Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Como é que uma mulher judia se tornou rainha da Pérsia? Este é o sexto episódio da segunda temporada de "As Histórias da Bíblia", o podcast da Rádio Observador, em que deciframos o livro mais impresso e distribuído da história da humanidade, mas não necessariamente o mais lido. Eu sou o João Francisco Gomes, sou jornalista e escrevo sobre religião no Observador.

Eu sou o Daniel Nascimento, padre e professor na Universidade Católica Portuguesa.

Eu sou o João Bastos, padre e colunista do Observador.

E esta semana vamos olhar para uma história fascinante passada na corte do Império Persa. É um romance que dá protagonismo a uma das grandes heroínas do Antigo Testamento, a Rainha Ester, uma mulher judia que chegou ao trono da Pérsia já depois do exílio em Babilónia e que acabou por salvar os judeus de uma conspiração dentro da corte para os matar a todos. Ainda hoje é uma heroína celebrada todos os anos pelo povo judeu e em que os cristãos veem uma espécie de precursora de Maria. Estas são as histórias da Bíblia. Olá a todos e, como sempre, antes de seguirmos para o tema deste episódio, para a história da Rainha Ester, quero lembrar que os nossos ouvintes nos podem enviar perguntas, comentários, sugestões para o nosso e-mail: ashistoriasdabiblia@observador.pt, sem acentos. E desta vez, já nas últimas semanas tem sido assim, já não nos estamos a encontrar apenas uma vez por semana, aos domingos, mas sim duas vezes por semana. Além do nosso episódio semanal, depois do noticiário das 9:00 de domingo na Rádio Observador e também sempre em podcast, temos um episódio extra todas as semanas, às quintas-feiras, em que em 10 minutos temos tentado responder a uma pergunta enviada pelos nossos ouvintes para o nosso e-mail, este que dizia agora: ashistoriasdabiblia@observador.pt. Podem também ser perguntas deixadas nos comentários do YouTube e nas plataformas de podcast, e já temos tido muitas perguntas enviadas pelos nossos ouvintes. Muito obrigado a todos. Esse episódio de quinta-feira vai ficar apenas em podcast, é assim que tem sido, não vai passar na Rádio Observador, portanto, podem ouvir-nos quer no site do Observador, quer nas plataformas de podcast habituais. E para ter a certeza que não lhes escapa nada, é uma questão de clicar em seguir o programa para receber uma notificação sempre que sair um novo episódio. E agora, na próxima quinta-feira, vamos responder a uma pergunta que já nos chegou várias vezes enviada por vários ouvintes: por que há, afinal, várias Bíblias ou vários cânones? Por que há alguns livros que só aparecem numas versões da Bíblia e não noutras? Aliás, o episódio de hoje toca muito nesse assunto, porque o livro de Ester não é exatamente igual em todas as versões da Bíblia e já vamos perceber por quê. Podem ouvir a resposta a isto na próxima quinta-feira. Ora bem, e esta semana vamos então olhar para este pedaço de literatura muito particular que surge na Bíblia. Falamos do livro de Ester, um drama histórico passado na corte do Império Persa, talvez ali pelo século V antes de Cristo. Não é necessariamente um registo histórico de um acontecimento verídico, é mais uma espécie de romance histórico que inspirou, por exemplo, uma obra magnífica de Händel, de 1718, chamada precisamente Ester, e eu devo confessar que estive a ouvi-la enquanto preparava este episódio, enquanto lia o livro de Ester. Mas se calhar, antes de irmos à história, vou sublinhar aqui este aspecto muito importante do livro, que estava agora a falar dele quando falei da pergunta a que vamos responder na próxima quinta-feira, é que há duas versões deste livro. A versão hebraica, que é usada pelos judeus e também, por exemplo, pelos cristãos protestantes, é uma versão mais curta. E depois temos também a versão grega, essa é a que entra no cânone católico e, portanto, por essa razão, talvez seja a mais conhecida da maioria dos portugueses. É uma versão mais longa, tem algumas partes que foram acrescentadas depois e mais à frente neste episódio vamos falar dessas diferenças. Para já, Daniel, vamos dar aos nossos ouvintes uma ideia desta história. Vou aqui começar só por enquadrar rapidamente e depois tu pegas nesta história. Estamos a falar da corte do Império Persa, onde o Rei Assuero decide oferecer um grande banquete de uma semana a toda a população da capital. Isto é o início do texto. E ao fim de alguns dias, o rei já está com os copos ou, como diz o texto, está com o coração alegre por causa do vinho, que é um eufemismo que eu agora comecei a usar também. E manda chamar a rainha, a sua mulher, a Rainha Vasti, que era uma mulher lindíssima e ele basicamente quer mostrar a beleza da sua mulher ao povo. E a rainha recusa, não quer aparecer. O rei fica furioso, consulta os juristas para saber como é que há de castigar a rainha, e eles acabam por chegar a um castigo radical. Vasti é expulsa da corte, deixa de ser rainha e é preciso encontrar uma nova rainha. E é neste dilema que o livro nos enquadra logo no início. Daniel, como é que uma mulher judia, esta Ester, que vai protagonizar a história, vai acabar no trono da Pérsia?

