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Caça ao voto na Rádio Observador. Os candidatos à presidência estão na estrada, mas as ações de campanha centram-se na catástrofe que o país atravessa. Ontem, António José Seguro deu a segunda entrevista em dois dias e uma eventual vitória de Seguro por 15 a 0 frente a Ventura, a avaliar pelas sondagens, parece já uma miragem. Eu sou Ricardo Conceição e comigo está a Judite França.

E conosco estão o Miguel Pinheiro e o Rui Pedro Antunes. Bem-vindos. Começo por ti, Rui Pedro. Quem ganhou votos?

Ainda bem que começas por mim, porque eu e o Miguel estamos sempre em sentido contrário e ele assim pode contestar. Hoje eu ia dizer que quem ganhou votos foi António José Seguro. Por quê?

E por acaso tu já viste. É mesmo.

É mesmo.

Vou discordar.

Eu vou dizer por quê. Mas nós combinamos isto, como a cadeira do poder antigamente, em que um defendia a oposição e outro o governo.

Já ninguém se lembra da cadeira do poder.

Ninguém se lembra.

Não era para dizer poder.

Era.

Mas para que não restem dúvidas, aqui há uma única cadeira do poder, que é do Miguel e, portanto, aqui não há nenhuma insurreição. Mas é para dizer o seguinte: que António José Seguro, na verdade, tem dito que o governo está no caminho certo, ou seja, que entrou de novo nos eixos, e isso podia ser curto, no sentido de que podia desiludir a parte da esquerda, podia não mobilizar. Mas ao mesmo tempo, hoje fez uma pequena nuance, que eu até diria que é mais ou menos à Marcelo, mas também podemos dizer que é à Sampaio e que é à Mário Soares, que diz que vai depois ao terreno ver se os apoios estão a ser recebidos pelas populações. Isto pode, de alguma forma, ele ao não criticar a ação do governo e dizer que está no caminho certo, por um lado, não desilude essa parte do eleitorado, todo o desfile de apoios, por outro lado, ao dizer que vai ser escrutinador, tem logo aqui uma hipótese de, se na segunda volta já não sabe o que há de fazer, também se calhar a partir de março já não sabe bem o que há de fazer, mas já tem aqui uma boa ideia de presidências abertas, se calhar, que é ir aos locais afetados e ver se efetivamente os apoios estão a chegar. O presidente da República não se deve substituir ao governo, num primeiro mandato até costuma ser mais contido. Já tem vindo a repetir que em condições normais, um mandato dura quatro anos e obviamente que parece-me que vai apoiar o governo Luís Montenegro até ao fim, se for eleito presidente, e que será estável nesse domínio. Por outro lado, ele tem que arranjar uma forma de ir fazendo o que ele próprio chamaria de não colocar os ovos todos no mesmo cesto, que tem a ver com a ideia de nós não termos um sistema de checks and balances, mas há aqui um equilíbrio no semipresidencialismo em que, de alguma forma, não sendo a presidência um contrapoder, é quase como alguém de cima que ajuda ao equilíbrio do sistema. E há quem discorde que isto seja assim, mas o que é certo é o que nós temos visto ao longo dos últimos anos, os presidentes, principalmente na fase final do mandato, libertam-se mais e até vetam mais e por aí fora. O que eu creio que neste momento António José Seguro está a dizer é que por ele vai levar o mandato do governo até ao fim, ou vai ajudar o governo a ir até ao fim, mas, por outro lado, também está disposto a ir ao terreno e fazer aquela pressão do tal magistério da influência da palavra. Por isso é que eu acho que ele está a ganhar votos.

Miguel Pinheiro, quem é que anda a ganhar votos?

