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Esta é a Comissão de Inquérito das manhãs 360. Hoje, a nossa convidada, a atriz Inês Castel-Branco. Bom dia, bem-vinda.

Bom dia.

Essa voz está bonita. São cinco perguntas, Inês. Cada resposta certa vale cinco pontos. Se tiveres ajuda e acertares, recebes dois. Vamos a isso? Ela está tão ansiosa.

Isto deve estar à altura.

É que eu gosto de jogos.

E gostas de ganhar.

Gosto muito de ganhar. Sou muito competitiva, mas também não estou a competir com ninguém.

Pois, não. Só com os outros 300 milhões que passaram por cá. Vamos lá. A Inês narrou o Podcast+ do Observador, "A Caça ao Estripador de Lisboa", que agora é também uma peça de teatro imersivo, uma peça que volta a ter a voz off da Inês Castel-Branco. Por isso, Inês, vamos ver se estás mesmo por dentro do que se passou em 1992: que nome tinham em comum as três vítimas do Estripador?

Vocês sabem que eu já fiz isto há muito tempo, isso não é justo. Eu diria Maria.

Muito bem. Maria Valentina, Maria Fernanda e Maria João. Inês, tu que és atriz, qual é o maior desafio quando se leva para o palco uma história real e trágica como esta?

Eu acho que tanto para o palco como para o cinema é ser fiel à realidade. Essa pesquisa, que eu adoro, traz alguma pressão, porque queremos fazer exatamente como foi a realidade e queremos, nem que seja, honrar as vítimas ou a pessoa de que estamos a fazer o biopic. E acho que essa pressão é diferente quando estamos a fazer um personagem completamente inventado por nós.

E consegues perceber o fascínio por histórias de true crime?

Eu sou completamente viciada por true crime.

Eu também. Adoro ver os documentários todos da Netflix.

Eu consigo perceber o fascínio, mas não consigo explicá-lo. Já li algumas coisas sobre isso, porque as minhas amigas acham que eu sou estranha.

Mas não é comum este gosto pelo true crime? É cada vez mais comum.

Acho que há pessoas como nós.

Não, nem todas as pessoas são como você.

As minhas sugestões do streaming são todas à volta disto. O meu namorado diz que eu sou psicopata, que eu estou me a preparar para ser psicopata.

Eu li um artigo a dizer que isso faz muito bem. A curiosidade mórbida tem uma utilidade.

Exato. Eu li que ao estares informada sobre como acontece aquele crime, prepara-te para uma possibilidade de te acontecer a ti.

Como vítima.

Sim.

Sim, não inspira.

Vamos deixar as coisas bem claras.

Já no ar. Também pode ser como psicopata, não é verdade?

Bem, esta primeira correu muito bem. Cinco pontos.

Aliás, aquela hesitação foi um bocadinho encenado.

Foi gênero.

Não foi, não. Eu estava a pensar mesmo.

A próxima também é muito fácil. Tens uma grande experiência em dobragens de filmes de animação e olhando para a lista, entraste na versão portuguesa do "Gru, o Mau Desposto 3". Mas a pergunta é: quem faz a voz do Gru original?

Ui, já perdi. Não faço ideia.

Não fazes ideia.

Não.

Então com ajuda. Steve Carell, Steve Martin, Steven Spielberg.

É o Steve Carell.

É mesmo. Vamos falar de vozes. A tua é muito característica, mas li, e gostava que explicasses isso, nem sempre lidaste bem com a tua voz ou as pessoas à tua volta não lidaram.

A minha voz é muito característica, tanto no grave como no agudo, e no agudo é um bocado irritante. E eu quando comecei a trabalhar, já na escola, trabalhava muito mais com os agudos. Vais ver os "Batanetes" e percebes isso. E é uma voz meio desanimada, meio irritante, mas que me dá muito trabalho.

Mas é muito plástica, porque adapta-se a muitas situações.

Agora que eu já sei brincar mais com ela. Também tive muitas aulas de canto, de terapia da fala, estou há muito tempo a tratar dela. Ao início também me acusavam muito de ter sotaque de beta, então tive que tirar o sotaque de beta.

Como é que era o sotaque de beta?

Não me lembro. Eu diria que é capaz de ser um bocado mais anasalado, não sei. Um bocado mais assim. Não sei. Eu na altura não reconhecia isso. Quando diziam "falas à beta", eu não sabia o que isso era.

Era teu, sim, sabia.

Mas também é um dos meus instrumentos de trabalho. Portanto, eu trabalho como trabalho o corpo, a mente, a memória, e acho que tenho feito um bom trabalho.