Como bem dizia, João, é uma espécie de romance histórico neste contexto do Império Persa, que é o grande império ali na zona da Mesopotâmia, atualmente no Irão, que segue aos babilônios. Portanto, este povo de Israel, que é levado para um exílio Como vemos nos livros históricos da Bíblia, é levado ao exílio pelo Império da Babilónia, só que os babilónios, algumas décadas depois disso, são derrotados pelos persas e são os persas que tomam o poder. É neste contexto ficcional de uma corte persa ao tempo deste rei Assuero, que provavelmente será o rei Xerxes, conhecido por combater contra os gregos nos inícios do século V a.C., em que se passa isto. Ester acaba por ser escolhida pela sua beleza. Há uma procura por uma nova rainha depois de Vasti ter sido, de forma um pouquinho estranha, expulsa da corte. Ester, que é uma mulher judia de grande beleza, aparentemente tem bons contatos graças a este Mardoqueu, também um judeu que tem uma boa posição na corte, e Ester vai conseguir ser selecionada para se tornar rainha.

Os judeus, nessa altura, estavam integrados no Império Persa, que tinha, como dizias, derrotado a Babilónia, mas os judeus estavam integrados na vida social do império? Era possível que uma figura dessas, por exemplo, este Mardoqueu, que vai ser importante ao longo da história, tivesse um cargo importante no contexto das instituições do Império Persa?

Os persas, mais do que os babilónios e assírios, para falar destas grandes potências, estes nomes que vamos ouvindo na Bíblia e que são sempre retratados como inimigos, têm uma política de integração maior. É o imperador persa Ciro que permite que haja um regresso à terra de Israel depois deste tempo de exílio. E a política dos persas é mais descentralizada, vai permitir grandes autonomias a províncias ou satrapias, como eles chamam. É mais verosímil uma certa proeminência de algumas figuras de outras nacionalidades dentro de um contexto persa. Talvez não tanto como aqui. De facto, não há uma pretensão de historicidade, até pelo dramático desta sentença de morte que depois pesa sobre os judeus, isso é completamente inverosímil, mas é um romance histórico que procura ambientar-se também numa certa cultura da época.

E é nesse contexto que aparece este Mardoqueu, que era quem tinha a seu cuidado esta jovem, Ester, que depois é escolhida para integrar a corte. É nesta altura da história que as coisas se complicam, porque a dada altura aparece um tal de Hamã, um príncipe que o rei escolhe para ser o seu número dois, talvez uma espécie de primeiro-ministro, diríamos assim. Quem é este homem que aparece para complicar a história?

