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Cassete 60.
No início de mês de junho de 1980, 15 pescadores de Matosinhos foram capturados na costa do Sara. A Frente Polisário fez reféns os tripulantes do barco Rio Vouga e levaram-nos para terra, para uma base no interior do deserto.
Os assaltantes queriam, sobretudo, publicidade midiática sobre a recém-criada República Árabe Sarauí Democrática. Portugal era assim pressionado a declarar apoio à independência do povo Sarauí e ao reconhecimento da Frente Polisário, e por consequência, à condenação de Marrocos, que o movimento revolucionário dizia estar a ocupar militarmente o país.
A primeira notícia é só de dia 10 de junho. O Jornal de Notícias dedicou muita atenção ao tema. No início, o diário dá conta de um atuneiro que encalhou no Cabo Branco. Dois dias depois, a 12 de junho, a notícia é clara e na primeira página lê-se: "15 pescadores portugueses reféns da Frente Polisário".
O JN traz detalhes sobre o barco, o Rio Vouga, uma embarcação de 75 toneladas, propriedade da empresa Maricupe, e informações sobre o caso em si. Conta que os responsáveis da empresa foram recebidos pelo secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros e que o governo contactou as autoridades marroquinas.
Um outro barco, o arrastão Menina de Vila do Conde, avistou o Rio Vouga e subiu a bordo. Não havia indícios de luta nem de saque, só as cédulas da tripulação. O mesmo já tinha acontecido a um barco espanhol, o Garmo Mar, também com 15 tripulantes, e a Rádio Nacional de Espanha revelou que estes assaltos estão relacionados com os acordos de pescas que Portugal e Espanha estão a negociar com Marrocos e a Mauritânia. Acordos que autorizam a pesca nas águas da Frente Polisário.
O jornal dá claro maior destaque ao fato de os homens estarem em parte incerta. A primeira reação do governo é declarar apoio a Marrocos, anunciar que os aviões das Forças Aéreas marroquinas já sobrevoavam a área e que esperavam que fossem as autoridades locais resolver a situação.
Nos dias seguintes, há comunicados do Ministério da Informação da República Árabe do Sarauí. Os avisos são para quem atente contra a soberania nacional e desenvolvem ações que possam violar as leis do país.
Entretanto, o embaixador de Portugal em Argel garante que os pescadores estão num lugar seguro, mas que estão no deserto, vestidos com trajes árabes, a 15 horas do mar, com 40 graus à sombra. A informação é sempre a de que há negociações para a libertação, mas o governo continua a não reconhecer a Frente Polisário como Estado.
Apenas 17 dias após o sequestro, o jornal envia uma equipa a Matosinhos e publica imagens das mulheres, mães e filhos, que vivem o drama e a ansiedade da incerteza. Há também imagens dos pescadores sequestrados.
Depois há notícias contraditórias. Primeiro de que os pescadores serão libertados a curto prazo, que as autoridades da República Árabe Sarauí não colocam condições à libertação e que há abertura de negociações diretas com o governo português.
Mas vão 20 dias de sequestro e de frustração. Primeiro foi noticiado que os pescadores tinham sido levados para Argel, só que isso não correspondia à verdade. É a Associated Press, a Agência Associated Press, que revela que estão ainda no deserto e que jogam às cartas para passar o tempo.
Entretanto, a primeira mensagem dos pescadores, e cito: "Vejam lá se o governo nos tira daqui, senão ficamos secos". Seguem-se notícias sobre a pressão das famílias dos pescadores e reações do primeiro-ministro, Sá Carneiro, confrontado à chegada de Paris, que divulgou haver um enviado para negociar em nome do governo.
Dias depois, em plena campanha eleitoral, o primeiro-ministro é rodeado pelas mulheres dos pescadores, que dizem que não querem subsídios, mas querem os homens de volta. Ramalho Eanes era o presidente da República à altura, dizia-se disposto a uma declaração favorável à Frente Polisário e tinha até um avião preparado para ir buscar os reféns, caso fosse preciso.
Mas as notícias continuam e não são boas. A Frente Polisário não aceitou negociar com o enviado do governo, Luís Fontoura, o tal que tinha levado credenciais para lidar com o movimento.
As condições não mudavam. Ou o governo reconhecia a República Árabe Sarauí ou os pescadores não seriam libertados. E é nessa altura que entra em campo o embaixador dos Estados Unidos, que vai à ONU tentar uma via diplomática comum.
Há várias notícias que dão quase como certo que os pescadores estarão amanhã no Porto, prestes a chegar a Matosinhos, que serão libertados amanhã e até que já estavam a caminho de casa.
A verdade é que só 51 dias depois de serem sequestrados, um avião militar de facto trouxe os 15 pescadores e o Jornal de Notícias publicava um comunicado final das conversações entre o enviado Luís Fontoura e o ministro dos Negócios Estrangeiros da República Sarauí, Omar Mansour.
Dizia o comunicado que nos dias 20 e 21 de julho de 1980, tiveram lugar, nas zonas libertadas da República Árabe Sarauí Democrática, negociações entre o senhor Luís Fontoura, representante e enviado especial do governo, e o senhor Omar Mansour, membro do Bureau Político da Frente Polisário e representante do governo Sarauí. Depois de ter sido examinada a situação que prevalece no noroeste africano, a parte portuguesa exprimiu inquietação perante a situação perigosa decorrente da persistência da ocupação militar nos territórios da República Árabe, e a parte portuguesa, à luz dos princípios da Carta da ONU e da Resolução 1514 de 14 de dezembro, relativa à descolonização, exprime o apoio ao direito do povo saaraui, à autodeterminação, à independência, à soberania, etc. E no final, concluem que as duas partes exprimem a necessidade de abertura de negociações entre os governos marroquino e saaraui, em conformidade com as resoluções da ONU, para chegar a uma conclusão justa e duradoura para esta questão. O documento é assinado por Fontoura, por parte do governo português, e Mansur, pelo governo saaraui.
