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Caça ao voto na Rádio Observador. A campanha eleitoral passou para segundo plano perante a situação que o país atravessa, perdeu espaço nas notícias e os candidatos também estão a adaptar os dias e os roteiros. Eu sou o Ricardo Conceição e comigo está a Judite França.

E conosco estão o Miguel Pinheiro e o Rui Pedro Antunes. Bem-vindos. Rui Pedro Antunes, quem anda a ganhar votos?

Olha, Judite, é assim.

Então é assim.

Quem é que anda a ganhar? Desde logo, deixamos de destacar um facto, volto a ser António José Seguro, parece que estamos influenciados pelas sondagens, mas não tem a ver diretamente com isso. Tem a ver com ontem, ao final do dia, quase perto da meia-noite, Henrique Coveia e Melo deu o apoio a António José Seguro, ou pelo menos disse que ia votar nele. Não é que tenha sido uma declaração de voto muito entusiasmante, porque de facto não foi. Também seria estranho que fosse alguém que ele chamou de chazinho, SAP reciclado, líder fraco e outras coisas, mas digamos que do top five, dos big five, alguns acabaram por não ser assim tão bigs na votação. Faltava um, além de André Ventura, apoiar António José Seguro, e assim faz o pleno desses três. Claro, Catarina Martins e António Filipe, que são o sexto e o sétimo, e também já não sei.

Fez pin também.

O oitavo, nono, não sei. Ficou atrás de Manuel João Vieira, acho eu.

Acho que é nono, não é?

Ficou sim.

Já nem sei, já me perdi porque se me perguntares quem é que está na Liga Portuguesa abaixo do quinto lugar, também não te sei dizer.

Não te preocupes, não vou perguntar.

Mas acaba por ser positivo, porque também aí poderia haver alguma ideia. Houve um almoço do Henrique Coveia e Melo com o André Ventura. Em determinado momento, André Ventura disse que podia apoiar o almirante, podia haver essa expectativa que pudesse finalmente vir aqui um apoio relevante para André Ventura, que efetivamente não veio. O segundo ponto pelo qual anda a ganhar votos, tentando aqui também já atalhar caminho, é precisamente este congelamento da campanha, que normalmente favorece o incumbente. Estava ali a falar com alguém que é conhecedor, que dizia que nem sempre isso corre exatamente assim, porque dizia-se em 99, nas legislativas, com outros protagonistas, mas circunstâncias muito diferentes, que como a campanha teve a questão de Timor e a morte da Amália, e foi muito encurtada, que isso ia favorecer o incumbente e ia ter facilmente maioria absoluta. E António Guterres acabou por ficar a um deputado dessa maioria absoluta e ser prejudicado. Ainda assim, pelos manuais da política, digamos que quem está à frente, sendo a campanha muito encurtada, com esta situação tende a ser favorecido, já o tínhamos dito ontem, mas também por isso eu acho que António José Seguro está a ganhar votos.

Miguel Pinheiro, quem é que está a ganhar votos?

Olha, não sei. Acho que é impossível saber, porque nós corremos o risco de ter uma eleição em circunstâncias completamente diferentes da primeira volta. Vamos ter uma semana, acabamos de ouvir, muito difícil.

Próxima semana, prevê-se mais chuva, fortes.

Sim, muito complicada, muitas chuvas, vamos ter possivelmente zonas de cheias. Não sabemos qual vai ser a dimensão disso e eu diria que uma de duas: ou as pessoas vão estar muito irritadas com o Estado e com o governo por sentirem que não está sendo feito tudo aquilo que devia ser feito e sentem que quando há uma situação complicada, ficam abandonadas e estão tão irritadas com isto que podem querer votar em André Ventura pra mostrar o seu incômodo, ou as pessoas ficam a pensar que não se pode brincar com a Presidência da República, que temos que ter tranquilidade, calma, experiência, pouca excitação na Presidência da República, que as coisas já estão suficientemente complicadas como estão, que não vale a pena estar a agitar mais as coisas, e então tendencialmente favorecerem António José Seguro. Felizmente pra Marques Mendes, não está na segunda volta, porque senão corria o risco de ter que andar a lidar com incompetência.

Mas os dois é o candidato do governo, não é?

Certo. Eu imagino Marques Mendes ter que comentar esta, não sei se é conferência de imprensa, o que isso é, da Ministra da Administração Interna. Eu não sei porque o governo não faz estas coisas com alguma solenidade. Está uma ministra em pé com os jornalistas a espetar-lhe o microfone.

À saída de uma conferência de imprensa.