Sim, de facto, o Hamã. O Daniel falou aqui claramente do Xerxes como alguém que combateu os gregos. Quem está habituado ou viu aqueles filmes "Os 300", é aquele rei um bocado exótico, esotérico, que aparece filho do rei Dario e é o que está envolvido na Batalha das Termópilas, de Salamina. Podem não ter lido a Bíblia, mas se calhar viram "Os 300" e é precisamente esse rei que aparece. Referiste realmente aqui o Hamã. O Hamã é uma espécie de primeiro-ministro que é promovido pelo rei. Claramente aqui estas adaptações ao mundo atual são sempre precárias, mas assumamos que é o número dois do império. E há aqui uma espécie de sinal de alarme para quem está atento à Bíblia e está a lê-la de maneira atenta, que é: o Hamã é um agagita, alguém que deriva de uma linha dos amalecitas, que nós já tínhamos visto aqui há uns episódios, são uma espécie também de inimigo arquétipo, tal como, de certa maneira, durante algum tempo, foram os filisteus, mas os amalecitas são claramente o inimigo arquétipo, tanto que quando o povo está no deserto, os amalecitas atacam o povo judeu. É aquela famosa cena que também já referimos quando falamos de Josué, de levantarem as mãos em intercessão e alguém segurar nos dois braços para fazer uma intercessão a Deus. Esta aparição deste homem quer também reintroduzir um conflito clássico entre os amalecitas e os judeus, tanto que o Mardoqueu é judeu e é descendente de Saul, o Hamã é descendente destes amalecitas. O rei Saul não derrotou totalmente os amalecitas no primeiro livro de Samuel e por isso aquilo que está aqui a acontecer é uma espécie de reconto histórico desta inimizade.

E este Hamã vai, basicamente, como número dois, querer que o povo se subjuga a ele. E há aqui um momento de tensão em que Mardoqueu, este herói-

Se recusa a ajoelhar diante dele. E portanto, há esta relação histórica, não é só "eu não quero ajoelhar diante de ti". Realmente, há aqui um contexto.

E há aqui então este momento em que, depois de Mardoqueu desrespeitar o Hamã, é tomada a decisão pelo Hamã, pelo império, de matar todos os judeus. Daniel, Mardoqueu vai perceber que isto vai acontecer e vai pedir ajuda à personagem óbvia, que era a rainha Ester, a jovem que ele tinha levado para o trono, mas que entretanto sempre tinha escondido essa informação sobre si própria, nunca tinha dito que era judia. Como é que se vai desenrolar isto? Que plano é que ela vai tentar arranjar para salvar os judeus?

Já esta condenação à morte também tem o seu quê de incrível, no sentido inacreditável, porque como lemos no texto, é algo que Hamã convence o rei a assinar para daqui a não sei quanto tempo. Fica durante meses a pairar uma data estabelecida, tirada assim à sorte. E entretanto, há este tempo que vai colocando alguma tensão dramática na história, e Mardoqueu vai pedir a Ester que, como rainha, procure falar com o rei. Só que percebe-se também que há aqui o perigo de acontecer a Ester o mesmo que aconteceu a Vasti. E, portanto, se Ester for falar com o rei sem ser chamada, corre o risco de ela própria ser aprisionada e ser deposta. Também há aqui um contexto um bocadinho estranho do papel da rainha, que quase que parece mais uma concubina do que propriamente uma rainha com poder próprio. Mas depois o texto vai evoluir à volta desta coragem que Ester terá de ter na decisão de arriscar a vida para salvar o seu povo. E este tema desta coragem de Ester vai ser determinante no livro.

É aqui que encontramos uma importante diferença entre as duas versões do texto.

Sim, aqui no início.

No início também, exatamente. Logo ali no primeiro versículo.

