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Se começarmos este Café América a dizer que a América está de volta, talvez o caro ouvinte decida dar meia-volta e desligar, convencido de que se enganou nas datas e está a ouvir um, dois ou até três episódios anteriores. Mas a verdade é que a frase voltou a ser repetida por Joe Biden, agora na sua estreia nas grandes reuniões multilaterais. Começamos a entrar no "é mais fácil dizer do que fazer", e essa certeza popular cai que nem uma luva quando pensamos nos desafios, como lhes chamou Biden, colocados pela China. O novo presidente quer uma ação conjunta, insiste na importância das alianças e sublinha que o modelo democrático não pode ser só uma relíquia do passado. No presente deste Café América também temos duas relíquias, a Madalena Meira Resende e o João Diego Barbosa. Eu sou a Sara Antunes de Oliveira, vamos aos prémios. Começamos, como sempre, pelo mau, o Frank Underwood. João Diego, começamos por ti, que queres assinalar o desaparecimento de uma das maiores figuras da rádio.
Sim, Rush Limbaugh morreu aqui há dias, aos 70 anos, vítima de câncer do pulmão, e ele foi uma figura destacada da política americana. Era visto, e via-se a si próprio, como responsável pela reconfiguração midiática que fez nascer este novo movimento da direita. E Rush Limbaugh foi verdadeiramente inspirador pra essa nova direita, provando que um estilo divisivo podia, talvez não capturar todo o país, mas conseguia pelo menos uma minoria de fanáticos que estava disposta a tornar empreendimentos midiáticos sustentáveis. E a sua morte foi muito disputada culturalmente, como agora é hábito fazer-se. Pra direita era um exemplo, pra esquerda foi o promotor de teorias da conspiração que contribuiu decisivamente pra polarização da sociedade americana, e tudo isso gerou um debate complicado. Sean Hannity, por exemplo, o célebre Sean Hannity, disse que sem Limbaugh não teria existido a Fox News, e isso ajuda-nos a perceber, apesar de ser, eu acho, um exagero, ajuda-nos a perceber o que foi a carreira deste homem. Mas no momento em que esse movimento, por si criado, por si apoiado, experimenta uma grande derrota eleitoral e está a fazer uma espécie de inquérito e de soul searching, eu acho que é importante também fazermos um balanço dos motivos que trouxeram aqui o insucesso da nova direita. E eu acho que isso se justifica primeiro pela razão que tornou Rush Limbaugh bem-sucedido. É que o estilo abrasivo, que repugna ou encanta, é uma boa forma de conseguir atenção midiática, mas tem mais dificuldades a nível nacional. E em segundo lugar, porque como Limbaugh ou como Roger Ailes na Fox News queriam apenas vender produtos de entretenimento, e não exatamente um programa do governo. Esta forma de política acaba por esvaziar-se quando tem o poder, porque o poder para si é um fim e não tanto um instrumento para avançar políticas. E acho que faz sentido aqueles versos de Shakespeare que se tornaram muito célebres durante a presidência de Trump, de "Life is a tale full of sound and fury, told by an idiot". E eu acho que é isso, porque houve muita fire and fury, fogo e fúria, mas não houve exatamente um programa de governo e não podia haver, porque o poder neste tipo de política é um fim e não um instrumento. E quando assim é, é sempre mais difícil governar. E eu gostava de deixar aqui uma homenagem a Rush Limbaugh por tudo o que ele representou, mas notar que a sua forma de política não teve assim tanto sucesso quanto às vezes julgamos, e isso é certamente uma parte importante do seu currículo.
Sim, e porque de fato, apesar da própria morte ter sido alvo de discussão, sobre a própria morte ter sido discutida, debatida e divisiva ela própria, não deixa de ter, de fato, desempenhado um papel importante. Bom, pode não ter conseguido, e não ser esse o objetivo, de depois seguir com políticas, mas conseguiu o fim, seguramente, porque também ele será responsável, com uma boa dose, pela eleição de Donald Trump e pelo tal crescimento dessa direita de que falavas. Se concordarmos, porque temos muitos prêmios pra frente, vamos avançar já para o donut desta semana. Madalena, nós na segunda parte vamos ter a oportunidade de olhar pra essa presença de Joe Biden no G7 e na Conferência de Segurança de Munique, mas queria já aqui dar um donut pra o discurso de Biden nessa conferência de segurança e também pra uma presença de Antony Blinken.
