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Este podcast é uma parceria do Observador Lab com a Gilead. Neste episódio perspectivamos o futuro da terapia celular na oncologia e, por isso mesmo, temos conosco o doutor Sérgio Chacim, é hematologista no IPO do Porto. Doutor Sérgio, bem-vindo, obrigada pela disponibilidade. E nós sabemos que em Portugal as terapias celulares já estão a ser utilizadas em alguns hospitais. Ao longo das nossas conversas fomos dando conta disso também. Na sua perspectiva, como é que temos estado a acompanhar a introdução destas novas terapêuticas quando nos comparamos com outros países? Qual é a situação atual em Portugal?

Olá, antes de mais e obrigado pelo convite. É muito interessante, enquanto médico, tentar perceber como é que foi a introdução desta tecnologia. Eu lembro-me de há cinco anos ouvir falar desta tecnologia muito inovadora, que aconteceu noutros países e foi de uma forma muito surpreendente, que de uma forma muito transversal, ela foi sendo implementada pelo mundo todo. E Portugal foi dos primeiros países da Europa a tentar introduzir esta tecnologia e a consegui-la implementar. Isto por vontade também de quem tem esta tecnologia na mão, foi implementada de uma forma muito global nos países mais desenvolvidos e Portugal esteve nesse pelotão da frente dessa implementação. Fomos dos primeiros países europeus a ter acesso à tecnologia, a implementar e a utilizar efetivamente em doentes. É óbvio que Portugal tem uma escala diferente, comparando com a Alemanha e comparando com os Estados Unidos, há bastante mais centros nestes países que aplicam a tecnologia, mas à sua dimensão, à sua escala, os doentes em Portugal tiveram acesso, mais ou menos, na mesma fase em que quase todos os doentes a nível mundial tiveram acesso a esta tecnologia.

E como dizia, o processo acabou por ser até bastante rápido. Há cinco anos parecia uma coisa bastante distante. Hoje em dia já há hospitais em Portugal a implementar este tipo de tecnologia, que obriga também que os hospitais tenham recursos, tenham capacidade para administrar este tipo de tratamento. Como é que nos podemos preparar enquanto país para que tudo isto aumente? Para que esta técnica seja utilizada em mais pessoas e, portanto, possa contribuir aqui para o tratamento de mais doentes?

Esta técnica, de facto, tem algumas peculiaridades e precisa de uma grande logística e de serviços a funcionar em pleno para ser implementada. Tem muitos efeitos adversos, tem alguns efeitos adversos para os quais precisamos de estar preparados e tem que ser administrado apenas em ambiente hospitalar. Portanto, são poucos os hospitais que já por si podem ter essa capacidade. Estamos a falar de recursos humanos muito diferenciados. São técnicas ultradiferenciadas que implicam pessoas e isso é difícil de obter. Portanto, um país como Portugal, só para compararmos, Espanha tem sete unidades a funcionar com capacidade para administrar estes produtos e Portugal, neste momento, tem duas, três unidades capacitadas para isso. E provavelmente, se estes hospitais forem dotados de recursos, não é preciso muito mais do que isso. Agora, tem é que haver recursos e os hospitais têm que perceber que é uma prioridade nacional o tratamento destes doentes.

E estamos aqui a falar de coisas muito concretas, de pessoal especializado em fazer este tipo de tratamentos e de camas, por exemplo, em cuidados intensivos. Portanto, todo esse caminho ainda está por fazer. Falta capacidade também a certos hospitais para conseguir implementar esta técnica.

Sim, e falta sobretudo também definir como é que vai ser financiada esta técnica, porque isso está ainda por definir. Os hospitais que estão designados com capacidade para esta técnica, têm suportado os custos associados a estes doentes, mas, como entendem, esta rede nacional de saúde, que é nossa, recebe doentes de todo o país. Portanto, é difícil imputar a dois ou três hospitais todos os custos associados a esta técnica e tem que haver um desígnio nacional e perceber, de facto, se existe financiamento próprio para esta terapêutica ou não, à semelhança do que se passa com outras terapêuticas inovadoras.

