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Cá está o Voto da Rádio Observador e com a situação que o país atravessa, quase que nem estamos a dar pela campanha eleitoral, que termina na próxima sexta-feira. Os candidatos à segunda volta vão adaptando agendas. Seguro continua na frente, mas Ventura está a ganhar algum terreno. Eu sou o Ricardo Conceição e comigo está a Judite França.
E conosco estão o Miguel Pinheiro e o Rui Pedro Antunes. Bem-vindos. Começo por ti, Miguel Pinheiro. Quem anda a ganhar votos?
Acho que o facto de o governo ter acabado por ganhar algum juízo e estar a começar a fazer as coisas que já devia ter feito há alguns dias, estar finalmente a acertar naquilo que é preciso fazer, acaba por beneficiar António José Seguro. Se de repente se criasse um ambiente no país de insurreição justificada contra o governo, contra as autoridades, contra tudo isto, isso favoreceria André Ventura, que está a fazer os possíveis precisamente para criar esse ambiente. E se o governo fizer tudo direitinho, hoje já está a haver uma reunião da estrutura de missão que foi criada no domingo com ministros e com várias outras pessoas. Já se começa a ver a máquina do Estado a funcionar, e isso é favorável a António José Seguro.
Rui Pedro.
Concordo em absoluto com o Miguel, porque na verdade, tudo o que fosse o caos favorece quem melhor reina no caos e quem representa um partido que nos últimos anos governou, é sempre mais responsável por aquilo que é, no fundo, os problemas estruturais da resposta neste tipo de situações e na proteção civil. E o PS governou muitos anos, mesmo que António José Seguro não tenha tido uma intervenção direta nesse governo, isso é sempre imputado aos partidos do sistema e André Ventura joga com isso como ninguém. Mas eu queria registar aqui, não obstante de André Ventura perder votos com isso, também António José Seguro perdeu votos com duas ou três coisas. Uma é a descida que se tem verificado na tracking poll, que mostra que as pessoas estão a deixar de estar entusiasmadas. Depois há uma primeira postura, que é de fazer-se de morto, que ele teve que vir a correr atrás, porque estava a ver que estava a perder margem pra ter essa maioria reforçada, que significa que, primeiro, não ia dar quase entrevistas, porque queria estar com as pessoas. Tem hoje a primeira arruada da segunda volta, quase ao fim de duas semanas. Eu sei que houve temporal pelo meio, mas queria estar com as pessoas, convém que sejam portugueses comuns, porque qualquer um enche uma sala sabendo que vai ser o próximo presidente. Quando se tem o presidente da Câmara de Almeirim, essa foi cancelada, ou é fácil encher uma sala neste momento. E não é por aí que se está com os portugueses. O comício não se chama comício, chama-se sessão, mas é uma questão de semântica. Não entra com uma música triunfal, mas as pessoas batem-lhe palmas, mas segue a campanha. Mas a leitura que faço de ter marcado uma entrevista com a SIC no domingo e com a RTP esta segunda-feira, é de alguém que está a precisar de pedalar. E se está a pedalar é porque acha que está a perder gás de alguma maneira. E ele não luta propriamente contra André Ventura, porque o binômio parece que não há o roubo direto. António José Seguro perde mais pra abstenção ou pra voto em branco, ou pela desmobilização do que propriamente diretamente pra André Ventura, mas isso parece-me que está a acontecer. Aliás, a postura, os jornalistas que eu até gosto pouco que se queixem e que tenham a modalidade de primas donas. Eu estou nos dois grupos das campanhas do PS e do Chega. E eu não estou a dizer que correu sempre bem, mas na primeira volta havia um respeito maior pelos jornalistas. E nesta segunda volta, o que eu tenho assistido é, por parte da campanha do Chega e do PS, um desrespeito total com marcação de agendas, com o respeito pelo trabalho dos jornalistas. Isso não é só de António José Seguro, mas também é por parte de António José Seguro e por parte do Chega, que é: "Nós não precisamos." André Ventura já percebeu que não vai ser presidente da República, está a trabalhar na autopista, não se preocupa muito com isso. O António José Seguro já percebeu que vai ser presidente da República, mesmo que caia uma bomba atômica ou que venha uma tempestade Christine, portanto, já não se importa muito. E depois, de repente, são forçados a vir de um dia pro outro, duas entrevistas, e vamos ver se não há três ou quatro. E isso mostra que se calhar as coisas não estão a ocorrer o passeio no parque que António José Seguro queria e, aparentemente, este tipo de campanha congelada favoreceria quem vai à frente.