Acho que quem anda a ganhar é André Ventura, por causa dos disparates dos outros. Hoje André Ventura identificou bem dois disparates, um do presidente da República, outro do governo. O presidente da República, esta visita ao Vaticano. Hoje André Ventura veio perguntar retoricamente se lembra alguém que o presidente da República, no meio de uma crise como aquela em que estamos, vá para o Vaticano. De facto, não lembra a ninguém que o presidente da República vá ao Vaticano nesta altura. Ele devia estar, diz André Ventura, ao lado das pessoas, devia estar a procurar acompanhar o trabalho do governo na área da prevenção, do combate e do apoio. E de facto, era isso mesmo que Marcelo Rebelo de Sousa devia estar a fazer, em vez de ter mantido esta viagem ao Vaticano. Agora também vai manter a viagem a Espanha, na sexta-feira vai reduzi-la a apenas um dia, portanto vai e vem no mesmo dia. Mas acho que o Marcelo não percebeu que o país mudou, o mundo mudou. Estamos perante uma tragédia de que vamos precisar de anos para recuperar. Anos, anos e anos. Isto vai ter consequências devastadoras. Além das pessoas que morreram, como é evidente, vai ter consequências devastadoras em muita gente que perdeu o que tinha, pessoas que vão ficar desempregadas sem possibilidade de terem alternativas. Este efeito vai ser enorme na sociedade portuguesa, na economia portuguesa. Realmente, nesta fase final, acho que Marcelo Rebelo de Sousa andar a cumprir as duas viagens que ele queria cumprir é assim a vida.

É para coincidir com as duas primeiras viagens que fez no arranque.

As duas já tinham sido impedidas pela hérnia, certo?

Com certeza, claro, era muito bonito ter uma simetria.

A hérnia é uma doença, não é um organismo.

Não.

Às vezes podia ser hérnia.

Realmente, com a cirurgia, ele teve que adiar. Era muito bonito ter uma simetria de viagens, era tudo muito bonito, mas o mundo mudou, o país mudou E o presidente devia ter se adaptado a isso. Podia ter sido um bom final de mandato de Marcelo Rebelo de Sousa depois da desgraça que foi este segundo mandato. Aliás, ele no Vaticano voltou a dizer que só se recandidatou por causa da pandemia, porque o plano dele supostamente, alegadamente, era fazer apenas um mandato e era um bom plano, era um plano que ele de fato devia ter levado até o fim. Não tendo feito isso, podia acabar o mandato mostrando a utilidade de um presidente da República em situações de catástrofe. E aquilo que está a mostrar é que numa situação de um desastre como estes, vai viajar.

Ainda hoje vai para o Orém também.

Sim, claro. Agora vai andar a tentar mostrar-se muito ativo para as pessoas não se lembrarem que foi ao Vaticano e que vai à Espanha, mas a verdade é que foi. Além disso, André Ventura também aproveitou a frase infeliz do ministro da Coesão Territorial ontem em entrevista à SIC, quando lhe perguntaram quando chegariam os apoios às pessoas, ele disse que seria no final do mês e justificou isso dizendo que até lá as pessoas têm o salário que já receberam, que é de fato uma infelicidade profunda.

Quem for bobo ainda tem o subsídio de Natal.

Claro. Certo. E André Ventura, obviamente, e bem, e com toda a legitimidade, e faz muitíssimo bem em chamar a atenção para isso, está a usar isso, mais uma vez, e muito bem, para mostrar as fragilidades do sistema.

Rui Pedro. Quem está a perder votos, permita-nos aqui a segunda volta ser criativos, é Luís Montenegro, porque houve um desgaste do governo, não tem candidato à segunda volta. De alguma forma, todo o partido foi em romaria apoiar António José Seguro. António José Seguro será sempre, de alguma forma, pressionado a ser exigente com o governo, mesmo que eu acho que ele vai se portar como acho que está a ser honesto nisso, vai de alguma forma ajudar, como até Marcelo Rebelo de Sousa ajudou António Costa no início, ou no seu primeiro mandato todo, ou quase sempre. Mas depois com maioria absoluta já não era tão preciso. E parece-me que esse desgaste afeta acima de tudo o governo. Se isso lateralmente pode afetar António José Seguro, porque a figura do regime também me parece que sim. Mas para ver o outro lado, diria que André Ventura, num cenário em que as pessoas têm a tal descrença com o regime, com a maneira como o Estado se organiza, com os problemas estruturais que existem, quer na proteção civil, quer na estrutura da organização do Estado, na maneira como o governo responde, obviamente- E acertou em tudo nisso. Apesar de ele estar dentro do sistema e ter a responsabilidade de um líder da oposição, que é pelo menos um dos dois líderes da oposição, André Ventura, ele é sempre visto como alguém fora do sistema e, portanto, qualquer contestação, qualquer desgaste, a tempestade, ou melhor, todos os problemas meteorológicos que ainda possam vir aí até ao dia da eleição, naturalmente podem favorecer aquele que normalmente capitaliza mais com o protesto, face àquele que é o candidato do status quo. Miguel?

