Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Bem-vindos ao Ciência Pop. Como está, professor Carlos Filhais?

Olá, está bom.

Professor, hoje vamos regressar a um tema que já abordamos aqui, a energia nuclear. O ouvinte Vasco Pereira dirigiu-lhe uma pergunta por e-mail, que vou passar a ler: "Face às frequentes notícias sobre progressos na investigação da energia de fusão nuclear, acredita o professor Carlos Filhais sobre a viabilidade dessa forma de obtenção de energia e para quando? Gostaria de ouvir o professor descrever-nos as diferenças entre fusão e a fissão nucleares, fazendo o ponto da situação atual". Vamos a isso, professor?

Vamos.

Então vamos por partes.

É uma boa pergunta. Eu agradeço essas questões dos ouvintes, espero que venham mais.

Vamos então por partes. O que é isto da fusão nuclear e como se distingue da fissão nuclear?

Muito bem. Começamos pela fissão ou cisão nuclear. Trata-se de pegar em núcleos atômicos muito pesados e, arrebatando certas partículas que eles próprios têm, que são os neutrões, fazer com que eles se partam. Ora bem, o que acontece é que há uma libertação de energia nesse processo. O urânio é um bom exemplo desse processo, parte-se o urânio e liberta-se energia. É este processo que acontece nas centrais nucleares que hoje estão a funcionar. Por outro lado, a fusão nuclear também tem a ver com núcleos atômicos, por isso é que se diz nuclear, mas é completamente distinta, no sentido em que pegam-se não nos núcleos mais pesados, o urânio é dos núcleos mais pesados, mas nos núcleos mais leves. O mais leve é o hidrogênio, a seguir é o hélio. E há modalidades de hidrogênio mais pesadas. E o que acontece é, juntar os mais pequenos para fazer um núcleo maior, também liberta energia. É o processo inverso, mas também liberta energia. Portanto, juntar os pequenos liberta energia e partir os grandes liberta energia. O que significa que, no meio, os núcleos mais estáveis são os de ferro. Esse processo é o que ocorre no Sol. O Sol é uma central nuclear de fusão. Toda a nossa vida aqui na Terra, todos os seres vivos, incluindo a espécie humana, vivem por causa da energia que vem do Sol, e isso é um reator nuclear natural a funcionar. E o nosso sonho será imitar aqui na Terra, fazer aqui um reator nuclear de fusão. E há muitas tentativas, muita investigação feita nessa área.

Onde, professor? Onde e como é que está a ser tentado este aproveitamento dos átomos através do método da fusão?

Há uma notícia recente, que correu o mundo, de uma experiência que pela primeira vez alavancou um recorde de energia durante cinco segundos, numa instalação que é internacional, o Joint European Torus, JET, mas que fica na Inglaterra, na região de Oxford. Em que consiste essa instalação? É uma câmara, tem o nome técnico de tokamak, mas não interessa o nome. O que interessa é que se põe lá matéria sujeita a grandes campos magnéticos. Esses campos magnéticos são de tal modo intensos que fazem com que essa matéria se comprima, que fique muito apertadinha, muito junta, e a matéria que lá está são átomos leves, portanto, são hidrogênio ou as tais modalidades mais pesadas de hidrogênio, que é o deutério e o trítio. Eles têm lá uma mistura de deutério e trítio. Aquilo muito apertado perde os eletrões, os núcleos fazem o que nós chamamos um plasma, algo que é extremamente desorganizado, núcleos e eletrões. E o que se tenta fazer é que os núcleos atômicos fiquem muito perto uns dos outros. Se ficarem muito perto uns dos outros, eles conseguem vencer a repulsão das cargas elétricas, porque os núcleos têm carga elétrica, e ganham as forças nucleares, o jogo contra as forças elétricas, e as forças nucleares são atrativas e os núcleos juntam-se e libertam essa energia. Conseguiu-se fazer isso com uma energia tremenda, de algum modo imitando aquilo que o Sol faz, durante apenas cinco segundos. Ora bem, o nosso sonho é fazer isso de um modo prolongado e autossustentável, para podermos recolher essa energia e não ser apenas um fogacho, não ser apenas uma coisa pequena. E é um projeto grande, muito maior que esse.

E alimentar uma central elétrica.

