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Muito bem-vindos a mais um episódio especial de "As Histórias da Bíblia". Todas as semanas estamos aqui às quintas-feiras para responder a uma pergunta dos nossos ouvintes. Têm sido muitas as questões que têm chegado ao nosso e-mail ashistoriasdabiblia@observador.pt. Portanto, é sempre bom encorajar os nossos ouvintes a continuar a mandar mais perguntas, comentários e sugestões para este nosso podcast. Nós estamos aqui todos os domingos às 9h00, na Rádio Observador e sempre em podcast. E às quintas-feiras passamos por aqui para um episódio mais curto, exclusivo em podcast, para responder a dúvidas dos nossos ouvintes. Não se esqueça de seguir o podcast na plataforma que usar para nos ouvir, para não perder nenhum episódio. Portanto, só para repetir mais uma vez, todos os que quiserem colocar as perguntas aqui aos padres João Basto e Daniel Nascimento sobre a Bíblia, podem escrever-nos para ashistoriasdabiblia@observador.pt. Ora bem, nós no episódio do último domingo estivemos a falar sobre três amigos de Jesus, os irmãos Lázaro, Marta e Maria. Se não ouviu na Rádio Observador, pode ainda encontrar o episódio em podcast em todas as plataformas. Esta semana vamos tentar aqui responder a uma pergunta que nos foi enviada pelo nosso ouvinte Mário Negreiros. Ele escreveu-nos este e-mail e eu vou lê-lo para depois deixar aqui espaço à discussão e acho que vai ser muito interessante e até polêmica esta discussão. "Olá", diz o nosso ouvinte, "há uma ideia central no cristianismo que nunca entendi, a de que Cristo foi enviado pelo Pai para ser crucificado e pelo seu martírio nos salvar. Esse salto, pelo seu martírio nos salvar, confesso nunca ter entendido. Por que raios a crucificação de um homem haveria de ser condição para a salvação da humanidade? Confesso que o único encadeamento entre a crucificação de Cristo e a vontade do Pai que teve, aos meus olhos, alguma lógica, veio de um acérrimo ateu, José Saramago, que no seu 'Evangelho segundo Jesus Cristo' apresenta a crucificação de Cristo como uma jogada de marketing do Pai que precisava de um mártir para ser adorado pelos homens, o que só poderia vir de um Deus patologicamente narcisista e ilimitadamente mau. Como certamente esse não será o vosso Deus, peço que me digam, afinal, o que faz da tortura e morte de Cristo uma condição imprescindível para a nossa salvação. Era mesmo preciso?" João, afinal, por que a Bíblia põe Jesus a ter de morrer para salvar a humanidade? Não era possível salvar a humanidade de outra forma?

Eu acho que a resposta a esta pergunta é talvez a resposta mais importante, ou pelo menos é a pergunta mais importante. A resposta, vamos ver se vai ser boa, mas é talvez a pergunta mais importante e a resposta, pelo menos que tentarei dar, creio que ajuda a desconstruir, se calhar, algum certo edifício não propriamente cristão nem católico, mas que ainda habita a mente de muitos de nós, até porque aquilo que o ouvinte diz é algo muito comum e que tem uma grande influência de duas grandes figuras: a teoria da substituição de Anselmo da Cantuária, que é conhecido pelo seu argumento ontológico.

Para a existência de Deus.

E nunca me ouviram falar mal de Santo Anselmo, principalmente do argumento ontológico, do qual sou eminentemente fã, mas aqui a teoria da substituição acho que tem alguns problemas. E também a teoria de Marcião, que é um filósofo teólogo dos primeiros séculos da Igreja. Vou tentar primeiro resumir os argumentos de Anselmo e de Marcião e depois a resposta dos eminentes teólogos a estes argumentos, nomeadamente os dois teólogos que estou a referir é Ireneu de Lião e Joseph Ratzinger, que nunca irão dizer que era um perigoso radical.

Portanto, vou pedir aos nossos ouvintes que peguem no blocó notas e na caneta, porque vai haver citações.

Vai haver, pelo menos apropriei-se. Resumo de ideias. Basicamente, a ideia de Anselmo é que o pecado é uma ofensa contra Deus. Deus, como é infinito, a ofensa tem um peso infinito. A justiça exige uma reparação proporcionada e, por isso, o homem finito não consegue oferecer uma satisfação suficiente para essa culpa. E por isso é preciso alguém que seja simultaneamente Deus, para ter um poder infinito, e homem, para corresponder a esta dívida que a humanidade tem para reparar aquilo que o pecado feriu. E por isso Jesus precisa de salvar a humanidade através de um sacrifício redentor para pagar esta dívida. Este é o argumento de Anselmo. O argumento de Marcião é um argumento até muito popular hoje em dia, de que a criação é má, o mundo é mau, está corrompida e comporta pecado, e é preciso escapar e melhorar a criação. Logo, é preciso que um Deus bom liberte o ser humano deste vale de lágrimas em que está.