Exatamente. Esta semana, o presidente cumpriu as suas promessas e, de fato, apareceu de forma decisiva neste primeiro installment da Conferência de Segurança de Munique, que tem sempre lugar todos os anos em Munique, obviamente, mas desta vez online E que atraiu vários dos líderes ocidentais mais conceituados e deu o discurso previsível, mas também o discurso que, de facto, entusiasmou ou pelo menos desafiou os europeus, dando um sinal forte de que quer, de uma maneira otimista, amigável, envolver a Alemanha, a Europa, e recriar o Ocidente no seu conjunto. Vamos falar disso mais à frente, portanto não me vou alongar aqui.
E em relação a Blinken?
Exato. No Conselho de Negócios Estrangeiros da União Europeia, em Bruxelas, debateram-se as sanções, finalmente se adotaram as sanções, que são vistas um pouco como simbólicas a Moscovo, como resposta ao aprisionamento de Alexei Navalny. E também a presença de Blinken foi notada como uma forma de apoio à União Europeia no momento de fraqueza. Sabemos que o representante para a política externa, Josep Borrell, foi enxovalhado em Moscovo pelo ministro dos Negócios Estrangeiros, Lavrov, e de certa maneira, esta presença de Blinken mostra um apoio às próprias instituições da União Europeia, que são sempre um pouco controversas, mesmo nos próprios Estados Unidos, onde se vê com alguma dificuldade o diálogo com as instituições da União Europeia, por serem, de uma certa maneira, complexas. E portanto, esta presença foi também vista nesse contexto de apoio à União Europeia.
E reforça esta linha da administração Biden de voltar para os acordos, apoiar antigas alianças e reforçar a presença nas instituições, que tem sido prometida ainda desde a campanha eleitoral, para dizer a verdade, não apenas desde a tomada de posse. João, tu tens aqui um donut para um veto no Senado, por causa dos tweets que se escrevem no Twitter.
É verdade. Eu, se calhar aqui neste painel, sou a pessoa que produziu mais maus tweets e, portanto, temos uma espécie de conflito de interesses, mas é para falar de Neera Tanden.
Pelo menos compreendes bem a situação, não é?
Sim, tenho alguma solidariedade, apesar de concordar com o que está a acontecer. Neera Tanden foi nomeada pelo presidente Biden para dirigir o gabinete que controla a execução orçamental. O cargo não é propriamente menor, mas o que a atirou para as notícias foi, logo aquando da sua nomeação, a fama que tinha adquirido durante a presidência de Trump como uma exímia praticante do Twitter. Isto porque ela passou esses quatro anos a insultar quase toda a gente, de republicanos a democratas, sobretudo apoiantes de Bernie Sanders e o próprio Bernie Sanders, com quem tem um longo beef, um histórico beef, aliás. E isso tudo tornou a sua audição no Senado bastante embaraçosa, porque estava a falar com gente que tinha insultado e que não teve medo de lhe ler os seus tweets. Tweets, aliás, que ela tinha apagado pouco antes de entrar. Mas depois de nomeada polêmica, parece destinada a passar a nomeada chumbada, porque vários moderados vieram anunciar que não votariam a sua nomeação. Joe Manchin, Susan Collins e Mitt Romney, acho que pelo menos esses já anunciaram que vão votar contra. E eu acho que há aqui duas conclusões a tirar. A primeira, mais política, tem a ver com a maioria do presidente no Senado, que é curta e está longe de poder ser tomada por certa. E a segunda tem a ver com o impacto que maus tweets devem ter sobre o futuro profissional de alguém. Eu não vejo que seja possível uma teoria geral e abstrata neste caso, não fico pelo menos muito confortável com a ideia de que tweets possam impedir alguém de trabalhar seja onde for. Mas neste caso, em que se insultou tanta gente durante tanto tempo, é difícil imaginar que depois essas pessoas fossem votar a sua nomeação. E aliás, a própria nomeação é um bocadinho estranha, tendo em conta o objetivo de Biden de unir a América. Na altura, chegou a dizer-se que como podia não haver maioria no Senado depois das eleições, na Geórgia podia ser uma espécie de escolha para queimar e passar outros que pudessem ser menos polêmicos. Mas agora parece que mesmo com a maioria, Neera Tanden vai ser chumbada e eu acho que, apesar de tudo, é um passo no bom sentido. E eu gostava de ver, por outro lado, os republicanos a manterem estes standards tão elevados em relação a tweets mauzinhos nas próximas primárias, quer para o Senado, quer para a Câmara, quer até para a presidência.
