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Cassete 60.
Please welcome Jamie Salé and David Pelletier. Estamos a ouvir "Come With Me" de Norah Jones, enquanto Jamie Salé e David Pelletier deslizam pelo gelo. Estamos em 2002, nos Jogos Olímpicos de Inverno, em Salt Lake City, e vamos regressar ao maior escândalo da patinagem artística, quando o par canadiano recebeu apenas a prata, enquanto os russos conquistaram o ouro. Depois de um esquema sem falhas, que foi aplaudido de pé no pavilhão, considerado unânime como candidato ao ouro pelos comentadores de patinagem em todas as cadeias de televisão. Nessa mesma noite, surgiram os primeiros rumores de uma juíza ter sido pressionada a colocar em primeiro lugar Elena Berezhnaya e Anton, sou incapaz de dizer este nome em russo, mas vou tentar, Sikharulidze. Não sei se está mal. Jamie e David ficaram-se pelo segundo lugar, mesmo depois de uma exibição que foi considerada a melhor da prova, até porque os russos cometeram um pequeno erro técnico, mas óbvio e indisfarçável.
Jamie e David optaram pelo programa que já lhes tinha valido um Grand Prix final antes dos Jogos. O exercício foi imaculado, se assim lhe pudermos chamar. O par canadiano recebeu boas notas técnicas, superiores às notas dadas aos russos, mas na categoria de apresentação tiveram uma classificação pior. Esta avaliação acabou por pesar mais do que o mérito técnico e por isso os russos ganharam o ouro, enquanto a equipa canadiana se ficou apenas pela prata.
Foram dias de notícias nos jornais e o caso chegou a ser investigado pelo FBI, depois de uma juíza francesa ter admitido que escolheu o par russo porque foi obrigada. A votação foi considerada até como um regresso aos tempos da Guerra Fria. De um lado, os países aliados, do outro, os do Bloco de Leste, outrora sob a esfera de influência da União Soviética.
E como tal, o mundo seguiu o caso de perto. O par canadiano foi adotado pelos americanos, foram apoiados nos jornais, revistas e também nas televisões, desde a capa da Time e da Newsweek ao Tonight Show de Jay Leno. Jamie e David deram dezenas de entrevistas e em poucos dias, tudo isto. Ao longo dos dias, o caso foi ganhando proporções inimagináveis. A juíza francesa atribuiu a culpa do erro ao presidente da Federação de Patinagem. Logo no dia depois da atribuição dessas medalhas, os jornais traziam rumores de que a nota atribuída por Charlotte tinha sido combinada com o Bloco Soviético, na altura constituído pela China, Rússia, Índia e Ucrânia, e os franceses foram fundamentais para o desempate do 4-4.
"Nós sentimos que a justiça foi servida e nós dizíamos: não, estamos bem. Nós até nos ríamos sobre isto. Depois soubemos da questão da juíza francesa, que tinha sido pressionada a votar ao lado dos russos. Exatamente porque na patinagem de dança não havia nenhum juiz francês no painel e portanto fizeram troca por troca. Os russos votavam no painel de patinagem de dança e a francesa votava contra nós. Eu perguntei por que os outros quatro juízes também não foram confrontados, mas depois percebi que estavam todos a trabalhar em conjunto. Sabe de uma coisa? Eu sei que não é o desporto perfeito, mas eu gosto muito de patinagem. E eu adoro praticar. Foi muito bom pra nós. Ganhamos muita publicidade e acabamos por representar muitas marcas. É muito diferente ser canadiano ou americano. Quando se é um atleta olímpico canadiano não se ganha muito dinheiro, mas os americanos sim." Quando os pares fizeram as respetivas provas, freestyle e dynamic, os jornalistas acharam logo tudo muito suspeito. E no Good Morning America, da ABC, e no USA Today, os jurados da Rússia, China, Polónia, Ucrânia e a França, que tinha colocado os russos primeiros, enquanto os Estados Unidos, Canadá, Alemanha e Japão escolheram os canadianos. A juíza francesa Marie-Reine Le Gougne rapidamente atraiu suspeitas. Quando Le Gougne voltou ao hotel onde estava instalada a comitiva dos jurados, Sally Stamford, presidente do Comitê Internacional de Skating, confrontou-a. Le Gougne teve aquilo que se pode ler como um meltdown, um breakdown, e alegou que foi pressionada pela Organização Francesa de Patinagem, presidida por Didier Gailhaguet. Didier, que era considerado uma espécie de uma eminência parda no meio do Da patinagem, do setor com grande poder, e que ela foi pressionada por ele para votar pelo par russo, independentemente da sua exibição.