Mas e em que medida é que...?

E por isso é preciso necessariamente um salvador, ou seja, há necessidade de um salvador.

Mas penso que a pergunta do nosso ouvinte é: em que medida é que morrer se traduz nessa...?

Sim, mas aí a questão é a redenção do homem que morre Jesus Deus. Eu quero responder essa questão da necessidade, se há necessidade mesmo de salvação ou não. A questão da dívida está mais presente em Santo Anselmo propriamente do que em Marcião, mas em Marcião a questão é da necessidade. Nós precisamos mesmo de um salvador, é o pecado que nos leva a precisar de um salvador. Eu vou até responder primeiro essa pergunta para depois ir falar da questão mesmo do sacrifício de Cristo. Ireneu de Lião diz que a necessidade de salvação, surpreendentemente, se calhar, para o comum das pessoas, é anterior ao pecado. Ou seja, mesmo que a humanidade não tivesse pecado, nós precisávamos de um salvador. Por quê? Como nós acreditamos, pelo menos os cristãos, Deus cria a humanidade de maneira não totalitária e isto implica que a humanidade não é uma marionete. Nós fomos criados à imagem de Deus, mas nós temos não só que aceitar essa imagem, mas temos que praticar a semelhança com Deus, porque se nós nascêssemos já, na visão cristã, imagem e semelhança de Deus, mas já deuses, nós teríamos aqui a ter um problema, que era a humanidade não era realmente livre. Deus teria criado a humanidade como Stalin gostaria ter criado a União Soviética. Peço desculpa aos fãs que podem estar a ouvir, aos fãs das práticas do Stalin. Neste sentido, Jesus é a concretização desta capacidade. Toda a vida de Jesus, não só a morte, é salvação, é redenção. Quando nós dizemos que a morte está ligada à redenção, não. Tanto o nascimento, como as curas, como a ressurreição. Aliás, Ireneu de Lião diz claramente que não é a morte que é redentora, é a vida toda de Jesus que é redentora, porque Jesus, na sua vida, mostra que apesar da nossa tendência de fugir da morte, de escapar ilesos, existe uma possibilidade de comunhão com Deus, que só acontece atravessando precisamente a mortalidade, em toda a sua extensão. E a morte aqui é, de certa maneira, um episódio dessa toda a sua extensão. Mesmo que a humanidade não tivesse pecado, como o homem é tacanho, nós precisávamos de alguém que levasse essa capacidade ao extremo, ao limite. O que é que diz Ratzinger? A resposta é mais direta à pergunta do ouvinte. Ratzinger diz num livro muito famoso, que é a "Introdução ao Cristianismo".

Leitura leve de mesa de cabeceira.

Exatamente, quem quiser ler. É um grande livro, na verdade. Já agora, não vou eu estar aqui a defender a "Introdução ao Cristianismo", não sou ninguém, mas dentre os livros teológicos do século XX, se compararmos a "Introdução ao Cristianismo" com o "Curso Fundamental da Fé", do Karl Rahner, é se calhar um livro mais leve. Portanto, leiam a "Introdução ao Cristianismo". Acho que está esgotado em Portugal, mas leiam. O modelo jurídico de Anselmo para Ratzinger deforma a imagem de Deus. Transforma, como o ouvinte diz, Deus num perigoso narcisista que precisa de uma reparação, um menino invejoso e ciumentamente mimado, que precisa que alguém lhe dê uma prenda pra reparar o carro estragado.

No fundo, o Deus do Antigo Testamento que precisava dos cabritos e dos bodes queimados no altar.