Miguel, quem é que está a perder votos?
Olha, eu diria que André Ventura hoje desceu mais um degrau. É impressionante como é que ele consegue causar espanto mesmo assim. No domingo, o Luís Montenegro expressou condolências, vou citar: "Às famílias daqueles que não evitaram a trágica consequência de perderem a vida em função destes episódios adversos." Que é obviamente uma forma totalmente embrulhada de falar. E é assim que o Luís Montenegro fala, de uma forma embrulhada, como se fosse um jurista a falar para juristas no meio de um tribunal. Mas enfim, é assim que ele fala. Mas André Ventura veio hoje dizer que esta expressão, aqueles que não evitaram a trágica consequência de perderem a vida, é de alguma forma Luís Montenegro a culpar as pessoas pela sua própria morte. E André Ventura veio exigir a Luís Montenegro que se retrate, que peça desculpa, porque as pessoas não tiveram culpa nenhuma por terem morrido quando a culpa é do Estado. Ora, ler nestas palavras de Luís Montenegro que ele estava de alguma forma a dizer que as pessoas que morreram tiveram culpa, isto é uma coisa de um absurdo inqualificável. E, de facto, qualquer coisa que André Ventura faça, nós já desvalorizamos tudo, realmente. O ministro Leitão Amaro fez um vídeo absurdo, teve que pedir desculpa e tirar o vídeo das redes sociais. André Ventura fez um vídeo absolutamente penoso, lamentável e ridículo, e continua como se nada fosse. Quer dizer, acho que há limites para tudo. E realmente, isto hoje de vir dizer que Luís Montenegro tem que pedir desculpa porque insinuou que a culpa das mortes foi das próprias pessoas, realmente vai para lá do que é aceitável.
Rui Pedro.
É algo desprovido de racionalidade, tendo em conta que falamos de um líder que almeja liderar a oposição. Assim diria Luís Montenegro.
Se André Ventura não perde votos com isto, devia. De facto, devia perder.
Eu também concordo que André Ventura perde votos, não só pela primeira parte que tinha concordado com o Miguel, mas também um bocadinho com os apoios. Já não espanta muito, por exemplo, Linor Blaze tenha vindo apoiar António José Seguro e não era o tipo de apoio que André Ventura quisesse. Mas depois há apoios que parece que são apresentados com grande pompa e se calhar não são assim tão bons. Agora foi bastante pela rede do Chega divulgado que Henrique Chaves apoia André Ventura, o militante número dois do PSD. Que eu saiba, antes da morte de Francisco Pinto Balsemão era Conceição Montalvo, e o terceiro creio que era Marcelo Rebelo de Sousa. Não sei se ele é exatamente o número dois, mas se calhar ele tem lá o cartão em casa e sabe que é. Mas de Henrique Chaves, o que sabemos é que foi ele que ajudou, de certa forma, um presidente da República socialista a mandar um governo de direita abaixo. Por isso é um excelente histórico, porque quando ele próprio protagonizou uma trapalhada com o grande amigo Santana Lopes, que supostamente confiava na lealdade dele, e ele veio dizer que se demitiu do governo por uma deslealdade de Santana Lopes, porque lhe retirou o cargo de ministro adjunto, é este também o currículo de Henrique Chaves mais recente. Portanto, na verdade, deu argumentos a Jorge Sampaio, presidente socialista, para falar assim como o Chega gosta de falar, deu argumentos para ele mandar abaixo um governo de direita, como efetivamente fez. Não foi o único, Rui Gomes da Silva e outros que estão no Chega também têm uma quota parte de responsabilidade no que se passou nesse governo, e o próprio Pedro Santana Lopes também. Mas Henrique Chaves protagonizou esse célebre, foi um dos acontecimentos que levou a que um presidente socialista pudesse mandar abaixo, estou a tentar usar as palavras que são facilmente entendíveis na dialética do Chega, um governo de direita. Ainda por cima era uma maioria.
