ainda menos título têm, de alguma forma. Mas este título, Livros Históricos, foi dado no século IV depois de Cristo, sobretudo por Atanásio d'Alexandria. Nós dizemos livros históricos, mas provavelmente seria melhor traduzir Livros da História, porque o que se trata é de contar a história de Israel da entrada da terra até à saída da terra, isto é, até ao exílio. E um bocadinho depois, também o regresso do exílio. Mas este arco da entrada da terra, a seguir ao Pentateuco e à morte de Moisés, até à queda do Reino de Judá, o Reino do Sul, em 586 antes de Cristo, e o exílio da Babilônia, contar esta história. São mais os livros da história do que os livros históricos. Do ponto de vista da reconstrução histórica, estes livros têm valor diferente. Talvez Josué e Juízes tenham menos valor histórico, têm um caráter mais de epopeia e depois mais um caráter um bocadinho cíclico, de lenda, se quisermos, sobretudo o Livro dos Juízes. Quando entramos no livro de Samuel e dos Reis, ou os livros de Samuel e os livros dos Reis, aí sim, já estamos mais próximos da história, ainda que a Bíblia nunca conta a história só pra satisfazer a curiosidade histórica. Conta a história para reconhecer a ação de Deus na história. Haverá aqui uma escolha dos episódios e uma escolha do que se conta, que depende desta perspectiva e não da perspectiva de vamos esclarecer as pessoas que vão ler a Bíblia daqui a 2500 anos sobre as curiosidades.

Os episódios e os factos são selecionados, são organizados e interpretados. A ideia de que nós quando estamos a ler a Bíblia, mesmo que seja no original, estamos também a ler, de certa maneira, uma tradução, vale para aqui. Nós nunca temos acesso Ao facto a que nós temos acesso, aos factos selecionados, organizados e posteriormente interpretados.

Um conjunto de episódios. E esta fase da história bíblica, na verdade, está cheia de episódios famosos. Só para dar alguns exemplos: o rei David contra Golias, já vamos falar destas figuras, rei Salomão e a construção do templo, antes, no período dos juízes, como disse há pouco, Sansão e Dalila. São tudo histórias que fazem parte de um certo imaginário coletivo, mas acima de tudo, isto é um ponto do relato bíblico em que acontece uma transformação fundamental. Parece que deixamos de falar de um povo disperso que anda à procura de um lugar, como falámos no Pentateuco, e passamos a falar de um reino. Quando, de repente, aparece uma monarquia, não é de repente, há ali um processo com o Samuel, etc., que pode ajudar-nos a perceber um bocadinho melhor. Mas quando surge uma monarquia, surge uma entidade política, um território com fronteiras, com um povo, com uma hierarquia, com um chefe de Estado. Isto, João, é importante para dar início a uma certa linha histórica que até hoje é evocada, por exemplo, no Estado de Israel.

Acho que temos que ter cuidado também. Reconhecendo isso, precisamos ter cuidado com as falsas equivalências históricas. Ou seja, tudo o que nós estamos a falar de rei, monarquia, Estado, fronteiras, poderão não ter sido concebidas como nós hoje as concebemos. De facto, nós temos um povo que deixa de ser simplesmente um povo libertado, que funciona quase como uma espécie de confederação tribal, e nós temos uma entidade política. Mas nós temos muitas mais dúvidas do que certezas com esta história, porque nós temos a pergunta: quem é que tem o poder? É Deus ou o rei? Se, por exemplo, o rei serve o povo ou em certos momentos se serve do povo, se a violência, em certa medida, pode ser legitimada. Se nós pudéssemos dizer em chave de leitura é que a Bíblia descreve a monarquia, mas nunca a descreve de forma totalmente ingénua. Ou seja, ela surge como necessária, até por aquilo que o Francisco falou dos juízes e de Josué, mas em certos momentos ela surge sempre como perigosíssima e como uma entidade que pode ser corrompível. E portanto, temos que olhar para a monarquia, para a definição desta entidade política, nesta perspectiva, penso eu.

