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Começa agora mais uma Comissão de Inquérito das manhãs 360. Hoje, o nosso convidado é Dias Ferreira, advogado, antigo dirigente do Sporting. Bom dia, bem-vindo à Comissão de Inquérito da Rádio Observador.
Bom dia a todos também. É com muita satisfação que estou na Rádio Observador, que aliás, tenho no carro destacada.
Faz muito bem.
E sou assinante do jornal também.
Só por causa disso, espera aí. Cinco pontos. Não, não contou. Dias Ferreira, são cinco perguntas, cinco pontos por cada resposta certa, ou então dois pontos se pedir a nossa ajuda e acertar. Vamos a isto?
Está bem.
Esta é muito fácil, a primeira. Quantos gols já marcou o seu Sporting nesta época, na Liga? Foram muitos.
Acho que foram 70 e tal.
70 e tal.
70 e tal.
Mas o número certo, não sei.
70 e muitos ou 70 e poucos?
Eu acho que já foram 70 e bastantes.
Devia ter dito: "Podiam ser mais".
Podiam ser mais.
70 e poucos.
70 e poucos, não é?
70 e?
Então eu vou lhe dizer. 73, 75, 78 ou 79?
Eu acho que são 73, talvez.
É isso mesmo.
Acertou.
São dois pontos.
Está certíssimo. O Sporting tem tido, de facto, o ataque mais eficaz do campeonato, mas num jogo como o desta noite frente ao Arsenal para a Liga dos Campeões e no derby deste fim de semana com o Benfica, isso dá vantagem real ou em jogos destes, a estatística desaparece por completo e entra tudo no domínio mais do emocional e da pressão?
Conta pouco a estatística e pouco conta a teoria. Na prática, é sempre um resultado incerto. Nestes jogos.
Quais são as suas expectativas para esta noite, Dias Ferreira?
Primeiro é se está muito nervoso.
Tenho alguma expectativa que o Sporting tem, na Liga dos Campeões, feito boas exibições e bons resultados e surpreendentes. Não vai ser fácil, de maneira nenhuma. O próprio Arsenal deve ter aprendido a lição do último dia que perdeu em casa com uma equipa do meio da tabela Inglaterra. Mas é sempre o Arsenal a jogar em casa. Mas tudo pode acontecer. O Sporting já eliminou o Arsenal.
Há três anos, não foi há muito tempo. Tem-se discutido muito se o Sporting, neste momento, deve ter como prioridade a Champions ou o campeonato. Se lhe dessem a escolher entre uma vitória hoje e a passagem às semifinais, e uma vitória no próximo domingo contra o Benfica, o que é que escolhia? Não pode escolher as duas.
Pois não, por fim, então a vitória do Arsenal para chegar às semifinais.
Seria a primeira vez, aliás, que o Sporting pode estar perto de um feito histórico.
Exatamente.
E acha que este Sporting tem capacidade para hoje dar a volta ao resultado da primeira mão?
Acho que sim. Acho que já fez jogos e resultados possíveis de eliminar.
Está contente com o Rui Borges?
Bastante contente. Ao contrário de algumas pessoas, são poucas, felizmente. Gosto das características dele.
Pés na terra.
Gosto mais da humildade que da arrogância.
Gosta do relógio do Rui Borges, não é?
É?
Gosta do relógio?
Símbolos de humildade dele, as coisas terem o seu significado. Eu acho muito importante as pessoas que estimam coisas que lhe dizem respeito. Ele estima um relógio barato, mas que a certa altura, há pessoas que um dia quando chegam mais tarde e têm mais dinheiro, fazem muita ostentação. Acho que é uma característica boa de uma pessoa. Aprecio bastante.
Mas para quem vê isto à distância, há muita distância, como é o meu caso, quando o Ruben Amorim saiu, parecia que ia ser o fim do mundo. Um drama imenso. E a coisa foi indo.