Mas achas que é de facto uma das tuas armas mais poderosas enquanto atriz?

Hoje em dia, sim, é uma das coisas que me dá mais trabalho. Trabalho mesmo, dinheiro monetário, trabalho, currículo.

E a experiência do Podcast+ já foi há algum tempo, como disse que há um ano, gravaste isto?

Há mais.

Há mais de um ano.

Há mais, foi quando eu parti o cotovelo. Eu já tirei a placa do cotovelo. Foi em outubro de 2024.

Há dois anos.

Eu sei porque eu tinha partido o cotovelo nessa semana. Aliás, vê-se a dor na minha voz.

Foi uma experiência muito diferente, essa.

Foi uma experiência muito diferente, porque para já tive de encontrar a personagem jornalista que havia em mim. Tive muita ajuda da Tânia Pereirinha, porque muitas vezes eu ficava com tanta pena das vítimas que começava a ficar delicodoce e não era suposto, era suposto ser uma jornalista ou uma investigadora fria. E ela policiou-me bastante e é uma coisa que eu não sou habituada a ser dirigida quando faço voz. Acontece muito nos desenhos animados, mas eu não faço assim tantos desenhos animados, faço mais locuções e podcasts. Portanto, foi fixe ter esse lado de alguém a dirigir-me ao segundo e fazer com que eu não perca essa personagem. E o resultado eu adorei. Ainda ontem um técnico de som com que eu estava a trabalhar me disse: "Estou a ouvir o teu podcast, não me sais da cabeça." É um podcast que teve imenso sucesso e as pessoas adoram o true crime.

E estes novos formatos, achas que é muito por aí que

O trabalho também para pessoas como tu pode aparecer mais.

Acho que sim. Acho que cada vez mais as pessoas estão interessadas em podcasts. É um mundo que apareceu com força nos últimos anos, explodiu completamente. Acho que vai haver muito mais trabalho para as pessoas que trabalham com a voz, nesse sentido.

Muito bem. Vamos à terceira questão.

Sete pontos, Inês.

Vamos lá. Agora passar do áudio para o vídeo também. Inês, a pergunta é: antes de se transformar numa plataforma de streaming, qual era o negócio da Netflix?

Era um clube de vídeo.

Sim. Podemos colocar. Uma característica própria que enviava por correio.

Eu sei, eu quando estudei nos Estados Unidos, mandei um e-mail à Netflix a perguntar se eles estariam interessados em dar uma representação em Portugal.

A sério?

E eles responderam que não estavam interessados, mas responderam.

Isso foi em que altura?

Em 2008.

Antes de eles serem a plataforma de streaming.

Sim. Eu estava a estudar lá e comecei a usar a Netflix lá e pensei: "Isto é genial".

Mas funcionava. Tu tinhas um catálogo, pedias e passados dois dias-

Funcionava completamente e depois punhas no correio outra vez. E eu pensei: "Isto é genial, tenho que levar isto para Portugal". E mandei um e-mail.

Já aqui com o espírito empreendedor.

Sim, mas eles não me ligaram nenhuma.

Sem saber, fizemos uma pergunta de uma coisa que ela conhecia muito bem, porque utilizou.

Sim.

Muito bem, passando agora para o cinema, para as séries, o futuro da ficção ou da não ficção, os documentários também, está nestas plataformas de streaming mesmo?

Eu acho que ainda bem que apareceram estas plataformas de streaming, no sentido em que há formatos novos e muito mais interessantes e há mais dinheiro também. Acho que o futuro agora também está um bocado nas novelas verticais, que estão agora a surgir, que são novelas adaptadas ao telemóvel, e acho que se as pessoas não largarem o telemóvel, vai ser isso o futuro. Mas as séries, para mim, eu sou fã de séries e como atriz, o que eu gostava mesmo de fazer cada vez mais são séries para esses canais de streaming, porque acho que têm um cuidado engraçado e têm sempre histórias mais fora da caixa. Eu estou muito habituada a fazer novela, que é um formato que tem sempre o mesmo tipo de histórias. Portanto, para mim, fazer séries, seja da Netflix, da HBO, da Prime, até da RTP Play, é um motivo de grande excitamento.

É recente a notícia de que a Netflix vai ter o primeiro filme português agora. Estas plataformas já estão a dar trabalho aos atores portugueses?

Sim, eu gostava que dessem mais. Nós temos técnicos incríveis, temos atores incríveis. Eu acho é que somos um país muito pequenino. Ainda estamos a começar nessas marcas grandes.