São bem duas versões quanto mais propriamente acrescentes. O texto base é o mesmo, portanto, o texto hebraico é um, e depois na tradução grega, na Septuaginta, há aqui uma série de acrescentes que são basicamente orações, reflexões em que entra Deus. Também é um aspecto curioso. O texto é muito secular, talvez por isso tenha sido também debatida a sua canonicidade. Foi um dos textos da Bíblia Hebraica que teve mais dificuldades até ser finalmente reconhecido como canônico. Tal como já tínhamos visto no livro de Rute, há aqui uma secularidade neste sentido que Deus não intervém, não aparece, não é mencionado, não aparece como protagonista. E é nessas adições, nessas inserções, que Deus aparece mais. Se pegarmos numa Bíblia católica, de uma editora católica normal, percebe-se que são inserções, ou seja, a numeração é diferente, tem itálico.

A parte acrescentada pelos gregos. Numa frase, muito rápido, antes de irmos para o intervalo, qual é que é o plano que Ester arranja? Há ali um banquete.

Sim, o plano é também utilizar alguma artimanha sedutora, convidando o rei Hamã para um banquete, onde ela aí, no banquete, irá contar a verdade.

Muito bem, nós já voltamos para a segunda parte de "As Histórias da Bíblia" e vamos então saber como é que se desenrolou este plano, que é uma história digna de uma ópera. Vamos perceber como é que a história acaba e vamos também tentar perceber melhor como é que foi escrito e montado este livro de Ester e a influência que esta personagem teve tanto no judaísmo como no cristianismo. É já a seguir um curto intervalo. Até já. Segunda parte de "As Histórias da Bíblia", com os padres João Basto e Daniel Nascimento, e esta semana estamos a falar da rainha Ester, a mulher judia que chegou à rainha da Pérsia. Nós no final da primeira parte, começamos a perceber que o plano de Hamã para matar todos os judeus vai começar a desmoronar-se por causa de um plano que a própria rainha Ester vai delinear para tentar salvar os judeus e que, como o Daniel levantou um bocadinho a ponta do véu no final da primeira parte, envolve um banquete para contar a verdade e para haver uma grande reviravolta. João, queres contar um bocadinho como é que é esta parte da história? Que plano é este?

Sim, este é um plano artimanha, que é clássico até nestas formas do próximo Oriente Médio de escrita. Se nos recordarmos de um texto muito posterior, que são o caso das "Mil e Uma Noites", em que também existe uma espécie de estratagema para convencer o rei. Podemos fazer aqui um paralelo, mesmo que precário, de novo. E por isso aquilo que nós temos aqui é Ester, que toma a decisão corajosa de ir ter com o rei, porque ela não pode ir ter com o rei por livre e espontânea vontade, como o Daniel disse na primeira parte, quase parece aqui uma concubina, que propriamente uma rainha. Ela faz um banquete, mas depois convida-os para um segundo banquete. Há um primeiro banquete, depois o segundo banquete, e é entre estes dois banquetes em que numa noite de insônia, o rei manda ler as crônicas, é uma espécie de preparação do ambiente do segundo banquete. O rei manda ler as crônicas do reino e descobre que Mardoqueu nunca foi recompensado por ter indicado a Ester que havia um plano contra o próprio rei. Portanto, isso vai criar aqui um ambiente para que no segundo banquete, quando Ester revela que é judia e que há um inimigo que quer matar o povo judeu, que esse inimigo é o número dois, o Hamã, o rei, depois também de haver aqui quase uma tentativa de agressão de Hamã à própria Ester, vá condenar Hamã à morte e salvar o povo judeu.

Há aí um aspecto que é: quem ler a versão católica, a versão grega, tem esse momento do Mardoqueu a ser um herói logo no início, mas quem ler A versão de uma Bíblia protestante não vai encontrar esse momento. Para contar muito rapidamente, basicamente, Mardoqueu, esse judeu que tem uma posição relativamente influente na corte, apercebe-se de que há um plano conspiracionista contra o rei e avisa por via de Ester.

