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Este é Conquistar o Futuro, um podcast do Observador em parceria com a Universidade Lusíada, onde olhamos para a forma como estamos a preparar as lideranças do futuro mais próximo. Do direito à arquitetura, da economia às artes ou às engenharias, vamos saber como é que os professores de hoje preparam os profissionais de amanhã. Hoje falamos com Rui Silva, professor e diretor das Faculdades de Engenharias e Tecnologias da Universidade Lusíada, no polo de Famalicão. Rui Silva, bem-vindo a este Conquistar o Futuro. É um gosto tê-lo aqui. Estas áreas que lidera, engenharias precisamente e tecnologias, são críticas para a competitividade de empresas e da economia. Nós estamos a preparar bem os nossos jovens nestas áreas para as exigências de hoje?
Muito bom dia. Isto sendo pragmático, como os engenheiros. Sim, eu julgo que estamos a preparar bem os nossos estudantes. É claro que há uma margem ainda para evoluir, que decorre das evoluções também que temos presentes nos mercados e na indústria que nos circunda. Isto só para dar uma ideia do quão adaptados estamos a esta realidade e às exigências de hoje. Nós temos na base da criação destas nossas licenciaturas a engenharia, que tiveram, efetivamente, uma necessidade da indústria. Eu recordo que a licenciatura em Engenharia Mecânica, Engenharia e Gestão Industrial e Engenharia Eletrónica e Informática foram criadas por iniciativa de um núcleo que nós chamamos, na altura era o NIVA, que era Núcleo de Industriais do Vale do Ave, e que visava precisamente responder a necessidades que surgiram.
Que as empresas sentiam.
Que as empresas procuravam. Embora a Engenharia Mecânica tenha surgido um pouco depois, também fruto dessa pesquisa que nós fizemos.
Dessa necessidade do mercado.
Exato, dessa necessidade. E que hoje é um dos mais procurados também, a Engenharia Mecânica. Eu julgo que é realmente fundamental para o nosso tecido industrial, principalmente nesta região. Não digo que não seja para o país também. Mas foram criados efetivamente para dar uma resposta às necessidades da região.
Claro, nós estamos a falar de um dos conselhos mais industrializados do país, Famalicão, eventualmente um dos maiores exportadores. Há estatísticas que nos dizem isso, que Famalicão é o concelho mais exportador do país, com uma base industrial muito forte. E o Rui Silva já nos levantou aqui o véu sobre a interação que há, de facto, entre a Universidade Lusíada e o tecido empresarial. Até onde é que vai essa interação? Isto é, vocês estão em permanente conversa com as empresas, no fundo, para ver o que é que elas precisam e para ajudar a formar as pessoas que elas precisam?
Sim, eu destacava, se calhar, um dos mecanismos que nos facilita esse trabalho de diálogo com as empresas, que é, no fundo, uma unidade curricular, que é o projeto de fim de curso, que é na sua esmagadora maioria feita em contexto empresarial. E isto leva a que os nossos estudantes estejam, não só nessa unidade curricular, mas também noutras, em contacto direto com os problemas reais das nossas empresas. E esses problemas são colocados pelas próprias empresas. Esses desafios que nos aparecem são colocados. Isto permite-nos um diálogo muito próximo com as empresas, fazendo com que nos possamos também adequar às necessidades que existem a nível do mercado, o mercado de trabalho, as práticas que são exigidas a nível empresarial. Isto leva a uma dinâmica muito boa para nós e julgo que também para as empresas, porque nós somos constantemente procurados. Há aqui uma ligação muito forte com as empresas da região.
E estas áreas que estamos a falar, engenharias, sobretudo, muito vocacionadas para uma aplicação muito industrial e empresarial, e tecnologias, nós vamos sentindo isso no dia a dia, áreas em permanente evolução, basta olhar para a tecnologia para perceber a revolução que a inteligência artificial agora está a provocar. Como é que se consegue, quando se desenha um curso, um plano curricular, que os conteúdos vão acompanhando essa inovação, que é diária?
Essa preocupação, de todo pertinente, é uma preocupação que nos acompanha desde o início. Aliás, nós temos feito várias reformulações aos cursos de engenharia, precisamente para dar resposta a essas novas tecnologias, novas pedagogias que existem, e tem vindo a focar-se principalmente no desenvolvimento destas práticas de acompanhamento de projetos reais, que depois se reflete até nas práticas pedagógicas de acompanhamento de projeto, de realização de projetos em empresas. Esta permanente ligação às empresas permite-nos atualizar tanto currículos, a nível de disciplinas, por exemplo. Nós temos feito várias propostas de alteração e concretizado essas mesmas propostas. E depois até os conteúdos, porque não são estáticos. Nós nos últimos dois anos fizemos uma revisão completa de todos os programas que estão em funcionamento, refletindo também essas evoluções tecnológicas.