É verdade, mas eu também não acreditei. Eu tinha uma estima muito grande e uma admiração muito grande pelo Ruben Amorim e acho que hoje sou dos principais pessoas que não gosta dele, que deixou de gostar, completamente.
Por quê?
Senti-me traído.
Por ele ter saído?
Sim, da maneira como saiu.
Sim.
Na altura em que saiu.
Deixou-os desamparados.
Desamparados. Os meus amigos costumam dizer que na altura em que eu estava em Inglaterra, que a minha equipa era todos aqueles que jogavam contra o Manchester United.
E correu bem.
E correu bem.
Mas não são as regras do jogo de futebol.
Diga?
Não são as regras do jogo de futebol.
Do quê?
Treinadores saírem, jogadores saírem.
Há uma regra para mim que é sempre, seja no futebol, seja em qualquer lado: quem não tem caráter, eu não gosto deles.
Então vamos passar à próxima pergunta para cinco pontos, Dias Ferreira. E tem a ver com o resultado. Pergunto-lhe qual foi o resultado da última final da Taça de Portugal entre o Porto e o Sporting? Dou-lhe uma pista, foi em 2024, não foi há muito tempo. Ruben Amorim, comandava.
2024?
Sim. Taça de Portugal, a final. Foi um jogo longo.
O Porto ganhou um a zero, salvo erro.
Não.
Ou um a zero ou dois um, foi assim.
Dois um no prolongamento, gol do Taremi, que deu a vitória.
É isso mesmo. Lembra-se? Estava lá, se calhar.
Estava. Por acaso, estava. Por acaso, não. Sempre estive.
Nada é por acaso.
Também vai estar no domingo, seguramente, não? Nas bancadas.
Aí, sim.
Aí, sim. Mas isto aqui serve também para quem assiste ao fenómeno do desporto mais à distância. Por que a rivalidade desportiva se torna tão rapidamente uma coisa tão violenta mesmo? Agora, a forma como o Sporting e o Porto estão zangados.
Olha, é outra desilusão Acho que não esperava esta situação do André Villas-Boas, que era uma pessoa em quem eu depositava muita ilusão, pelos vistos. Portanto, deu nisto. Acho que isto aqui tudo era dispensável. Falava-se muito de uma nova geração, afinal é muito igual àquela que eu também vivi e outras. Talvez com menos violência verbal, mas em termos de uma rivalidade que não é saudável. Porque na altura em que eu fui dirigente, em todo caso, fora aquelas palavras que se proferiam, às vezes no final dos encontros, enfim, mais a quente, mas havia uma certa ligação. Os presidentes criaram o movimento, que depois deu origem ao organismo autónomo e depois à liga. E havia diálogo, havia reuniões muito interessantes, até muitas vezes dirigentes, cada um reunia às vezes na sua casa pessoal. Estou me a lembrar do tempo de João Rocha, de Fernando Martins, Fernando Pedroza. Eram realmente dirigentes com outra postura, embora rivais e muitas vezes também fugissem, mas não era como agora. Eu pensei que uma nova geração e um desporto mais profissionalizado, com as SADs, etc, alguma coisa tivesse melhorado, mas sob esse aspecto não melhorou muito, infelizmente.
Falava-se muito da questão da renovação dos dirigentes, do dirigismo desportivo em Portugal, e falava-se até que com esta nova geração, com a experiência que tinha, alguns como jogadores, outros como treinadores, casos do Benfica e do Futebol Clube do Porto poderiam trazer aqui uma lufada de ar fresco ao futebol. Acha que isso não aconteceu?