Nós já vamos voltar dentro de alguns minutos, depois de um curto intervalo, para a segunda parte das histórias da Bíblia e vamos então tentar perceber quem foram estas figuras, os reis David e Salomão. Até já. Segunda parte de "As Histórias da Bíblia", com os padres João Basto e Francisco Martins. E esta semana estamos a conversar sobre um período da história bíblica que é relatado ao longo de vários livros da Bíblia, concretamente os livros de Samuel e os livros dos Reis. É o período da monarquia. Ora, desde a implantação do reino até, por exemplo, o cativeiro em Babilónia, o exílio, o famoso período do exílio. Pelo meio, passamos pela divisão do reino em dois, uma norte e outra sul, enfim, por uma série de acontecimentos fundamentais para compreender os mil anos de história antes do aparecimento de Jesus. Ora, Francisco Martins, é nesta fase que aparece uma figura central da Bíblia que é o rei David, certo? O famoso homem da estátua do Miguel Ângelo. Quem é que era, afinal, este homem, este David?

Para perceber o rei David, é preciso recuar um bocadinho e falar sobre o rei Saul, que é realmente o primeiro rei de Israel. O rei Saul é o sucessor dos juízes, de alguma forma. O último juiz, num certo sentido, é o profeta Samuel e depois o povo pede um rei. Deus e o profeta inicialmente não estavam muito interessados nesta ideia da monarquia, aparentemente, porque dizem: "Bem, este rei vai portar-se mal, etc.", seguramente. Mas depois Deus diz ao profeta: "Aceita o rei e deve ser ungido por ti". E é o rei Saul, que é o primeiro rei de Israel, que vem a ser depois recusado por Deus, a ser, no fundo, rejeitado por Deus, porque não respeita a sua ordem. É uma história um bocado complexa. E é neste contexto, ainda do reino de Saul, que aparece o rei David, que é uma figura próxima do rei Saul. Parece ter sido um ótimo guerreiro, ao mesmo tempo um ótimo músico. Era um ótimo guerreiro, era capaz de derrotar o Golias, mas depois quando o rei Saul também tinha as suas neuras, ele ia tocar harpa e o rei acalmava-se. O que acontece é que como era um ótimo guerreiro, a certa altura o rei Saul fica com inveja dele e começa a persegui-lo e David torna-se uma espécie de fugido que reúne à sua volta um conjunto de 300 homens mercenários, mercenários a solto, claramente, ali nas montanhas de Judá, que vão servindo quem vai pagando mais, fazendo isto e o outro. Com a morte de Saul, a certa altura, David torna-se a figura política de referência e quem se torna o segundo rei não é um filho de Saul, mas é este David, que é de outra região e que depois vai também continuar a dinastia davídica.

Aclamado pelo povo, é isso?

Sim, praticamente aclamado pelo povo em Hebrom e depois reconhecido em todo o reino de Israel. Estamos a falar, obviamente, do que nos conta a Bíblia. A questão da reconstrução histórica é outra questão. É esta que aparece a figura de David como este sucessor de Saul, o segundo rei e o iniciador, o fundador da dinastia davídica.

O rei David também é visto na Bíblia como tendo uma grande relevância na linha cronológica que há de herdar a Jesus. Ou seja, muito mais à frente na Bíblia, quando chegamos ao Novo Testamento, há a ideia de Jesus Cristo ser uma figura que descende do rei David. E na verdade, a Bíblia parece-me que está cheia de árvores genealógicas, cheia de genealogias E até, corrija-me se eu estiver enganado, de uma espécie de uma grande linha genealógica desde o início, quase desde Adão, até Jesus, com o Rei David aqui a ter um papel muito central. Qual é a importância, João, desta ideia de uma grande cronologia, perdão, genealogia?