Claro. No fundo, para que aquilo que é ensinado esteja o mais colado possível àquilo que se passa no terreno, no mercado de trabalho.
Exatamente, as necessidades do mercado. E as orientações que nós temos tido, por parte de empresas como a Continental e grandes empresas aqui da região, é efetivamente no sentido de também darmos resposta a algumas necessidades que eles têm. E isso é fruto de um acompanhamento contínuo. Os nossos docentes estão no terreno, eles acompanham os projetos nas empresas, não é a partir de casa. Eles acompanham os projetos nas empresas, acompanham os estudantes e isto dá-nos uma mais-valia muito grande que é conhecermos a realidade das necessidades neste contexto empresarial, em que trabalhamos mais.
Como é que essa interação com as empresas se produz? Vocês têm órgãos próprios onde formalmente têm assento também empresas com a academia, são mais informais os contactos? Como é que isso se processa depois no dia a dia, Rui Silva?
Nós temos várias abordagens. Uma delas, como já frisei, no âmbito dos projetos de fim de curso e dissertações de mestrado, também. Em que mantemos esse contacto formal, pseudo-informal, com as empresas e diálogo constante. Mas também temos aqui um conselho social, a própria Faculdade de Engenharias e Tecnologias tem um conselho social que integra a Ordem dos Engenheiros Técnicos, a Ordem dos Engenheiros, a Câmara e vários representantes de grandes empresas da região. É neste âmbito que também se propicia uma troca de impressões relativamente à evolução dos nossos estudantes. E depois temos também industriais que vêm fazer palestras. Há aqui uma série de iniciativas que nos permite manter uma ligação muito forte com as empresas. Aliás, eu destacava aqui o papel também da Câmara Municipal de Vila Nova de Famalicão, no nosso caso aqui na região, que é também muito forte. Até com as escolas profissionais, nós temos tido uma interação muito grande, isto no sentido também de nos ajudarmos, porque isto é um contexto, nós não estamos cá sozinhos. E tentamos dar uma resposta participando em júris, em formações nas próprias escolas profissionais. Há aqui um leque de iniciativas que nos permite estar em constante ligação com as empresas. E isso é uma mais-valia tremenda para nós, em termos de atualização de currículos. Eu acho que esse é o ponto forte da nossa casa.
A ligação ao terreno permanente. Estas áreas, Rui Silva, que estamos a falar, engenharias, aqui no plural mesmo, porque elas são muitas, de facto.
Sim, são várias.
E as tecnologias são áreas muito vastas também. Quais são as formações mais específicas que têm mais procura? Isto é, que vocês sentem que têm mais alunos candidatos quando abre cada ano?
Como disse há pouco, nós temos aqui de base três licenciaturas: Engenharia e Gestão Industrial, Engenharia Eletrónica e Informática e Engenharia Mecânica. Atualmente, nos últimos anos, a procura tem vindo a ser maior até na Engenharia Mecânica. Isto também deve-se a um pormenor. A indústria metalomecânica aqui da região é muito forte. Aliás, é um dos setores mais fortes da região. E já agora, destacava um aspecto que se calhar não é de tão pouca importância. A Engenharia e Gestão Industrial, que é um dos cursos até mais badalados a nível nacional, com médias muito altas. Talvez uma curiosidade até: foi inicialmente criado em Famalicão. Esta designação, que hoje em dia se utiliza em todas as instituições, teve origem aqui em Famalicão. O engraçado, somos um pequeno núcleo. Mas foi em 89, se não me engano.
Mas que batizou esse tipo de formação que agora é utilizado em todo lado, não é?
Exato.
E Rui Silva, como é a empregabilidade dos formados nestas áreas?
Eu poderia dizer que temos mais procura em termos de licenciados em engenharia do que os estudantes disponíveis. Aliás, nós normalmente no início do ano, através dos nossos contactos com as empresas, fazemos um levantamento dos projetos que eventualmente poderiam ser realizados, e eventualmente estágios e necessidades de estudantes. E a procura tem sido maior do que aquela que nós podemos disponibilizar. E, na verdade, ao longo dos anos, a procura nos últimos anos tem se mantido, em termos de procura de estudantes. Mas não é suficiente para dar resposta às empresas.
Ou seja, ainda havia capacidade para formar mais pessoas porque o mercado absorvia isso, seguramente.