Isso é que pode ser mais difícil até dentro do próprio Partido Democrata. Vamos avançar para o Sarah Palin desta semana. Madalena, muito rapidamente, tens aqui um Palin para a ideologia woke americana, isto saiu mal, que é perseguida pelo presidente francês.
É verdade. Sabemos que os franceses gostam muito de dizer mal um pouco da América e de rejeitar as influências culturais que vêm da América por serem não dignas da civilização francesa.
Não francesas, no fundo.
Não francesas, exatamente. Eu estou um pouco de acordo em relação a esta ideologia que está a penetrar também na Europa, mas acho que é um disparate no contexto das várias reformas que Emmanuel Macron tem vindo a fazer e, obviamente, no contexto das eleições presidenciais que vêm para o ano, ele vem também limitar ou censurar estas influências culturais nas instituições de ensino superior francês. E daqui o meu Sarah Palin, achando que de fato é um disparate tentar censurar este tipo de influências por meios governamentais no século XXI e usando-
Por decreto.
Por decreto, exatamente.
Está feito esse Sarah Palin. João, tu também tens um disparate para o fim de um projeto que deu algumas dores de cabeça a Donald Trump.
Não sei se terá. Eu queria falar do Lincoln Project. Donald Trump é uma pessoa que é quase que um Benon andante e, portanto, eu duvido que ele tenha dores de cabeça. O Lincoln Project era um grupo centrista, alegadamente composto por conservadores descontentes, que usava o Twitter como arma para promoção de memes, para críticas ao presidente Trump e a proposta de amanhãs que cantam, porque eles eram decentes. Eu sempre achei esse conteúdo, que se tornou popular e viral, bastante embaraçoso. E na verdade, aquilo destinava-se a recolher belos contratos mediáticos e doações de americanos e até estrangeiros que gostavam de ver o presidente Trump gozado no Twitter, uma espécie de vingança pelos seus excelentes tweets, que nos foram negados, aliás, note-se isso, ainda não recuperamos desse momento enquanto sociedade. Mas há mais ou menos um mês, tudo isso começou a desmoronar-se com acusações de assédio sexual e laboral, que destruíram a credibilidade de um grupo que sempre usou todos os símbolos de superioridade moral, de uma espécie de centrismo mágico e de um tempo ideal que já não volta, para alavancar o seu sucesso. E o seu sucesso era sobretudo mediático e financeiro, pelas doações e pelos contratos que eles iam fazendo.
O que faz alguma diferença na política norte-americana.
Sim, mas eu acho que se fecharem operações, primeiro é o Twitter que vai aparentemente ter de volta o New York Times, o que pode ser giro, mas vai perder o Lincoln Project. Eu acho que foi uma semana boa para o Twitter e para a democracia americana. E aliás, é uma lição para todos nós que devemos desconfiar sempre do viral.
