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Cá temos mais uma vez o Pedro Lino. Vamos falar de investimento. Pedro, bem-vindo mais uma vez. Desta vez vamos olhar para um produto específico, muito dourado: o ouro. Já valorizou 50% este ano, em 2025. Isso é o quê? É especulação? O que se passa aqui?
Bom dia, Paulo. É verdade. Hoje vamos falar do ouro, porque tem sido uma valorização constante ao longo do ano, mais de 50% desde o início, o que torna um dos melhores anos sempre do ouro. Historicamente, o ouro é visto como um refúgio, ou seja, é um ativo de proteção para tempos de incerteza, como por exemplo as guerras, inflação, as crises financeiras. Vimos em 2008, depois quando foi a crise soberana na Europa. Por isso todas essas crises, os investidores, quando perdem a confiança nas moedas-
E não sabem qual é a evolução de moedas, de ações, de obrigações.
Exatamente. O que tentam é procurar qual é o ótimo refúgio, onde é que eu ponho o meu dinheiro, onde é que eu invisto para não desvalorizar. E o ouro, a longo prazo, sempre foi visto como um refúgio, que pelo menos ele está ali e quando as coisas estabilizarem, posso o vender e posso voltar outra vez a investir noutro tipo de ativos. Mas este ano é um pouco diferente, porque normalmente vemos estas subidas muito grandes quando há guerras, mas guerras fortes, porque estamos a falar de 50% de valorização, quando há tensões geopolíticas muito marcadas. Elas até existem, mas a guerra da Ucrânia, já estamos no terceiro ano. Mas eu acho que este ano tem muito a ver com a instabilidade monetária, que é o facto de os Estados Unidos continuarem a imprimir muito dinheiro e ter muito déficit, e a Europa também. O que nós estamos a ver é que estes programas de estímulo que são lançados na Europa, 2 trilhões ou 800 bilhões pra defesa, isto vai ter que sair de algum lado.
Vai ter que ser, claro, pago.
No fundo, vai ter que ser pago e irá provavelmente ser dívida. E por isso, no fundo, uma das causas que estamos a ver é a desvalorização do dinheiro. Por outro lado, também temos os bancos centrais que estão a comprar ouro, para além dos institucionais, que são os fundos, e até os próprios particulares já começam a entrar neste mercado.
Para as reservas. Estas já poderão dar-nos algumas pistas sobre as causas da valorização.
Sim. No fundo, quando as taxas de juros reais são negativas, o ouro torna-se mais atrativo. No fundo, os juros são mais baixos do que a inflação. Isso já está a acontecer na Europa, estamos aqui taco a taco entre os juros e a inflação. Nos Estados Unidos ainda não, mas normalmente uma das causas são as taxas de juros reais negativas. Depois, este ano estamos a ver compras record por parte de bancos centrais. E não são só os tradicionais, como a China e a Índia, mas estamos a falar da Turquia, da Polónia, do Cazaquistão. Ou seja, há mais procura, mesmo por parte dos bancos centrais que querem diversificar das moedas tradicionais, como é o dólar ou o euro, pela impressão de moeda que esses países estão a fazer. Depois, a procura crescente em ETFs, que são fundos cotados que têm ouro em cofres, ou então fundos que investem direta ou indiretamente em ouro através de derivados. Isso significa o quê? Significa que o retalho, ou seja, o cliente particular, também começa a procurar formas de investir e estas são as mais fáceis pra não ter o ouro físico, que tem os riscos.
Não está a jeito nenhum ter em mão.
Ou temos que alugar um cofre, que tem um custo anual, ou ter em casa.
Tem custos logísticos que levam alguma parte da valorização potencial.
Sim, e o risco de ter o ouro em casa.
Sem dúvida.
Depois, a incerteza no mercado das dívidas e das moedas, que já falámos, que é o efeito da desvalorização do dinheiro, e tudo isto cria uma procura que neste momento é bastante superior à oferta.
E daí o preço. Até porque o ouro, ao contrário de outras matérias-primas, não tem uma utilidade para além do valor de reserva só, evidentemente.
Sim, é mais-
A não ser para ourivesaria.
Sim, a não ser para ourivesaria. Na Índia é muito procurado, porque as famílias todas têm as suas reservas em ouro.
Mas é o valor de reserva só.
Mas é o valor de reservas.
Não se compra zinco, nem petróleo, nem trigo e senta aí outras matérias-primas.
Eu recordo que antes da guerra da Ucrânia, a Rússia converteu quase todos os seus ativos em ouro. Por isso, muitas vezes fala-se que a Rússia, com esta valorização do ouro, está a conseguir pagar a guerra toda só com a venda do ouro.
Tem que vendê-lo de alguma maneira.
Terá que vendê-lo um dia.
A mais-valia só é obtida quando se vende, de facto. Senão é só potencial. Mas vamos aqui olhando pra ouro ainda, Pedro. A questão da especulação, que é um daqueles termos também, é especulação ou não é?
Sim, eu acho que nesta fase final está a ser, porque nestes últimos-
Especulação, no fundo, é, neste caso, um crescimento que já não cola com a realidade ou com os fundamentais.
Sim, eu acho que não. E nestes últimos dois meses, o preço já tinha subido 30% e agora subiu mais 20% quase sem parar. E acho que é preciso ter algum cuidado, porque, como disseste, e bem, o ouro não gera rendimento. Serve como diversificação e tem um problema: a oferta é rígida, ou seja, não conseguimos aumentar a produção de ouro de um dia pro outro, nem num ano, se calhar, nem dois. Por isso, quando há estes movimentos de procura muito expressiva, seja por parte dos bancos centrais, os particulares que agora acordaram pro ouro, ele tende a subir muito. Mas isto também vem com alguns cuidados que devemos ter. Por isso, existe nesta fase final desta valorização, na minha opinião, uma componente especulativa. Por isso, podemos estar à espera de mais volatilidade e até alguma correção do mercado.
Certo.
E por isso, numa carteira diversificada, que devemos ter sempre, o ouro não devia representar mais de 5%, máximo 10% da carteira, porque estamos em valores já muito valorizados e podemos ter volatilidade muito elevada. Ou seja, por exemplo, quem investiu € 10 mil em ouro em janeiro deste ano, tem neste momento 15 mil. Isto é uma valorização-
Mas tinha que ter comprado no início do ano. Entradas tardias são perigosas.
Entradas tardias são muito perigosas, e é isso que as pessoas têm que ter cuidado. É que às vezes, agora, quando se começa a ouvir falar de ouro, bem, 50% já foi.
Já não ganham.
Já não ganham.
Só ganha quem comprou.
Exatamente.
No mês de janeiro.
E por isso podemos ter correções expressivas, como esta semana o ouro corrigiu 5% num dia, foi a maior queda dos últimos cinco anos, e nem toda a gente está preparada, porque o ouro não é sempre a ganhar. A partir do momento ele que está cotado, ele varia. Por isso, só pra terminar, o ouro é um investimento milenar, é um símbolo de segurança e também, normalmente, de medo coletivo. É bastante útil pra diversificar, mas não garante retorno, porque ele varia todos os dias. Por isso, investir com cautela, com cuidado, nunca num só ativo. O ouro não substitui a poupança nem a diversificação, pode apenas equilibrar os nossos investimentos a longo prazo.
Muito bem, ficam aqui todos os alertas feitos em relação também ao ouro. Foi o "Boa Moeda e Investimento" com o Pedro Lino. Voltamos pra semana.
Obrigado, Paulo. Até pra semana.