Acho que não aconteceu. E eu tenho, sim, talvez uma certa autoridade pra falar nisso, porque quando foi das últimas eleições do Sporting, em que eu aliás fui candidato também, perdi as eleições e tive até um mau resultado, que não era esperado tão mal, não esperava ganhar, mas não era tão mau. E no dia seguinte eu escrevi um artigo, onde habitualmente escrevia no jornal A Bola, em que eu disse: "O meu tempo acabou". Porque achei que realmente as pessoas estavam à espera de outro tipo de dirigentes. Não é que tivesse me arrependido dos tempos que dediquei, mas achei que o tempo que era outro e que era realmente para dar origem a pessoas mais novas. No caso do Sporting, os dois candidatos que ficaram nos primeiros lugares foi o João Benedito e o atual presidente, Frederico Varandas, portanto, homens dos 40 e tais anos. Julgo que o presidente nessa altura nem tinha 40 anos. Portanto, eu pensei que realmente vinha algo novo. Para mim, tenho a felicidade de pensar que realmente o presidente do Sporting a mim me surpreendeu, realmente trouxe bastante algo de mais novo. Mas os outros, tive alguma desilusão. A maior de todas foi realmente o André Villas-Boas. Considero o Rui Costa, por exemplo, uma pessoa que não será, na minha opinião, o presidente ideal, mas é pelo menos uma pessoa educada e civilizada. Eu tenho simpatia pessoal, aliás, dou-me bem com ele, tenho uma simpatia pessoal pelo Rui Costa e sob esse aspecto, eu acho que ele é uma das pessoas de lufada de ar novo. Já não sei bem se as pessoas que o rodeiam têm essa lufada de ar fresco, mas pelo menos eu acho que ele que é uma pessoa civilizada, o que já não é mau.
Muito bem. Dias Ferreira, vamos avançar para a terceira pergunta.
Está com sete pontos.
Vamos recuar aqui.
Sete pontos neste momento. O máximo são 25.
Vamos apelar aqui à sua memória e recuar a tempos muito felizes para o Sporting, que conquistou o seu único título europeu em 1964, a extinta Taça das Taças, o adversário foi o MTK Budapeste. A pergunta é: onde é que se realizou essa final do célebre Cantinho de Morais?
A primeira ou a segunda?
A segunda.
A segunda foi Antuérpia.
Muito bem, lá está os momentos felizes, recordações boas, lembra-se bem.
Exatamente. Bem feliz.
Essa foi a grande conquista.
Mas muito que eu vi pela rádio.
Ouviu pela rádio o jogo.
Acho que o jogo não deu pra televisão. A segunda eu acho que não deu.
A primeira acabou empatada.
A primeira deu.
O Sporting teve a sua conquista europeia, a mais importante conquista europeia nesse ano, em 1964, mas o Sporting dos últimos anos é pra si o melhor Sporting da história, a melhor equipe do Sporting da história?
Que eu tenha assistido, acho que sim. Que eu tenha vivido, acho que sim. Quando eu era mais jovem, tinha os meus 16 anos, vivi ao vivo o melhor jogo que eu vi até hoje do Sporting, que foi com o Sporting x Manchester United, nessa prova, 5 x 0 em Alvalade. Foi a única vez em que eu invadi o campo.
Estou a tentar imaginá-lo.
Invadi, mas não queria. Foi uma invasão no final do jogo. Foi basicamente pacífica, mas foi realmente uma satisfação que todos vivemos. E vivi no outro dia pra televisão, porque por razões de saúde, não fui ao jogo. Os 5 x 0 com o golo do Benedito, acho que foi a segunda melhor exibição que eu vi e a melhor pela televisão.
E entretanto houve goleadas ao Manchester City, houve vitórias contra o atual campeão europeu, Paris Saint-Germain. Qual é a influência ou qual é o peso do presidente Frederico Varandas neste sucesso do Sporting?
Eu acho que o peso dele é muito grande. Muitas vezes quando nós atribuímos as derrotas, os empates, os maus resultados, muitas vezes também ao presidente, é óbvio que temos que os louvar e lhes reclamar esse sucesso e a vitória. Eu acho que muito do Sporting se deve a ele. Eu fui adversário dele, fui opositor a ele. Hoje tenho uma excelente relação e, sobretudo, considero que é um bom presidente.