Eu também tenho aqui um Palin, um disparate desta semana que podia estar no Underwood, mas creio que o João Diogo também quer falar um pouco sobre isto. O meu Palin, provavelmente não com este ângulo, mas o meu Palin vai para o senador Ted Cruz, que surgiu este fim de semana numas fotografias a distribuir paletes de água às pessoas afetadas pelo mau tempo terrível no Texas, que já fez dezenas de mortos. E vai para essa imagem de Ted Cruz a distribuir garrafas de água, como se sempre tivesse estado envolvido no apoio e no socorro à população, mas também para todas as declarações de Ted Cruz que se sucederam depois da polêmica da sua viagem a Cancún. Porque Ted Cruz aponta dois culpados para esta polêmica. Primeiro, as companhias elétricas. Tem aliás estado muito ativo em apontar o dedo às companhias elétricas que permitiram que a rede estatal falhasse, e a rede estatal, incide Ted Cruz, e com alguma razão, não pode falhar, sobretudo num estado que é o estado da energia. E depois culpa também as filhas, o que é uma justificação extraordinária. Diz que depois de dois dias sem energia, família em casa, sem aquecimento, todos aconchegados à volta da lareira, ele diz isto em frente à própria lareira, as suas duas filhas tinham frio e pediram para ir para um sítio mais quente. E portanto, Ted Cruz diz agora que foi obviamente um erro, não o teria feito, mas estava a tentar ser pai, de novo culpando as filhas, e portanto decidiram ir para Cancún. Há mensagens escritas atribuídas à mulher de Ted Cruz, em que ela até diz que o preço dos quartos no Ritz está ótimo e sugere que outros amigos façam o mesmo. Ted Cruz diz que ficou logo com dúvidas assim que chegou, já percebemos que o aeroporto de Cancún não deve ser grande coisa, e decidiu voltar, e a viagem terminou assim mais cedo, apesar deste erro. Enfim, não é um disparate, são vários disparates. João Diogo, em 20 segundos, se conseguir juntar aqui alguma coisa a este debate.
Eu deixaria o entusiasmante problema da rede energética do Texas para a segunda parte, porque quero pegar em Ted Cruz, que parece ter perdido um aspecto muito importante nos políticos, que é já nem se preocupa em arranjar boas mentiras, porque ele diz que foi a Cancún deixar as filhas quando havia bilhetes para vários dias e depois veio muito tenso a tentar distribuir água e arranjar dinheiro, ou novamente colando-se à iniciativa da Alexandra Ocasio-Cortez, e foi tudo muito embaraçoso. Mas eu gostava de notar que a mulher de Ted Cruz viu as suas mensagens privadas para um grupo de vizinhos divulgadas à imprensa. Eu acho que isso é uma falta de honestidade e um desrespeito pelo Estado de direito. Mensagens em grupos de amigos não devem ser divulgadas à imprensa, isso é um dos princípios estruturantes da nossa sociedade e por isso fico muito triste com o que fizeram à senhora Cruz.
Claramente a família Cruz não conhece bem os seus vizinhos. Madalena, vamos voltar a isto que prometemos no início da segunda parte. Vamos fazer aqui um intervalo para as notícias. Voltamos já a seguir Segunda parte do Café América desta semana, deixámos aqui um tema pendurado, porque Madalena também quer falar de Ted Cruz e da situação no Texas.
Eu, por acaso, ia para o governador Greg Abbott, que na quarta-feira, na Fox News-
Consegues resistir a falar de Ted Cruz, portanto. Isso é de valor.
Não, é enquadrá-lo. Porque o governador, que também é republicano, veio dizer que a razão para esta crise no Texas é exatamente o New Green Deal da nova administração e apontando para os painéis solares cobertos de neve, diz que realmente isto mostra que se quisermos continuar a sobreviver aos invernos gelados, vamos ter que continuar a queimar gás natural e, portanto, naturalmente, com esta neve toda não há eletricidade. Eu acho genial.
Mas isso, aliás, vai ser importante para quando discutirmos o Acordo de Paris, porque foi um debate interessante. Mas sobre o Ted Cruz ainda, voltando a focar a questão no que importa, um dos maus tweets de Neera Tanden era precisamente sobre o Ted Cruz e dizia que os vampiros tinham mais coração do que ele. Talvez aqui isso possa valer de uma exceptio veritatis, que como sabemos, é causa de exclusão da ilicitude e, portanto, talvez Neera Tanden desse se possa eximir e talvez ainda possa ter um lugar na administração Biden, porque diz as verdades.