Parece-lhe que o futuro passará também por controlar de forma mais concreta esses efeitos secundários, que como nos dizia, ainda são bastantes e, portanto, todas estas pessoas que recebem este tratamento precisam de um controlo hospitalar e de um acompanhamento bastante específico. Parece que o futuro passará por aí e passará também por alargar este tipo de terapêutica aos cancros que pode ser utilizada no futuro? É por aí?

Provavelmente, sim. Esta técnica é tão interessante. O problema não são tantos os efeitos secundários, tem a ver com a seleção dos doentes. Os efeitos secundários são bem conhecidos e são bem manejados e são melhor manejados agora do que eram há cinco ou seis anos. A questão é, é uma técnica que envolve terapia génica, portanto, terapia celular, e é uma forma de fazer bastante inovadora na oncologia. E adaptando melhor ou mais bem ou mais finamente esta terapia genética, pode ser aplicada não só a estas doenças hematológicas, mas a muitas outras, porque é o conceito que é completamente diferente e inovador em oncologia. E já há muitos ensaios que tentam aplicar esta técnica a tumores, a neoplasias sólidas, como o cancro da mama, como os tumores hepáticos, digestivos. E eu acredito que essa base será cada vez mais larga e, portanto, o acesso dos doentes a esta terapêutica será cada vez mais provável, porque de facto é um tratamento bastante inovador em oncologia pela forma de atuar. É um medicamento muito diferente, que atua de forma também muito diferente.

E doutor, como é que viveu também pessoalmente, enquanto médico, a implementação desta terapia celular com CAR-T em Portugal? Como é que tudo isto se processou?

Como lhe disse, ouvimos falar desta técnica há cinco, seis anos e estamos habituados a ver os processos de implementação dos fármacos de forma lenta. Portanto, muitas vezes o que ouvimos hoje como inovador num congresso, estamos habituados a demorar 10 anos até aplicá-lo na prática, na vida real, de um doente real que se senta do outro lado da secretária. O que não aconteceu para esta. Foi com bastante surpresa que a implementação foi relativamente rápida e com o acesso facilitado e apesar de muitas barreiras, foi possível transpô-las. As barreiras eram sobretudo de certificação e de implementação de um processo completamente inovador. Houve muitas exigências por parte de quem vende esta técnica, de quem organiza esta técnica, de forma a minimizar os riscos e tentar cumprir todos os procedimentos legais. E isso implicou um trabalho multidisciplinar muito grande de passar essas barreiras, de certificar serviços, de provar que éramos também capazes de oferecer essa solução. E finalmente foi conseguido e em maio de 2019 começou a oferecer-se aos doentes em Portugal.

E com resultados bons, imagino. Portanto, tudo isso é gratificante, obviamente.

Sim, com resultados, pelo menos os que estão descritos. Isto não é uma solução para todos os doentes, mas é uma esperança muito grande para este núcleo de doentes, que de outra forma teria bastante menos possibilidades de sobreviver e de ficar curado.

E portanto, mais uma vez reforçamos tudo isto. O futuro passará por alargar este tipo de terapêuticas a outros tipos de cancro e Portugal terá também aí um papel importante no que diz respeito à investigação, ao futuro da implementação deste tipo de terapêuticas.

Não tenho dúvida que daqui a uns anos, daqui a alguns anos, estes ensaios que estão a decorrer agora vão muito provavelmente alargar esta terapêutica a outros doentes com outras patologias completamente diferentes da área da oncologia médica.

Doutor Sérgio Chassinha, agradeço-lhe ter estado conosco. É hematologista no IPO do Porto. Ao longo de quatro episódios falámos sobre terapia celular e sobre a aplicação inovadora em alguns tratamentos oncológicos. São quatro conversas que poderá voltar a ouvir a qualquer momento no site do Observador, em observador.pt. Obrigada, até breve.

Obrigado.

Este podcast é uma parceria do Observador Lab com a Gilead