Surpreendeu a capacidade de Frederico Varandas?
Surpreendeu-me muito, sobretudo porque, no fundo, ele tem uma visão de muitas coisas muito parecida com aquela que eu tinha e que sempre defendi. Por exemplo, em termos de futebol, acho que aposta muito na relação entre o presidente, neste caso ele, e o treinador, que é aquilo que eu também sempre pensei, que não é preciso muita gente. O que é preciso é que os dois ou três, normalmente o diretor desportivo, o treinador e o presidente, tenham uma relação e uma cumplicidade em tudo, nas ideias, na ação. E, portanto, eu acho que ele fez um excelente trabalho e tem uma excelente equipa. E eu acho que o Sporting, que eu saiba, nunca atravessou outro tempo tão bom em que o futebol e as modalidades tudo esteja a funcionar.
Sim, podemos referir também o andebol. Deixe-me perguntar-lhe: Bruno de Carvalho foi importante para que este novo Sporting nascesse?
Se ele tivesse feito as coisas intencionalmente para isso, eu diria que sim, mas não foi. Teve uma altura que eu o apoiei, não gosto de esconder essas coisas. Há muita gente que parece que nem o conheceu. Mas isso eu não me importo, isso eu assumo. Agora, a partir de certa altura, ele perdeu o controle, sobretudo de si mesmo. E não vale a pena estar aqui a explicar as razões. Aquilo que eu penso que aconteceu, e que muita gente sabe, é que ele entrou num descontrolo completo. Porque eu acho que ele soube certas coisas e quando apareceu, fez algumas coisas que foram aplaudidas, como eu as aplaudi, e muita gente que as aplaudiu. Mas depois, após a última eleição, em que ele teve uma vitória esmagadora, acho que entrou num desvario completo. Não vale a pena recordar. Ela está tão longe.
A memória se vai tirando.
Aí não se recorda de datas, certamente.
Se calhar, se ainda estou muito perto, recordo. Mas só é bom pensar nisso para não voltar a cair numa situação dessas.
Muito bem, ficou como vacina, se quiser.
Exatamente.
Bom, vamos mudar completamente de tema, José Dias Ferreira. E a pergunta é: qual é o rio que atravessa o norte do concelho de Arganil?
Eu sei.
Claro, imaginamos que sim. Uma palavra curta.
Essas são as coisas que, às vezes, não vêm.
Fogem.
Palavra curta.
Sei tão bem.
Sinônimo de branco ou branca, se quisermos.
Está como a Branca.
Branca é aquilo que eu estou a ter.
Ou então...
Mas anda por aí. Quer três hipóteses?
Já agora.
Então vá. O Mondego, o Alvoco ou o Alva?
Alva.
É o Alva, sim, senhor. Conhece bem Arganil. Foi autarca em Arganil. A sua família tem raízes em Arganil.
A origem da minha família está em Arganil.
A origem. Avô.
Bisavô. Mais concretamente, Pombeiro da Beira, freguesia de Pombeiro da Beira, onde eu, aliás, fui batizado.
Do concelho de Arganil.
Do concelho de Arganil, onde aliás, fui batizado.
E conhece melhor o mundo do futebol do que o mundo da política, certamente. Mas algum menos recomendável que o outro?
Algumas vezes assemelha-se.
É.
E, sobretudo, misturam-se. Agora menos, mas já houve uma altura em que se misturou, em que aqueles que iam para o futebol para depois entrar na política, era uma via fácil de destaque.
E alguns que foram da política para o futebol.
Olha, eu, por exemplo, teria ido da política para o futebol.
Também foi.
Mas fui demasiado novo. E, portanto, ao contrário daquilo que pensava, e toda a gente pensava, no meu tempo de faculdade, que eu iria para a política, porque na realidade, enquanto estudante, era estudantil, fui inclusivamente presidente da Associação Académica da Faculdade de Direito de Lisboa, e portanto era um homem que eu na altura me considerava, não era de esquerda, considerava-me dentro daquele espírito, era contra a situação, como se costumava dizer, que era muito vasta.