Não há de ser por isso que será vetada, provavelmente, no Senado. Bom, vamos avançar destes disparates. Vamos olhar para o que aconteceu nos últimos dias com a presença e a estreia de Joe Biden como presidente, naturalmente, nos grandes palcos internacionais, com a Conferência de Segurança de Munique e também com o G7. João Diogo, Biden repetiu um discurso que era expectável, também já ouvimos a Madalena dizê-lo aqui, era expectável que ele tivesse esta posição. Pareceu-te que foi suficiente para começar a agregar os aliados em torno de um bem comum?
Eu acho que o G7, antes de ir à conferência, o G7 é uma estrutura relativamente inútil, que tem de ser mantida porque normalmente há um momento durante a década em que é absolutamente decisiva, portanto, tem de ser mantida nos intervalos e é sempre aborrecido e fazem uns discursos redondos. Desta vez ainda foi mais chato, porque o presidente Biden entrou nos palcos internacionais ficando na Casa Branca e conseguiu estar em Londres e em Munique sem sair do seu escritório. E isso tira um pouco aquela graça, tira aquela pompa e circunstância da presidência americana. Eu acho que quanto aos discursos do Biden, pelo menos o discurso na conferência e a sua atitude na reunião do G7, eu acho que nós ainda na Europa estamos demasiado presos a todas as palavras, a todas as vírgulas que Biden nos dirige e às vezes nem sequer nos dirige, são apenas indiretamente sobre nós. Isto na América não é assunto e é importante perceber como neste momento a América passa por tantos problemas internos e identifica em si mesma tantos problemas, que nem sequer está muito predisposta a ter uma atitude, ou pelo menos uma atitude de concentração, no que tem a ver com a política externa. Isso vai ser importante, parece-me, em relação à atividade do presidente Biden para a Europa, para a China e até para a Rússia. O discurso foi o que estávamos à espera, foi aquele discurso que se faz sempre e que até talvez Donald Trump pudesse ter feito de uma maneira mais divertida e menos profunda, porque reafirmar alianças e pedir consensos em torno de bons valores não é difícil de fazer. Difícil é pôr tudo isso em prática, difícil é afastar a Europa das garras da China, difícil é convencer os europeus de que o seu futuro está mais ligado ao futuro dos Estados Unidos do que ao futuro dos seus vizinhos. E portanto, eu acho que não foi um conjunto de intervenções propriamente históricas, mas que fazem aquilo que Joe Biden precisa de fazer agora, que é dizer que estamos de volta, que queremos reconstruir alianças e parcerias e que precisamos neste momento de ter alguma humildade por tudo aquilo que passamos nos últimos quatro anos. Eu acho que isso é o primeiro passo, mas não é um passo muito auspicioso, porque mostra que, a Madalena falava de uma posição de fraqueza da Europa por outro assunto, mas há uma verdadeira posição de fraqueza da América e é reconhecida até pela administração Biden e que tem a ver com estes últimos quatro anos, em que houve uma orientação de política externa completamente diferente da que tinha sido seguida antes. E, portanto, há aqui uma necessidade de reconstruir alianças, há uma necessidade de reconstruir amizades e há até uma necessidade de voltar a ter chamadas atendidas, porque é preciso mostrar que o presidente já não é Trump, que já não vai ser alguém que tenta empurrar pessoas para ficar à frente na fotografia, que já não vai ser alguém que critica a União Europeia dia e noite. E tudo isso vai ser muito difícil de fazer, vai exigir um esforço de reconstrução importante, mas, novamente, como os americanos não estão muito para aí virados, pode ser muito difícil de conseguir.
Olha, eu até gostava que tu tivesses razão. A sério.
Eu penso mesmo, Madalena.
Todos os dias, aliás.
Poucas vezes estou certo, mas penso.
