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Cá está o Voto na Rádio Observador. Há um pedido de André Ventura para adiar a segunda volta das presidenciais por uma semana. António José Seguro, por seu lado, responde que a adiar será nos conselhos que assim o entendam. Diz o candidato que deve ser garantido a todos os eleitores o acesso às urnas agora ou daqui a uma semana, mas não dá uma resposta muito taxativa e inequívoca ao repto lançado por André Ventura. Neste Cá só Voto, estou eu, Ricardo Conceição, está a Judite de França.

E está o Miguel Pinheiro e o Rui Pedro Antunes. Bem-vindos. Rui Pedro Antunes, hoje começo por ti.

Ok.

Quem ganhou votos?

Ele deixa. O Rui deixa.

Eu gosto de fazer isto democraticamente.

Claro.

Um dia é um, outro-

É assim, quem ganhou muitas vezes pode também perder, mas eu vou dizer que André Ventura ganhou na análise global. Ou seja, eu acho que as eleições devem ocorrer. É verdade que as pessoas podem ter a ideia virada para outras coisas, para dramas pessoais, familiares, mas há uma decisão individual de cada um no dia do voto de ir votar ou não, ou entender que há razões mais importantes. Neste caso, há muita gente afetada, muitos milhares de pessoas, mas cada pessoa também na sua decisão individual, quando tem um familiar doente, quando tem um evento que pode ser lúdico ou não, de ir votar ou não. E, portanto, essa decisão é sempre individual e acho que o Estado deve garantir que no dia da eleição, essa eleição é possível e quem quiser eventualmente pode ir ou não votar, haja ou não condições. E, portanto, parece ser uma manobra de André Ventura para, de alguma forma, depois também poder dizer: "Pois, votaram nestas condições. Eu não tive mais votação porque também ocorreu tudo nesta situação." E, portanto, parece-me que politicamente é esta a estratégia. Por outro lado, eu acho que ele ganhou votos, por quê? Nós diríamos, provavelmente há duas ou três semanas, o seguinte: André Ventura só ganha esta eleição se cair um meteorito ou se houver uma bomba atómica, ou se houver um fenómeno político qualquer que de repente toda a direita se une do centro-direita até à direita, direita para apoiar André Ventura. Essa parte política mais regular não aconteceu, mas aconteceu, de facto, uma bomba atómica. Não é uma bomba atómica presidencial. Na "vichyssoise" que vai para o ar daqui a pouco, vamos poder ouvir, por exemplo, Rui Moreira dizer que quando passou pela A8 e pela A1, parecia um evento da Sibéria, referia-se ao evento do Tunguska no início do século XX, que foi um meteorito que arrasou por completo aquela área, e esse meteorito aconteceu. E no meio do caos, e no meio da incerteza, e no meio de tudo o que não era previsível ter acontecido, obviamente que quem sai mais favorecido disso é André Ventura, porque tinha que acontecer qualquer coisa para mudar o rumo das coisas. Aparentemente, pelas sondagens, não houve um impacto direto significativo que altera a relação neste momento de quem vai à frente, etc. Mas toda esta incerteza, não se sabe quem vai votar, quando vai votar, se as pessoas vão eventualmente, já estão impedidas. Uma pessoa de Alcácer do Sal, mesmo que quisesse ir votar, num pavilhão mais acima, ou num pavilhão mais abaixo, provavelmente já não vai votar neste dia. Vai votar uma semana depois. E portanto, tudo isto que são incertezas, vão de alguma forma trazer mais imprevisibilidade ao resultado. Obviamente, quem estava à partida em segundo lugar, que é o último neste caso, sai favorecido dessa incerteza.

E Miguel Pinheiro, quem anda a ganhar votos?

Olha, eu diria que André Ventura. Honestamente, neste momento em que estamos aqui em direto, não tenho uma opinião totalmente formada sobre isto. Tenho que pensar um bocadinho mais sobre o assunto, acho que é bom pensarmos.

Claro.

Mas acho que há aqui um problema.

Não me digas que te queres pronunciar de forma refletida sobre uma coisa.