O "Rabo de Peixe" foi aquela ótima experiência.

E o "Glória" também.

Que foi o primeiro. Exato. Mas haverá espaço para ideias verdadeiramente originais? Falando aqui do mercado português e de autores portugueses, ou há o risco depois dessas plataformas estabelecerem ali uma série de padrões que uniformizam essas histórias que à partida deveriam ser diferentes?

Eu acho que o problema mesmo é chegar a eles. Eu não acredito que seja fácil, até para um realizador consagrado ou para uma produtora consagrada, chegar a fazer a proposta à Netflix. Acredito até que haja mais concursos do que propriamente essa abertura. Mas não sei como é que funciona, eu tenho é certeza que há pessoas com ideias geniais em Portugal que não estão a ser ouvidas.

Inês Castel-Branco, já fizeste tanta coisa, ficção, locução, tudo aquilo pelo qual te conhecemos, o que falta fazer? O que sentes assim: "Gostava de receber um convite para isto"?

Adorava fazer qualquer coisa de época, dos reis, um período histórico qualquer. Adorava. Fiz muito pouco.

Gostavas de explorar esse registo.

Disse isto à minha agente, agora a RTP estreou "A Marquesa de Alor" e eu estava a ver aquilo, estava cheia de inveja das minhas colegas.

É por causa dos vestidos, é por causa da roupa.

É a forma de falar, é a forma como se via o mundo, é muito diferente. Há uma ingenuidade e um protocolo completamente diferente do nosso. Imaginar viver nessa época, deve ser engraçado.

As produções são mais caras, não é? É mais difícil recriar esse ambiente.

Muito mais.

Então vamos aqui falar de uma outra produção.

Mais um trabalho da Inês Castel-Branco.

Também é de época. Qual é o significado de Snu em dinamarquês?

Esperta.

Ela sabe esta.

És muito Snu.

Foi um grande trabalho esse.

Obrigada. Eu tenho muito orgulho nele.

Então conta-nos um bocadinho desse processo de te transformares na Snu Abecassis. Como é que foi? Viste muito os vídeos que estão disponíveis?

Não havia voz dela, não tiveste acesso à voz da Snu Abecassis.

Há muito poucos vídeos disponíveis. Há um vídeo dela na Feira do Livro, no arquivo da RTP, que não tem som. Há um livro que a mãe dela escreveu sobre ela, há um livro que a Cândida Pinto escreveu sobre ela e depois há notícias. Só que eu tive a sorte de conseguir chegar a algumas pessoas próximas dela, nomeadamente a secretária do Só Crênero, que falou comigo durante horas. Tentei falar com familiares e não consegui, mas consegui falar com amigos e esses dois livros eram bastante completos Foi um bocadinho imaginar aquela época, todas as descrições que a minha mãe sempre me falou do pré e pós 25 de abril, que por acaso sempre foi uma época que eu tive muita curiosidade, portanto já tinha imenso imaginário sobre isso. E depois conhecer um bocadinho também o métier das editoras.

Que ela foi a fundadora da Dom Quixote.

Que também aprendi imenso. E um bocadinho sobre a cultura dinamarquesa e sueca também.

Porque há esse desafio de seres uma atriz portuguesa a desempenhar o papel de uma personagem dinamarquesa.

Que vive na Suécia a vida toda. Eu visitei a casa de infância dela na Suécia, Estocolmo. Passei algum tempo em Estocolmo a fazer a minha pesquisa, também porque nunca tinha ido a um país nórdico e achei que para representar essa contenção nórdica precisava de vê-la de perto. E foi mesmo ótima essa minha viagem.

Desculpa, e foi a produção que te pagou essa viagem?

Não, fui eu. Investimento próprio. E quando cheguei à porta de casa dela, não estava lá ninguém, não me abriram a porta, mas aquilo tinha um jardim exterior com vista para o rio e nesse rio havia um perdão. E eu sentei-me no perdão, à frente de casa dela, olhei para o céu e disse: "Ajuda-me lá, por favor. Inspira-me que eu vim até aqui." Eu acho que resultou. Eu tenho muito orgulho nesse trabalho e gostava de fazer mais trabalhos como esse.

Desculpa, Inês, por ser a história de uma pessoa real ou por ter especificidades que obrigavam a certos desafios?

Por ser uma história de amor num país cinzento, de uma pessoa real que tentou fazer muito pelas mulheres em Portugal e por ser a paixão daquele homem que eu acho encantador e magnético, que é o Sá Carneiro, que eu tenho muita pena que não exista um agora.