Não, gostava que os europeus estivessem à espera de todas as palavras do presidente Biden. Eu acho que não é bem assim. Ou seja, o que se demonstra hoje em dia, em particular aqui na Alemanha, onde eu estou mais atenta à política e aos media, é que, de facto, ninguém está muito preocupado, em particular a chanceler não está muito preocupada em agradar ao presidente Biden ou em responder aos pedidos da América Para de facto reconstruir esta parceria. Pelo contrário, há uma resistência que eu acho difícil de explicar da parte do governo alemão, em demonstrar que quer resistir aos simpáticos convites de Moscovo, como se viu na semana passada com a visita de Josep Borrell. De facto, são pessoas muito bem-educadas e com uma vontade enorme de agradar à Europa, mas a chanceler e outros membros do SPD não conseguem resistir ao apelo de Moscovo e demonstrar um pouco mais de solidariedade com a América. E, portanto, eu acho que estamos aqui num momento um bocadinho awkward, ou seja, esta reunião do G7 e mesmo a presença de Antony Blinken na reunião de ontem do Conselho de Negócios Estrangeiros, é um momento um bocado awkward no sentido em que uns pedem e outros dizem que sim, mas as ações não seguem as palavras. Espero que se avance lentamente nessa direção, mas neste momento há aquele ditado de que é preciso dois para dançar o tango. Aqui, os Estados Unidos estão um pouco naquela posição de querer liderar, mas não terem parceiros. E, portanto, eu penso que estes passos são de facto importantes, ou seja, não são só palavras, são uma intenção muito clara da administração Biden, talvez a última que a Europa vá receber, mas não tenho certeza de que a Europa consiga responder à altura.
Mas quando eu dizia dar atenção, só para esclarecer, Sara, é rápido. Eu queria dizer primeiro do debate, porque nós discutimos, quase todos os discursos de Joe Biden têm a ver com a política externa, e nós, não só no programa, mas na imprensa europeia em geral, temos dado muita atenção a isso e a esses aspectos que na América praticamente não têm relevância, não estiveram presentes na campanha, não estão muito presentes no dia a dia. Aliás, é mais fácil ler sobre os discursos de Biden, quando o assunto é política externa, num jornal europeu do que num jornal americano, isso importa. E ao mesmo tempo, eu diria que esta presidência tem um mês e já tem o secretário de Estado a fazer reuniões do Conselho dos Negócios Estrangeiros. O presidente Biden seguramente participará em qualquer coisa em breve. Eu acho que há aqui uma vontade. Não negaria, aliás, temos tido esta conversa várias vezes no Café Europa, não negaria que há muita atração, principalmente das grandes potências europeias pela China, mas ao mesmo tempo, Madalena, a primeira política externa de Angela Merkel está no domínio do esotérico. Não é acessível a mentes como nós, porque é sempre uma surpresa que aparece no último momento. E é preciso lembrar que Angela Merkel está na porta de saída, aparentemente, a não ser que haja também uma grande surpresa, e portanto, haverá aí mudanças, mas eu não diria que são para já e não diria até que seja Merkel o grande indicador do que vai ser o futuro da política alemã, só para esclarecer esse ponto.
Eu acho é que este G7 foi de facto o espelho dessa falta de entusiasmo ou até de crença por parte dos aliados naquilo que para já é só vontade. Nós já debatemos aqui num destes Cafés Américas, não sei qual será o nosso plural, mas já debatemos a questão de os últimos quatro anos também ensinaram a União Europeia e a Europa que a qualquer momento pode vir um Donald Trump, e que há uma volatilidade maior na política norte-americana, que vai muito para além da volatilidade entre Partido Democrata e Partido Republicano. Donald Trump é uma coisa além disso, acima disso ou abaixo disso. E isso pode ter posto, eu acho que em parte de forma positiva, a União Europeia a pensar que tem de resolver as suas coisas por si, algumas das suas coisas por si, tem que tomar as suas próprias posições, mas isso depois coloca aqui um entrave a uma normalização da aliança e da cooperação. E este encontro foi muito o espelho disso. Nós tivemos ali uma chamada conjunta em que Boris Johnson foi aquela espécie de anfitrião divertido numa festa a distribuir piadas pelos vários líderes, a brincar com o microfone de Angela Merkel, a fazer uma piada com o slogan "Build Back Better", a dizer que achava que Joe Biden se tinha inspirado em alguém que tinha sido ele, mas que ele provavelmente também se tinha inspirado num programa das Nações Unidas. E, portanto, ele fez ali de um anfitrião divertido e depois no final, quando se espreme tudo aquilo, sai muito pouco, sobretudo do entusiasmo dos aliados perante esta promessa de Joe Biden de facto a América estar de volta, a aliança transatlântica estar de volta, uma nova forma ou a velha forma de fazer política nos Estados Unidos também estava de volta. E eu acho que esse pode ser um dos problemas, porque, por exemplo, em relação à China, o que foi feito no passado, antes do Donald Trump, que funcionou com a China? E sobretudo esta ideia de que o problema já não é único, unidimensional. O problema tem agora muitas dimensões e não é o problema, é a questão, o desafio, como lhe chamou Joe Biden, e para um problema diferente, para uma questão diferente, com novas dimensões, por que é que os aliados vão acreditar que voltar à América muda alguma coisa, resolve alguma coisa, quando a questão é agora multidimensional e, portanto, não estamos só a falar de uma coisa? E eu acho que esse é um dos grandes entraves, que é prévio até ao segundo passo. João Diego, tu dizias, Biden foi dizer isto e este é o primeiro passo. Ele tinha que dar este primeiro passo. Qual é o segundo?
