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Começa agora uma nova conferência de imprensa das manhãs 360. Paulo Ferreira, o que nos traz hoje?
Isto é dirigido à bolha, não é? À bolha de jornalistas.
Qual delas?
De políticos.
Redenta a bolha.
Ainda por cima de lisboetas. E vamos a reboque de uma reportagem que está no Observador. Vamos falar do Snob, o bar de jornalistas, que 60 anos depois reabriu portas depois de ter estado uns meses fechado para renovação.
Só uns meses? Pensei que tinha sido mais tempo.
Só uns meses.
Paulo, pensa nessa notícia como-
Espera aí, deixa-me virar este microfone que está aqui entre nós.
É verdade, está aqui a estragar a nossa visibilidade.
Não nos vira.
Cavaça a relação.
Pensa nessa notícia como uma notícia regional.
Obviamente.
Eu acho que é melhor do que estarmos a pensar-
É uma notícia para as minorias.
Não, é de uma região do país que é Lisboa. Que interessa mais às pessoas.
E de um grupo muito restrito.
Dentro dessa região.
Alguma objeção, Bruno?
Não.
Temos que estar aqui para dar um bife.
Eu só pensava, é isso.
Já não vão lá há uns aninhos.
Também não.
Quando eu fui, foi há mais de oito.
Há mais de oito? Bom.
Sim, há uns aninhos.
Mas é isso. E para quem não sabe, o Snob é um velho bar onde se junta este tipo de gente absolutamente irrecomendável os jornalistas. Quem lá foi já, foi a Carolina Cebral, que assina esta reportagem, e como manda a tradição, ela chegou ao número 178 da Rua do Século e tocou a campainha. É ali próximo do Príncipe Real. Tocou a campainha à espera que lhe abrissem a porta, é assim que funciona, tem porta fechada. Agora, quem abre a porta? Lá está o mesmo toldo azul verde escuro, as mesmas portadas das janelas, tudo na mesma. Agora, quem abre a porta já não é o Albino Oliveira, o senhor Albino, que durante décadas lá esteve, mas sim Miguel Garcia, que é o responsável do grupo São Bento, que há pouco tempo comprou o Snob, também daí esta renovação. Este grupo é proprietário também do histórico Café de São Bento, ali em frente ao Parlamento. Do mesmo género, de alguma maneira. Comem-se bons bifes e também até tarde.
E no Café do Passe também.
No Café do Passe também. Aí está um terceiro sítio que é comparável. É dono do Café de São Bento e de outros espaços do gênero em Lisboa. O Snob foi inaugurado em 1964 e agora reabre as portas de cara lavada. Aconteceu esta semana, na segunda-feira, e com nova gerência também, depois de 40 anos à frente do negócio, o senhor Albino entregou a chave deste histórico bar lisboeta ao novo responsável, com a promessa de que nada mudaria de essencial. E Miguel Garcia explica que este grupo novo, o novo proprietário do grupo de São Bento, terá essa responsabilidade de manter a essência e a alma do que é, e sempre foi, o Snob. Foi fundado em 16 de novembro de 64, era uma antiga latoaria, ali naquele sítio. Estamos a falar de uma zona antiga de Lisboa, a Rua do Século. Só em janeiro de 75, portanto, depois do 25 de abril, da Revolução dos Cravos, é que Albino Oliveira assumiu o negócio. Até lá, estava o seu irmão à frente do Snob. Servia bebidas a toda uma geração de jornalistas, de políticos, escritores, artistas e atores que se reuniam ali, por uma razão também muito simples, de alguma forma. A Rua do Século fica ali paredes meias com o Bairro Alto, aliás, de alguma forma delimita o Bairro Alto e nessa altura os jornais estavam muito instalados, as redações e as gráficas que imprimiam estavam muito instaladas no Bairro Alto e portanto aquilo era zona de frequente passagem de jornalistas. E até altas horas, de facto, juntava-se ali muita gente, com troca de informação, obviamente, muitas primeiras conversas sobre o futuro de Portugal, sempre muitas informações passadas neste lugar e o senhor Albino ouvia, mas nada contava, como era da praxe. E portanto, lá está e menta mantém-se, lá está o bife à Snob, os croquetes, a tão pedida mousse de manga, tudo isto pode ser pedido até às 2:00. É dos tais sítios onde se vai quando se acaba tarde. E mantém a mesma identidade há seis décadas. E no fundo é esta a notícia da bolha.