Era um democrata.
Exatamente. E precisamente por isso fui presidente da Associação Académica. Havia sempre candidatos do PC, clandestino, óbvio. Depois, mais tarde, o MRPP. Fui um bocado designado por isso, porque houve duas candidaturas que foram de dois grandes amigos, um deles foi o Arnaldo Matos, que era do MRPP, de quem eu era muito amigo e que aliás tenho bastante saudades dele. E o Manuel Roque, que chegou a ser depois, mais tarde, depois do 25 de abril, presidente da Emissão Nacional. E qualquer dos dois ganhou as duas eleições que houve, mas não foram homologadas. Naquela altura era necessária a homologação.
Superior, não é? Pelo Ministério do Governo.
Ministério da Educação. Era o Armando Saraiva, nessa altura. Então, reuniram-se os dois comigo e disseram: "Isto é a terceira vez, se não são homologados, temos uma comissão administrativa", que era aquilo que os ministérios interviam depois nas associações de estudantes. "E, portanto, tu não és de uma coisa nem de outra. És democrata, és contra a atuação. Tens probabilidades de ganhar." E assim foi, e foi assim que fui presidente da Associação Académica. Prestei o serviço.
Mas são dois mundos que se misturam demasiado, política e futebol.
Eu acho que este se misturou menos, mas já se misturaram demasiado. Mas têm muitas coisas em comum, infelizmente. Eu depois não segui a política e ainda bem.
Não se arrepende disso, de não ter seguido essa via da política?
Hoje não. Já me arrependi, mas hoje não. Mas como tenho na família uma pessoa que seguiu por essa via, está preenchida essa parte.
A sua irmã.
Fica nos jantares de Natal.
Minha irmã Manuela Dias Ferreira Leite, que é realmente o meu ídolo da política, e uma pessoa que é mais que minha irmã, foi minha mãe, foi tudo.
Seríamos hoje um país diferente, estaríamos numa situação diferente se Manuela Ferreira Leite tivesse ganhado as eleições e sido eleita a primeira-ministra?
Não tenho dúvidas nenhumas a esse respeito, mas não é fácil. Eu digo isto, eu sou suspeito, mas não é fácil uma pessoa com as suas características. Eu nesse aspecto tenho o exemplo dela, que aliás é um exemplo de família, que é não transigir com certas coisas em nome do imediato, mas em nome de princípios. E às vezes quem defende princípios, valores, etc, tem pouco para ganhar eleições. Tem pouco a ver para ganhar eleições.
É um dos problemas da política. Vamos à última pergunta, Dias Ferreira. Esta é sobre COVID-19. Em que cidade chinesa é que começou a pandemia?
Há outra coisa que tenho debaixo da língua. Para mim, começou em Lisboa.
Peça ajuda.
Vamos a uma ajuda. Xangai, Pequim ou Wuhan.
É essa.
Wuhan. Chegou a estar internado logo nas primeiras semanas depois da chegada do vírus ao nosso país. É uma daquelas experiências que transforma a vida. Na altura, "O Observador" publicou aqui um extenso artigo do Bruno Roseiro sobre essa experiência.
Repare, eu por acaso fisicamente não sofri muito, não tive grandes febres nem grandes situações, mas estava muito no princípio e eu fui por acaso ao Hospital Santa Maria, por outra razão, tinha umas dores aqui no abdômen, etc. Pensei que era alguma coisa de estômago. E o médico que me assistiu acompanhou-me para tirar uma análise ao sangue, para fazer umas análises, e quando vínhamos a descer uma escada, ele disse: "Doutor, eu não estou a gostar da sua respiração". Eu: "Eu não sinto nada". "Além de fazermos as análises, vou-lhe já marcar aqui, eu vou dar uma aula, depois já nos vemos, vou marcar um TAC". E fizeram-me o TAC e já não me deixaram sair de Santa Maria porque eu apresentei os sintomas de COVID. Depois fui para o contentor, passei ali o dia todo.