O segundo é de facto convencer as pessoas.
E como é que ele faz isso?
Os líderes europeus. Primeiro, eu acho que é preciso esperar pelas eleições alemãs. Eu acho que isso é mesmo muito importante, porque estar a falar enquanto há, quase de certeza, uma troca de governo daqui a uns meses, é sempre muito difícil, porque não se sabe o que vai sair e sabemos nós que quem lidera a Alemanha e a correlação de forças que governa a Alemanha é decisiva para o futuro da União Europeia. Aliás, viu-se isso no acordo com a China, que é muito inspirado pela Alemanha. Mas eu diria até que o problema aqui, e sobretudo o problema do ponto de vista americano, não é a União Europeia, e não é a União Europeia que está no topo das prioridades. A União Europeia é um aliado e desempenha aqui um papel talvez instrumental de contagem de espingardas, até económicas. Mas não é seguramente a prioridade de Joe Biden, nem sequer a prioridade na política externa. Eu acho que as relações com a China, a forma de conter a China, e é preciso lembrar que é uma guerra comercial a decorrer e que pode nem sequer acabar. E eu acho que isso é importante para perceber, e sobretudo na Europa, nós estamos claramente a julgar-nos maiores do que somos neste momento. Estamos a achar que somos a rapariga mais bonita da cidade à espera de um par para dançar. E eu não sei se é assim. Eu não sei mesmo se é assim. Aliás, e se virmos isso, a propósito de Boris Johnson, só para acabar, Boris Johnson foi no G7 claramente o líder que mais se aproximou de Joe Biden. As suas palavras foram completamente elogiosas, foram até muito semelhantes, foram uma cópia do discurso de Biden.
É que Boris Johnson já saiu com a rapariga e percebeu que não era com ela que queria dançar.
Sim, Boris Johnson é aliás um grande dançarino e mestre de vários estilos, como se provou e vai provar-se ao longo dos próximos tempos. E isso é importante perceber se o Reino Unido se juntar à América de uma forma que parece hoje imparável, porque está disposto a juntar-se a qualquer tipo de América que surja, seja ela a América de Donald Trump, seja ela a América de Joe Biden. Isso é muito importante até para a posição da- Exatamente. Uma valsa, um samba, não sei. Mas isso é importante porque também acaba por empurrar a Europa para lá, porque fica sem grandes escolhas e fica um bocadinho isolada se confiar na China.
Sim, eu acho que também devemos olhar aqui um pouco para alguns assuntos em particular. Eu acho que há bons sinais, por exemplo, na questão do processo com o Irão. Na quinta-feira, após uma reunião dos ministros dos Negócios Estrangeiros do chamado E3, que reúne o Reino Unido, a França e a Alemanha, e em que a administração Biden também estava presente, os americanos disseram que iriam aceitar o convite da UE para reiniciar as negociações para reentrar no acordo nuclear. Portanto, obviamente que há aqui a grande retórica e depois há alguns sinais negativos, outros sinais positivos. Eu diria que este sinal, em particular, na cooperação em relação ao acordo nuclear iraniano, vamos agora um pouco também falar do Acordo de Paris, há sinais positivos de que esta relação, apesar de ainda não ter, de facto, chegado a um romance consumado, tem alguns sinais de desenvolvimento, digamos assim.