Avisa a Ester para que a Ester avise o rei. Só que o rei nunca se apercebe que é o Mardoqueu e, portanto, os judeus que o salvam. E portanto, neste intervalo entre os banquetes, nessa noite de insônia, quase para preparar o ambiente para este segundo banquete e a posição real, quase uma espécie de captação da benevolência do rei, são lidas as crônicas e o rei sente claramente que tem que compensar este Mardoqueu e esta Ester que o ajudaram.

Descobre que afinal tinha ali uma dívida.

Uma dívida que será paga, cobrada com a morte do Hamã.

E depois há ali um aspecto também muito curioso que é, a dada altura, o Hamã até já tinha montado uma espécie de forca.

É uma certa ironia. O Hamã montou uma forca para enforcar e matar os judeus e é nessa mesma forca que o Hamã vai ser enforcado e morrer, o que depois vai ajudar a explicar, se quer, daqui a pouco iremos ver isso, a questão da festa dos Purim e até de um carnaval que existe a partir deste livro de Ester.

Esta história acaba por ter um desfecho feliz, digamos assim, é uma história que acaba bem. O Mardoqueu acaba por assumir o lugar que era do Hamã. Ester aparece como a grande heroína que conseguiu unir as pontas todas. Mas mesmo assim, ainda para concluirmos esta parte da história, no final parece haver uma violência desproporcional dos próprios judeus, uma espécie de, não sei se é uma vingança, se é uma resposta à violência que esperavam daquela condenação à morte, mas a verdade é que o livro no fim ainda dá uma espécie de cambalhota e que põe os judeus a ser muito violentos contra os outros povos. Não sei se há aí uma intenção clara literária de expressar a vingança dos judeus pelo plano.

Sim, há ali uma vontade, fala-se propriamente de vingança, mas é uma espécie de reviravolta. O livro de Ester quer acima de tudo assinalar esta ideia de inversão de um povo que era condenado à morte e que de repente é ele que está no comando. Ou seja, estava debaixo de fogo e de um momento para o outro está no comando e agora vai celebrar esta vitória que teve contra o establishment da época.

Sim, é tudo muito caricatural neste sentido da reversão. Até alguns personagens são uma espécie de caricaturas. Hamã é um personagem mau demais para ser verdade. O próprio rei é também-

É um chocho

... enfim, parece que vai atrás do que os outros dizem.

Não parece o Xerxes do "300".

É, parece mais aquele do "he's no good", aquele rei da Babilônia. Mas, sobretudo, vemos aqui esta ideia da reversão, de tudo que se volta ao contrário, que é um bocadinho caricatural. É uma espécie de carnaval, é uma coisa carnavalesca. Assim como no carnaval e a festa de Purim, a festa que é, por assim dizer, justificada no final do livro como comemorativa deste acontecimento, é uma lógica de tirar algum tempo para fazer tudo ao contrário.

E ainda assim, a vingança é claramente diferente. Ou seja, há uma ação desproporcional, mas não há um objetivo pessoal de ganhar, por exemplo, com as pilhagens. Mesmo assim, mostra-se que mesmo na reversão, os judeus têm aqui uma dimensão extra de ética que o Hamã não teria se os tivesse assassinado.

Porque no decurso do livro, aquilo que acontece é o primeiro decreto, que é aquele decreto emitido por Hamã, basicamente o que diz é: no dia tal, é aquilo que o Daniel dizia há pouco, há uma data programada para a execução de todos os judeus, no dia tal, todo o povo do império tem que assassinar todos os judeus que vir à frente. E então os judeus vivem ali com medo, vivem com terror da chegada desse dia. Parece que se vão preparando quase espiritualmente para a sua morte. E depois este segundo decreto que revoga o primeiro, na verdade, é curioso que aquilo não revoga a condenação, mas o que diz é: dá aos judeus a legitimidade para se defender. Portanto, parece que instiga ainda mais a violência nesse final do livro.