Foi para um contentor.
Até à noite. Saí de madrugada, às 04h00. A minha mulher esteve cá fora à espera há duas horas, ao lado dos sem-abrigo, sem situação nenhuma. Depois lá me libertaram, mandaram para casa e não me disseram nada. E eu fui pra casa. E a partir de certa altura, claro, estava em casa sem sair, a ver televisão. Ia ver televisão, um indivíduo que tinha a idade, já estava na casa dos 70, e as pessoas a morrer, que eram as mais importantes e que eram as de maior risco. E eu via todas as pessoas a morrer, e eu em casa, sem tomar nada, sem ter nenhuma medicação. Sentia-me deitado numa cama, só para descansar, mais nada, e sentia que estava à espera da morte. Estava à espera que ela viesse ou que acontecesse. Até que a certa altura, o meu médico, que era da CUF ali de Infante Santo, eu falei-lhe e ele disse-me: "Ó Dias Ferreira, nós estamos aqui na Infante Santo agora a receber só doentes do COVID, venha para cá que eu trato de si". E eu lembro-me perfeitamente que dei um salto na cama, estava a falar com ele ao telemóvel, dei um salto na cama e disse pra minha mulher: "Estou salvo". Porque foi isso que eu senti. Tenho muita confiança nele, ainda hoje tenho muita confiança nele, e portanto senti que realmente tinha coisa.
Finalmente tinha ali alguém para cuidar de si.
Entrei no hospital com o melhor das alegrias. Com boa disposição.
Deve ter sido a primeira vez que entraste num hospital.
É a primeira vez que entro no hospital com boa disposição. E na realidade, estive lá oito dias, saí até no domingo de Páscoa desse ano. Mas foi curioso o que aconteceu. É engraçado que a primeira pessoa que soube que eu tinha COVID, primeiro que a família, foi uma sexta-feira que isto aconteceu, que era véspera de sábado, que eu escrevi o artigo pro Jornal A Bola. E eu liguei pro José Manuel Delgado, estava com a carga mesmo a acabar do telemóvel. E disse assim: "Não posso escrever o artigo pra amanhã porque estou no hospital com COVID". E foi muito engraçado, porque eles depois debruçaram-se. Isso foi uma coisa muito interessante, porque eles debruçaram-se sobre se deviam dar a notícia ou não.
Discutiram-se.
Foi uma coisa muito interessante. Depois até me perguntaram isso: "O que é que você achou?" Porque eles respeitaram e disseram que tinham a notícia em primeira mão, para o desporto, ia ser uma notícia importante, de impacto.
Sim, na altura em que era.
Na altura em que era, mas resolveram não fazer isso. Depois foi outro jornal, ainda sei à pouco dessas coisas, que concretamente o Correio da Manhã é que publicou. Quando soube, publicou logo. Não sei como é que soube, mas publicou logo.
José Dias Ferreira sai daqui desta comissão de inquérito com 16 pontos.
Hã?
16 pontos em 25.
No máximo.
25, claro. É ótimo.
É bom.
É nota positiva.
É positiva. Não foi hat-trick, mas foi bom.
Eu na faculdade de direito acabei por me formar com 11 valores e tenho pena de não me ter formado com 10, porque eu apostava sempre pra nota mínima, porque nunca tive pretensões a ser professor da faculdade ou ficar na faculdade. Só queria ser advogado, que era uma coisa que hoje não queria ser, que eu nem gosto de ser.
Mas estes 16 já dão acesso à Champions.
Hã?
Dão acesso à Champions estes.
Vamos ver lá.
Eu sou modesto. Nas notas, sou modesto.
Boa sorte para logo e muito obrigada por ter vindo à Comissão de Inquérito. Obrigada.
Foi um prazer.
Obrigada.