Sim, há aqui uma clara ideia de continuidade. E acho que em Mateus, creio que é onde existe a genealogia, a ideia de que Jesus descende de David é uma ideia central. David, por exemplo, tem uma ligação a Jesus, porque David é de Belém, Jesus nasce também em Belém, é preciso dar essa tônica. David é um pastor marginal, é o filho mais novo e estava a pastar as ovelhas quando o profeta Samuel vai à casa do pai David procurar alguém para ungir. E o fato de Jesus se apresentar muitas vezes como o bom pastor e a ideia de que nós temos sempre, nos restantes livros da Bíblia, até nos livros proféticos, e até nos Salmos, a ideia do rei como um pastor, deriva desta ideia de que David, pelo seu nascimento em Belém, de certa maneira pela sua marginalidade, representa o modelo de poder alternativo ao poder do guerreiro. Aliás, é curioso porque o David, tem aqui o famoso episódio que já ouvimos da luta contra Golias, e que mostra claramente esta distinção entre um poder e o rei guerreiro, muito embora Golias não fosse rei, e o David, que é ungido de Deus com uma funda e uma pedra, consegue derrotar alguém invencível e com armas que ele não possuía. Portanto, há aqui o modelo alternativo, mas que progressivamente aprende a lógica do poder, começa a tentar evitar sujar as mãos diretamente, mas acaba por as sujar e depois vai tendo ao longo da sua história diversos pontos de rutura, que talvez o mais famoso será a forma como ele trata a mulher do seu melhor amigo e o seu melhor amigo para conquistar a mulher.

Então ajude-me só a compreender um bocadinho melhor este período da história. Quando aparece uma monarquia, um reinado, aquilo era uma monarquia como hoje em dia? Era um país com fronteiras, com chefe de Estado, com impostos, com câmaras municipais? Como é que podemos descrever este período de Israel sob o reinado de David? E depois, obviamente, de Salomão, mas já vamos falar também do reinado de Salomão.

De um ponto de vista histórico, há grandes questões em cima da mesa sobre David e o seu reino. A Bíblia traça um panorama um bocadinho maximalista do reino de David, sobretudo ele combate todos os povos ali à volta, vence contra toda a gente e basicamente estabelece um reino que vai quase do limite do Egito até quase a Damasco. Portanto, um reino grande que depois o seu filho Salomão acaba por herdar, uma espécie de império. Isto exige imensa cautela. Aqui há duas posições. Alguns dizem: "Não, ele já era um rei, tinha ali uma estrutura política relativamente consolidada, provavelmente o núcleo era ali à volta de Jerusalém, das montanhas de Judá", mas tinha uma certa capacidade de controlar aquela zona, mais ou menos até ao mar e um bocadinho mais para cima. Outros autores, estudiosos, historiadores dizem: "Não, a arqueologia o que nos diz é que isto era uma coisa muito mais pequena e, portanto, o David seria uma espécie de pequeno sheik que andava ali na zona das montanhas de Judá e que, como os mafiosos, oferecia proteção em troca de alimento e de guarida". Ficamos muito na dúvida com isto. A própria Bíblia, de alguma forma, até sugere este caráter do David um bocadinho, vamos dizer assim, mafioso ou sheik, etc.

O facto dos filisteus. Ele derrota o Golias, que é filisteu, mas depois vai trabalhar para os filisteus, que são os grandes inimigos, e quando Saul morre, apresenta-se quase como o vencedor. É a mesma coisa que nós termos um presidente da República que mata um rival nosso. Um presidente da República seria aqui um bocado exagerado, mas temos aqui um político que mata um rival português, depois vai fazer um exílio e depois volta, sendo que no exílio esteve coligado com o grande rival.

Eu estava a pensar aqui num episódio só muito curto, que é um episódio muito curioso na Bíblia, que está no primeiro livro de Samuel, no capítulo 25. É um episódio em que a Bíblia tem muito humor. É um episódio onde David lá vem com a sua banda de 300 guerreiros e vai encontrar um senhor que se chama Nabal. Nabal significa idiota, literalmente, em hebraico. Portanto, o senhor tem o nome chamado de idiota. E David chega lá a este Nabal e diz: "Anda aqui a proteger os teus rebanhos, não tens aí nada para me dar de alimento, etc". E o Nabal diz assim: "Proteger os meus rebanhos? Tu só estás a proteger-te a ti próprio, tu és o bandido, um fugido, etc". E obviamente, quando se encontra um bronco e um macho alfa, as coisas correm mal. Graças a Deus, havia uma mulher na zona. Havia uma mulher por ali, a Abigail, não era uma mulher qualquer, que ignora o marido, que é um bocadinho bronco, e tenta apaziguar David, prepara um banquete e no fundo diz uma coisa muito importante para David, diz: "O teu maior poder é a capacidade de superar este género de ofensas". Mas realmente neste episódio sugere-se um bocadinho quem teria sido David.