É uma aprendizagem permanente, coletiva. Acho que há aqui um problema. Por um lado, é óbvio que as eleições são momentos relevantíssimos. Há poucas coisas mais relevantes num Estado democrático do que umas eleições e por isso é preciso muito para se adiar um ato eleitoral, por um lado. Esse é o ponto de princípio. Por outro, e além disso, houve pessoas que já votaram na semana passada. Quer dizer, daqui a um bocado, a distância temporal entre as pessoas que votaram no último fim de semana e o relato oficial do voto passa a ser enorme. Quer dizer, até que ponto é que aqueles votos que já foram depositados no último fim de semana continuam a valer? Quer dizer, a dada altura, então as pessoas querem voltar a votar, podem querer voltar a votar. Ao mesmo tempo, nós começámos a assistir hoje à tarde a uma série de Câmaras a decretarem, porque são os presidentes de Câmara que decretam o adiamento de eleições, uma série de autarquias a decretarem o adiamento. Olha, aqui não há Qual é o ponto a partir do qual começa a ser um bocadinho absurdo ter uma votação a três tempos? Houve a votação antecipada, há uma votação este domingo, há outra votação no domingo seguinte. Uma eleição não é isto. Não são partes do país a votarem cada uma à vez. Apesar de haver atos eleitorais lá fora que até são em dois dias. Mas isto começa a ficar estranho, começa a ficar esquisito e há uma parte muito substancial do país que está afetada por isto. Se de repente, no limite, todas as autarquias decretarem o adiamento das eleições.

Estamos a falar de 1.400.000 votos, mais ou menos. André Ventura teve 1.300.000, não é?

Estamos a falar de todas aquelas que estão em calamidade.

Certo. E como é que seria? Vamos imaginar que temos 1 milhão, eu não fiz as contas, estou a confiar em ti.

Quem fez as contas fez dito.

Vamos imaginar que temos as eleições esta semana e que esse milhão vota pra semana.

Ficamos pendurados à espera?

E vai haver campanha eleitoral pra semana? Há campanha eleitoral oficial pra semana? Ou não? Ou parou? Já não há mais campanha eleitoral e as pessoas vão votar.

Tudo isto é muito novo até.

E já agora, uma curiosidade, é que no Japão também há eleições legislativas, não são presidenciais, lá não há presidente, legislativas no dia 8 e está a haver um evento severo de tempestades de neve. Está a discutir-se precisamente como é que isto vai ser. Estão a enviar as Forças Armadas pra ajudarem ali, mas também estão a discutir se há condições pra haver eleições, só pra nós termos noção de que estas coisas também acontecem noutros lados. Mas eu acho que mais uma vez, André Ventura viu uma oportunidade de questionar o sistema. Começou a haver uma série de autarquias a adiarem e viu uma oportunidade de levantar uma coisa que toda a gente estava a evitar discutir, que é: mas então isto faz sentido? Então nós temos aqui portugueses de primeira e portugueses de segunda? Acho que isso mostra instinto político, mas eu não diria que é oportunismo. Eu acho que tudo isto é um enorme sarilho, de facto.

Rui Pedro, vamos então a quem anda a perder votos.

Sim, deixe-me só dizer que votar é acima de tudo um direito e também, naturalmente, um dever, porque se ninguém fosse votar, a democracia não sobrevivia. E nesse direito, quando um autarca decide, sem qualquer tipo de referendo local, isso então seria ridículo, obviamente, ouvir as pessoas, não havendo meios para irem votar, está a coartar esse direito àquelas pessoas de votarem naquele dia.

Ou a dar-lhes o direito de votarem uma semana depois.

E pode haver uma perversão do resultado eleitoral, que é saber-se que a diferença entre os dois, sendo apurados os votos neste primeiro dia, que eu creio que a metodologia é haver o apuramento de voto logo, é as pessoas saberem: "Olha, está a 120 mil", e haver uma mobilização, que é uma perversão da eleição, já depois de saber onde é que-

Porque julgo que o que tivemos já em situações em que há boicotes, estou completamente a falar de cor, em situações em que há boicotes, essas eleições, houve o apuramento, os resultados, as mesas eleitorais, tudo e mais alguma coisa, e uma semana depois fez-se a votação naquelas três ou quatro assembleias naquelas freguesias onde houve o boicote. Agora, podemos estar a falar de uma dimensão completamente diferente.

