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Ideias Feitas na Rádio Observador com Alberto Gonçalves. Boa tarde, Alberto. Hoje queres nos falar sobre os protestos pela habitação que não discutem, por aí além, a habitação.
Olá, boa tarde. Quero, sim senhor. E quero também começar o Ideias Feitas de hoje com uma evocação muito solene do Dr. Pacheco Pereira. O Dr. Pacheco Pereira passa a vida a falar e escrever sobre os colunistas do Observador, é assim que ele define. E eu tenho a impressão de que os colunistas do Observador falam muito pouco do Dr. Pacheco Pereira, o que é uma injustiça, e é uma injustiça que hoje tentarei, pelo menos parcialmente, colmatar. Pois bem, o Dr. Pacheco Pereira escreveu há alguns por aí um artigo em que defende ardentemente a rapaziada que faz acampamentos de protesto e garante que estas manifestações fizeram com que os políticos e o país passassem a falar imenso de habitação. E como é típico num comunista, mesmo num comunista que tenha feito um interregno de vários anos para servir o cavaquismo, o Dr. Pacheco Pereira tende um bocadinho a confundir a realidade que ele gostaria que existisse, aquele wishful thinking, como dizem os estrangeiros, e a realidade propriamente dita, porque os acampamentos com os símbolos da Palestina têm servido para se discutir praticamente tudo, exceto a habitação. A menos que o Dr. Pacheco Pereira se esteja a referir à habitação específica de uma senhora chamada Renata Câmara, que segundo li, é uma professora e é a líder de um partido trotskista, duas coisas que pelos vistos são conciliáveis. E ontem, de facto, meio mundo em Portugal, bem entendido, entreteve-se a debater se uma decisão do tribunal sobre a tenda da tal dona Renata se aplica só à dona Renata ou a todos os interessados em armar tenda no Rossio. Uns acham uma coisa, outros acham o contrário. E se virmos bem, o que se ficou a discutir não tem muito a ver com habitação, tem a ver com o Direito e tem a ver com o modo como o Direito por cá é escrito de forma sinuosa e dúbia, para não dizer que com frequência é pessimamente escrito. E de resto, independentemente do caso da dona Renata, nem se tem discutido muito a habitação, nem parece que a habitação seja um tema particularmente caro aos manifestantes, que sobretudo berram uns slogans genéricos sobre o fascismo e essas coisas assim. O certo é que das poucas vezes em que os campistas, os manifestantes tocam no tema da habitação, é para defender o exato tipo de medidas que fazem com que a maioria das casas esteja inacessível à maioria dos portugueses. Os campistas não pedem mais construção de casas. É que no fundo e à superfície, é o grande problema do mercado da habitação. A chatice é que defender mais construção, e construção necessariamente privada, colocaria os campistas ao lado dos sinistros investidores e ao lado do capital e ao lado do lucro, e isso são tudo malefícios que eles combatem. No máximo, eles querem habitação pública, ou seja, querem converter o Estado a uma gigantesca empresa de construção civil e pôr o Estado a produzir dezenas de milhares de fogos por ano e depois distribuir gratuitamente as chaves por alegados necessitados ou por quem subornar mais generosamente os responsáveis pela seleção da entrega das casas. Os campistas também não reclamam maior facilidade e lisura nos licenciamentos, menos burocracia, portanto, não reclamam liberdade nas rendas para não aterrorizar atuais ou potenciais senhorios, nem menos tolerância nas fronteiras para evitar que a população volte a aumentar 10% em meia dúzia de anos. Bem espremido, quer tenham consciência disso ou não, e eu admito que alguns não tenham consciência, o que os campistas querem em matéria de habitação é agravar a situação que temos e que já não é nada famosa. E depois temos, aí sim, uma classe política, suponho que é a isto que o Dr. Pacheco Pereira se refere. Temos uma classe política que se divide ou em partidos quase extintos, que fomentam os protestos para dar prova de vida e tentar praticamente ressuscitar, ou em oportunistas que aproveitam a maré e vão na onda para ver se ganham popularidade à custa destes protestos, ou então em supostos estadistas que um dia rejeitam os acampamentos e no dia seguinte concedem uma espécie de credibilidade a gente que não tem credibilidade nem legitimidade nenhuma. Obviamente não tem. Sobre a habitação é que ainda não se resolveu nada, nem há grandes esperanças de que se venha a resolver, exceto, lá está, a habitação da dona Renata. Essa parece estar assegurada, pelo menos ao fim do mês, pelo menos foi o que um tribunal ou uma juíza decretou. A dona Renata pode montar tenda no Rossio e tem até ao fim do mês habitação. Depois entrará talvez num processo de precariedade, não sei, como tantos outros portugueses, e talvez tenha que voltar para a casa dos pais. Não sei como é que é o salário de professora da dona Renata. Sei que pelo menos até dia 20 e não sei quantos agora deste mês, ela tem a tenda assegurada no Rossio.
Alberto Gonçalves, estás de regresso amanhã. Até amanhã. Um abraço.
Até amanhã, Miguel. Obrigado.