É uma alternativa aos McDrive.
É uma boa alternativa aos McDrive, sendo que o estacionamento ali é impossível.
É terrível. É mesmo. Se trabalhasses lá ao lado, era mais fácil. Como o Snob ganhou importância, era exatamente porque só se atravessava uma rua e já se estava no Snob. O meu assunto está quase ligado aos jornalistas, ou melhor, está muito ligado aos jornalistas, mas creio que interessa a todos, porque explica quem é o exilado sírio que gere sozinho o Observatório para os Direitos Humanos. Quem acompanhou as notícias da Síria, sobretudo desde o início da guerra civil, ou dava notícias sobre a Síria, citou muitas vezes, mea culpa também, este observatório que num país onde era muito difícil dos jornalistas entrarem, onde a própria ONU dizia que não tinha números fiáveis, o Observatório para os Direitos Humanos era aquele a que se recorria para dar números. O que o New York Times fez foi tentar perceber o que estava por trás deste nome pomposo, que organização era esta na realidade, e descobre que era um homem, um exilado sírio, que tem uma loja de roupa no Reino Unido. Foi isso mesmo que aconteceu, um discreto dono de uma boutique em Coventry.
Um pronto a vestir.
Um pronto a vestir. E é a partir dessa pequena cidade inglesa que este homem, que tem um pseudônimo, Rami Abdul Rahman, passa quase todas as horas do dia a monitorizar o que se passa na guerra na Síria. É um sunita, diz que vive dos rendimentos deste pequeno negócio de venda de roupa. Fugiu da Síria na viragem do século, antes disso tinha sido preso três vezes, e agora usa meios tecnológicos rudimentares e começou a fazer uma newsletter por e-mail, que rapidamente se tornou numa base de dados mais detalhada sobre o conflito, e isto muito sustentado na revolta da Primavera Árabe. O que alguns questionam é De facto, a veracidade e a sustentabilidade desta base de dados, que é muito detalhada e pode não ser verdadeira. As primeiras dúvidas começaram até por um grande especialista no Médio Oriente, um tal de James Miller, que começou a pôr em causa os números, 150 mil mortos, e ele diz: "Tudo nesta tabela tem um aspecto de treta completa, onde é que o Observatório obteve estes números? Estão todos errados". Mais tarde, este especialista disse que não conhecia ninguém na Síria que alguma vez lhe tivesse dito que colaborava para o Observatório ou que pertencesse a ele. E portanto, onde é que ele ia buscar estes números? Onde é que ele ia buscar estes números? Abdul Rahman nega tudo isto. Diz que tem centenas de ativistas voluntários espalhados pela Síria. Tinha pessoas no país que o ajudavam a organizar esta informação recebida. O New York Times falou com ele, diz que tem um trato afável e gentil. Nas redes sociais apresenta-se como jornalista, embora não tenha qualquer formação nessa área. Completou o ensino secundário e tem uma formação técnica na área do marketing. Há também quem especule que tipo de apoios é que tem. Pode ter o apoio do governo do Qatar. Já foi acusado de ser uma ferramenta da Irmandade Muçulmana, até de ter ligações à CIA. Já foi apontada também a hipótese de ter uma proximidade com um tio de Bashar al-Assad, que viveu exilado em França. Há, de facto, várias suspeitas em torno deste homem, que diz que cobre todos os custos, mas também já admitiu que recebe pequenos subsídios da União Europeia e que há também um país europeu, que não quis identificar, que o pode ajudar. Por outro lado, também já terá recebido dinheiro dos contribuintes britânicos com alguns apoios. Como é que esta história vai acabar? Ele já disse que veio para o Reino Unido no dia em que Hafez al-Assad, o pai, morreu e que voltará para a Síria assim que Bashar al-Assad desaparecer. Isso já aconteceu. Desaparecer, não desapareceu, mas já está afastado da Síria. Já está afastado. Abdul Rahman, que se saiba, continua em Coventry a tratar da boutique de roupa com a mulher e, como diz este artigo do Edgar Cayetano do Observador, e está a contar ao mundo o que diz que se passa na Síria.