Esta sucessão de apoios que continuam estes nomes, isto não pode favorecer a abstenção, e a abstenção favorecer André Ventura? Ou seja, continuamos a ter notáveis atrás de notáveis. Realmente não faltam notáveis a apoiar, por exemplo, António José Seguro, mais do que André Ventura.
Enfim, em tese, a abstenção favorece André Ventura, porque tendo ele a capacidade, se tiver, de mobilizar aqueles eleitores do Chega, naturalmente que se ele conseguir mobilizar o mesmo número de eleitores da primeira volta, vamos imaginar, e se a abstenção for maior, percentualmente aquilo vale mais. Acho que temos que perceber como é que chegamos a domingo. Se as pessoas estiverem incomodadas, irritadas com a maneira como as coisas estão a passar com o tempo, agora com muita chuva que se prevê que venha aí, se as pessoas acharem que não está a ser feito o suficiente, podem de facto preferir ficar em casa. É possível que possam não ter paciência nem disposição para estarem a ir votar. Agora, isso só acontecerá se o governo for incompetente. António José Seguro também, como dizia o Rui Pedro, tem que ser competente. Quer dizer, António José Seguro não se pode comportar como Luís XIV. Aquilo a que eu assisti logo nos dias a seguir à primeira volta, foi a corte de António José Seguro a comportar-se como se já estivessem a mandar nisto tudo.
Como se tivesse tudo decidido.
Pronto. Se António José Seguro e aqueles que assessoram António José Seguro acharem que já está ganho, que já está feito, que são os maiores e que não precisam de prestar contas a nada e não precisam de responder a ninguém, depois no domingo com certeza não se venham queixar dos fascistas. Isso não.
E vamos para a estrada também, neste caso ao voto.
Vamos ao encontro dos jornalistas da Rádio Observador, que estão no terreno a acompanhar os candidatos e vamos começar por Vasco Maldonado Correia. Onde andas neste momento?
Boa tarde, Zita. Neste momento estou em Campo Maior. Estive há pouco em Elvas, agora em Campo Maior, vai haver aqui uma visita a um museu.
O Vasco Maldonado Correia está a acompanhar a candidatura de António José Seguro, que voltou a atacar diretamente André Ventura, naquela dicotomia do democrata contra o antidemocrata. Esta é uma estratégia para ficar até o fim da campanha, Vasco?
Avervamos, Luís, porque também desde essa entrevista ainda não falou novamente aos jornalistas, mas é relevante ter voltado a essa dicotomia, porque foi a primeira vez que o fez de forma tão clara nesta segunda volta, no mínimo, no período da campanha oficial, que coincide também com a altura da tragédia provocada pelo mau tempo na região centro e norte e também no sul, claro. Mas foi a primeira vez que o fez ontem na entrevista que deu à SIC, essa dicotomia, no fundo, a dizer que André Ventura representa um perigo para a democracia, que utiliza táticas antidemocráticas como o espalhar da desinformação. Até aqui tem tentado fugir disso, tem tentado fugir dos ataques a André Ventura, nem sequer tinha pronunciado o nome de André Ventura. Foi ontem a primeira vez que o fez nesta segunda volta. E por isso, avervamos se é um sinal de que precisa de acelerar nesta segunda volta. As sondagens continuam a dar-lhe uma vantagem bastante confortável, mas em algumas dá para ver que começa a descer um pouco e, por isso, talvez já não seja possível ter aquela vantagem, aquela margem alargada de que vinha falando. Lembro que na primeira volta, por exemplo, que chegou a falar em conseguir dois milhões e meio de votos. Ontem, quando falou mais uma vez nesta questão de conseguir uma margem alargada para André Ventura, também para reforçar a legitimidade do mandato que quer cumprir, já não quis falar em números, até porque provavelmente sabe que se disser um número e depois não conseguir lá chegar, acaba por tirar alguma pompa a essa vitória que pode eventualmente chegar. Por isso, a ver vamos o que traz esta última semana. E é até interessante estar aqui hoje no distrito de Portalegre, porque foi um distrito onde Ventura e Seguro ficaram separados por 60 votos apenas, para isso mesmo, para ver se a política volta mesmo à campanha, porque até aqui tem sido muito marcada pelas questões do mau tempo.
