O severo revés sofrido por Donald Trump e pelo movimento MAGA nas recentes eleições de midterm veio confirmar aquilo que muitos analistas insistiam em ignorar: o trumpismo não é uma mudança irreversível na arquitetura geopolítica ocidental, mas sim um fenómeno temporário. A pesada derrota eleitoral demonstrou os limites claros desta vaga populista e reforçou que olhar para ela através de uma lente de excecionalismo permanente é um erro de perspetiva. O trumpismo é, ou foi, um fenómeno perfeitamente localizado no tempo e no espaço, alimentado por circunstâncias conjunturais que, por definição, hão de acabar.
Como todas as crises profundas, esta fase deixará marcas no corpo político ocidental, mas confundir uma cicatriz com uma ferida aberta é um erro grosseiro. As cicatrizes são, na sua essência, boas: constituem as memórias físicas e cívicas de momentos menos positivos que vivemos, mas que foram superados com resiliência. A sua presença recorda-nos não só a “dor da ferida”, mas, sobretudo, a capacidade de regeneração permitida pelas instituições democráticas.
É precisamente a partir desta leitura de esperança realista que se deve julgar o debate atual sobre a autonomia estratégica europeia. Em resposta à volatilidade política norte-americana, muitos líderes e comentadores no Velho Continente defendem um corte profundo com Washington, advogando a criação de uma Europa estritamente isolada na sua defesa. Esta posição não é apenas um erro estratégico colossal, é uma perigosa ilusão egocêntrica que deve ser combatida com toda a firmeza intelectual e política.
A realidade nua e crua é que, sem uma sólida e inquebrável relação transatlântica, a defesa da Europa fica irremediavelmente comprometida face a ameaças existenciais bem reais. A agressão russa à Ucrânia, às portas da União Europeia, e os apetites de grupos revisionistas que procuram ativamente desestabilizar o projeto das democracias liberais exigem uma força dissuasora unida. Enfraquecer a NATO em nome de um soberanismo europeu oportunístico é oferecer, numa bandeja de prata, um presente estratégico aos nossos adversários.
Ainda assim, importa reconhecer que, se a NATO é absolutamente insubstituível no curto prazo, a dependência europeia não é sustentável no longo prazo. A autonomia estratégica deve ser entendida como complementar à NATO e não como concorrencial. Uma Europa militarmente mais forte e com capacidades próprias robustas não enfraquece a Aliança Atlântica, antes a consolida. Contudo, esta relação deve assentar em interesses estratégicos reais, assumindo com maturidade que os interesses de Washington e das capitais europeias nem sempre serão coincidentes.
Por isso, aqueles que propõem o divórcio estratégico ou a criação de uma arquitetura estritamente europeia de defesa em rotura com a NATO demonstram uma enorme insensatez e uma lamentável estreiteza de vistas. Esse caminho separatista deve ser reprovado por quem compreende as engrenagens da geopolítica global. As alianças mais sólidas são precisamente aquelas que conseguem sobreviver às divergências, e o enfraquecimento voluntário da Aliança Atlântica apenas abriria um vazio de poder preenchido por forças profundamente hostis aos nossos valores.
Pelo contrário, os canais de diálogo, de diplomacia e cooperação devem manter-se sempre abertos, exigindo aos líderes de ambos os lados do Atlântico um esforço redobrado de entendimentos. As divergências políticas passageiras de uma administração americana não podem ditar o desmantelamento de décadas de aliança estrutural. Trabalhar em conjunto nos múltiplos domínios da governação global e da segurança coletiva continua a ser uma urgência inegociável.
No domínio estritamente militar e da defesa, a cooperação transatlântica é absolutamente central e insubstituível. As cicatrizes que hoje ostentamos na pele da nossa aliança servirão para nos tornar mais prudentes, mas nunca para nos separar. O futuro da liberdade na Europa e na América continuará a escrever-se em conjunto, de braço dado, navegando num oceano que nos une e não num arquipélago de nações isoladas e fragilizadas.