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Pedro Lino, bom dia. Bem-vindo mais uma vez. Há aqui também uma subida do risco da dívida dos Estados.

Bom dia, Paulo. Bom dia a todos. É verdade. A dívida tem estado muito elevada nos últimos anos e existe aqui um risco que já vamos analisar, mas temos que começar pelo início para as pessoas perceberem o que é uma obrigação e por que os juros estão a subir. Ora, quando um Estado precisa de dinheiro, pode cobrar impostos, mas também pode pedir dinheiro emprestado. E uma das formas de fazer é emitir o que se chama uma obrigação. E o que isto é? Imagina, Paulo, que o Estado português emite uma obrigação de 1.000 € a 10 anos e paga um juro de 3%. O investidor entrega 1.000 € ao Estado, ou seja, empresta-lhe dinheiro e em troca recebe todos os anos 30 € e no fim do período, os 1.000 €. No fundo, uma obrigação é um empréstimo, porque o Estado obriga-se a pagar os juros e obriga-se, no vencimento, a devolver o capital ao investidor.

No fundo, é um empréstimo. Agora importa perceber por que estão os juros a subir, não é?

Pois, aqui é que começa o problema. Existem várias razões. A primeira é a inflação, que tem muito a ver com a energia, o conflito do Médio Oriente e que está a propagar para o resto da economia. Depois temos os bancos centrais que, para tentarem combater a inflação, estão a subir as taxas de juro e isso influencia também os juros em todo o mundo. Mas existe um terceiro fator que muitas vezes não é muito olhado: é a questão da emissão de dívida. Neste momento, quer os Estados, quer as empresas de inteligência artificial precisam de muito dinheiro e estão a ir ao mercado a pedir empréstimos, seja para a defesa, para as infraestruturas, para a transição energética ou para financiar todos esses centros de dados. Isto significa mais dívida. E aqui aplica-se uma regra da economia, das mais velhas todas, que é: se existe mais oferta de obrigações, ou seja, mais empresas e mais Estados a pedirem dívida, precisam de encontrar compradores. E os investidores, o que estão neste momento é a exigir uma remuneração superior.

Até porque o dinheiro também é um bem escasso, não é? E com tanta gente a procurá-lo, obviamente que isso faz subir. Depois há outro problema, Pedro Lino, que é o refinanciamento da dívida, porque os Estados precisam, quando o empréstimo chega ao fim, de pedir dinheiro emprestado para o pagar, não é?

É verdade. Se pensarmos bem, a maior parte dos Estados tem défices e por isso significa que tem que refinanciar a dívida antiga e tem que emitir dívida nova. Vamos imaginar, por exemplo, um Estado que tem uma dívida de 100 mil milhões de euros. Uma conta simples: se pagar-se em média 1% de juros, seria 1000 milhões por ano. Mas agora, Paulo, imagina que este custo passa para 4%, como foi em 2022, que as taxas dispararam. Os 1000 milhões de juros passam a representar 4000 milhões. É verdade que isto não acontece de um dia para o outro e até algo importante, que é os Estados vão se refinanciando uma parte da dívida todos os anos. Ou seja, mesmo que os juros agora disparassem para 4% a 5%, uma parte dessa dívida que era refinanciada, porque os Estados têm maturidades diferentes, uma parte vence este ano, outra dentro de cinco ou 10 anos, etc. Mas o problema é que quando os juros sobem, o custo médio vai aumentando devagarinho. Ou seja, se os juros subirem durante muito tempo, isto acaba por ter um impacto no orçamento. No fundo, é como ter uma hipoteca com taxa muito baixa que chega ao fim e eu vou ter que refinanciar a taxas de juros superiores. E sabemos que o resultado não é bom.

Claro. Aliás, nas contas que o Ministério das Finanças faz para o próximo ano, já há mais 800 milhões de euros para pagar de juros para o ano, precisamente para prever esta subida de juros. E tudo isto pode levar, certamente, a um efeito de bola de neve.

Sem dúvida. E aqui surge o outro problema, que é: quanto mais dinheiro o Estado gastar em juros, menos sobra para outras áreas, como a educação, a justiça, saúde, ou então terá que aumentar impostos ou emitir ainda mais dívida. Por isso, se os investidores começarem a pensar que a dívida é mais arriscada, como está a acontecer agora em França, que está quase a 5% há 10 anos, o que é impressionante, pode-se criar um círculo que é mais dívida, mais juros, mais despesa, mais necessidade de financiamento, maior risco e é aquele que se chama a bola de neve.

Claro, nós conhecemos um pouco essa dinâmica de 2010, 2011, que levou à intervenção da Troika.

É verdade.

Agora os tempos são muito diferentes para a dívida portuguesa e para as contas portuguesas. De qualquer forma, Portugal mantém um diferencial de juro acima da Alemanha, que é referência. Por que Portugal e a Alemanha pagam juros diferentes?

Sim, a Alemanha é referência porque tem uma dívida controlada, tem um déficit historicamente controlado e era tida como país forte da zona euro. Por isso, tudo se mexe relativamente à Alemanha. A questão é que nós pagamos o diferencial, que neste momento até é muito baixo face ao que os outros países pagam. Nós pagamos cerca de 0,5% acima do que a Alemanha paga. Isto tem a ver com o risco percepcionado que os investidores têm relativamente a um país. Por exemplo, a França, neste momento, está com 1,4% do que se chama spread, que é o diferencial. Nós estamos com 0,5%. Isto significa que Portugal, neste momento, até é visto como um país com menos risco do que a França.

Portanto, menos risco do que a França ao tal ponto percentual. Então, quando se fala de uma subida das yields, isto é, do juro implícito de uma obrigação, isso é sempre mau?

Depende de que lado estamos. E em economia a resposta normalmente é sempre o depende. Se for um Estado ou uma empresa a pedir dinheiro, juros mais altos são um problema, mas existe o outro lado, que é o investidor, o depositante e o aforrador, ou seja, quem tem dinheiro disponível para aplicar e que muitas vezes está parado no banco, tem neste momento uma oportunidade muito interessante de investir em títulos de dívida com baixo risco, com juros mais altos e muito mais altos do que até provavelmente o certificado de aforro ou até os depósitos. Por isso, depois de muitos anos em que as obrigações não ofereciam rendimentos quase nenhuns, aliás, de 2012 com os juros negativos até 2021, era quase impossível tirar qualquer rendimento das obrigações, esta realidade está agora a mudar.

E, portanto, há aqui uma oportunidade para os investidores, claro, porque é lógico, se há Estados a pagar juros mais altos, alguém do outro lado está a cobrar e a receber esses juros mais altos. Pedro Lino, para fechar, que notas é que podemos deixar sobre este tema?

Quando os juros sobem, descobrimos uma regra muito antiga, que é: a dívida não é apenas o dinheiro que devemos, é também o juro que conseguimos pagar. Isto é válido para os Estados, para as empresas e também para o nosso crédito à habitação. Mas existe outra face da história, que é aquilo que representa um custo para alguém que pede dinheiro, pode representar uma oportunidade para quem empresta. E é isso que vamos falar mais aprofundadamente no próximo episódio.

Muito bem, fica já prometido então para a próxima semana, mais um mergulho aqui nas obrigações e nos juros. Pedro Lino, bom dia, boa sexta-feira e bom fim de semana. Até para a semana.

Muito obrigado, Paulo. Bom fim de semana a todos. Obrigado.