1 Os Democratic Socialists of America

Regressemos a Alexandria Ocasio-Cortez. Na mesma entrevista em que desvaloriza o wokismo como tendo sido uma maluquice, AOC deixa no ar a hipótese de concorrer à Presidência norte-americana. Mas por que razão uma figura tão pouco presidenciável (basta revê-la aqui ou aqui) é considerada uma candidata democrata viável? A resposta relaciona-se com os Democratic Socialists of America (daqui em diante, DSA), uma fação do partido democrata que tem registado um crescimento exponencial nos últimos anos.

A DSA resultou da fusão, em 1982, de dois grupos criados no contexto revolucionário da década de 1970: o Democratic Socialist Organizing Committee (DSOC) e o New American Movement (NAM). O primeiro grupo vinha de uma dissidência da “Old Left” (o velho partido socialista de Debs) e representava uma longa tradição de sindicalismo; o segundo resultava diretamente da SDS (Students for a Democratic Society) e representava, por isso, a “New Left”, com uma agenda que ia dos direitos reprodutivos à reconceptualização das relações entre raça, género e classe.

A DSA combina, assim, as preocupações económicas e laborais da Old Left com as questões identitárias da New Left, mas não deve confundir-se com aquilo que, na Europa, chamamos social-democracia: a sua plataforma é explicitamente anticapitalista e as suas medidas visam, a longo prazo, construir uma sociedade verdadeiramente socialista (comunista, diríamos por cá).

Atendendo à história dos Estados Unidos, este podia parecer um projeto despropositado, mas a verdade é que a DSA, depois de ter praticamente mantido os 6 mil membros iniciais ao longo de três décadas, obteve um crescimento explosivo na última década: a 4 de julho deste ano comunicou ter ultrapassado os 120.000 membros, o que a tornou a maior organização socialista da história norte-americana.

2 De Bernie Sanders a Zohran Mamdani

Um momento importante para o crescimento desta organização foi a crise económica de 2007/8 e o subsequente movimento Occupy, que permitiram aos socialistas democráticos posicionarem-se contra as políticas, adotadas pelo Presidente Barack Obama, de resgatar o setor bancário e financeiro. O contraste com Obama tem ajudado, aliás, a clarificar a identidade da DSA: embora o ex-Presidente tenha sido sempre acusado pelos republicanos de ser “socialista” (o que impulsionou o Movimento Tea Party), as suas políticas nunca tiveram o apoio da DSA:

2011 Democratic Socialists of America convention
Fonte: www.dsausa.org

Mas o que conduziu ao seu crescimento explosivo na última década foi a candidatura de Bernie Sanders, em 2016. Embora Sanders não seja um membro efetivo da DSA, os socialistas envolveram-se ativamente na sua campanha e têm-se comprometido, desde então, a promover a “revolução política” do candidato de acordo com uma ideia que parece cada vez mais popular nos Estados Unidos:

“O capitalismo é um sistema concebido pela classe proprietária para explorar o resto da população em benefício próprio. Temos de o substituir pelo socialismo democrático, um sistema em que as pessoas comuns têm uma voz efetiva nos nossos locais de trabalho, nos bairros e na sociedade.” (www.dsausa.org)

Foi em resultado desta crescente popularidade que Alexandria Ocasio-Cortez e Rashida Tlaib asseguraram, nas eleições intercalares de 2018, os primeiros lugares da DSA na Câmara dos Representantes. Os seus membros continuaram a crescer até ao pico woke de 2021 e, após um período de abrandamento durante o mandato de Biden, aumentaram novamente com a vitória de Donald Trump e a eleição de Zohran Mamdani como mayor de Nova Iorque.

O ano de 2026 adivinhava-se, assim, de grande importância e a DSA apostou muito nas eleições intercalares de novembro. Para já, o balanço é positivo: das 191 candidaturas nacionais apoiadas pela DAS até ao momento, 66 já garantiram vitória, algumas de grande importância como Angie Nixon ou Claire Valdez.  (Apesar de aparecer muitas vezes associado à DSA e de ser apoiado por membros da organização, o vencedor das primárias no Michigan, o polémico Abdul El-Sayed, não é um membro da DSA.)

São, contudo, vitórias que têm sido recebidas com amargura dentro do partido democrata.

3 A plataforma política

Como acontece, por regra, no sistema norte-americano, a DSA não tem um líder (nem sequer é um partido). O seu órgão mais importante é o Comité Político Nacional, que foi eleito na convenção de Chicago para o biénio 2025-2027, com um comité de membros escolhido para redigir o programa político para este período: “Workers deserve more!”. O tipo de letra e o recurso a desenhos denunciam, desde logo, o público-alvo (lá iremos) e as mensagens centrais revelam a dupla vertente que identificamos inicialmente, resultado da combinação entre Old Left e New Left.

Por um lado, temos os aspetos económicos e sociais que associamos a uma organização socialista, como a redução da carga horária semanal, serviços universais de saúde e habitação para todos – mas também as seguintes medidas:

“estabelecer a propriedade pública das maiores empresas e dos setores essenciais a fim de garantir o controlo democrático e a prestação pública de contas; e aprovar impostos agressivos sobre as pessoas e as empresas mais ricas para financiar bens públicos e infraestruturas.”

Por outro lado, encontramos as propostas habituais da agenda identitária, como acabar com o legado da escravatura e do colonialismo, promover a libertação queer e parar com a violência “de género”, incluindo as restrições patriarcais [sic] ao aborto – mas também:

“desmilitarizar os corpos policiais, retirar poder aos sindicatos da polícia e redirecionar o financiamento para os serviços públicos como passos no sentido da abolição total da polícia e do sistema prisional, que protege os ricos e prende os pobres.” (itálico meu)

Afinal, ideias woke como o “defunding the police” não foram apenas uma maluquice passageira. Pelo contrário, o programa torna-se ainda mais radical:

“Retirar o financiamento ao Departamento da Guerra, pôr fim a todas as guerras no estrangeiro e encerrar as bases militares no estrangeiro.”

E, mais à frente:

“Acabar com as detenções e deportações do ICE e punir a brutalidade dos agentes federais, bem como legalizar a migração, conceder amnistia a todos os imigrantes independentemente do seu estatuto, proporcionar um caminho para a cidadania a todos os residentes permanentes e acabar com os limites e quotas de vistos.”

Todas estas medidas já significariam uma alteração profunda da estrutura social norte-americana, mas a transformação política seria ainda maior:

“Abolir o Colégio Eleitoral; substituir o Presidente e o Supremo Tribunal por um poder executivo e um poder judicial escolhidos pelo Congresso e subordinados a este; e abolir o Senado.”

Pode parecer “fake news”, mas não é: em entrevista à Fox News, uma das dirigentes e porta-voz da DSA, Megan Romer, reconhece todas estas medidas num vídeo que, naturalmente, se tornou viral.

Em resultado de um programa político tão radical, muitos membros do partido democrata têm defendido que o partido se deve afastar da DSA, temendo que as vitórias destes candidatos nas primárias acabem por significar perdas eleitorais nas eleições intercalares, quando o clima parecia propício a uma vitória democrata.

Mas quem são os norte-americanos que estão a apoiar o crescimento da DSA? Regressaremos a essa questão na próxima semana.