A personalidade dele.

Esta pessoa que controla. Não estamos a falar aqui de um Estado no sentido moderno dos Estados-nação. Estamos a falar aqui de uma situação política ainda muito básica, muito frágil, onde realmente ter algum acesso a um conjunto de mercenários e poder controlar ali uma região, teria sido o início realmente da monarquia em Israel.

Aliás, este episódio também mostra, por um lado

Que a verdadeira legitimidade régia vem de Yahweh e não da vingança pessoal, mas também que derramar sangue em vão compromete uma futura realeza. Nós estamos aqui a falar de um episódio que tem depois ressonâncias no futuro.

Eu gostava também de perguntar justamente isto. Ou seja, naquele reino, qual era o papel ou o lugar da religião? Porque depois de David, temos o Rei Salomão, que ficará para a história como o homem que constrói o Templo de Jerusalém, que depois viria a ser destruído na altura do exílio. Por que uma grande prioridade de Salomão vai ser construir um templo? Ou seja, trata-se de um reino marcado pela religião.

Nós não sabemos necessariamente o que significa hoje o Templo de Salomão, até porque nós não poderíamos escavar no sítio onde era o Templo de Salomão, por motivos óbvios, por estar lá o segundo templo e a Esplanada das Mesquitas, etc. Agora, também há uma ideia que se calhar historicamente precisamos de desmontar, que é no tempo de David e Salomão, muito possivelmente, o monoteísmo bíblico, como nós o entendemos, não está consolidado. Ou seja, Yahweh pode ser visto aqui mais como um deus entre outros deuses regionais.

O deus daquele povo, mas ao lado está um povo com outro.

A ideia de que o meu deus é o deus para todos só virá posteriormente com a invasão dos assírios, que iremos falar certamente mais adiante, porque são o primeiro exército regular da história, são o primeiro império também que nós temos memória, ou que temos registro, e por isso só depois é que nós podemos falar do monoteísmo, no sentido que nós temos na cabeça. Nós estamos aqui num processo, como já vimos, progressivo, para que a religião, como nós hoje a entendemos, judaica, seja desenvolvida. Agora, realmente David e Salomão entenderem Yahweh e Deus como nós hoje o entendemos, creio que não o teriam entendido. Teriam entendido como um deus entre outros deuses, até com possibilidade, se calhar o Francisco depois pode falar mais sobre isso, que não é claramente a minha especialidade, ainda tem alguma religiosidade popular até haver a ideia de que Deus teria uma esposa, uma consorte, que não seria deusa. Mas são outras questões que se dariam pouco a temporar.

Nem só a religião popular, muito provavelmente nesta altura, até no século X e nos séculos seguintes até ao século VI, o monoteísmo não existia no povo de Israel. No fundo, Yahweh provavelmente com o início da monarquia assume um caráter de um certo deus principal entre as diversas divindades ali disponíveis, o deus do povo, um deus principal, mas seguramente teria uma consorte, a deusa Asherá, uma deusa que estivesse ao lado. Inicialmente, o Deus bíblico não era celibatário. Isto é um dado importante. Inicialmente não era celibatário, muito provavelmente.

Temos uma frase para meter nas redes sociais.

Não era celibatário no início, mas realmente é só depois do exílio que esta elaboração do monoteísmo ganha a cor ou a forma que nós conhecemos mais ou menos depois na época de Jesus e pra frente. Esta questão do templo é importante no Salomão, para já porque isto parece claramente histórico, que ele tenha fundado um templo, porque o que era natural é que fosse o fundador da dinastia David a fundar o templo. Portanto, muito provavelmente temos aqui um dado histórico muito básico, é o segundo rei da dinastia, Salomão, que funda o templo. Ainda por cima, Salomão nem sequer é um nome particularmente feliz do ponto de vista já vista, porque é um nome que evoca outros deuses além de Yahweh. O caráter improvável de inventar isto do zero é grande.