Sim, há dois conselhos que já adiaram as eleições, que valem 25 mil votos. Mas vamos imaginar que a diferença entre os dois candidatos e que até lá há autarquias que têm universo de eleitores de 200, 300 mil. Na verdade, a eleição fica mesmo em aberto e, portanto, tudo isso é um fator a ter em conta.

Ou Rui, ou então fica fechada. Ou então a diferença de votos este domingo é superior ao universo eleitoral do domingo seguinte e as pessoas pensam: "Vou votar pra quê? Então já decidi isto na minha vida." E as pessoas sentirem que, de alguma forma, o seu voto está a lhes ser retirado, porque quando eles forem votar, já não serve de muito.

Não sei se isso é possível, na forma como há também o adiamento, mas haver uma decisão individual, porque, mais uma vez, as pessoas não vão conseguir ir votar, mas pela lei eleitoral, não me parece que seja possível de criar algumas pessoas que possam adiar o voto pra mais tarde, até pelo impacto ser diminuto. Mas isto é pra dizer o quê? Que no meio desta grande incerteza, eu acho que quem perde votos é António José Seguro, porque deveria ter sido tudo by the book. Em condições normais, ele é o próximo presidente da República. Em condições normais, seria o próximo presidente da República. O que é que aconteceu? Não estamos em condições normais. E agora, mesmo que o que ele esteja a dizer seja o mais razoável, que é manter a eleição, pode ter a leitura ao contrário, que é: era mais razoável adiar, mas ele não quer adiar, porque isso lhe pode custar a vitória.

Pode prejudicá-lo.

Pode prejudicá-lo, porque a leitura que é feita para o oportunismo de André Ventura também pode ser feita ao contrário.

Sim, e há um outro problema que é: vamos adiar até quando? Então isso pra semana, agora vem outra vez mais chuva, precisamos adiarmos mais uma semana? E depois acontece outra coisa qualquer e adiamos mais uma semana? Isto não é simples. Eu queria António José Seguro a perder votos porque claramente, mais uma vez, foi tomado de surpresa, ficou sem saber muito bem como reagir. E uma e outra vez, André Ventura tem mostrado capacidade de iniciativa política. Podemos depois concordar ou discordar.

E intuição política, sim.

Não estou aqui a criticar isso. Só estou a dizer que mostra iniciativa política e António José Seguro, mais uma vez, está sentadinho à espera que venham as eleições para ver se ganha e a cada dia que passa surge uma nova dificuldade à frente.

Temos de ir também para a estrada, à procura dos nossos repórteres.

E começamos pela campanha de André Ventura, que está a ser acompanhada pelo jornalista Miguel Viterbo Dias. Miguel, onde é que estás agora?

Continuamos pelo Algarve. Estivemos há pouco em São Bartolomeu de Messines e agora estamos em Odiáxere para mais uma ação de campanha. Desta vez é uma reunião à porta fechada.

E o que levou André Ventura a pedir o adiamento das eleições por uma semana? E já agora, tu que andas atrás do candidato, pode beneficiá-lo ou prejudicá-lo?

A ideia é que esta iniciativa pode beneficiar André Ventura, sobretudo porque a estratégia, desde que a tempestade começou a causar danos, tem sido a de desligar praticamente da campanha, do combate e da trica política, para estar focado apenas na questão do mau tempo. Dando seguimento a toda essa estratégia, com a situação também a piorar noutros territórios, agora por causa das cheias e não tanto pelo vento e pela chuva, a estratégia ganha aqui uma nova alavanca com este pedido de adiamento. É algo que nos territórios mais afetados cairá certamente bem, até porque as pessoas percebem essas dificuldades em votar e os municípios que vão pedir o adiamento já se estão a começar a suceder uns aos outros. E esta é uma estratégia que fecha assim toda esta semana de campanha. Mesmo, e isso aconteceu praticamente todos os dias, por diversas vezes, quando picado, provocado pelos jornalistas para responder a António José Seguro, André Ventura tem fugido muito à troca, ao comentário ligeiro, algo que ele aplica muito em campanha, aquelas pequenas bocas, farpas que se lançam no dia a dia de campanha. Ontem numa visita a uma adega, ainda deixou uma ou outra, pegando numa garrafa de vinho com o nome Intradito, disse que era para oferecer a António José Seguro para impedir que chegasse a Belém. Mas tem sido muito raro esse tipo de postura na campanha e, portanto, o pináculo de tudo isso é esta proposta em que, e se notou isso, André Ventura procurou antecipar-se à reunião da Comissão Nacional de Eleições que decorre esta tarde, porque houve alguma pressa na caravana e na comitiva do candidato para que a mensagem fosse difundida muito rapidamente durante o almoço e apressou-se até o momento da intervenção de André Ventura para que essa mensagem pudesse ser publicada antes da reunião da Comissão Nacional de Eleições, com o candidato depois a pedir à própria CNE que faça essa avaliação sobre se é possível ou não.