Sim, mas nós já falámos sobre isso. Há aqui uma certa progressividade da revelação e, portanto, nós não podemos pegar num episódio de um sacrifício do Antigo Testamento e dizer o que Deus quer. Há aqui também uma revelação progressiva e há aqui outros fatores envolvidos nessa questão. Até podemos fazer uma vez uma pergunta sobre isso. Ainda assim, a verdade é que biblicamente isto não é tão claro quanto a isso. Por exemplo, São Paulo, na segunda carta aos Coríntios, diz que foi Deus, o Deus que estava em Cristo, que reconciliou o mundo consigo. Não foi a humanidade que pagou uma dívida. Portanto, isso até parece nem ter muito fundamento bíblico. Ou seja, não são os culpados que reparam a relação, é Deus que vai ao encontro da reconciliação. Deus é aquele que torna justo o injusto. Isso é ele fazer uma prática já desde o Antigo Testamento. Isto é, o homem, voltando à expressão, o homem é um bocado tacanho e não consegue restabelecer a relação. Então Deus entra na situação humana e oferece a si mesmo para criar novamente a comunhão. É neste sentido que Deus morre por nós e que Cristo morre por nós. Jesus diz "sim" quando nós não conseguimos dar "sim" e diz "sim" sem nos recriminar. Aliás, naquele episódio, em cena final do silêncio, do "Susacuendo", em que há aquele diálogo entre o padre que está prestes a apostatar e uma imagem de Jesus, em que Jesus diz: "Pisa-me, não há problema, porque eu morri por ti". Ou seja, tu és um medricas, mas aquilo em que tu faltaste, eu já completei. E nesse sentido, quando nós falámos que existe a necessidade de salvação através da morte, primeiro percebemos que não é bem uma necessidade no sentido de pagar uma dívida. Não é uma necessidade que deriva do pecado. Não é algo vinculado à morte, é à vida toda de Jesus. E aquilo que nós dizemos quando Jesus precisou de morrer ou Jesus morreu por nós, estamos aqui a dizer que Jesus mostrou que a humanidade pode ser plenificada. A humanidade por si é uma humanidade plenificada. Quando nós dizemos, por exemplo, na Igreja Católica, que Jesus é igual a nós em tudo, exceto no pecado, se Jesus é Deus e é também homem, estamos a dizer que o pecado não tem nada de humano nem de divino. E é nessas nuances, se calhar eu compliquei mais do que simplifiquei, mas é nessas nuances.

O nosso ouvinte pode enviar um novo e-mail a dizer: "Preciso de uma nova explicação".

Mas a questão é se com a expressão "Cristo precisava de morrer para nós sermos salvos", isto era uma necessidade. Queremos dizer que a morte em si é que é redentora? Não é isso.

Não é isso.

Não é isso. Se nós queremos dizer que Deus é um perigoso narcisista, claro que é um texto literário, mas fica mais ou menos subentendido no "Evangelho segundo Jesus Cristo" de Saramago. Deus é um perigoso narcisista e por isso é que seja paga uma dívida, essa não é teologia cristã Existem filões da teologia cristã que desenvolvem essa teoria, mas isso não é tão claro quanto isso, tanto que o Ratzinger diz que não é assim. Como é que nós devemos entender isto? Jesus é a concretização plena da humanidade, morre por nós na medida em que dá a vida toda por nós e é isso que é redentor, é isso que é salvação. Não é a morte por si só, não é para pagar uma dívida, é para mostrar que a humanidade é capaz de Deus, não é para recompensar alguma coisa que tenha acontecido.

Daniel, queres acrescentar uma linha ou duas?

Sim, só em duas penadas focar a importância não da cruz, mas do crucificado. Não tanto do sofrimento em si na cruz, mas da vida entregue, da entrega total de vida de Jesus. E talvez não esquecer, de facto, fala-se de morte redentora e da morte pela salvação dos pecadores, etc. Mas para nós cristãos não pode ficar aí na medida em que sem a ressurreição, isto faz pouco sentido. Portanto, sem a vitória sobre a morte na ressurreição, sem o domingo de Páscoa, ficar na Sexta-feira Santa é, de certa forma, ficar curto, ficar ainda um bocadinho numa certa mentalidade veterotestamentária que depois não atinge a plenitude daquilo que o João nos queria dizer.

E também daí que os textos bíblicos, os textos do Evangelho dediquem tanto espaço à descrição da paixão e da morte de Cristo. Muito bem. Fica por aqui este episódio especial em que procurámos responder à dúvida enviada pelo nosso ouvinte Mário Negreiros. Já sabe, se quiser enviar uma pergunta para o podcast As Histórias da Bíblia, escreva-nos para o nosso e-mail ashistoriasdabiblia@observador.pt. Pode também deixar um comentário no YouTube ou na plataforma de podcasts em que nos estiver a ouvir. E nós voltamos no domingo com mais um episódio da nossa terceira temporada. Vamos falar sobre os 12 apóstolos. E na próxima quinta-feira voltamos para responder a mais uma pergunta dos nossos ouvintes. Até domingo.