Torna mais verídico.

Torna mais verídico. Temos aqui Salomão que realmente funda o templo, mas cujo reino, e a Bíblia nisso é muito realista, Salomão é um rei belíssimo como David, mas no final do reino abandona um bocadinho Deus e a religião do deus Yahweh e o reino acabava por se dividir. Rapidamente se dá uma divisão entre o norte e o sul, o reino do norte é Israel, o reino do sul é Judá, e esta é a situação que se vai manter nos séculos seguintes.

Portanto, aquele reino unificado dura muito pouco tempo. Dura ali três reinados.

Do ponto de vista histórico, é preciso dizer, se existiu, durou muito pouco. Se não existiu na prática, provavelmente Saul foi rei mais do norte e David e Salomão mais do sul e depois essa dinâmica prolongou-se nos reinos de Israel ao norte e de Judá ao sul durante os séculos seguintes.

Mas já agora, curiosamente, eu lembro-me de ler qualquer coisa sobre isso no teu livro. O que é que temos de registros arqueológicos, históricos, etc., da existência destas figuras, David e Salomão? Será que é a partir deste ponto que a Bíblia já está a falar de pessoas que existiram mesmo e de histórias que existiram mesmo?

Os historiadores falam um bocadinho, a partir deste período, de história normal do povo. Por quê? Porque começa também uma interação com os povos daquela região e com os impérios. O Jorge já falou aqui dos assírios, o Império Assírio começa a ser uma presença importante a partir do século IX antes de Cristo, e depois vêm os babilônios a seguir, e depois os persas, e depois Alexandre o Grande, etc. Israel e o povo entram aqui nas histórias daquela região. E começamos a encontrar, por exemplo, no caso de David, talvez o mais importante é que o nome de David aparece numa estela que nós encontramos nos anos 90 do século passado. Fala-se da Casa de David. Reconhece-se, um século depois da existência de David, que realmente os reis de Judá pertencem a uma dinastia que tem como fundador o rei David. Sobre o rei Salomão, não há nenhuma informação em nenhuma fonte a não ser na Bíblia. O que também nos faz perceber que se calhar algumas coisas que lá aparecem, casou com a filha do faraó É improvável, porque teríamos essa informação a partir do Egito. É só uma forma de elaborar a memória de um rei realmente importante. É tão importante que até casou com a filha do faraó. É como dizer: "Este político é tão importante que até casou com a filha do presidente dos Estados Unidos da América".

Nós vamos falar especificamente disto no próximo episódio, que vamos dedicar à poesia, mas eu acho que vale a pena darmos aqui uma pequena nota, porque estes dois homens, além de figuras da realeza, pelo menos projetadas nesse início de Israel enquanto entidade política, além de serem importantíssimos chefes de Estado, ou estadistas daquele tempo, também deixaram depois, ou pelo menos é-lhes atribuída a autoria, de textos importantes poéticos. Estou a pensar sobretudo no Rei David e os Salmos, por exemplo, que ainda hoje são dos textos mais lidos, por exemplo, nas celebrações cristãs. Essa memória, essa ideia de que estes dois homens foram também autores, ou terão sido autores destes hinos, destes textos litúrgicos, também contribui para a importância destas duas figuras?

Acho que a este ponto da viagem pela Bíblia, já entendemos que os livros terem sido escritos por um só autor numa só época, é um bocado temerário afirmar. Nós também teríamos sempre o caso da Torá, o Pentateuco, os primeiros cinco livros da Bíblia, que são atribuídos a Moisés. Mas isto são claramente tradições que, acima de tudo, querem ressaltar a importância de determinadas pessoas, como é o caso de Moisés, como é o caso de David, como é o caso de Salomão. Sabemos, no caso de David, esta referência à questão da música, o caso do Salomão ao episódio famoso em que Deus lhe concede um dom e ele ao invés de pedir riqueza e poder, pede sabedoria, mas isso não significa que estas pessoas depois redigiram claramente os textos de maneira clara e inequívoca, como nós entendemos hoje um autor.

Mas a própria atribuição.

Sim, mas a tradição já são outras coisas diferentes.