E ela contou esta história repetidamente no dia seguinte, em que os juízes dos Jogos Olímpicos estiveram reunidos por causa deste caso. E nesse dia, os jornalistas de todos os órgãos de comunicação social, e não só os que estavam a cobrir a patinagem, tinham equipes no hotel. O painel de jurados foi recebido à entrada para a sala como se tratassem de estrelas ou como os piores vilões.
Marie-Reine contou que foi pressionada a votar pelos russos para que Marina Anissina ganhasse na prova de patinagem, mas de dança, que seria nos dias seguintes. E que também é uma modalidade olímpica. Nessa prova, não estaria presente nenhum juiz francês que pudesse puxar pelo par. E, portanto, era troca por troca. Nos dias seguintes, numa declaração assinada, a juíza negou tudo e garantiu que considerava que o par russo era o mais forte.
A imprensa canadiana e a opinião pública estavam chocados com o resultado. Os americanos apoiaram Jamie e David. A NBC, em particular, continuou a investir na história e a suportar a causa dos canadianos, de que tinham sido injustiçados.
Em resposta ao Comitê Internacional de Patinagem, Ottavio Cinquanta anunciou uma conferência de imprensa depois da competição, dizendo que ia conduzir um inquérito interno, mas o tema não ficou dentro de portas no mundo da patinagem. O FBI pegou no caso e um dos agentes, especialista em máfia russa, acreditava que o plano tinha dedo dos russos e, em especial, de um mafioso. E não estava errado, porque um dia o Comitê Internacional de Patinagem recebeu uma chamada com esta informação direta: "Deixem cair a história ou vão sofrer as consequências. São os russos que têm o ouro".
E foi esta chamada que, na verdade, levantou todas as suspeitas e a 30 de abril de 2002, Marie-Reine e o presidente da Federação Francesa de Patinagem foram suspensos pelo Comitê Internacional durante três anos e também proibidos de estar presentes nos Jogos Olímpicos de 2006.
No dia 31 de julho, o mafioso do crime organizado russo Alimzan Tokhtakhounov foi preso pelas autoridades italianas em Veneza, com a acusação de que foi o cérebro por trás de todo o escândalo. Depois tentaram extraditá-lo para os Estados Unidos, mas sem sucesso, e em 2003 foi libertado.
Além da punição da juíza e do presidente da Federação, foram adotados outros procedimentos para avaliar os atletas. Os votos passaram a ser secretos para evitar que os jurados fizessem batota e alterassem o seu resultado, ficando dependentes do voto dos outros, para assim influenciarem o score final. Esta política de anonimato acabou nos Jogos Olímpicos de Sochi em 2014, mas a patinagem nunca mais recuperou deste escândalo.
E os juízes, aliás, de todas as ginásticas, foram sempre olhados de lado. A avaliação é subjetiva, claro, mas há normas e regras a cumprir. Uma queda assim vale menos X pontos, um erro naquele tipo de exercício que tem uma determinada dificuldade vale menos não sei quantos pontos, e aquele salto assim ou assado vale mais.
A verdade é que, no fim das contas, foi feita justiça, porque o Comitê Olímpico decidiu então atribuir o ouro a Jamie e David, os canadianos, mas manteve o ouro dos russos. E assim, pela primeira vez na história da patinagem e dos Jogos Olímpicos, houve dois ouros.
Isto para não desagradar aos russos. Era importante não desagradar aos russos.
Não, a questão também aqui era: quem podia dizer que os russos não tinham ganho? Os russos tinham quatro votos, os canadianos outros quatro, e foi a francesa que desempatou. A questão é "too close to call". Portanto, acharam por bem fazer esta-
Repartir o bem pelas aldeias.
Sim, no fundo, o mal ficou só do lado da juíza. Pela primeira vez, dizia, na história da patinagem e dos jogos, houve dois ouros, dois primeiros lugares, e os canadianos foram recebidos como heróis quando regressaram a casa.
"There's one thing though I have to say, the first day I skated with Jamie, I realized that talking was useless for number one, because she talks all the time, but number two, I didn't have to".
Nunca se deve ter ouvido tanto falar do Canadá como nesses dias de 2002. E o tema também nunca descolou da pele dos dois atletas. Ao fim de 20 anos, o assunto ainda é recordado na ginástica. O escândalo é conhecido por todos no meio da patinagem. Marie-Reine nunca fez mais nada no esporte, mas o presidente da Federação Internacional, que foi suspenso, voltou a ocupar lugares de destaque na patinagem artística. Eu diria que é estranho, porque quem alegadamente pressionou a juíza é que safou. Well, it's a man's world, né? E logo hoje, no Dia da Mulher.
Fica também essa nota, mulheres de França. Fica por aqui o K7 60.
K7 60.