Isso é uma boa deixa, porque era mais ou menos isso que eu queria perguntar. Nós vemos muitas figuras públicas envolverem-se, agora até na questão da habitação, ir nas acampadas, participarem. Achas que é cada vez mais necessário que haja esse tipo de intervenção de figuras públicas? Não digo apenas nesta matéria, mas noutras. No geral, é necessário que haja mais essa intervenção?

Eu tenho uma opinião, não sei se é polêmica em relação a isso, mas eu acho que cada um sabe de si. Acho que não podes exigir a uma pessoa só porque é figura pública, a ter uma postura pública política. Estive inclusive a filmar no norte durante a semana passada. Eu acho que devia haver uma sigla para pessoas que querem ir às manifestações e não conseguem. Tal como há a FOMO, devia haver uma sigla para quem queria.

Então faço a pergunta de outra maneira: achas que por vezes há uma certa pressão para as pessoas tomarem posições?

Há, sem dúvida, uma pressão. Eu acho que o ser humano, no geral, deve se envolver com os direitos humanos, ponto final. Seja famoso ou não. Se nós somos famosos e temos uma plataforma e podemos usá-la nesse sentido e queremos usá-la nesse sentido, ótimo. Mas se não queremos, também não devemos ser prejudicados por isso.

Nem devem tirar conclusões disso.

Claro.

Mas estavas a dizer que estavas no norte a filmar.

E queria muito estar nas manifestações e para mim foi comovente. Inclusive há um mês, eu estava num campeonato de crápô, quando foi a primeira manifestação da habitação no Porto e em Lisboa, que eram cinco gatos pingados. E eu estava a falar com uma amiga minha sobre a importância das manifestações, que eu às vezes duvido mesmo que resultem em alguma coisa. E no dia a seguir houve a primeira carga policial e no dia a seguir o Porto veio todo para a rua e eu fiquei comovidíssima. Está à vista. Há um impacto em manifestarmo-nos. O governo já se está a mexer, vai haver um resultado destas acampadas e agradeço a toda a gente que tem estado na rua a lutar por quem não pode estar e pelos mais jovens, pelo meu filho e por todos os filhos. E a resposta a mim mesma: sim, vale a pena ir para a rua e vale a pena lutar pelos nossos direitos.

Deixa-me só abrir parênteses: campeonato de crápô?

Sim.

Também fiquei presa nessa.

Jogos de cartas, para quem não sabe.

Eu faço campeonatos de crápô em minha casa às terças-feiras, porque sou completamente obcecada por crápô e já tenho um quórum de 20 e tal pessoas.

Ena!

Sim, e só tenho 10 lugares, portanto, cinco jogos de cada vez. Eu lanço o campeonato no WhatsApp e os primeiros 10 a inscreverem-se, fecha o campeonato.

Ou seja, pessoas que tu não conheces.

Não. Amigos.

Calma. É crápô. Isto é crápô. Isto é uma coisa de ser.

É muito giro. E depois cada um traz um petisco e quem ganha joga com quem ganha, quem perde joga com quem perde. Vamos anotando num quadro de ardósia as vitórias e no fim há um vencedor.

Claro.

Só ganha amor. Uma fotografia com o troféu, que é sempre o mesmo.

É a honra que fica. Claro.

Qual é o troféu? Já agora que é sempre o mesmo.

É uma obra do Francisco Mendes Moreira, que é um artista meu amigo. É uma obra em madeira que as pessoas agarram e tiram a fotografia.

Isso é muito bom.

Muito bem. Inês, vamos viajar um bocadinho.

Estás com 17 pontos. 25 é ótimo.

Vamos viajar um bocadinho. Por que nome é conhecida a cidade de Estremoz? Estremoz ou Estremoz, nunca sei.

Estremoz.

Estremoz.

Por que nome é conhecida?

É um nome, uma cidade qualquer coisa, não é?

E agora, como é que eu não sei isso?

Não te vão deixar ressaltar.

Recite isso. 12 anos lá ao lado, como é que é possível? Cidade do tremoço?

Tem a ver com, enfim, se eu digo características.

Ou dás ajudas.

Eu vou te dar três ajudas. Então vá. Terra gananha, capital do mármore ou cidade branca.

A cidade branca? Por causa do mármore? Não.

Por causa da cor, muito branca. Quer dizer, no Alentejo são todas um bocadinho assim.

Sim, mas também tem lá muito mármore. E o mármore quando está cortado faz buracos brancos.

