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Este é o Boa Moeda para Poupar com Miguel Ferreira. Hoje, Miguel, vamos falar de um tema de que se fala há muito tempo, desde o início do século, quase, que é um mistério para muita gente também, que são as criptomoedas, as moedas digitais.

Sim, bom dia, Paulo. Sim, eu decidi trazer este tema porque é um tema muito atual e que é importante as pessoas terem um bom entendimento de quais é que só podem ser as potenciais vantagens, mas também dos muitos riscos que estão associados aos investimentos em criptomoeda. Portanto, é importante perceber o que são, para que servem e se vale a pena arriscar ou não, ou se estamos dispostos a arriscar ou não.

Claro. Vamos começar então por aí, o que são as criptomoedas?

Sim. As criptomoedas são dinheiro em formato digital, não é regulado, não é controlado pelo Banco Central ou pelos governos.

Nem emitido por nenhum banco central.

Nem emitido por nenhum banco central. Há um registo público, no fundo, podemos pensar num caderno gigante onde estão registados quem são as operações e os donos.

O António comprou cinco ao Manuel. Estou a levar isto ao mais básico, mas estão lá esses registos todos, no dia, a hora, o preço.

Todas as transações.

Todas as transações. Isso é inviolável, não é?

Isso é inviolável porque é usada uma tecnologia que é chamada blockchain, que consiste neste registo digital, neste caderno gigante.

Segundo vai acrescentando as novas operações.

Exatamente. E que nunca é apagado.

Apagado. E portanto, qualquer alteração está lá registada.

Está lá registada e está lá registado em cada momento, hoje, quantas criptomoedas eu poderia ter na minha conta e qual o valor dessas criptomoedas.

Certo.

Exemplos de criptomoedas mais conhecidas: os bitcoins.

É a mais conhecida, certamente.

Já existem desde 2009, mas há muitas outras, nomeadamente, por exemplo, provavelmente a segunda mais transacionada é o chamado Ethereum, que também é uma criptomoeda bastante transacionada.

Por que ficaram famosas assim de repente?

Sim. Por um lado, por acessibilidade. Qualquer pessoa com acesso à internet pode comprar criptomoedas, portanto é relativamente fácil, permite fazer transferências rápidas sem a intervenção do sistema financeiro e muitas vezes as pessoas podem evitar usar os bancos porque há comissões associadas a transferências financeiras. No fundo, acessibilidades e transferências rápidas. E depois, o que as tornaram famosas foi essencialmente a grande valorização que tiveram desde 2009, 2010, com a criação da primeira criptomoeda, que foi o bitcoin. Só para termos uma ideia, qual foi a rendibilidade média por ano dos bitcoins desde 2009? 145% ao ano.

Que é uma coisa muito grande.

É um valor muito grande. E se pormos em perspetiva, podemos comparar, por exemplo, com a rendibilidade média de índices de ações, que foi sensivelmente 8, 10% ao ano.

Sim, não tem nada a ver. Escalas diferentes.

15 vezes maior a rendibilidade média anual comparativamente, por exemplo, a ações.

Mas estamos a falar de coisas muito diferentes também.

Estamos a falar de coisas muito diferentes. Quando estamos a comprar ações de uma empresa, a empresa tem ativos físicos.

E nós sabemos o que é aquilo.

Tem equipamentos, tem edifícios.

Vende, tem faturação.

Exatamente. Portanto, há ativos subjacentes a esse investimento que estamos a fazer e que é possível valorizá-lo, fazendo a valorização desses ativos que a empresa tem. No caso das cripto, não existem ativos subjacentes, portanto é muito difícil e incerto o tipo de valorização que podemos fazer desses ativos que temos em criptomoedas.

E esse será o principal risco, talvez, a volatilidade, não é?

Exato. Qual é o efeito de não haver esses ativos subjacentes e de ser muito incerta a valorização? Apesar desta rendibilidade elevadíssima, que tem tido desde 2009, a volatilidade é muito elevada. A volatilidade média anual é cerca de 80%, ou seja, quatro a cinco vezes mais do que em índices de ações. Qual é a implicação prática desta volatilidade? É que podemos ter perdas enormes. Por exemplo, em 2018, houve uma desvalorização de 75% dos bitcoins. Ou seja, se no início de 2018 tínhamos $100 em bitcoins, no final de 2018 só tínhamos $25.

Furtíssimo também.

Uma perda furtíssima. Possibilidade de rendibilidades realmente elevadas, mas riscos elevadíssimos e exposição a perdas muito grandes.

Flutuações muito fortes de preço de cotação.

Para além disso, quais os outros tipos de riscos que podemos ter? Riscos de fraude. Há muita fraude associada a criptomoedas. Temos o exemplo famoso do FTX em 2022, que desapareceu uma parte substancial do dinheiro dos investidores. Segurança, por exemplo, se perdermos a palavra-passe, podemos perder tudo. E também há aqui um custo ambiental. As criptomoedas e esta tecnologia de blockchain exige a utilização de muitos recursos computacionais que consomem energia no mundo e sabemos que hoje em dia a energia pode ter um custo ambiental significativo, a produção de energia tem estes custos ambientais e dada a crise climática que estamos a viver, este custo ambiental não é displicente.

E qual é o futuro? Ponderadas aqui as rentabilidades e a volatilidade, qual é o futuro destas criptomoedas?

Eu acho que o futuro é: vai haver tendência para as rentabilidades diminuírem e também associado a isso, os riscos também serem um pouco mais baixos Porque acho que o que vai acontecer a certa altura é estas criptomoedas passarem a ser também reguladas e estarem sujeitas a mais controle por parte dos bancos centrais e por parte dos governos. Portanto, acho que vão continuar a existir, coexistir com o dinheiro normal, mas com mais regras e provavelmente com riscos mais baixos também, sempre elevados, mas mais baixos, mas também rendibilidades menos atrativas. E vão também provavelmente coexistir com o lançamento de moedas digitais oficiais pelos bancos centrais. Já existem num ou noutro país, mas existe projeto destas moedas digitais oficiais serem lançadas nos próximos anos, tanto na Europa como nos Estados Unidos. Que é a chamada CBDC, que é a sigla para Central Bank Digital Currency. No fundo, é termos uma conta no banco central.

Essas aí oficiais que dizias.

Oficiais.

Moedas oficiais, só que na sua versão digital, se quiseres.

Exatamente. Consiste em termos uma conta corrente no banco central, digital, que podemos utilizar para pagamentos, mas que vai ter provavelmente um determinado limite máximo.

Aí vai levantar questões, seguramente, e um dia destes podemos falar disso, sobre o que vai acontecer aos bancos comerciais.

Sim.

Nesse contexto, levanta muitas questões sobre a atividade dos bancos, mas isso já é outro campeonato. Aqui estamos para concluir, Miguel, este episódio sobre criptomoedas. Então, o que é que dirias?

De criptomoeda eu diria: risco muito elevado, que é preciso ter em consideração quando fazemos os investimentos, embora o potencial de ganho pode ser significativo. E, portanto, a regra ouro é quanto é que eu estou disposto a arriscar ou só devo investir neste tipo de ativos muito arriscado o dinheiro que eu posso perder. Nunca quero perder dinheiro, mas dinheiro que nos faz falta é muito arriscado realmente investir em criptomoedas.

Muito bem, fica essa nota final. Miguel Ferreira aqui com o "Boa Moeda, Poupar". Ficamos por aqui, voltamos para a semana. Até lá.

Sim, obrigado, Paulo.