Pelo menos já seguiu a primeira carta de amor. Vamos muito rapidamente olhar também para o Acordo de Paris. Temos aqui, creio eu, um ou dois minutos para falar sobre ele. Também continuamos ainda no domínio das intenções?
E sobretudo de reconstruir alianças. A posição dos Estados Unidos é bastante humilde nesta questão. Primeiro, é uma promessa de campanha de Biden e uma promessa, aliás, dos democratas, logo que Trump saiu do acordo no primeiro dia da sua presidência. Mas entretanto o mundo mudou e eu acho que o Acordo de Paris já não é a plataforma que mais conta. Primeiro porque as partes estão, ao que parece, a incumprir as metas.
E porque aquelas metas já não estão certas.
Exatamente, e porque os ambientalistas dizem que nem essas metas chegam. E, portanto, o que me parece que significa hoje voltar ao Acordo de Paris é, aliás, essa intenção de dizer: "Estamos de volta, queremos reconstruir a nossa posição, posição que perdemos nos últimos quatro anos." E aí eu diria que é a grande diferença de política externa, porque ainda não conseguimos ver outra. Mas sobre a questão verde, mais do que o Acordo de Paris, e voltando um bocadinho ao Texas, há o debate sobre as renováveis, porque se é verdade que os republicanos acharam que os painéis solares e as eólicas foram as culpadas pelo que aconteceu no Texas, não deixa de ser verdade também que para atingir todas estas metas, não só inspiradas pelo Acordo de Paris, mas também as autoimpostas, vai ser preciso, muito provavelmente, um grande investimento na rede energética, que a vai mudar completamente e de forma estrutural, que vai, aliás, mudar a forma como a energia é distribuída na América. Isso vai ser caro, vai ser uma mudança profunda e vamos ver que tipo de apoio é que isso pode ter. E aliás, parece-me que conta mais para a América, novamente, do que um acordo internacional.
Vai ser caro e muitíssimo demorado.
Como está a ser na Alemanha ou na China, por exemplo, que têm investido imenso nessas redes de energia limpa e têm tido, primeiro, obras que não correm exatamente como o esperado, porque é tecnologia relativamente nova, e depois, obras que são caríssimas. É previsível que Joe Biden, a certa altura, possa apresentar um plano de infraestruturas. Certamente vai passar pela questão da rede elétrica, mas como nos ensinou o Texas, esta questão não está de todo resolvida e vai ser alvo de grande debate, porque se aconteceu no Texas, em que é muito debatível se foi realmente a energia renovável a provocar todos aqueles apagões, e a maioria dos especialistas diz que não foi, que houve problemas muito maiores vindos de fontes não renováveis, de centrais termoelétricas. Eu acho que essa vai ser uma grande discussão e provavelmente a discussão mais importante em termos de emissões.
E de política interna americana, vai ser altamente divisiva. Aqui há uma coisa que mudou muito, de facto, no contexto internacional, a China, em termos de política verde, não vai ser preciso convencer a China de grande coisa. A China está autoconvencida e é uma líder, digamos, nas tecnologias verdes, sejam as baterias, sejam as renováveis, etc. A grande fricção China-Estados Unidos, que fez com que as instituições internacionais ligadas ao clima tivessem tido aquele desenvolvimento parco que nós sabemos, não é a mesma fricção que existe hoje em dia, uma vez que a China está muito mais empenhada e liderante nesse aspecto.
Ainda que também caiba aos Estados Unidos dar o exemplo também para a China, que continua a ser, como sabemos, o principal emissor e que continua a ter dar ainda passos mais relevantes nessa matéria. Termina aqui o Café América desta semana. Nós voltamos, como sempre, na próxima semana. Volte conosco. Até lá.