Olha, eu acho que António José Seguro perdeu votos precisamente por causa da entrevista que deu ontem à RTP, porque ele se meteu ali num problema. E aliás, o Vítor Gonçalves fez por mais do que uma vez perguntas sobre isto, que eu vou explicar a seguir, e ele depois fugiu. E o problema é o seguinte, é que António José Seguro disse que André Ventura, e vou citar, é um risco para a democracia porque os seus métodos não são democráticos. Disse isto. E o Vítor Gonçalves, com toda a razão, perguntou-lhe: "Mas então, mas o senhor vai chegar a presidente, então como é que vai lidar com o CHEGA? Então o que está a dizer é que o CHEGA é um risco para a democracia porque os métodos do CHEGA não são democráticos. Então como é que isto vai ser?" É que se o senhor ganhar a eleição presidencial, em termos de presidência da República, André Ventura fica neutralizado. E, portanto, não teremos um presidente da República que é um risco para a democracia porque usa métodos não democráticos. Mas André Ventura continua a existir politicamente à frente do CHEGA. Então como é que isso vai ser? Ele vai permitir, vai incentivar pactos, acordos e aprovações de políticas públicas com um partido que é um risco para a democracia e que usa métodos não democráticos? Que consequência é que o presidente António José Seguro retira das palavras do candidato António José Seguro? E Seguro não disse nada sobre isto, fez de conta que não estava a ouvir ou está com problemas de audição, ou então fez de conta que não ouvia, mas eu acho que há aqui um... Como vai explicar isto, então? Afinal, como é que é? Ou ele está a exagerar agora ou então tem que fazer qualquer coisa de muito grave quando tomar posse. Enfim, as pessoas já andavam a dizer, penso eu, algumas pessoas, a António José Seguro para não começar com isto dos riscos para a democracia e do fascismo. Ele aguentou durante uns tempos. Agora está a haver os votos a fugirem das sondagens e está a haver as pessoas a refugiarem-se nos votos brancos e nulos. E dá-me ideia que está a se ter aqui outro desespero político e a começar a utilizar os argumentos a que ainda não tinha recorrido nesta campanha.

Ele próprio disse no debate, e em várias circunstâncias, que contava com André Ventura como líder partidário para o pacto para a saúde, para negociar. Se há alguém com métodos pouco democráticos, o futuro presidente, se for ele, já disse que contava com o CHEGA para isso.

Pois.

E também já deu a entender que lhe daria posse se ele tivesse votos para isso, portanto

Não se percebe bem. Ainda vamos ter mais campanha até sexta-feira.

Quando é que começa, Ricardo? Tens a agenda, quando é que começa a campanha da segunda volta?

Também não sei, estamos aqui com uma sensação estranha. Devíamos estar aqui a exultar e felizes.

Não, os tempos não estão para isso.

Estamos num estado de quando é que isto acaba. Vamos até à estrada, porque também temos jornalistas a acompanhar as caravanas, porque as caravanas estão na estrada.

E vamos para a campanha de António José Seguro. Vasco Maldonado Correia, andas a acompanhar a campanha de António José Seguro. Por onde andas agora?

Eu sou mesmo um repórter na estrada, Judite. Estou numa estação de serviço a caminho de Beja.

Estás em trânsito.

E a tentar abrigar-me da chuva.

António José Seguro hoje trouxe a comunicação social ao terreno nas regiões afetadas pela primeira vez, aproveitou a ocasião para ser mais assertivo nas exigências ao governo. Isso foi claro?

