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Cassete 60.
Ontem falamos de dois ministros de governos PSD que saíram antes do tempo. Hoje recordamos dois casos de executivos socialistas. Nesta leva de Cassete em modo especial, vamos recordar histórias antigas, até porque quando se fala de saídas ministeriais, a política nacional tem disso com fartura. Vamos passar em revista vários casos de anos diferentes. De forma prematura, os titulares de diversas pastas acabaram por abandonar os seus respectivos ministérios. Umas vezes foram empurrados, outras vítimas de desaires e outras tantas estavam envoltos em polémicas.
Já sabemos que o Cassete 60 tem um bom formato para ser uma espécie de baú de episódios antigos e o baú da política nacional tem muitos. E hoje recuamos quantos anos, Judite?
Pouco mais de duas décadas para falar dos casos dos antigos ministros Veiga Simão e Fernando Gomes, ambos ministros em cada um dos dois governos do então primeiro-ministro António Guterres.
Se bem me lembro, Veiga Simão era independente, esteve no primeiro Executivo do agora secretário-geral das Nações Unidas e demitiu-se em 1999, ainda antes do término, já por si precoce, do governo. Portanto, esteve no cargo apenas dois anos.
É.
É verdade.
E Fernando Gomes, se ainda recorda esse episódio, quando andava no liceu, passou pelo segundo governo de António Guterres como ministro-adjunto e ministro da Administração Interna e acabou por sair também antes do Executivo chegar ao fim.
Muito bem, boa memória. Não chegou a um ano. De facto, começou no governo em outubro de 1999, deixando a Câmara do Porto ao seu vice-presidente e em setembro de 2000 estava de malas feitas para regressar à Invicta. Dias antes, deu uma entrevista à RTP, na qual Judite Sousa apresentava-o assim.
Boa noite. Primeiro foi a revolta dos polícias, depois surgiram os assaltos na área metropolitana de Lisboa. Com as temperaturas elevadas em época de verão, deflagraram os incêndios. Pelo meio, os partidos da oposição, principalmente PSD e PP, pediram e pedem a demissão do ministro, que é responsável por todas estas áreas. Fernando Gomes é o homem de quem mais se tem falado nos últimos meses.
Está bom de ver que Gomes estava sob enorme pressão. Os jornais falavam em erros, gafes, mas também teve pouca sorte. E teve pouca sorte, reparem, dois meses antes desta entrevista, o carro oficial do ministro tinha sido assaltado num bairro do Porto, enquanto o titular da pasta fazia uma visita à esquadra local. Portanto, um larápio engenhoso conseguiu roubar o que estava na mala do carro, que estava parado mesmo à frente da esquadra.
Ainda houve uma polémica, se bem me lembro, sobre os touros de Barrancos e a saída de um secretário de Estado das Finanças, que pôs Fernando Gomes em xeque enquanto ministro-adjunto.
Assim foi, mas a jornalista Judite Sousa, naquela entrevista, 15 dias antes da demissão, ainda garantia que estava para ficar.
O primeiro-ministro tomou uma posição clara, inequívoca.
E o senhor ministro Fernando Gomes sente-se-
Portanto, nesse aspeto, sinto-me perfeitamente à vontade.
E sente-se seguro. Sente-se seguro no governo?
Absolutamente seguro.
Sente que tem a confiança plena do primeiro-ministro.
Absolutamente.
Já me esquecia de juntar aqui ainda a polémica em relação aos touros de morte em Barrancos. No fundo, era tudo a acrescentar.
Fernando Gomes tinha um grande peso no Partido Socialista, mas mesmo assim foi exonerado e substituído por Nuno Severiano Teixeira, no Ministério da Administração Interna, e António José Seguro como ministro-adjunto.
Um caso em que somos nós e as nossas circunstâncias. Judite, vamos agora ao caso de Veiga Simão?
Vamos a isso. O episódio que levou o ministro da Defesa Nacional a demitir-se do primeiro governo de Guterres em 99 não é muito complexo, mas Veiga Simão também não teve sorte com os casos que foi acumulando nos dois anos que esteve à frente da pasta. Atenção, não lhe faltava arte política, a Fernando Gomes também não, nem conhecimento acadêmico, nem técnico. Tinha sido ministro da Educação antes do 25 de Abril, responsável por uma revolução no setor. Esteve na fundação de universidades, como a Nova de Lisboa ou a do Minho. Desde abrir a Faculdade de Maputo, no tempo de Marcelo Caetano, até embaixador às Nações Unidas 30 anos depois, Veiga Simão pontuou a sua vida acadêmica com experiências políticas. Não era para menos. Aos 31 anos, já era doutorado em Física Nuclear pela-
Não é para todos.
Não é para todos. Pela Universidade de Cambridge, depois de se ter formado em Coimbra e, lá está, rapidamente chamou a atenção do poder político, antes e depois da revolução, que não é muito comum fazer esta transição. Bom, isto para dizer que arcabouço político não lhe faltava.
Mas então, o que é que aconteceu? Que episódio é que levou a que Veiga Simão apresentasse a demissão?
Foi só um dos maiores escândalos da política nacional, que afetou indelevelmente os serviços de informação como estavam arquitetados, formados, estruturados à altura. Os agentes das ditas secretas acabaram nas bocas do mundo depois de, no meio de documentos enviados a uma comissão parlamentar de inquérito, enfim, que tinha a ver com este tema, mas não só, o gabinete do ministro enviou também uma lista detalhada dos nomes dos agentes, local onde estavam destacados, a área de especialidade, quanto ganhavam, tudo.
Demasiada informação para um serviço secreto. Imagino que depois disso fosse impossível continuar e que o Presidente da República tenha aceitado a demissão.
À época era Jorge Sampaio e foi muito claro na declaração que fez à Antena 1.
O senhor primeiro-ministro trouxe uma proposta de exoneração, a seu pedido, do senhor ministro Veiga Simão. Eu aceitei, naturalmente, essa proposta e nomeei, na sequência de outra proposta, o senhor ministro Jaime Gama como ministro da Defesa.
Ficou Jaime Gama com a Defesa, que acumulou com os Negócios Estrangeiros, mas Sampaio aproveitou para lançar, na altura, um alerta para que se repensasse a organização dos serviços de informação, porque aquele episódio provou que havia fragilidades a corrigir.
A credibilidade externa não está afetada. Agora, acho é que todos nós devemos meditar sobre a forma como se pode fazer o controle democrático dos chamados serviços secretos, que são necessários a qualquer democracia. Essa questão está em aberto na sociedade portuguesa há muito tempo.
E esse trabalho acabou por ser feito com a divisão dos serviços de informação e outras reformas. Portanto, foi uma demissão que acabou em alterações importantes nos serviços secretos.
Amanhã voltamos com mais um par de ministros com curta esperança de vida.
Claramente. Para amanhã vamos ter um governante do Partido Socialista e outro do PSD. Bom, e mais não digo, têm que ouvir.
Vamos ouvir, com certeza. É para ouvir amanhã mais um Cassete 60 especial depois das notícias das 17h05.
Cassete 60