É verdade. Ali entre Borba e Estremoz. Tu viveste no passado ou ainda vives lá?

Não, eu tinha, já não, a partir de janeiro deixei. Tinha uma casa alugada há um ano, na Glória, que é a 10 km de Estremoz. Essa casa é da Margarida Vila Nova e eu alugava-lha a ela. Só que agora resolvi fazer a minha própria casa. Gosto tanto de estar no campo que resolvi fazer a minha própria casa, comprei um terreno em Odemira e vou construir de raiz a casa dos meus sonhos e eventualmente vou viver para o campo.

E é para viver lá, ou melhor, nessa casa tu vivias lá?

Sim, a ideia é ir viver para lá.

E vinhas a Lisboa para trabalhar.

Sim, exatamente.

E pode um ator, uma atriz, viver longe de Lisboa e ter trabalho?

Infelizmente, a idade pesa depois nas solicitações. E eu estou já a prever isso. A sentir ainda não, mas prevejo. É só olhar para o mercado e ver atrizes com 60, 70 anos e a quantidade de trabalho que têm. São raras as que têm.

Vais começar a fazer papéis de avó.

Só conheço uma. Eu já faço, agora já estou quase a fazer papéis de avó.

Estava a dizer isto porque hoje falámos da Christine Scott Thomas aparecer no anúncio a fazer de avó, mas as mulheres sentem isso mais do que os homens, ou seja, a partir de certa idade começa a escassear o trabalho.

Vou te explicar. Há 700 mulheres em Portugal, atrizes, e 200 homens. Portanto, os homens têm sempre trabalho. Sempre, sejam velhos, gordos, bêbados.

Não, isso não há.

Sempre foi um bocadinho injusto, mas sim, nós somos muitas mais. E a verdade é que eu também tenho de me preparar para qualquer eventualidade. E também há um plano meu, meio utópico, de viver no campo, que é ter a minha horta, cuidar das galinhas, etc. Que tens que ter idade para isso. Eu não quero ir para o campo com 60, 70 anos e ter o meu filho preocupado, porque se eu cair, quem é que me salva? Eu quero ainda ir com energia para trabalhar no campo, para receber pessoas, até alugar, fazer se calhar um bocadinho de turismo. Sempre gostei de receber pessoas em casa e acho que o meu futuro também pode passar por aí. Não quer dizer que eu desista de ser atriz, posso fazer as duas coisas ao mesmo tempo.

Mas o que estás a dizer é que uma mulher atriz tem que pensar na reforma mais cedo do que os homens.

Sim, eu já tenho PPR há muitos anos.

Mas o que ainda gostavas de fazer?

Grande literacia financeira. Quem não, não faça.

Sim. Disseram-me logo: "Ator, Segurança Social, esquece, não vais receber reforma nenhuma. Prepara-te". E eu preparei-me.

Há pouco falavas de algumas coisas que ainda gostavas de fazer, agora estás a falar da reforma. O que é que ainda te falta fazer, que querias mesmo fazer?

Eu gostava muito de realizar um dia, mas ainda não estou preparada. Estive agora a fazer um filme realizado pela Margarida Vila Nova, também muito minha amiga, e estava encantada a vê-la. Parecia que nasceu para aquilo, que fez aquilo a vida toda. E eu pensei: "Um dia quero fazer isto, mas acho que ainda não estou preparada".

O que te falta para estares preparada?

Falta-me algum conhecimento mais técnico. Uma das coisas que me interrogo sempre é esta questão das lentes. 35 a 50 a 80, e como as usar. Acho que essa parte é muito importante, embora o diretor de fotografia possa estar encarregue disso, eu gostava de perceber também o que ele está a fazer. E sem dúvida que o meu calcanhar daquiles é a escrita. Preciso de escrever melhor.

Falar isso ali com o Bruno Germania.

Façam uma parceria.

Uma parceria.

A escrita para o realizador, para quê? Para dar o toque no guião?

Não, para escrever o meu próprio guião.

Ok, então já são duas funções.

Sendo que eu tenho um problema, já fiz um estágio em escrita de guião, tenho um problema que é põr minhas personagens todas a falar igual a mim. Não dá, não é? São todas diferentes.

Inês Castelo Branco, conseguiste 19 em 25 pontos. Foi ótimo! Foi muito acima da média. Obrigada por teres aceitado o nosso convite. É sempre um gosto receber-te. O podcast Plus do Observador, "A Caça ao Estripador de Lisboa", agora também é uma peça teatro imersivo. Os bilhetes estão à venda em feverup.com.