À saída de uma conferência de imprensa. E depois também não entendo porque a ministra não responde a todas as perguntas. Por que só mais uma pergunta? Primeiro, ela ali pelo meio a irritar-se, irritadinha com os jornalistas. E depois, por que não responde a tudo? Há tantas perguntas pra fazer, respondam a tudo. Ou então, façam aquilo que deviam ter feito no primeiro dia. O primeiro-ministro senta-se em São Bento, numa sala com alguma solenidade, tem ao lado a Ministra da Administração Interna, o Ministro da Defesa e, se ele quiser ter, o ministro Leitão Amaro pra filmar um vídeo, também pode ter, e vão respondendo a perguntas, que é o que se faz nos países civilizados. O primeiro-ministro responde a umas, os ministros setoriais respondem a outras, até podem ter o presidente da Proteção Civil pra coisas mais técnicas e só saem de lá quando estiverem feitas todas as perguntas. Quando os jornalistas estiverem esgotados, já não houver mais perguntas pra fazer, então eles vão-se embora, que é o que se exige numa situação destas. Portanto, Marques Mendes não tem de responder perante isto. Em relação a quem realmente está nesta corrida. Não sei, nós vamos chegar ao dia 8, eu não sei como é que o país vai chegar ao dia 8, nem sei em que condições é que vai votar no dia 8

Sobretudo nas zonas afetadas, como é que vai decorrer a votação? Este domingo há votação em mobilidade.

Deve ser a primeira preocupação, imagino eu.

Dos eleitores.

Das pessoas de Leiria deve ser ir lá pôr uma cruzinha este domingo. Temos que ver em que condições é que as pessoas vão efetivamente votar e qual vai ser o estado de espírito do país. Acho que isto tornou a eleição imprevisível.

Imprevisível.

Rui Pedro.

Olha, quem perdeu votos?

Quem perdeu votos.

A primeira coisa que eu disse. André Ventura, porque a única forma que ele tem é que ia haver um descontentamento muito grande, embora localizado, e esse descontentamento se virar contra os partidos do sistema. A Câmara de Leiria é Partido Socialista, mas não parece que as pessoas estejam revoltadas com o autarca que está desde o primeiro momento no terreno. Portanto, não há nada que possa beliscar propriamente António José Seguro, mas André Ventura sempre foi um capitalizador ou melhor, um catalisador, de alguma forma, alguém que absorve o descontentamento e, portanto, aí nessa zona poderia ter um ganho de causa lateral, mas não me parece que vá muito por aí, porque parece muito mais ir por alguém que é mais estável, mais garantido. Um outro ponto que queria destacar, que o Miguel disse que é relevante, embora esteja a dizer que o André Ventura está a perder votos, é que lembra-me sempre o "Ensaio sobre a Lucidez" do Saramago. Não é um grande livro, não estou aqui como crítico literário, mas comparado com o "Ensaio sobre a Lucidez", é um livro até bastante banal, mas parte de uma ideia em que há um dia que está a chover muito e ninguém vai votar. Depois, de repente, a chuva acaba e vai toda a gente votar e como não há abstenção, mudam-se os resultados completamente, porque vai votar toda a gente. E isso muda completamente tudo o que era expectável. Claro, se tiver a chover muito em todo o país, isso pode levar a que algumas pessoas mais velhas, menos mobilizadas para o voto, que estejam a votar só por rejeição, que achem que o candidato que querem lá já está eleito, tenha o efeito contrário. E então aí, em condições muito adversas, pode haver uma situação em que António José Seguro seja prejudicado e não tenha uma votação tão elevada como pretende ter para exercer a sua presidência.

Miguel Pinheiro.

O que acho que eu diga? Não sei! Lá está, precisamente. Acho que só vamos mesmo perceber nas vésperas do ato eleitoral onde é que está a cabeça das pessoas.

Vamos ter de esperar por essa altura. Este domingo há voto em mobilidade. Quem se inscreveu para votar antecipadamente em mobilidade pode fazê-lo já este domingo. Nesta caça ao voto também vamos pra estrada, ao encontro dos jornalistas que estão a acompanhar as caravanas dos candidatos numa campanha muito atípica.

A Rita Tavares está com António José Seguro, a Inês André Figueiredo com André Ventura. Inês, olá, onde andas?

Neste momento na Póvoa de Varzim, numa ação de campanha que era para ser uma arruada e acabou como uma recolha de bens, tal como aconteceu de manhã, e uma sessão de esclarecimento em que está André Ventura sentado a responder a algumas perguntas de alguns apoiantes que estão aqui.

Inês, com a situação que se está a viver no centro do país, como é que esta situação está a afetar ou a influenciar a campanha de André Ventura?