Exatamente. Há uma capacidade deste mercado de absorver muito grande. O problema que aparece, e está subjacente à pouca atratividade, muitas vezes, destas áreas, é o fato de estas empresas serem empresas de manufatura, na esmagadora maioria. E que eventualmente fazem um trabalho a mais a nível de manufatura, do processo, eles melhoram os processos, acompanham os processos industriais, não têm a tal capacidade Que eu acho que deveria ser uma aposta maior, que é na inovação. Eles inovam muito a nível de processos, mas em termos de produto.
Ou de materiais. Isto é, tinha que ser antes desse processo, não é?
Exatamente.
É a montante disso.
Exato. Mas tudo isto eu julgo que é também uma questão cultural. As nossas empresas sempre foram muito mais de produção, portanto não trabalharam tanto na inovação. E a aposta na inovação, como se faz noutros países, é diferenciada. Podemos pensar que o que traz uma mais-valia em termos económicos para as empresas é realmente criar produtos, inovar. Não só produzir para um determinado mercado, mas criar oportunidades. E essas oportunidades, acho que estamos a perder algumas.
Claro, isso vê-se nalguns setores tradicionais. Conhecemos todos exemplos de têxtil.
O têxtil foi um caso de estudo, porque as empresas que conseguiram inovar e criar produtos novos, e nós temos algumas empresas aqui na região, por exemplo, a TMG, que conseguiu criar produtos novos, produtos que eles próprios dominam, e estão a ter um impacto muito grande, enquanto outras que não acompanharam essa inovação. Nós temos alguns projetos lá também com os estudantes, e vê-se que eles estão empenhados em inovar não só o processo, mas também o produto. Que eu acho que é uma mais-valia.
E apropriam-se aí de um valor anterior na escala que é muito maior.
Exatamente.
Rui Silva, nós sabemos que não há conhecimentos estanques, mesmo quando estamos a lidar com áreas aparentemente muito técnicas como estas de engenharia e tecnologia. Com que outras áreas do saber é que se cruzam essencialmente a engenharia e a tecnologia? Somos logo levados para as matemáticas e por aí fora, mas acabou de falar do design, por exemplo, e da inovação, que está muito ligada muitas vezes ao design. Com que áreas é que os alunos se cruzam também?
São variadas as áreas. Nós temos aqui, por exemplo, na parte, como referiu há pouco, o design, nós temos a parte de mecânica, que interage muito bem com o design. A própria informática, que está em todos os setores. Neste momento, não é só característica dos cursos de informática em si. Por exemplo, a mecânica suporta-se em vastíssima quantidade de ferramentas informáticas. E neste momento, por exemplo, um estudante de engenharia mecânica tem necessariamente de dominar várias valências, inclusive a parte de gestão. Há ali a gestão de projeto, e a parte de economia também. Há um conjunto de áreas que se cruzam com as engenharias e que são um requisito. Hoje em dia, o nosso licenciado que vá para uma empresa, não vai necessariamente só aplicar conhecimento técnico, ele vai se fazer valer de conhecimentos a nível de gestão. Muitas vezes até a gestão de projeto, que eu acho que eles estão mais focados nessas áreas, neste momento, ao nível empresarial, do que até nas áreas mais técnicas. É claro que a mais-valia do conhecimento técnico possibilita que façam uma gestão adequada em algumas áreas.
Claro, essa é essencial. Rui Silva, quase que chegamos ao fim. Que conselho daria a um aluno seu do primeiro ano para que venha a ser um excelente profissional nesta área?
Seriam vários. No nosso caso, na nossa realidade, era aproveitar ao máximo as ligações que temos às empresas e o contacto com as empresas. E uma coisa que eu acho que é fundamental: não ter receio de entrar naqueles desafios mais prementes que existem na indústria, porque assim todos nós estamos a aprender. Eu acho que seria o não ter receio de conquistar o seu lugar. E seja na parte mais de desenvolvimento tecnológico, eventualmente progredindo nessa área, mas eventualmente a parte de gestão mais relacionada com a gestão de projetos ou até a gestão de recursos, que eu poderia incluir os humanos, que é uma faceta. Eu acho que é não ter receio de aprender.
Muito bem. Ambição, de alguma maneira, e ousadia.
Exatamente. As melhores palavras. Exato.
Muito bem, Rui Silva, diretor da Faculdade de Engenharias e Tecnologias da Universidade Lusíada, em Famalicão. Foi um gosto falar consigo neste episódio e mais um de "Conquistar o Futuro". Este é um podcast do Observador em parceria precisamente com a Universidade Lusíada. Vamos regressar brevemente com outra área do saber e com outro convidado. Até lá.
Muito obrigado.