O fim do cativeiro para os pescadores obrigou o governo a reconhecer a Frente Polisário. Mas quando as reivindicações da Frente foram satisfeitas e as condições foram aceites pelos árabes, Lisboa esqueceu o acordo.
Isto porque não tardou a que Marrocos pedisse explicações ao governo português. O Ministério dos Negócios Estrangeiros emitiu imediatamente uma nota a dizer: "Portugal não reconhece a existência da República Saaruí". A explicação é simples: uma posição favorável à Frente Polisário seria considerada um ato hostil de Portugal contra Marrocos e, portanto, disse o governo nacional, numa nota enviada à comunicação social, que o comunicado conjunto assinado com vista à libertação dos pescadores excedeu a orientação de Portugal. E foi publicado um outro comunicado, bem diferente, em que o governo português não reconhece a existência da República Saaruí.
O PCP veio dizer que a política externa fica posta em causa e que o governo, ao rasgar os compromissos, mancha a imagem de Portugal.
Mas os jornais estavam mais ocupados com a libertação dos reféns. A manchete do Jornal de Notícias de 26 de julho transcreve um dos pescadores, que dizia que não aguentariam muito mais tempo naquelas condições. "O deserto foi um inferno", era outra das frases na primeira página, que trazia uma fotografia de um pai abraçado ao filho pequeno, que reencontrava quase dois meses depois do sequestro.
É um caso que remonta a 1980.
Nem não conhecia, de todo.
Muito bem. Neste dia 13 de junho, mas de 1966, esta era a música que ocupava o lugar número um do top de singles no Reino Unido. Queres cantar, Judite?
Não.
"Strangers in the night".
"The Voice", Frank Sinatra, com este "Strangers in the Night". Foi o que aconteceu ontem à noite em Lisboa, não é? Muitos strangers in the night. Foram à Festa de Santo António?
É pá, não.
Não. Bruno Giann Amaral?
Não, acho que isso é para lisboetas e turistas. Eu não faço parte nenhuma das categorias.
Autoexcluíste dessas categorias. Muito bem. No dia 13 de junho de 1995, o grunge estava a começar a perder influência e o rock produzido no outro lado do Atlântico estava a redefinir-se com o aparecimento de novos artistas e também novas bandas.
Como, por exemplo, Alanis Morissette, que lançou no dia 13 de junho o álbum "Jagged Little Pill".
"Jagged Little Pill" foi um estrondo em 1995. Vendeu 30 milhões de cópias. Fez com que Alanis Morissette se tornasse a primeira artista canadiana a colocar um disco no topo da tabela dos mais vendidos nos Estados Unidos.
Recuemos então em 1980, o ano com que abrimos este "Cassete 60". Nesse ano, estava nos cinemas o arrepiante "The Shining".
Que medo!
Estás com medo daquele miúdo a andar de triciclo? Não estás.
É mais as gêmeas.
É mais as gêmeas. Bom, a música, de facto, de abertura do filme é arrepiante.
É, não é?
Muito bem.
"Shining" com Jack Nicholson, que foi realizado por Stanley Kubrick e estreou em 1980.
O filme é baseado no romance homônimo de Stephen King, de 1977.
Quanto a prêmios, "The Shining" foi nomeado para dois Razzie Awards, os prêmios que pretendem distinguir filmes e atores pela negativa. Este filme recebeu nomeações, aliás, receberam nomeações Shelley Duvall, pior atriz, e Stanley Kubrick, pior realizador. Incrível, não é?
E por falar em realizador, em 1980 morre o mestre do suspense, sir Alfred Hitchcock, que, tal como Stanley Kubrick, nunca ganhou um Oscar de melhor realizador.
É verdade. Alfred Hitchcock morreu aos 80 anos, realizou mais de 50 filmes.
As películas de Hitchcock receberam 46 nomeações para os Oscars, conquistaram seis estatuetas douradas. Facto curioso, apesar de ter sido nomeado cinco vezes, como dizias, Bruno, Hitchcock nunca venceu na categoria de melhor realizador.
Olha, e vamos acabar este "Cassete 60" com música?
Vamos embora.
Bora lá.
Vamos embora. Então, em 1980, numa pequena igreja da cidade de Athens, no estado da Geórgia, nos Estados Unidos, atuava pela primeira vez, ao vivo, uma banda que me agrada bastante. Espero que gostem também, os R.E.M.
Gosto, sim senhor. É, no entanto, uma daquelas bandas que, para mim, não resistiu com o tempo e, portanto, hoje já não seria uma escolha.
Muito bem, apoiado. Concordo perfeitamente com você.
É verdade. Há bandas que não...
Mas envelheceram bem, não é? Souberam acabar.
Não, mentira.
Não, podem ter envelhecido bem. Não envelheceram bem no meu gosto.
Muito bem.
Nesse concerto, os R.E.M. tocaram vários originais e êxitos dos anos 60 e 70.
O nome R.E.M. significa Rapid Eye Movement, a fase do sono em que o ser humano está a sonhar e, portanto, mexe muito os olhos. Foi um nome escolhido ao calhas no dicionário, depois de a banda ter considerado outros nomes como, atenção, Cans of Peace, Negro Eyes e Twisted Kite.
Bom, ainda bem que optaram por R.E.M. Bom, então podemos fechar com "Losing My Religion", João?
Vamos embora. Claro que sim. Boa escolha, Judite. É a música mais escutada dos R.E.M. no Spotify, mais de 800 milhões de vezes. Os R.E.M. com este "Losing My Religion" a fechar a edição de hoje do K760.