O que é que se segue nas próximas horas, Vasco?
Como dizia, distrito de Portalegre, agora Campo Maior, à noite um comício mesmo em Portalegre. Amanhã sabemos que começamos em Proença-a-Nova, não sabemos mais.
Obrigado, Vasco. Vasco Maldonado Correia a acompanhar a campanha de António José Seguro. Na outra campanha, a de André Ventura, está o Miguel Viterbo Dias. Miguel, por onde é que andas?
Agora por Aveiro, numa sessão de esclarecimento ou uma tratulia com apoiantes, que tem sido o modelo utilizado desde que começaram estes problemas provocados pela tempestade. Sessões fechadas com apoiantes que vão colocando perguntas a André Ventura.
Estamos a ouvir o candidato em fundo. André Ventura foi alvo do ataque de António José Seguro. A troca de argumentos políticos voltou, Miguel, ou a campanha ainda está dominada pelas consequências da depressão Kristin?
É assim, vai estando dominada, mas André Ventura vai dizendo que não quer fugir do tema da tempestade enquanto vai atacando António José Seguro. Isso está a acontecer agora mesmo, também a fruto das perguntas que vão sendo colocadas. Por exemplo, há pouco foi colocada uma questão sobre a notícia avançada pelo Observador de que António José Seguro corrigiu a declaração entregue na entidade para a transparência e que motivou aqui mais um comentário por parte de André Ventura sobre António José Seguro, também muito à boleia daquilo que tem sido a posição do adversário de André Ventura quanto à tempestade, também vai merecendo críticas por parte de André Ventura. Já esta manhã, o candidato apoiado pelo CHEGA tinha recusado fugir do tema, mas depois, perante a insistência dos jornalistas, foi deixando algumas bicadas e respondendo que António José Seguro agora comete um erro ao estar a atacá-lo por intermédio dos jornalistas quando recusou os debates. E vai-se refugiando no único debate televisivo desta segunda volta para dizer que esse frente a frente colocou a nu os problemas de António José Seguro e a incapacidade para o cargo e vai-se agarrando a isso para atacar o adversário, enquanto vai dirigindo uma grande parte das críticas, e as mais fortes, sobretudo, para o governo e, neste caso, nestas últimas horas, para a Ministra da Administração Interna, Maria Lúcia Amaral.
Como é que vão ser as próximas horas, Miguel?
Ainda não sabemos. Estamos a navegar à vista.
Não há monotonia nessa relação, Miguel.
Exato. Esta é a última ação do dia, esta sessão de esclarecimentos. Ainda vai durar, porque estão muitas pessoas inscritas para colocar perguntas a André Ventura. Para amanhã ainda não há agenda, até porque se sabe que estes dias continuam a ser complicados do ponto de vista meteorológico e por isso a campanha também vai se adaptando com poucas horas de antecedência e, para já, ainda não temos agenda para o dia de amanhã.
E vamos aproveitar as palmas para sair. Obrigado, Miguel Viterbo Dias. O Caso Voto regressa amanhã, na Tarde Política.