Claro. Não sei se havia alguma coisa a acrescentar sobre esta matéria, mas queria lançar aqui talvez a pergunta mais difícil, que nos obriga a alguma cautela quando analisamos isto, mas é impossível passarmos por cima desta realidade. Quando olhamos para estes relatos bíblicos em que vemos Israel a aparecer como entidade política, como país com fronteiras e um governo, é muito fácil evocar-nos, hoje em dia, a existência de um país chamado Israel naquele sítio. Para fazer a pergunta de forma muito simples: que relação é que podemos encontrar entre este Estado fundado nesta altura da monarquia, 1000 anos antes de Cristo, e o Israel que existe hoje naquele lugar?

Eu fiquei com a batata aqui de geopolítica. Espero que ninguém se chateie comigo. Mas eu creio que nós, voltando ao argumento da resposta anterior, neste ponto da leitura da Bíblia, acho que todos já entendemos que a Bíblia é uma construção teológica, que deve ser avaliada criticamente e que não é claramente fácil, nem estamos claramente autorizados a fazer uma leitura directa de uma continuidade política. Poderemos fazer. Parece-me, às vezes, que pode ser estar a confundir os planos. Não me parece, se falarmos aqui no exemplo português, que o Rei David tenha sido necessariamente o D. Afonso Henriques da época. Estamos a falar aqui de coisas diferentes. Agora, usar a Bíblia para justificar ações políticas, por um lado, ignora o caráter crítico do texto e transforma uma narrativa teológica numa ideologia. E parece-me que isso não é uma forma que seja automaticamente legitimável. Claramente, nós temos uma aceção, aquele território é semelhante, é o mesmo que hoje é disputado, mas fazer também recuar uma questão como o conflito Israel-Arábia permanentemente a uma coisa que aconteceu e que está narrada na Bíblia, parece-me necessariamente temerário.

Não sei se o Francisco quer acrescentar alguma coisa sobre esta complexa matéria.

Há aqui uma questão, que já falámos aqui, que a Bíblia mostra claramente que é possível uma ideia de Terra diferente. Ou seja, claramente a ideia da habitação da Terra é diferente e muito mais relativa do que propriamente algo fundamentalista de uma Terra precisa com fronteiras. A Bíblia, nesse sentido, é com interesse absoluto.

A Bíblia, mesmo na questão da fundação do Estado de Israel, a Bíblia teve um papel importante. A questão de finalmente se decidir por aquela terra e não outra terra qualquer, na Argentina ou no Quénia, como esteve em cima da mesa, tem a ver com o legado bíblico, ainda que no movimento sionista inicial não tivesse propriamente qualquer género de relação religiosa com a Bíblia. Até o próprio presidente, primeiro primeiro-ministro, peço desculpa, David Ben Gurion. Mas, por exemplo, livros como o livro de Josué, teve um papel essencial. As pessoas se calhar não sabem isto, mas David Ben Gurion, depois, já sendo primeiro-ministro, reunia-se em sua casa um grupo de estudo bíblico que leu o livro de Josué.

De Josué.

Da conquista da terra. Portanto, a Bíblia, de alguma forma, sempre esteve presente nesta dinâmica. Agora, como dizia o João, e eu concordo plenamente, a Bíblia reclama um género de leitura que não reduz o texto a uma ideologia. A Bíblia não é um vade mecum para justificar A, B, C, D ou H do ponto de vista político. Quando é usada dessa forma, a Bíblia está a ser abusada.

Muito bem. Os dois reis de que falámos hoje, David e Salomão, estão, como eu dizia há pouco, fortemente associados a alguns dos textos mais curiosos da Bíblia e mais fascinantes também, os Salmos, o Cântico dos Cânticos, o Eclesiastes, por exemplo. E no próximo episódio vamos olhar para este segmento especial da Bíblia, a poesia. Tentar perceber se, além de tudo isto, a Bíblia também pode ser um poema de amor. Até para a semana. As Histórias da Bíblia é um podcast da Rádio Observador com Francisco Martins e João Basto. É apresentado por mim, João Francisco Gomes, e a música do genérico é de Tiago Forte.