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Eu ouvi a pergunta, mas ela não é uma pergunta.
Eu percebo as vossas perguntas, mas vamos com calma, está bem? Não quero que ninguém se magoe.
Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos.
Eu às vezes tenho mais para fazer do que estar a responder diariamente.
Calma, Jesus.
Bruno, Paulo.
Sim.
Escolham. E Bruno Cardoso Reis também. Paulo, estas eleições americanas também mexem conosco.
Mexem com tudo. Não é por acaso que estamos aqui nesta madrugada. O impacto político e econômico das ações da administração americana é muitas vezes global, sabemos isto, basta pensarmos, por exemplo, no preço que temos vindo a pagar nos últimos meses pelos combustíveis, altamente influenciados pelo conflito que os Estados Unidos abriram com o Irão. A margem de manobra que Donald Trump passa a ter depois desta eleição para impor as suas políticas é mais estreita, e isso pode ser determinante para medidas importantes, também na política externa e na área econômica, sobretudo pela via orçamental, isto é, com a política orçamental à cabeça. Por isso, esta eleição mexe com as nossas vidas, mexe com o nosso bolso, ou pode vir a mexer com o nosso bolso, e com as peças do xadrez global. E também é por isso que, ironicamente, se costuma dizer que todos nós, em todo mundo, devíamos votar nas eleições americanas.
Há também uma frase histórica, Bruno.
Já é histórica.
Os americanos foram às urnas de olhos fechados?
Se tivessem seguido o conselho de Donald Trump, tê-lo-iam feito. Em 1986, todos nos lembramos, os que estamos aqui e não só, muitos dos que nos estão a ouvir. Aqui em Portugal, Álvaro Cunhal, na segunda volta das presidenciais, pediu aos eleitores comunistas que, se fosse preciso, tapassem a cara de Mário Soares no boletim de voto e votassem no candidato socialista contra Freitas do Amaral. O pedido de Trump foi num sentido um pouco diferente, porque ele quando pediu aos eleitores.
Era para imaginar.
Era para o imaginarem a ele, isto convencido de que ainda teria força suficiente junto do eleitorado para convencer essa base muito fiel de votantes a ir às urnas e impedir o Partido Republicano de sofrer a derrota que vemos agora acabou por sofrer. Mas os baixíssimos níveis de popularidade do presidente já não convidavam a grande otimismo, embora muitas vezes Donald Trump seja insensível a esses sinais. E por isso mesmo, talvez fosse essa a melhor hipótese de alguns candidatos republicanos, que os eleitores votassem mesmo de olhos fechados e sem pensar em Donald Trump e também sem pensar no bolso, na carteira, porque muitos devem ter votado com a carteira nestas eleições.
Que também é um clássico. E Paulo, como é que estamos em matéria de Foltinhas acampadas?
Olha, Carla, o enredo, não sei se tens acompanhado, mas está cada vez mais interessante. A cada dia há várias mudanças de guião, vários plot twist, novas polémicas, novos braços de ferro. É uma espécie de matriosca de casos. Tiramos uma e aparece logo outra mais pequena. Foi a decisão do tribunal, foi a discussão acerca da amplitude da decisão, se só se aplica à Renata Câmara ou a qualquer manifestante. Agora discute-se o obrigatório recurso que o Ministério Público fez desta decisão do tribunal para o Tribunal Constitucional, se tem ou não efeitos suspensivos, isto é, se aquela decisão do tribunal administrativo tem que ser aplicada já ou não. E agora cá temos novo braço de ferro. Quem é que pode ficar nessa altura no Rossio? É a acampada ou o habitual mercado natal, que devia começar a ser montado agora. Os manifestantes não querem sair para uma praça contígua, ali próxima, a Câmara de Lisboa já sugeriu três locais. A Câmara Municipal de Lisboa e os comerciantes dizem que o mercado deve ficar no Rossio, já é feito ali há 10 anos e tem a seu favor, se quisermos, a decisão do tribunal. Uma sugestão para arbitrar este conflito: quem escrever a melhor carta ao Pai Natal ganha e fica.
Bruno, e vai ser difícil um consenso ao centro?
Vai ser difícil, apesar de ontem termos ouvido o primeiro-ministro anunciar reuniões.
E André Ventura depois.
E André Ventura também. E José Luís Carneiro um bocadinho assim, assim. Vamos ver. Mas olhando para o que aconteceu na Câmara do Porto, isso parece quase impossível. Ontem o Partido Socialista no Porto propôs um voto de condenação da violência policial, considerando que a ação repressiva e violenta tem causado novos e graves problemas de respeito pelos direitos humanos, mas a proposta foi chumbada pelo executivo de Pedro Duarte, incluindo o vereador da Cultura, que tinha manifestado a oposição à atuação policial nas redes sociais, e também com o voto contra do Chega. Manuel Pizarro, do PS, lamentou este sentido de voto da maioria, mas o presidente da Câmara, Pedro Duarte, diz que os socialistas estão a lançar mais lenha para a fogueira, depois de num primeiro momento terem mostrado alguma ponderação. E essa poderá ser a opção de alguns partidos ou movimentos também, quando este lume, o fogo da contestação arrefecer um pouco mais, pegam na lata de gasolina e vão tentar ganhar alguma coisa. E assim, será muito difícil, senão impossível, um entendimento ao centro. Eu ouvi a pergunta, mas ela não é uma pergunta.
Eu percebo as vossas perguntas, mas vamos com calma, está bem? Não quero que ninguém se magoe.
Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos.
Eu às vezes tenho mais para fazer do que estar a responder diariamente.
Calma, Jesus.