Foi claríssimo, Judite, até porque até aqui, António José Seguro, dos dois candidatos, era claramente o que estava mais próximo do governo, especialmente se pensarmos nos apoios que foram anunciados para as populações mais afetadas. Temos claramente André Ventura a opor-se, a criticar o governo e vemos António José Seguro a dizer que são satisfatórios, mas que têm que ir para o terreno já. Ora, esta segunda parte hoje foi frisada, provavelmente porque António José Seguro olha para as sondagens, olha para a tragédia e vê que há descontentamento em relação ao governo, em relação à maneira como o governo tem lidado com a situação e assim sendo, não quererá estar demasiado ligado ao executivo. Terá também reparado no que aconteceu na primeira volta ao candidato que estava ao lado do governo, e especialmente havendo um candidato que já faz essa oposição, creio que Seguro terá feito as contas e percebido que não se pode posicionar demasiado ao lado de Luís Montenegro e daí elogiar as medidas, sim, mas mostrar que é exigente e foi isso que tentou fazer hoje. Veio dizer que não há dúvida nenhuma ou perguntou qual é que é a dúvida, por que os apoios ainda não estão no terreno. E além disso, ele que já disse que não quer fazer oposição ao governo a partir de Belém, hoje veio dizer que quando for eleito ou se for eleito, a primeira coisa que vai fazer vai ser ir ao terreno e fiscalizar se esses apoios estão mesmo a ser postos em prática e por isso mostrar que não se vai curvar perante o governo se chegar a Belém.

E como vão ser as próximas horas, Vasco?

A descansar, Ricardo. Esta é uma campanha mesmo a meio gás, já o dissemos, e por isso hoje a agenda já está concluída, começa amanhã em Castro Verde.

Obrigado, Vasco.

Ora vamos continuar na estrada. Agora vamos ao encontro da campanha de André Ventura. Miguel Viterbo Dias, por onde andas agora?

Na zona Oeste, em Torres Vedras, foi onde André Ventura hoje passou o dia, isto depois de durante a manhã ter estado no programa da Cristina Ferreira na TVI. Foi quase também um ponto de agenda, porque parou a campanha para marcar presença nesse programa.

Começa a ser já um clássico também das campanhas eleitorais. E André Ventura já virou a agulha para um apelo ao voto e para ataques mais diretos a António José Seguro?

Para o apelo ao voto ainda não. Para ataques a António José Seguro ontem passou o dia nisso. Voltou a tirar essa carta da manga depois de ter estado muito focado nas questões relacionadas com a gestão política das tempestades, mas hoje recuou um bocadinho nessa estratégia. Andamos aqui um pouco em montanha-russa entre dias dedicados a atacar quase única e exclusivamente o governo e nalguns dias em que se vai recordando que está numa candidatura presidencial e vai-se lembrando de atacar também António José Seguro. Hoje, os alvos dos ataques foram Luís Montenegro, Manuel Castro Almeida, ministro da Economia e Coesão Territorial, e também Marcelo Rebelo de Sousa. António José Seguro voltou a passar ao lado dessas críticas por parte de André Ventura, numa campanha em que o candidato vai alternando os fatos de candidato presidencial e de líder da oposição, portanto, muitas vezes focado apenas na atividade do governo. Hoje foi um exemplo claro disso, porque enquanto poderíamos supor que agora ia dedicar-se mais a atacar António José Seguro, até porque ontem frisou que o opositor tem estado em queda nas sondagens e nas tracking polls diárias, voltou ainda assim hoje a esquecer o adversário e a focar-se novamente no governo, reclamando a paternidade da isenção das portagens nas áreas afetadas. Foi uma proposta ou uma indignação que André Ventura teve praticamente desde o primeiro dia. Insistiu muito no fato de ser escandaloso que as portagens tivessem geradores e continuassem a cobrar as pessoas enquanto havia muita gente necessitada desses tais geradores. E portanto, hoje voltou a concentrar-se apenas no governo para reclamar a paternidade dessa ideia e também para criticar as declarações quer de Castro Almeida, como da ministra da Administração Interna, Maria Lúcia Amaral.

E onde terminas hoje o dia e começas amanhã? Por onde é que vais andar?

São tudo boas perguntas, para as quais ainda não temos uma resposta muito efetiva.

As agendas estão muito atrasadas.

Estão a navegar hora a hora, quase. André Ventura, a estratégia agora é ir descendo no mapa de Portugal. Amanhã a ideia é passar o dia no distrito de Beja.

Muito bem, obrigada, Miguel Viterbo Dias. Continuação de bom trabalho. O Caso Voto regressa amanhã.