Há quem diga até que este livro, por acaso, no século XX, teve duas utilizações, por aquilo que consegui até descobrir e procurar. Por um lado, um judeu que esteve em Auschwitz, o Elie Wiesel, conta uma história que é uma reinterpretação do livro de Ester e fala desta questão de uma espécie de sobrevivência de um povo condenado à morte. Mas esta astúcia muitas vezes levou, até ao longo da história, a ver o povo judeu como o antissemitismo via. Alguém que consegue sempre arranjar um estratagema, um esquema para se safar, quase como o Gil Vicente retrata, os agiotas, que eles conseguem arranjar ao dravar de um momento para o outro, eles vão ganhar sempre

E este livro dá muitas vezes para essas leituras pendulares, quer do povo vítima que consegue sobreviver, quer para o povo vilão, que na verdade está sempre à espera de ver onde é que vai encontrar vantagem.

Sim, e pende sobre este livro uma acusação de nacionalismo, de um nacionalismo exacerbado. Talvez também aí estas adições, estes acrescentos, que dão aqui alguns pontos do enredo que o João também contou, esta ideia do Mardoqueu ter sido providencial para salvar o rei, destes sonhos do rei, de Ester, a oração de Ester. Tudo isso onde entra a vontade de Deus e um aspecto também mais ético, por um lado, e providencial, por outro, não estão no texto original hebraico, mas só nesta versão grega. Talvez seja também uma vontade de trabalhar um bocadinho a história e tornar a história um bocadinho mais aceitável.

Era mesmo isso que te ia perguntar, Daniel. Agora que conhecemos as linhas gerais da história, acho que era interessante tentarmos compreender melhor o livro enquanto obra. E já dissemos aqui várias vezes que há uma versão mais reduzida, a versão hebraica, e depois há um texto grego que teve acrescentos, essa tradução grega feita em Alexandria. Não sei se nos queres contar um bocadinho o que é que sabemos sobre a história deste texto, quem é que o escreveu originalmente, quando é que foi originalmente escrito, como é que estas adições foram sendo feitas ao longo do tempo. O que é que sabemos? O que é que é possível saber?

Como em todos os livros do Antigo Testamento, temos muita dificuldade em colocar um autor, uma marca autoral, dizer: "Foi esta pessoa que escreveu". Ainda assim, os especialistas tendem a considerar que terá sido escrito ainda na época persa e, portanto, os persas vêm a seguir aos babilónios, como já vimos, ali no século VI, e dominam até fundo virem os gregos, até Alexandre, o Grande conquistar a Pérsia. E portanto, aqui este período, basicamente entre o ano 500 e tal e o ano 300 e tal, estes 200 anos, este período persa, será neste contexto em que até haveria interesse, haveria leitores interessados em ambientar a história na corte persa. Parece ser este o milieu originário do texto. E será posteriormente, então, que aparece nesta tal versão grega, que também não sabemos muito bem quando é que foi escrita. A tradução para grego, conseguimos situá-la, mais ou menos, na história em Alexandria, no século III, no caso do Pentateuco. A Bíblia grega depois foi sendo feita, foi sendo traduzida. E aqui vê-se também um aspecto que é muito importante no Antigo Testamento, uma ideia de uma certa fluidez do texto. Nós temos, às vezes, uma perceção um bocadinho diferente. Achamos que o texto é escrito e está escrito. Está escrito na pedra ou no papiro, seja onde for, e mantém-se assim, e é preservado assim. Mas em tempos bíblicos, há também uma fluidez do texto que leva a que, por exemplo, quando se descobrem textos antigos em hebraico, em Qumran, aquelas grutas do Mar Morto, onde são descobertos vários textos que conseguimos datar do primeiro século antes de Cristo ou depois de Cristo, mas enfim, bastante antigos, que se encontra versões diferentes do texto, por exemplo, de Profetas, do texto de Job. E percebemos que o texto está num estado de fluidez durante alguns séculos. E, portanto, há uma certa legitimidade em acrescentar ou adicionar partes que não fariam parte do núcleo originário e muitas vezes é difícil perceber qual é que é esse núcleo originário.