A devastação deixada por essa tempestade volta a mudar por completo a campanha eleitoral de André Ventura. Percebeu-se isso com várias alterações ao longo do dia. A ação de campanha da manhã em Espinho começou por ser uma arruada e passou por ser um momento de recolha de bens. Na parte da tarde, também uma arruada aqui na Póvoa de Varzim, que acabou, como eu dizia há pouco, com esta sessão de esclarecimento, que já agora tem como título: "Onde é que o Estado tem falhado na resposta a situações de calamidade?". E André Ventura anunciou há poucos minutos que vai mesmo regressar às zonas mais afetadas. Já esteve em Leiria, passou por Leiria na quinta-feira. Assumiu hoje que aquilo que se está a passar no centro do país é suficiente pra alterar um modelo mais tradicional das campanhas, como as conhecemos. Disse que tem de deixar as arruadas e os comícios e ajudar as vítimas da tempestade. No fundo, o candidato presidencial quer ir às zonas mais afetadas, mas principalmente às partes mais rurais, porque durante a visita de ontem percebeu que os grandes problemas, os problemas mais graves, não estavam ali no centro da cidade. Apesar desta mudança de agulha, dizer apenas que André Ventura tem feito questão de referir que o país falhou, que não se deve virar a cara aos erros cometidos e que é preciso discuti-los. E aproveita sempre que possível pra apontar diretamente ao governo por causa dessas falhas.

A agenda para amanhã já está alterada também?

Foi muito recente este anúncio aqui de André Ventura. Estavam previstas duas ações de campanha, uma em Gaia e outra em Viana do Castelo, mas com este anúncio de André Ventura, sabe-se agora que vai regressar a Leiria. Vamos tentar perceber em que zonas e a que horas é que André Ventura estará nesses locais.

Obrigada, Inês. Inês André Figueiredo, a acompanhar a campanha de André Ventura.

Entretanto, está confirmada uma mudança do local de voto em Leiria. No fundo, toda a gente pergunta se vai ser possível votar antecipadamente em Leiria. A segunda volta, o local de voto mudou. A mesa não pode ser instalada na Escola Secundária Dom Dinis devido aos danos provocados. O local de voto em mobilidade em Leiria este domingo passa a ser a Escola Secundária Francisco Rodrigues Lobo.

Voltamos então à estrada. Vamos à campanha de António José Seguro. Está a acompanhá-la a jornalista Rita Tavares. Bem-vinda, Rita. Como foi a agenda de hoje?

A agenda de hoje de António José Seguro ficou reduzida a duas ações de campanha, depois de um novo cancelamento esta manhã, de uma visita que tinha programada em São João da Madeira, que acabou por ser cancelada, porque o candidato queria voltar a visitar zonas onde houve consequências pelo mau tempo da madrugada de quarta-feira. Mais uma vez foi sozinho, portanto, sem a comunicação social. Mas esta tarde, depois de visitar uma empresa de moldes, onde ainda estamos, em Oliveira de Azeméis, António José Seguro explicou que fez esta visita de forma mais discreta e privada para escutar as pessoas que foram vítimas da catástrofe e perceber como é que está a decorrer o processo de apoio às vítimas pela Proteção Civil. Diz que vai sozinho para não atrapalhar os trabalhos, mas também disse que haverá uma altura em que convidará a comunicação social a estar presente. Portanto, é uma linha que, pelos vistos, não vai manter até ao final da campanha. Ainda deixou aqui uma sugestão ao governo nesta fase para que alargue os prazos do PRR, faça essa negociação junto da União Europeia para ser possível concretizar algumas das obras de reconstrução na sequência desta tragédia.

E até que ponto é que estas ausências de campanha, perante aquilo que estamos a viver no centro do país, esta ausência mediática quase da campanha, poderá, no fundo, também beneficiar António José Seguro, porque quase não há campanha nas rádios, nas televisões. Poderá haver aqui alguma situação que acaba por beneficiar António José Seguro ou não?

É evidente que para um candidato que está à frente e cujo principal objetivo destas duas semanas de campanha oficial, desde que saiu vitorioso na primeira volta, é não cometer erros, o facto de estar menos exposto, menos visível, reduz essa margem de ocorrências. Portanto, António José Seguro acaba por ter aqui alguma vantagem em não ter de aparecer tanto. Ele mesmo já estava a fazer uma campanha muito diferente daquela que fez na primeira volta, muito mais controlada, com iniciativas mais à porta fechada, digamos assim, menos contactos de rua com população. Estava a ser uma coisa mais de ouvir pessoas em várias áreas para tentar, dizia António José Seguro, preparar-se para o cargo de Presidente da República, que espera vir a assumir. Portanto, era um bocadinho já dar a ideia de que estava com esse fato presidencial vestido. Portanto, toda esta dinâmica que a campanha ganha ou perde neste momento acaba por fazer com que António José Seguro possa gerir o espaço mediático para aparecer a falar apenas e só daquilo que neste momento está a ocupar esse mesmo palco, que é a situação no centro do país. Portanto, está a aproveitar para focar a sua mensagem em não entrar em picardias nem com o adversário André Ventura e também não com o governo.

Obrigado, Rita Tavares. O Caça ao Voto regressa amanhã à tarde política.