Em Portugal, o 25 de Novembro continua a ter um problema curioso: há quem queira que se fale menos dele e quem queira falar dele como se fosse seu. Parte da esquerda resiste à sua comemoração autónoma; o Chega disputa a condição de principal herdeiro político da data. Pelo meio, ficam quase esquecidos os partidos que enfrentaram o radicalismo revolucionário quando a oposição tinha custos reais. O PPD de Sá Carneiro e o CDS de Freitas do Amaral não são os únicos nomes da história de Novembro, mas têm nela um lugar que nenhuma disputa eleitoral pode apagar.
A 25 de novembro, a Assembleia da República voltará a reunir-se em sessão solene. Basta recordar a cerimónia do ano passado para perceber o que está em jogo. Deputados da esquerda colocaram cravos vermelhos na tribuna; André Ventura retirou-os; Paulo Núncio levou uma rosa branca para o púlpito; Pedro Alves, do PSD, repôs os cravos. O PCP não participou e alguns deputados socialistas abandonaram a sala durante a intervenção de Ventura. Uma evocação parlamentar transformou-se, diante de todos, numa disputa de símbolos. Os gestos sobrepuseram-se ao debate.
Talvez convenha começar pelo essencial. O 25 de Novembro não foi uma simples alteração de comando militar. O PREC tinha colocado Portugal perante uma disputa sobre a natureza do poder: a legitimidade saída das eleições confrontava-se com projetos que invocavam a Revolução para condicionar as instituições. A instabilidade governativa, as ocupações, a violência política e o peso das fações militares tornavam incerto o futuro da democracia parlamentar. O desfecho de Novembro enfraqueceu decisivamente a esquerda militar revolucionária e abriu caminho à afirmação do poder civil. Não resolveu tudo, mas mudou o rumo do país.
É por isso que a relação de uma parte da esquerda com a data merece escrutínio. O PCP recusou participar nas comemorações de 2025 e continua a contestar a leitura institucional de Novembro. Está no seu direito de defender outra interpretação dos acontecimentos. O que merece crítica é a insistência em tratar uma comemoração autónoma como se ela, por si só, fosse uma ofensa à memória de Abril. Reconhecer o significado do fim do PREC não exige subscrever uma versão oficial da História. Exige, isso sim, admitir que a Revolução não conduzia inevitavelmente a um regime pluralista e que o conflito entre projetos políticos foi real.
O PS tem uma dificuldade diferente. Mário Soares e os socialistas estiveram entre os protagonistas da oposição à radicalização revolucionária. Não podem ser colocados no mesmo plano que o PCP no confronto político de 1975. Ainda assim, em junho de 2024 o
PS votou contra a proposta do CDS para uma sessão solene anual, embora tenha votado a favor da proposta da Iniciativa Liberal que enquadrava o cinquentenário nas celebrações de Abril. Os socialistas não rejeitaram toda a evocação de Novembro. Mas por que razão resistiram a dar-lhe uma comemoração própria, quando uma parte tão importante da sua história também se escreveu naquele desfecho?
O Chega coloca o problema inverso. Não contesta Novembro: procura ocupar o centro da sua memória. André Ventura fez da efeméride um momento de confronto com a esquerda, e o partido apresentou uma proposta para tornar o dia feriado nacional. É legítimo defender essa iniciativa e identificar-se com a oposição ao comunismo de 1975. Menos convincente é transformar essa identificação numa espécie de primazia histórica. Uma tradição política não se mede pelo volume da sua reivindicação. Ter posições próximas das de quem viveu um acontecimento não é o mesmo que ser seu continuador orgânico.
O Chega foi fundado em 2019. Esta constatação, isoladamente, nada prova: partidos recentes podem assumir ideias antigas. O ponto é outro. Quando se discute a herança partidária de Novembro, há organizações cuja atuação naquele período é documentável, nomes que suportaram decisões difíceis e militantes que conheceram a intimidação política. Apagar essa diferença para fazer da atual distribuição de votos uma nova genealogia histórica seria tão seletivo como reduzir Novembro a uma nota de rodapé de Abril.
O primeiro congresso do CDS, em janeiro de 1975, no Palácio de Cristal, no Porto, foi cercado por manifestantes da extrema-esquerda. Os congressistas ficaram retidos durante horas. O episódio retrata o ambiente em que Freitas do Amaral e Adelino Amaro da Costa afirmaram o partido. Não estava em causa ganhar uma discussão simbólica meio século depois, mas exercer atividade política perante a hostilidade de quem não aceitava com facilidade aquela alternativa. A memória democrata-cristã de Novembro começa também antes do próprio Novembro.
O PPD de Sá Carneiro teve igualmente um percurso próprio de oposição à radicalização do PREC e de defesa do pluralismo partidário. Depois de Novembro, defendeu o afastamento do PCP do Governo Provisório e a revisão das relações entre as Forças Armadas e o poder político. O CDS foi mais longe na rejeição da herança constitucional do período revolucionário: os seus deputados foram os únicos a votar contra o texto final da Constituição de 1976, marcado ainda por referências socialistas e mecanismos de tutela militar. PSD e CDS não fizeram sempre as mesmas escolhas, e seria errado fingir que fizeram. Mas ambos pertencem, por percurso e por intervenção, à história política que desembocou em Novembro.
Não lhes pertence a exclusividade dessa história. Os militares moderados, entre os quais Ramalho Eanes, foram decisivos no plano operacional; o PS de Mário Soares teve um papel político incontornável. Afirmar a contribuição do PPD e do CDS não exige diminuir nenhuma dessas participações. Exige apenas não confundir o direito de qualquer partido celebrar Novembro com o direito de reclamar para si a trajetória dos que estiveram no terreno político em 1975.
Há, aliás, um facto recente que sintetiza esta distinção. Em 2024, foi o CDS, pela voz de Paulo Núncio, que propôs a sessão solene anual. O PSD, o Chega e a Iniciativa Liberal votaram a favor; o PS e outros partidos à esquerda votaram contra. Não foi uma tentativa de inventar antecedentes. Foi a expressão institucional de uma memória que o CDS transporta desde a sua fundação. O Chega pôde apoiá-la, como qualquer outro partido. Apoiar, porém, não é ter sido o seu protagonista histórico.
Talvez seja este o verdadeiro debate que a sessão de 2026 deveria suscitar. A esquerda não tem de subscrever uma narrativa laudatória de Novembro para admitir a sua importância, e o Chega não precisa de se apresentar como proprietário da data para a defender. A comemoração perde quando se transforma numa disputa de flores ou numa competição para ver quem condena mais enfaticamente o comunismo. Ganha quando obriga os partidos a prestar contas da interpretação que fazem do poder, da liberdade de oposição e das escolhas políticas do passado.
A memória de Novembro não é um prémio entregue ao partido que hoje fala mais alto. Também não desaparece por incomodar quem prefere outra hierarquia de datas. O PPD de Sá Carneiro e o CDS de Freitas do Amaral não nasceram em Novembro, nem fizeram Novembro sozinhos. Mas ajudaram a criar as condições políticas do seu desfecho e a disputar o país que dele emergiu. Em 2026, convém lembrar uma coisa simples: entre quem quer diminuir o 25 de Novembro e quem quer ficar com ele, continuam a existir aqueles que efetivamente fizeram parte da sua história.