Ocorre-me uma questão. Já dissemos, obviamente, que não há aqui uma dimensão histórica, de veracidade histórica neste relato de Ester, mas será que conseguimos mais ou menos intuir que função é que este livro desempenhava? Ou seja, teria uma função de alguma maneira religiosa? Seria um romance que teria um público que pudesse ter algum entretenimento com esta história, que acaba por ser uma história muito romanesca.

Acho que esses dois aspetos são inseparáveis. Há uma dimensão burlesca e até de entretenimento, digamos assim, que não é incompatível com uma significação religiosa. Aliás, o texto parece legitimar Purim, este tal carnaval judaico, este tal tudo virar-se ao contrário. Os especialistas dirão que o mais provável é ser o contrário, ou seja, não acontecimentos que aconteceram para o seu povinhismo e, portanto, celebra-se uma festa a comemorar isso, mas a festa que já existia, este Purim que já deveria existir, adaptado de algum tipo de celebração do contexto da Mesopotâmia, e que esta história, no fundo, é uma espécie de justificação dessa festa de Purim.

Claro. João, íamos puxar este tema agora da festa de Purim, que os judeus celebram anualmente. E aliás, um aspecto curioso é que nessa festividade judaica, este livro, este rolo é lido na íntegra. Como dizia o Daniel, este é um texto que procura legitimar uma festividade importante em que os judeus acreditam, por exemplo, que aquela reviravolta final na história é lida como mais uma intervenção divina para sistematicamente salvar o povo escolhido. É essa a lógica.

O próprio nome Purim pode ter aqui até uma

Uma pista para descobrir precisamente o que é esta festa, porque o nome Purim, uma das possíveis etimologias é vir da ideia de sortes, mas no sentido de, como nós dizemos, deitaram sortes sobre a túnica de Jesus como se fossem uns dados, os mesmos dados que Haman lançaria para escolher quando matar e quem matar. E, portanto, o próprio nome já faz esta inversão.

Sim, o texto faz essa explicação. É este avançar as sortes, procurar ao calhas, por assim dizer, a data para a exterminação e é a partir daí que vem este nome Purim.

Daí que vem o nome Purim. Ainda recentemente, por exemplo, em Portugal, saiu um livro que é "Os Judeus e a Comédia", da Zigurath, que é de um autor chamado Jeremy Dauber, acho eu que é assim que se diz. E o autor, o Jeremy Dauber, diz a certa altura que este é talvez o livro que justifica aquilo que nós chamamos a ideia dos judeus ligados ao mundo da comédia. Ao contrário dos católicos e dos cristãos, que são muito reservados ao nível do humor, os judeus têm um humor judaico muito bem desenvolvido e o próprio livro de Ester é a primeira obra que retrata e que capta este prazer cômico. A certa altura, no livro, ele diz: "Parece que a ideia era: eles vão nos matar, nós sobrevivemos, vamos comer". Assim esta ideia que perpassa no livro, até porque também há a sátira ao poder político, Xerxes parece um Totó.

Claro, assina a sentença de morte para os judeus, porque sim, nem pensa bem no assunto, depois muda de ideias.

E depois muda de ideias também.

E há aqui o aspecto também interessante, desculpa João, interromper, até de uma espécie de escape. Haman é uma espécie de válvula de escape para libertar a agressividade. E vem desta linha de Amalequita, de Amaleque, que é este inimigo preferido dos judeus. No século XX, Amaleque são os nazistas. Isso é atualizado também no judaísmo do século XX. E ainda hoje, na sinagoga, quando isto é lido em Purim, eu lembro-me uma vez em Jerusalém de ir com uns colegas e isto ter acontecido, lê-se todo o livro e sempre que é mencionado Haman, gritam, batem com os pés. Então há aqui um mecanismo também psicológico de colocar uma certa encenação.