Aquilo é só investigação. O que se fez na Inglaterra e que se está a fazer noutros sítios. Há outra possibilidade de fazer isso, em vez de com campos magnéticos, faz-se com lasers, uma grande concentração de lasers no sítio, de algum modo, para acender esse plasma ionizado, para conseguir concentrar a energia de um modo muito grande com superlasers. Ora bem, um grande projeto internacional no qual Portugal está envolvido. Já agora, Portugal também esteve envolvido nesta experiência inglesa, que foi realizada em 21 de dezembro último. Inglesa, quer dizer, na Inglaterra, que é internacional, e que foi anunciada só este ano. Mas há, desde alguns anos, um projeto muito grande no sul de França, em Cadarache, que fica nos arredores de Marselha, em que estão envolvidos vários países do mundo, por vezes rivais, Rússia, China, União Europeia, Estados Unidos, etc. Mostra que a ciência nos une. E o objetivo aí é fazer a mesma coisa, mas maior, muito maior. Infelizmente, esse projeto está mais demorado que o que se previa, por causa dos custos, está na fase de construção. Enfim, só lá para o ano 2035 é que haverá experiências. Esse projeto nunca será para fazer um reator para dar energia para a corrente, será apenas para piloto, será apenas para dar a prova do conceito, para conseguir fazer algo que forneça energia durante algum tempo. E se conseguirmos fazer isso, não sabemos bem quando, está em construção Lá para os anos 30 deste século.

Portanto, vai demorar ainda algum tempo.

Vai demorar muito e vai custar muito dinheiro, mas se conseguir fazer isso, como eu espero, como todos esperamos, tem-se uma coisa que é fantástica: é uma energia nuclear limpa, porque não tem os resíduos radioativos que tem o outro processo de fusão nuclear. E mais do que isso. Essa é uma grande vantagem, mas mais do que isso, é que a matéria-prima para fazer isso é basicamente o hidrogênio. O que o sol faz é transformar hidrogênio em hélio. Ora bem, há montes de hidrogênio na Terra. A água dos oceanos está cheia de hidrogênio.

Portanto, corrija-me, professor. Na fusão, não há desperdícios radioativos.

Não, não há processos radioativos do gênero.

Não há lixo radioativo.

Não há lixo radioativo. E, portanto, isso faz com que, se houver processos radioativos, são muito mais rápidos, não têm aquela longa duração que têm os núcleos pesados. Desse ponto de vista, é muito mais limpo. E a acrescer a isso, estava eu a dizer, há a disponibilidade da matéria-prima, porque é preciso ter urânio, enriquecer o urânio. Não é qualquer urânio que serve para partir. Nós chamamos o isótopo do urânio, uma modalidade de urânio, é preciso enriquecê-lo nessa modalidade que é mais rara na natureza, ao passo que os núcleos leves, como o núcleo do hidrogênio é o próton, é só uma partícula, e hidrogênio encontra-se por aí. Tudo que é água tem hidrogênio. Ficamos com uma fonte de energia praticamente inesgotável, porque a matéria-prima é abundante e teria poucos perigos para nós e para o ambiente, se o processo estivesse, naturalmente, devidamente controlado, mas vai demorar muito, e está a demorar mais do que nós pensávamos.

Portanto, quando o ouvinte Vasco Pereira também lhe dirige a pergunta se o professor acredita na viabilidade da fusão nuclear, a resposta é sim.

A resposta é sim, mas não sei quando. Não posso fazer promessas. Vou fazer uma promessa segura, para o ouvinte que quer alguma segurança.

Vamos lá.

Até ao final desse século, nós devemos ter um reator de fusão, mas não sei se as pessoas ficam contentes de dizer isso. Ainda faltam quase 80 anos até ao final do século.

Muito bem.

Um reator de fusão a funcionar, quer dizer, a dar energia, em atividade comercial, vamos chamar assim. Porque até lá, e as coisas demoram, é preciso fazer investimento, é preciso fazer investigação, é preciso mostrar que rende e é seguro. Estamos a falar de um plasma que é quentíssimo, que tem que estar no vazio, afastado das paredes. E portanto, isso também provoca problemas de segurança.

E depois há também toda a questão política, porque também há um grande preconceito em relação à palavra nuclear. Tem que se ultrapassar.

Isso é verdade, mas as pessoas também querem saber do que pagam.

Claro.

Se aquilo não lhes sair tanto do bolso, a chamada conta da luz, que está de fato muito alta neste cantinho da Europa. Se as pessoas pagarem menos, o nuclear tem essa má fama, eu sei, mas tudo é feito de núcleos, os átomos até do nosso corpo têm núcleos, e portanto os núcleos estão por todo lado.

Exatamente.

A palavra nuclear, apesar de ter essa má fama, faz parte da natureza. Todos os átomos têm o núcleo atômico, e se nós soubermos controlar esses núcleos atômicos para funcionar a nosso favor, como nós já fazemos para muitas coisas, até na medicina, será bom para o nosso futuro. E eu tenho essa esperança que a fusão nuclear vai funcionar. É a esperança não é apenas minha, é partilhada por muita gente, por isso é que há esse grande investimento. Não sabemos o resultado que vai dar e quando é que vamos obter esse resultado, mas esperemos que dê bom resultado.

Oxalá tenhamos respondido às dúvidas do ouvinte Vasco Pereira. Se tiver sugestões, perguntas, dúvidas científicas para colocar ao professor Carlos Filhais, pode fazê-lo através do e-mail ouvinte@observador.pt. Professor, não temos mais tempo. Até para a semana.

Adeus, João Miguel. Adeus, até à próxima.