Miguel, e como vão ser as próximas horas?

À partida, André Ventura vai para Alcácer do Sal, dando seguimento também àquilo que tem feito. Esteve em Leiria por duas vezes. Agora a situação é mais complicada em Alcácer e amanhã o dia será passado por lá.

Obrigado, Miguel Viterbo Dias. Na outra campanha, a de António José Seguro, está o jornalista Vasco Maldonado Correia. Vasco, onde é que andas?

Eu estou por Lisboa, na Universidade Lusófona, onde António José Seguro deve estar quase a chegar.

E explica-nos qual foi afinal a resposta de Seguro a este repto lançado por André Ventura para o adiamento das eleições a nível nacional.

Foi ambígua a resposta, mas indica claramente que António José Seguro não quer alinhar com esse apelo de André Ventura. No fundo, nas entrelinhas, argumenta que a lei não prevê este apelo ou este argumento, este adiamento geral, e que também não vem grande mal ao mundo se os eleitores forem votar em momentos diferentes. E por isso, disse também: "Eu sou um simples candidato, sou um simples cidadão, não me cabe a mim fazer essa decisão". E por isso, ao não se posicionar e ao apontar para a lei e ao dizer que é essencial que as eleições se realizem, seja em que momento for, acaba também por se afastar desse apelo de André Ventura. Dizer também que uma questão que lhe foi colocada, o desvirtuar do voto desses eleitores, ou seja, a ideia de que há eleitores que vão votar uma semana depois do dia que estava marcado para as eleições e que vão votar já sabendo os resultados dessa ida às urnas e que por isso podem já votar taticamente para, por exemplo, impedir o resultado que sair de dia oito. Foi questionado António José Seguro se esses votos não ficariam desvirtuados e também não quis responder, chutou para canto, até porque não lhe dá jeito estar a desvalorizar votos que venham mais tarde. Talvez mais interessante, Ricardo, foi também uma ideia que deixou no ar. Não se percebe se é relacionada com este apelo de André Ventura, mas diz que circulam muitos apelos à desmobilização. Foi questionado se estava a falar de André Ventura e diz: "Não vou comentar mais". E por isso acaba por deixar no ar também que o adversário não está tão interessado na mobilização, mobilização que António José Seguro acredita que lhe daria uma vitória mais folgada sobre André Ventura. De resto, ficou também um recado a Marcelo Rebelo de Sousa, disse que fez muito bem em adiar a visita a Madrid, ou seja, que o Presidente da República deve estar no país enquanto o país vive um momento de aflição, mas diz também que se fosse presidente não teria ido ao Vaticano, ainda não tinha falado sobre o assunto.

E como vão ser as próximas horas, Vasco?

As últimas horas, Ricardo, já sofreram aqui algumas alterações e as próximas também. Foram hoje canceladas duas ações de campanha, uma à noite, que seria uma festa, e há pouco uma arruada também por Lisboa. Por isso, para as próximas horas está apenas prevista aqui uma sessão com os jovens na Universidade Lusófona e à noite um comício no Fórum Lisboa.

Obrigado, Vasco. Vasco Maldonado Correia a acompanhar a caravana de António José Seguro. O "Caça ao Voto" regressa amanhã. Até ver, será a última edição do "Caça ao Voto" amanhã na tarde política, mas como isto anda...

É uma incerteza pegada.

Já não digo nada.