Não, porque este livro claramente é o livro em que o feitiço se vira contra o feiticeiro. Os judeus não têm um exército, contrariamente ao que aparece noutros livros, não têm claramente um poder militar que consegue derrotar. E há aqui uma astúcia quase carnavalesca que vence tudo e possibilita até esta ideia da inversão de que já falámos algumas vezes.

João, e os cristãos, como é que olharam para este livro ao longo da história? Dizia no início que há quem veja, os cristãos têm sempre esta tendência para ver no Antigo Testamento-

Sim, quase uma obsessão, ver que tudo o que acontece no Novo Testamento tem um arquétipo, parece Jung, tem um arquétipo no Antigo Testamento.

No Antigo Testamento. E aqui Ester é muitas vezes vista como uma espécie de figura de Maria.

Quase todas as mulheres no Antigo Testamento, por um lado ou por outro, são vistas como figuras de Maria. Aqui a ideia de rainha, a ideia de Ester ser uma rainha humilde, tal como Maria é uma rainha humilde, a ideia de uma escolha que não é previsível. Ester calha ser rainha, parece quase a Isabel II, que quando nasceu não era para ser rainha, acontece quase isto com Ester e com Maria. Mas os cristãos sempre tiveram aqui uma relação menos clara com este texto. Primeiro porque, de facto, este texto foi um texto difícil de entrar no cânone. E, portanto, se os próprios judeus já teriam alguma dificuldade, os cristãos também o vão sentir. Por outro lado, se este texto está relacionado com a festa do Purim, nós no calendário católico cristão não temos propriamente uma festa equivalente. E depois, durante algum tempo, também se achou que este texto tinha, como nós já referimos, um excessivo pendor nacionalista e que isso claramente não tinha a ver com a nossa leitura bíblica. E por isso a relação nem sempre foi muito clara. Aliás, há padres da Igreja, ou seja, aqueles primeiros teólogos, grandes pensadores e filósofos cristãos, como Gregório de Nazianzo, Teodoro de Mopsuéstia, que não referem este livro como um livro canônico e por isso esta relação instável e posição instável que o livro teve na história. Aliás, se calhar muitos dos nossos cristãos, acima de tudo católicos, não terão ouvido falar de Ester ou terão pouco contato com este livro.

Só numa frase mesmo para terminarmos o episódio, Daniel, mas a verdade é que houve uma opção de chamar a este livro, o livro de Ester e não, por exemplo, o livro de Mardoqueu, que até podemos argumentar que poderia ser o grande herói da história.

Não sei, parece-me que Ester é claramente, até porque toma em si esta responsabilidade de ir.

Ser ela quem arrisca a vida.

Ser ela que arrisca a vida. Se imaginarmos isto como um filme, claramente será a protagonista.

Muito bem, chegamos ao fim do sexto episódio da segunda temporada de "As Histórias da Bíblia" e na próxima semana vamos falar não de uma, mas de duas personagens deste grande livro que é a Bíblia, Job e Jonas. Duas histórias escritas para refletir sobre as questões do sofrimento e da justiça de Deus. Já sabem, os nossos ouvintes podem enviar-nos perguntas, comentários, sugestões para o nosso e-mail ashistoriasdabiblia@observador.pt e nós procuramos sempre responder às perguntas todas as quintas-feiras num episódio especial apenas em podcast. Até para a semana, aqui na Rádio Observador e até quinta-feira em podcast. "As Histórias da Bíblia" é um podcast da Rádio Observador com Daniel Nascimento e João Basto. É apresentado por mim, João Francisco Gomes, e a música do genérico é de Tiago Fulton.